Crise, desemprego e falta de segurança pública contribuem para a queda de 10,7% do uso de ônibus em Porto Alegre em 2017
Por Ananda Zambi e Lucas Mello
André Mags morava perto do trabalho e, por isso, se locomovia de bicicleta. Quando mudou de emprego, passou a utilizar o ônibus como meio de transporte principal, mas não durou muito: “Logo surgiram os aplicativos e daí, principalmente de noite, vi que era mais seguro e comecei a usar”, explica o jornalista. Desde a chegada a Porto Alegre em 2014, o transporte individual por aplicativos é um dos fatores da diminuição do uso dos transportes públicos na capital gaúcha.
Os números divulgados pela Empresa Pública de Transporte e Circulação em Porto Alegre (EPTC) no início de 2018, que correspondem ao ano de 2017, corroboram: o uso dos ônibus teve uma queda de 10,7% em 2017, o que equivale a cerca de 15 milhões de pessoas deixando de usufruir do serviço. Mônica Kanitz é uma delas – a jornalista não hesita na hora de chamar um aplicativo para ir ao trabalho no início do dia: “Quando eu saio de manhã, eu nem penso em pegar ônibus. Chamo direto o aplicativo. Eu levo em conta o tempo, o meu conforto e a praticidade. Eu não levo nem em conta a questão do dinheiro”.

Para o gerente de planejamento e transportes da EPTC Flávio Tumelero, essa migração se dá por causa de vários fatores, entre eles o aumento na velocidade operacional (tempo de viagem), a crise financeira, o desemprego, a falta de segurança pública e, por último, o surgimento dos aplicativos como Uber, Cabify e 99. “O aplicativo é extremamente sedutor, porque ele leva só tu (ou mais pessoas), em um ambiente mais seguro, e é extremamente pontual – tu chamas e ele vem te pegar no teu portão, e te deixa na frente do local que tu queres”, declarou Tumelero. O representante da EPTC também reiterou que o processo de perda de passageiros vem acontecendo desde os anos 1990. “Hoje, a gente transporta algo em torno de 15 milhões de pessoas por mês. Em 1994, a gente transportava quase 30 milhões”, afirma.

Outro usuário constante de transportes por aplicativo é o jornalista Valter Júnior. Ele acredita que, apesar do serviço ainda apresentar valores mais altos que os do transporte público, o custo-benefício ainda é melhor. “Às vezes, uma corrida dá mais de R$ 8 de ônibus e dá R$ 10 de aplicativo, que tem muito mais comodidade. Aí, tu levas em conta o serviço, o preço e a segurança. No combo desses três, os aplicativos estão bem na frente”, garante Júnior.
A Uber, por exemplo, divulgou dados sobre sua operação no Brasil. Após três anos e meio, a empresa chegou ao marco de um bilhão de viagens realizadas no país. Em dados disponibilizados pela EPTC, entre janeiro e dezembro de 2017, cerca de 22,2 milhões de pessoas usaram os ônibus em Porto Alegre. Fazendo um comparativo com a Uber, partindo da premissa que cada viagem do aplicativo é feita por uma pessoa, podemos calcular que, em três anos e meio, a empresa transportou cerca de 1 bilhão de passageiros.

A tarifa de ônibus é calculada, segundo Tumelero, de forma técnica: “A gente tem que orçar quanto custa um pneu, por exemplo; uma recapagem; quantas recapagens dá para se fazer em um pneu e ele continuar tendo segurança; tudo entra no cálculo da passagem. A quantidade de funcionários administrativos que tem cada empresa de ônibus, de cobradores, de motoristas, de diesel, de quilômetros rodados. Daí divide-se esse custo pelo número de passageiros.” A Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP) acredita que o transporte coletivo é “uma opção melhor para uma mobilidade mais eficiente e para uma cidade mais limpa”. Porém, ela também faz críticas ao modelo atual: “Também é importante destacar que, para manter a competitividade, o ônibus precisa ser, principalmente, barato e rápido. Duas condições que não se tem atualmente.”
Criado pela 99, o Índice de Tempo de Viagens (IVT) foi uma pesquisa que teve como objetivo comparar o tempo gasto em uma viagem em horário de pico com uma viagem fora do pico em 15 cidades brasileiras. Então, foi constatado que Porto Alegre é a segunda capital do Brasil com maior tempo gasto em horário de pico, representando 77% de aumento, ficando na frente de grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e perdendo para Recife. Para o professor de Transportes da UFRGS João Albano, muitas questões não solucionadas desencadeiam essas dificuldades: “Apesar das modernas técnicas de gestão, da evolução do aprendizado e da confiança nas soluções técnicas, ainda encontramos muitos problemas antigos de mobilidade: congestionamento, poluição, acidentes, investimentos limitados, falta de planejamento e ênfase no curto prazo. Assim, particularmente na hora do rush, os problemas continuam e, muitas vezes, são mais difíceis de manusear.”

A ATP considera que o automóvel não é a solução para a melhoria da mobilidade urbana. “Um ônibus articulado tem a capacidade de retirar cem carros das ruas, considerando a quantidade de pessoas que pode transportar”, argumenta a associação. Além disso, a ATP defende que o sistema de aplicativos não tem a abrangência e a função social do modal: “Ele está sete dias por semana, quase 24 horas por dia, circulando por todos os pontos da cidade, sem escolher localidade, público ou período de trabalho.”
Com a queda de passageiros nos ônibus, a EPTC vem procurando soluções para que o transporte volte a ser mais atraente. “A gente tem de 65 a 67 quilômetros de corredores em Porto Alegre, e o nosso foco no momento é buscar aumentar esse número. Estamos buscando o planejamento de corredores preferenciais, que são corredores que a gente consegue uma escala de implantação maior, pois são mais baratos, e tu consegues uma melhora no aumento da velocidade, melhora no tempo e redução de gargalos. Esse é o nosso trabalho ao longo desse ano, um dos principais”, explica Tumelero. Outro ponto bastante debatido é a segurança: “No ano passado já fizemos um esforço muito grande e neste momento a gente continua se esforçando para a implantação das tecnologias nos ônibus. O GPS e a câmera interna a gente já tem em 35% dos ônibus. A gente já tem quase 30% do sistema de reconhecimento facial e pretende chegar até o final do ano a 100%. As câmeras da mesma forma: pretendemos chegar à totalidade”.
A reportagem tentou entrar em contato com as empresas Uber, Cabify e 99, mas não obteve resposta até o momento da publicação.



Show, bem explicado.
Legal, parabéns aos responsáveis.
Maravilha, mandou ver nas explicações.