Seres grotescos: corpo, drag e arte

Tiffany Plazza

Há anos atrás, em uma época em que eu era uma artista visual perdida no mundo, que não sabia qual caminho seguir com a minha arte, me deparei com um texto na internet chamado Why contemporary women artists are obsessed with the grotesque? (Por que mulheres artistas contemporâneas são obcecadas com o grotesco), de Tess Thackara. De cara, esse texto já chamou minha atenção e me fez entender porque sempre flertei com a arte grotesca, principalmente considerando toda minha vivência, minhas inseguranças e ideias. Depois que comecei a me montar e que conheci a arte drag alternativa e as drag monstras, me vi cada vez mais dedicada a me tornar uma artista grotesca. Hoje em dia, me vejo como uma drag monstra sempre disposta a atingir formas cada vez mais grandiosas de me tornar um ser grotesco e decidi revisitar esse texto que teve tanto significado na minha trajetória artística.

Tiffany Plazza Seres Grotescos
TIffany Plazza no Halloween da Festa Haus (2022). Foto: Acervo pessoal.

O termo “grotesco” surgiu para caracterizar aquilo que é fora do convencional e do que é familiar para o senso comum. Com o tempo, o termo passou a ser relacionado com o que é repulsivo e que, muitas vezes, pode apresentar algum tipo de ameaça. Não é à toa que o grotesco é tão associado às mulheres, despertando nosso interesse de querer ser uma manifestação do termo. Principalmente como uma mulher pertencente à comunidade LGBT, outro grupo normalmente associado ao que é “grotesco”, existe uma grande provocação e vulnerabilidade em reivindicar o que é usado contra nós, como insulto, em algo que nos fortaleça e nos torna seres mais poderosos do que aqueles que nos machucam.

Você já deve ter assistido a diversos filmes de terror em que o “monstro” era simplesmente uma mulher idosa, uma forma de representação do corpo da mulher fora do padrão como algo grotesco recorrente em filmes de terror. Você também deve ter assistido algum filme com uma figura de uma mulher sedutora, porém perigosa: uma forma de representação da mulher que desperta desejo, mas que ainda assim expressa algum tipo de ameaça para quem ela seduz.  O filme “Raw” (2016) conta a história de duas irmãs que vão morar na faculdade juntas, longe dos pais e descobrem que possuem instintos canibais. Mesmo que a diretora não tenha intenções metafóricas com o filme, não consigo deixar de ver como a imagem de uma mulher descobrindo o “grotesco” dentro de si, seja em relação à sua sexualidade ou apenas à sua identidade.

Seres Grotescos filme raw
“Raw” (2016) dir. Julia Ducournau. Fonte: Reprodução / Exeter Phoenix

Drag queens são seres grotescos por natureza, por sermos arte fora do padrão, ou talvez porque algumas de nós somos repulsivas, mesmo. Vestimos a identidade feminina de forma provocativa e até quando somos apenas belas, somos ameaças. Além disso, não limitamos nossos corpos quando se trata de mutação e expressão, mostrando a arte e a beleza na capacidade de transformação do corpo humano. A arte drag mostra que temos força e capacidade de transformar nosso corpo em fantasias que se tornam realidade, fugindo não só da normalidade, mas também, da naturalidade.

Sigourney Beave
Sigourney Beaver. Fonte: The Boulet Brothers Dragula (2021)
Sigourney Beave
Sigourney Beaver. Fonte:The Boulet Brothers Dragula (2021)

Assim como muitas artistas que são apresentadas no texto de Thackara, enxergo o grotesco como uma forma de expressão contra tudo que me foi imposto e negado, durante minha vida como uma mulher LGBT e como artista. Cada vez mais, sinto que minha confiança e meus superpoderes de drag são libertados quando assumo minha forma grotesca, seja com a feminilidade sedutora e mortal ou como um típico monstro grotesco e repulsivo, que foge, não apenas dos padrões de beleza e das normas, mas também do que é considerado humano.

Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta

Anubis Blackwood

Elke Maravilha uma vez disse: 

“Eu não me contento em ser bonita, isso muita gente é. Uma vez um homem me perguntou: ‘Por que tanto?’ e eu respondi: ‘Por que tão pouco?'”. 

Elke Maravilha

Eu não poderia concordar mais com essa afirmação de uma das minhas musas… por que somos tão podados e limitados pela forma que nos expressamos? Ou, pior que isso: por que passamos tanto tempo considerando essa maneira de pensar ao invés de nos deixar confortáveis com quem somos? Comigo não demorou muito até perceber que o usual, o quadrado, não me pertenceria e que para eu deitar minha cabeça no travesseiro, tranquila, precisaria ignorar tudo o que me foi dito sobre quem eu deveria ser até então.  

