Novos aplicativos de transporte oferecem mais segurança às mulheres

As mulheres cada vez mais encontram refúgio em aplicativos dedicados somente a elas para se deslocar em segurança pela cidade

Por Carolina Golenia e Estela Baggio

Motoristas de táxi, Uber e Cabify ainda são, em sua maioria, homens. Não é difícil ver na mídia a veiculação de notícias, relatos e casos de passageiras mulheres que sofreram algum tipo de assédio por parte deles.

De acordo com levantamentos realizados pela ActionAid – organização internacional que trabalha por justiça social e igualdade de gênero -, 86% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio no trânsito, no trabalho e nas ruas. Segundo pesquisa realizada em 2016 pelo Datafolha, cerca de 16 milhões de brasileiras já relataram ter sofrido algum tipo de violência física ou verbal e 5,2 milhões de mulheres já foram assediadas fisicamente em transportes públicos. As abordagens podem vir em forma de assobios, olhares, cantadas e até mesmo xingamentos.

Os números são alarmantes, principalmente entre as mulheres jovens (70%), mais instruídas (52%) e mais ricas (52%). Segundo dados de 2013 da ONG Think Olga, 81% das mulheres já mudaram as suas rotinas devido ao assédio sofrido nas ruas, o que inclui vestir outras roupas e até mudar o trajeto que fazem pela cidade. Na tentativa de se sentirem mais seguras e protegidas, uma alternativa encontrada foi trocarem o transporte público e deslocamento a pé pelo transporte particular sempre que possível. A popularidade de aplicativos de corrida como Uber e Cabify só vem aumentando desde que surgiram, e entre as mulheres, o uso deles pode sim estar relacionado a essa tentativa de fugir do assédio.

Só as mulheres sabem como a sensação de segurança aumenta quando se encontra uma motorista também mulher para seus deslocamentos. Rafaela Morales tem 30 anos e é motorista da Cabify há cerca de um mês, pois procurava gerar uma renda a mais em casa. As mulheres estão sujeitas a passarem por situações desagradáveis nas corridas, e como motorista, ela também sente isso. “Assalto e assédio acho que são os nossos principais temores, e sabemos o risco de sofrer desrespeito por ser mulher e estar atrás do volante.”

Com isso, a ideia de criar aplicativos de corrida onde só passageiras e motoristas mulheres possam fazer uso começou a se disseminar pelas cidades brasileiras. Aqui em Porto Alegre, o Femini Driver e o Venuxx são exemplos deles. Além de contribuírem para deixar as passageiras mais à vontade durante as corridas, os aplicativos também aumentam a diversidade de gênero dentro do ramo, predominantemente masculino. O Femini Driver começou a entrar em funcionamento em agosto deste ano, e o Venuxx já está circulando pelas ruas de Porto Alegre desde setembro. Entretanto, por serem ambos muito recentes, diversas clientes em potencial ainda não conhecem os serviços prestados por eles.

Sinara Pereira já foi caminhoneira, taxista e hoje é motorista de aplicativos – Uber e 99Pop. Com 49 anos e apaixonada pela sua profissão, ela conta que já sofreu inúmeras situações constrangedoras ao longo dos anos. Diferentemente da maioria dos relatos, ela conta que foi muito mais respeitada pelos homens: “As situações constrangedoras que eu passei foram com as próprias mulheres. Não passei nenhuma situação constrangedora e nem de risco com homens. Pelo contrário, eu fui mais bem respeitada e tive a generosidade deles, tive o respeito deles na minha profissão.”

A motorista relata que se sentiu ultrajada quando uma passageira começou a assistir vídeos com conteúdo pornográfico ao seu lado, bem como alguns casos em que passageiras solicitaram corridas para serem deixadas em pontos de venda de drogas. Sinara disse que foi convidada por uma moça a participar do Femini Driver, depois de já participar de outros aplicativos, e confirma que as passageiras gostam mais de andar com motoristas mulheres: “Realmente, as mulheres preferem sim outras mulheres, passa em si uma segurança”.

Os dois aplicativos – Femini e Venuxx – trabalham com um valor cerca de 15% superior aos concorrentes, a fim de remunerar melhor as motoristas e atraí-las para começar a trabalhar com os apps. A demanda por um serviço que ofereça mais segurança ao público feminino é alta, porém o número de motoristas mulheres ainda é muito baixo. Muitas motoristas não se sentem seguras em circular pela cidade durante a noite e de madrugada, horários em que o serviço é mais solicitado.

