Desde criança, meu sonho sempre foi estar em palcos. Chamava minha família e amigos para assistir performances que criava sozinha no meu quarto, me empolgava com peças de colégio e shows de talentos, em qualquer oportunidade que eu tinha, eu fazia alguma apresentação artística para me expressar e me divertir. O meu questionamento durante grande parte da minha vida foi: como eu quero me apresentar nessas performances? Que tipo de roupas eu quero vestir? Como quero me maquiar? Que tipo de acessórios quero usar?
Eu sempre fui muito feminina, sempre escolhia tudo da cor rosa, adorava brincar de bonecas e brincar com roupas e maquiagens, mas mesmo me identificando com outras meninas em vários aspectos, sempre soube que algo me fazia diferente da maioria delas. Com o tempo eu senti que a feminilidade foi sendo tirada de mim, não só por vontade própria, mas porque senti que precisava me distanciar do que as outras meninas eram, já que eu não era como elas. Isso não significa que eu não me identifique com nenhum tipo de masculinidade e que ser menos feminina me deixou em desconforto, mas também não me sinto satisfeita com apenas uma coisa ou outra.

Fonte: Arquivo Pessoal
“Garota, essa não é você, mas é o que te cabe, logo você vai se acostumar.”
Itziar Ziga, “Devir Cachorra”
Quando conheci a arte drag, senti que encontrei a arte que me representava por completo. Na época, eu não tinha muito conhecimento sobre o assunto, então acreditava que não era uma possibilidade para pessoas como eu, isso porque sempre senti que me identificava mais com a estética de drag queens do que de drag kings, e qual o sentido de uma mulher se montar de mulher? Hoje em dia, não só acho que faz muito sentido, mas percebo que é o sentido que eu estava procurando para subir no palco.
Comecei a fazer drag me inspirando em queens da moda e do glamour e senti que toda a feminilidade que eu sentia que não cabia para a Fernanda, cabia para Tiffany, então pude explorar todos os elementos que eu queria sem medo de exageros e tendo a liberdade de poder me transformar em algo que eu não sou, sem sentir que estou escondendo quem eu sou para fazer isso, pois quando me transformo, ainda represento meus gostos, minhas vontades e minha personalidade.
Foi quando conheci o programa The Boulet Brothers’ Dragula e comecei a inserir elementos de terror no meu drag que senti que encontrei a feminilidade que realmente me representa. Comecei a expressar minha feminilidade incorporando também aspectos que antes eu sentia que me distanciavam dela, como o meu lado mais masculino, e também minhas esquisitices e minha vontade de me montar como um monstro. Eu sinto uma potência muito grande quando nós, pessoas LGBTQIA+ incorporamos essa persona assustadora em frente a uma sociedade que nos coloca num lugar de tanto medo, ao mesmo tempo que nos enxerga como uma aberração. Enxergo como uma apropriação de algo que sempre usaram para me diminuir. Sim, eu sou assustadora, sou esquisita e é por isso que sou incrível!

Fonte: Arquivo Pessoal
No final do ensino médio, fiz um trabalho de curta-metragem e convenci meu grupo a fazermos um curta de terror. Obviamente me escolhi para interpretar o monstro do filme e lembro que foi a primeira vez que olhei para mim em um vídeo que foi apresentado para todos meus colegas e me senti bem comigo mesma e de estar sendo vista. Até hoje lembro da satisfação que foi ouvir os gritos de terror de meus colegas quando apareci na tela. Naquele momento eu me senti celebrada por ser quem eu sou como nunca antes e é essa celebração que eu sinto até hoje como uma mulher-monstra.

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