Anubis lugar de revolta
Anubis.
Foto: PHJUNIORG

Se descobrir uma artista drag aos 16 anos, foi libertador, mas também foi um teste para tudo que estaria por vir. Eu havia acabado de conhecer conceitos feministas, ativismo LGBTI+, nunca tinha feito parte de companhia de teatro e não tinha nenhuma certeza concreta sobre como me identificava. Eu era bissexual, pansexual? E sobre identidade de gênero? Eu era não-binária? Que tipo de artista eu era? Passava horas pensando nisso tudo, pois na época sentia que ser uma menina cisgênero que mal sabia sobre sua sexualidade não era o suficiente para ser como RuPaul, Dimmy Kieer e Vera Verão, ainda mais por se tratar de 2015, onde ao procurar ‘drag queen mulher’ no Google apareciam poucos resultados que de fato me levassem a compreender e me relacionar com o que estava vivendo internamente. 

Eu procurei tanto, e tudo que me aparecia eram termos como ‘faux queen’, e ao pesquisar mais via que a palavra ‘faux’ significava ‘falsa’ …mas o que eu sentia era tão verdadeiro! Eu podia não compreender muito quem eu era, mas o que tinha certeza é que eu não me encaixava nesses termos excludentes. Ao passar o tempo treinando a arte, via que as similaridades que buscava entre Dimmy e Vera eram muito maiores que as diferenças. Parei de procurar por imagens de ‘sucesso’ semelhantes a mim, e comecei a traçar meu futuro da forma que achava certo. 

Assim compreendi que, sim, ao decorrer do tempo teriam muitos questionamentos em volta da minha identidade enquanto mulher cisgênero, que essas questões viriam interna e externamente, mas por mais complexo que fosse para uma jovem se entender e se identificar no meio desse turbilhão de ideias, esse, era o caminho que me dava uma razão para viver. 

O tempo muda, e com ele os modos como nos entendemos, mas ainda sinto que a arte drag me salva… a diferença é que, hoje, eu racionalizo o motivo de me salvar. A sociedade misógina do jeito que é pode ser muito agressiva para uma mulher em formação, e para mim não foi diferente. O direito de ir e vir é colocado em cheque, até mesmo os mínimos detalhes do que se faz.  Tudo isso pode ainda piorar, dependendo da roupa que se usa e do que se fala. 

Ser relembrada, todos os dias que certas coisas não são tão possíveis, simplesmente por se ser mulher, deixa qualquer uma de nós desgostosa. Ora, então como poderia eu, com uma mente artística tão livre, me contentar com essas limitações? Mas também, como poderia eu, tão jovem, sozinha, ir contra um monstro tão grande desses? 

Anubis lugar de revolta
Anubis
Foto: PHJUNIORG

Agora entendo que Anubis Blackwood surgiu de um lugar de revolta,  ela foi meu próprio mecanismo para me tornar mais forte e inatingível. Ela veio me levar para um lugar fantástico onde é possível me sentir completa, absoluta e assumidamente eu. Onde não sou rotulada, onde crio minhas próprias regras, onde tenho minha deusa pessoal para me auxiliar quando a realidade sufocante faz com que sinta que não sou artista ou alguém o suficiente. 

Eu tentei por muitos anos não pensar na Anna Clara enquanto reinada por Anubis, mas em algum momento entendi que por mais que minha drag fosse minha armadura, meu porto seguro, existiam motivações e referências que vinham de mim, um indivíduo cheio de inseguranças e cicatrizes. Ao entender esse elo, essa junção de seres e quereres que sou, consegui aos poucos achar amor próprio, auto compreensão e entender que Anubis, Anna Clara e todas mais que virão são uma só. Por esse fator busco hoje inspiração nessas cicatrizes encontradas em mim num todo, e o que antes entendia como rótulo hoje entendo como identidade. 

Apesar das expectativas, minhas performances não são e nunca serão iguais às performances feitas por artistas drag de outros recortes sociais. Isso porque o nosso ‘eu’ não é igual e muitas vezes sequer é parecido: nossa vivência é diferente e assim nos molda enquanto artistas. O assédio, a violência contra a mulher, a invisibilidade de pessoas bissexuais e demais problemáticas que me atingem são questões que influenciarão diretamente cada escolha de música, de figurino, de mensagem. 