A psicóloga Maria de Andrade é usuária dos aplicativos de transporte particular e conta já ter sofrido algumas situações constrangedoras ao solicitar uma corrida. “Houve do motorista querer puxar assunto quando eu estava saindo de uma festa e me dizer que sou bonita. Ainda bem que já estava chegando no meu destino, minha casa. Cortei o papo na hora e desci do carro. Mas fiquei com medo pois ele saberia, agora, onde eu morava.” Situação parecida foi a que a estudante de Jornalismo Isadora Duarte viveu no começo desse ano, em um Cabify:

— Tinha dado uns problemas e eu ia passar meu aniversário sozinha. Daí fiz uma ligação, dentro do carro, falando sobre isso. Quando cheguei em casa, tinha recebido três áudios do motorista no WhatsApp. Primeiro ele pedindo desculpas por ter tomado essa liberdade e dizendo que se identificou muito comigo. Mas eu não conversei com ele na corrida, foi no telefone que falei, não com ele. Ele queria me convidar para fazer alguma coisa naquela noite, para não perder o dia do meu aniversário. Ele disse que eu poderia não responder se não quisesse. Eu bloqueei ele e não respondi as mensagens. Me senti muito invadida, até porque ele tem meu número, sabe onde eu moro, sabe minha faculdade.

Maria conta que gostou dos serviços oferecidos pelo Venuxx, como a simpatia das motoristas e alguns diferenciais dos veículos: “No carro tinha uma bolsinha com produtos para se usar na viagem. Amei!”. Ela afirma se sentir muito mais segura ao usar os aplicativos exclusivamente femininos. “Com certeza, não só para mim quanto para a minha filha, que tem 17 anos, tem festinhas, cursos, etc. Acho que vale a pena. E por outro lado, estamos colaborando para que mais mulheres possam trabalhar honestamente e com segurança”.

Conforme Thiago Della Gomes, um dos criadores do Venuxx, a empresa já conta com aproximadamente 70 motoristas, além de uma tendência positiva para os próximos dois meses, quando preveem chegar à casa de 200 motoristas. O aplicativo foi criado justamente para proporcionar mais segurança às mulheres. “Gostaria de levar mais segurança, conforto e empoderamento para todas as mulheres. E por conta disso a Venuxx surgiu nesse segmento de serviço diferenciado/qualificado, e ver por exemplo minha noiva, mãe e amigas usando esse serviço é bom.” Além disso, foi pensado também um sistema de alerta em casos de perigo: “Contamos com um botão S.O.S, caso a passageira queira avisar sobre uma eventual adversidade no momento de sua corrida. Ela poderá cadastrar qualquer telefone nesse campo. E em breve terá essa funcionalidade também para a motorista.” Os próximos passos serão expandir o serviço para toda Porto Alegre e também nacionalmente.

Segundo um dos criadores do Femini Driver, Brunno Velasco, a ideia do serviço surgiu quando sua esposa sofreu assédio em um aplicativo de transporte. Os dois decidiram pesquisar e perceberam que a situação era recorrente entre as mulheres. “Acreditamos muito nesse tipo de app exclusivo para o público feminino. Algumas passageiras já relataram a tranquilidade de usar o app e confessaram que gostam de sentar no banco da frente para conversar, falar sobre o dia que passou no trabalho ou com a família. E em contrapartida, as motoristas adoram isso.”

Além de baixar os aplicativos, ambos gratuitos, as mulheres também se reúnem em grupos nas redes sociais para, dessa forma, poderem compartilhar informações, cupons de desconto e notícias sobre os apps. Muitas acabam conhecendo os serviços de transporte exclusivo através das redes, e até mesmo por meio de convite de amigas para participar dos grupos do Femini e do Venuxx.

O medo e a insegurança de andar na rua é o que leva as mulheres a optarem por novas alternativas de transporte. Mesmo com a ajuda desses aplicativos, a questão piora quando o abuso persiste, dessa vez, por parte dos motoristas dos carros. Encontrar uma motorista também mulher é quase um sinônimo de alívio e garantia de que chegará ao seu destino segura e sem sofrer assédio.

Estela Baggio

Estudante de Jornalismo de 23 anos. Sagitariana, quer conhecer esse mundão. Ama a primavera, é fã de Friends e ainda não superou a separação de Sandy e Junior. Atualmente viciada em testes do BuzzFeed.

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