É óbvio que a motivação vai além do fato da arte drag ser para mim terapêutica, reabeliante e cicatrizante, afinal, estamos falando de uma das artes mais vivazes que poderíamos imaginar. Idealizar um projeto inteiramente seu e que será instalado em você mesme, no seu corpo, é revolucionário! O processo de criação, de autodescobrimento é, no mínimo, excitante, e traz uma sensação de graça, desenfadamento na vida que só acontece no ato de se montar. 

Anubis processo criação
Anubis
Foto: Bernardo Pfaff

E quando mostramos ao mundo o que secretamente preparamos por dias, meses, anos? Ah, nesse momento o feeling é exatamente o que Gloria Groove diz em ‘Gloriosa’: “no caminho até o bar, o mundo para pra ver a rainha passar”. Se todos param mesmo, aí eu não sei, já que frequentemente o brilho do alter ego é tão forte que chega a cegar, mas acreditar que por algumas horas nosso magnetismo é capaz de mudar a energia de um ambiente inteiro, causar alternâncias na respiração de quem nos olha, trazer um pouco de fantasia, utopia para quem nos assiste é divino, e depois de tantos anos fazendo isso diria que chega a se tornar sagrado. 

O fato é que todo mundo busca fazer algo que dê sentido a essa louca jornada, algo que nos dê a impressão que fizemos nossa parte no fim do dia, e ao decorrer do tempo compreendi que por mais que nem sempre me deem palco, cachê ou condições para exercer minha função, ainda assim encontro afago e autossatisfação ao causar esse impacto em quem está disponível para  senti-lo. 

Encontrei no meu caminho pedras, mas também encontrei alívio, reparação, mil e uma versões de mim, e posso dizer que vi beleza até nos piores momentos. Bem-aventurados são aqueles que não aceitam o que é atribuído a si de primeira, que procuram formas de se redescobrir a cada dia, que vasculham cada fração do ‘eu’ em busca de se compreender, e logo ser feliz ao se afirmar no mundo.  

Afinal, Elke tinha razão, pois nessa revolução estética que é cada montação, as ideias vão surgindo de simples questionamentos como: Por que não? Por que tão pouco? E eu, não conformada, aceito com alegria cada desafio que a mente e o mundo quiser me dar, e no meio de tanta alienação e incerteza: eu vou é me jogar!

Como citar este texto

BLACKWOOD, Anubis. Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/por-que-tao-pouco-arte-drag-como-lugar-de-revolta/ . Acesso em: 10. Abr. 2023.

Escrituras transformistas em montação

Luná Maldita

Em 2016 me montei pela primeira vez em coletivo na ocupação estudantil do Centro de Artes da UFPEL. Naquele momento ainda não sabia que essa vivência tomaria conta deste corpo desdobrando-se em distintas montações. É daí que me sinto convocado, arrastado, intensamente afetado e transformado pelo desconhecido que há nessas composições. Forçando os limites disso que percebo como eu, as montações vêm se esboçando em mim como espécie de escrituras transformistas, as quais operam enquanto expressão artística e, ao mesmo tempo, como produção de subjetividade.

Percebo as montações acontecendo em mim enquanto criança, gesto de brincar por meio da fuga de comportamentos impostos. É através das montações que se manifestam o abrilhantar duma noivinha enclausurada em seu vestido bufante; uma mulher-gato que na ilusão do imitar abre portas para o imprevisto ainda latente; uma figura estranha, s(c)em-caras fazendo perder os traços do rosto socialmente reconhecido. Há ainda um conjunto de intensidades implicadas no jogo dos ventos, corpos suspensos pairam entre as correntes de ar. Embora proibidas, castigadas, censuradas, vividas como algo privado a ser escondido, essas populações insistem em se afirmar.

É a partir da cena vivenciada em matilha na ocupação de 2016 que essas variações intensivas passam a ganhar corpo, expressando-se junto das transformistas montações. Por meio dessas experiências noto a potência de criar vínculos e conexões num espaço comum. As montações coletivas permitem criar relações, estabelecer alianças provisórias onde são compartilhados saberes e estratégias de sobrevida. É aí que juntas inventamos formas para transmutar e ressignificar as violências impostas em nossas trajetórias. Por isso, além da camada representativa de construir e encenar um personagem, as montações transformistas me atraem em sua potência de arrastar o sujeito e seu corpo próprio por caminhos imprevistos, forçando-os a se transformar.

 Em mim, Luná Maldita foi a primeira a ser nomeada. Ela surge da relação com a transitoriedade da Lua, permanente impermanência, a mesma, mas sempre outra a depender do ângulo do olhar. Maldita se faz como a força da mulher guerreira, amazona, imbatível na postura. Potência de vida frutificada das fragilidades decorrentes de tóxicas relações. Maldita é o sobrenome que recebi de Degenerik Maldita, drag queen que me iniciou no ritual coletivo da montação.

Luná Maldita Escrituras Transformistas
Profª Luná Maldita
Fonte: Arquivo Pessoal

A princípio era só Luna Maldita, a qual em meio aos desentendidos de pronúncia tornou-se Luná Maldita, movimento de diferença afirmado através da repetição. As intensidades que se esboçam nessa forma de expressão são o que há de forte em mim, casca grossa quando preciso. Maldita promove a ressignificação, ou melhor, reprogramação de violentas cenas. Ela que já esteve nos tribunais de inquisição, acusada de ser bruxa, bixa, oblíqua, descabida e descabelada, acaba por tirar a juíza para escanteio tornando-se dona do seu próprio jogo.

Luná Maldita abre as portas e janelas, daí fulguram outras estranhas expressões. Lalola Nebulosa aparece num entre que é ao mesmo tempo uma coisa e outra, força que movimenta as demais expressões. Seu nome surge da ambiguidade presente na articulação de Lalo-Lola, nome de novela mexicana que sugere circulação entre masculino e feminino. É na conexão com Nebulosa que essa própria circulação vacila, gagueja, abrindo-se na espreita do que passa despercebido aos binários dos gêneros. Lalola parece um pulo indeciso que ao tocar o chão já não está mais onde estava antes. Diferente de Luná que já tem forma expressa num território em formação, Lalola mais confunde do que se deixa ver no plano de organização.

Avizinhando Luná Maldita e Lalola Nebulosa está Leander Magrão. Magrão demarca a posição frágil da masculinidade heterossexual, implica reconhecer os fantasmas da heterossexualidade que habitam uma homossexualidade coerente e vice-versa. Embora ainda não nomeado, era Magrão quem tomava a frente quando interpelado a ocupar a posição de homem heterossexual. Tais cobranças levaram a composição de um corpo retraído, silencioso e medroso, por vezes, atravessado imprevisivelmente por malditas forças nebulosas, explosivas e descontroladas, em ação.

A partir da aparição de Luná Maldita é Magrão quem permaneceu nas sombras, oculto, descartado, passando a aparecer sem ser chamado. Magrão é nomeado em tal forma a partir dos encontros com o conceito de Devir King de Paul-Beatriz Preciado, e, com a personagem conceitual da drag queen melancólica de Judith Butler. Na relação com o devir-king, Magrão retorna junto a um movimento de reprogramação dos códigos de masculinidade através da experimentação.

Já na relação com a drag queen melancólica de Judith Butler, é a própria afirmação de uma posição identitária coerente que é posta em questão, já que ao excluir outra posição como possibilidade, tal posição perdida é assimilada como identificação melancólica passando a operar como fantasma. Por esse caminho, a identidade heterossexual coerente implica em si uma homossexualidade melancólica e a identidade homossexual coerente implica em si uma heterossexualidade melancólica. Magrão retorna a partir da nomeação de tais movimentos paradoxais.

De tais montações transformistas, a única que ganha forma concreta enquanto drag queen é a Professora Luná Maldita que além de ministrar esporadicamente aulas de Teoria Queer na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, as vezes sai pelas noites montada. Nesse caso, é inevitável que Luná se componha também como personagem, ganhando corpo através de traços ficcionais, contudo, o que mais me interessa aí são as transformações subjetivas que acontecem no corpo e nos territórios para além de uma suposta encenação.

Luná Maldita e Xandelly Mixx Bar Porto Alegre
Xandelly; Luná Maldita e ??? no Mixx Bar
Fonte: Arquivo Pessoal

Nesses processos, a encenação e a própria montação drag concreta, são secundárias em relação às transformações subjetivas que decorrem do transformismo. Os aspectos visíveis de Luná só são possíveis devido aos movimentos intensivos que produzem esse corpo como efeito. Por esse caminho, ao falar de escrituras transformistas damos a ver outras dimensões do próprio transformismo. Afinal, para além de serem personagens, as montações que povoam o presente ensaio são, em si, o que movimentam a escrita do texto e, também, produzem subjetividade, deslocando os limites disso que entendo por mim mesmo.

A liberdade da arte drag para a escrita criativa

Tiffany Plazza

Eu sempre gostei de escrever, principalmente quando preciso expressar meus sentimentos e quando guardo muitos pensamentos comigo. O melhor que posso fazer nesse tipo de situação é sentar e escrever para conseguir entender,  processar melhor o que eu sinto, mas não tenho facilidade para expressar ou compartilhar esses sentimentos. Era muito difícil para mim começar uma música e continuar trabalhando nela até o fim, sem interromper o processo inúmeras vezes. A falta de confiança no que eu escrevia me deixava paralisada, sem motivação para continuar a composição até o fim.

Sempre notei um medo gigantesco em mim quando se trata de criar músicas.  Constantemente sentia que as músicas de outros artistas que gosto eram muito melhores que as músicas que eu mesma compunha – algo que  parece natural entre músicos e artistas, pelos relatos que ouvi na faculdade. Uma hora o problema era a melodia, outra hora era a letra, e às vezes até sentia um vazio na música, como se ela não me dissesse nada. 

Sei que essa confiança que  busco só se conquista através da prática, então nunca quis deixar de lado o exercício de compor, mesmo que não ficasse satisfeita com o resultado.  Então, percebi que não adiantaria mudar melodias, nem letras, nem nada específico de uma música, mas precisaria mudar o processo, já que essa maneira de compor não estava funcionando.  Desde que comecei a me montar, nunca mais tive vontade de me apresentar no palco desmontada,  entendi que precisava inventar uma forma de compor para a Tiffany e não para a Fernanda. 

Tiffany  surge de personagens de filmes, séries,  livros e até de outras músicas. Deixei de compor sobre o que a Fernanda sente, sobre seu próprio dia-a-dia, e comecei a compor sobre o que a Tiffany sente em relação a essas múltiplas referências que a constroem. O caminho foi escrever como Tiffany, sem pensar se  Fernanda faria ou sente o que estava ali escrito.

Passei a não desconsiderar uma ideia porque não é o que  Fernanda, seus amigos e família fariam ou diriam. Resolvi não  censurar, nas minhas músicas, o universo ficcional que sempre existiu na minha cabeça e que também expresso como drag.

Tiffany Plazza arte drag para a escrita criativa
Tiffany Plazza
Fonte: Arquivo pessoal

Muitas vezes esse universo é assustador, estranho e perturbador, mas Tiffany me dá liberdade para agir e pensar de uma forma irrealista. Quando estou montada eu não me preocupo em ser estranha, nem com a desaprovação alheia. Recentemente assisti muitos filmes de terror e passei um bom tempo pensando sobre eles, então escolhi escrever sobre o filme que mais me marcou. Enquanto escrevia, várias vezes eu ficava receosa do conteúdo que  estava escrevendo, são as mesmas inseguranças que me consomem durante o processo criativo.  Decidi  imaginar uma performance para a música, da mesma forma que faço com músicas de outros artistas que eu gostaria de performar em lipsync. Pensei em como Tiffany performaria para o público, sem ter medo de apresentar o conteúdo da letra da forma mais sincera possível. 

Imaginar a performance de uma música inteiramente feita sobre a Tiffany me fez ver uma beleza em minha própria composição musical, algo que eu nunca tinha enxergado antes. Acho que finalmente consegui criar algo que não representava a Fernanda, mas que representava a Tiffany e era exatamente isso que eu queria!

O que eu acho mais fascinante no drag é como se torna uma espécie de escudo para fazer tudo que temos vontade, sem deixar de fazer por medo ou insegurança.

No momento em que  imaginava a Tiffany performando, a música ganhava mais forma, eu me sentia mais livre para me expressar e para formar a estrutura da música. O processo fluiu tanto que eu acabei não demorando uma hora para terminar de compor. Ela ficou curta, mas ficou do tamanho perfeito, achei que a história foi bem contada e  que eu disse tudo o que precisava dizer, sem nenhuma censura.

Letra da música “Creep” / Composição: Tiffany Plazza
Fonte: Arquivo pessoal

Incluir a Tiffany no meu processo de composição foi essencial para encontrar não só a confiança que eu precisava, mas, também,  motivação. Antes disso, eu acreditava que o meu drag me distraía do trabalho como musicista, que eu não sentia vontade de compor porque queria sempre fazer drag. Agora, acredito que o drag é o que mais me dá motivação para compor, até porque, quando se trata de arte, o que é da Tiffany me empolga mais do que o que é da Fernanda. Não é à toa que a música preferida, que eu compus até agora, foi para Tiffany.

Música Creep
Fonte: Canal Tiffany Plazza (YouTube)