EDITORIAL | O transporte público à beira do caos

Greve cogitada por cobradores de ônibus expõe mais uma vez a mobilidade urbana como problema negligenciado pelo poder público; pacote de medidas da prefeitura pode piorar situação.

O transporte público de Porto Alegre respira por aparelhos. Cobradores de ônibus cogitaram entrar em greve nesta quarta-feira, dia 29, porque o pacote de medidas do governo municipal, enviado para a Câmara de Vereadores em 2017 pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB), voltou a tramitar – em mobilização da categoria que acabou não se confirmando, mas pode ser encarada como um chamado ao diálogo. Os aspectos mais polêmicos da medida são o fim da meia-passagem para estudantes que recebem acima de três salários mínimos e o fim da função de cobrador.

O portal Humanista se posiciona, neste contexto, contra as ações. Isso porque o fim do subsídio pode resultar em evasão escolar e mais demissões devem ser o resultado do fim da função de cobrador (isso em meio ao cenário de crise que já tem mais de 13 milhões de desempregados no Brasil), além da provável piora na qualidade do serviço, com o acúmulo da função recaindo sobre os motoristas.

Somada a esses fatores está a já histórica precariedade do serviço, evidente para qualquer usuário. A frota é sucateada. A maioria dos ônibus que está circulando não possui ar-condicionado, o que torna a viagem de passageiros – trabalhadores, estudantes, idosos, gestantes – quase insuportável no verão de 40 graus de “Forno Alegre”. Serviço que custa nada mais nada menos do que R$ 4,70, uma das tarifas mais caras do Brasil conforme levantamento do portal G1, levando em conta o tamanho da cidade.

Em uma condição tão ruim de operação, é esperado que os passageiros optem por novas formas de mobilidade. O problema é que a prefeitura e as empresas colocam a culpa do aumento da passagem nos próprios usuários (os mais afetados por tanto descaso) como se fossem responsáveis por esse trabalho parco prestado à comunidade, alegando que o número de usuários caiu. A passagem, por sua vez, só faz aumentar, e os que trabalham e recebem VT (Vale Transporte), ou não podem bancar outros meios de mobilidade, precisam aguentar a rotina de coletivos lotados, quentes, e de linhas que não cumprem o horário das tabelas.  Para os que podem pagar, os patinetes elétricos da Grow e as bicicletas do Bike Poa têm se mostrado uma verdadeira “mão na roda”. O Humanista defende as iniciativas que visam a melhorar as condições de mobilidade na cidade, mas alerta para o atraso do poder público na sua regulamentação e fiscalização. E, mais do que isso: são ainda alternativas de micromobilidade urbana que também não alcançam as populações historicamente mais vulneráveis.      

Como relata Samara Onofre (que compôs a redação do Humanista no segundo semestre de 2018) em reportagem publicada em abril, apenas 10% da rede de ciclovias prevista no Plano Diretor Cicloviário Integrado de Porto Alegre saíram do papel 10 anos depois da aprovação. Isso não contribui para a segurança dos usuários, que precisam andar, seja de bicicleta ou de patinete, em meio aos carros ou nas calçadas. Em entrevista à Gaucha ZH, o responsável-técnico do Pronto Socorro Cruz Azul, Carlos Maltez estima que o local tem recebido de seis a 10 casos de pessoas feridas por acidentes com as patinetes por semana. Quais medidas tomar? Fiscalização? Ações educativas? Construção de faixas? É imperativo que o poder público se ocupe de soluções imediatas, a fim de evitar acidentes mais graves.

O Humanista também ressalta que as alternativas individuais não devem substituir a prestação de um serviço de transporte público de qualidade, imprescindível para o desafogamento do tráfego e mobilidade de pessoas das áreas distantes da região central, onde a iniciativa privada não chega. Tanto as estações do Bike Poa, quanto  as estações dos patinetes da Grow, por exemplo, se concentram (por enquanto) apenas nessas regiões centrais e mais privilegiadas da cidade, como Bom Fim e Moinhos de Vento; e tem custos de aluguel nada convidativos para quem depende de VT para se deslocar de casa do trabalho; do trabalho para casa.

Quando o serviço público não é de qualidade para todos, os mais privilegiados encontram novas formas, através dos serviços privados, de melhorarem as suas rotinas. O poder público, por sua vez, sucateia o serviço público, e os mais pobres, que não têm condições financeiras de arcar com os custos, conformam-se, resignadamente, com as condições que os ônibus da frota oferecem, mesmo que paguem seus impostos igualmente em relação aos cidadãos capazes de driblar as linhas oferecidas pelas empresas que operam os coletivos para chegar ao Campus do Vale da UFRGS ou ao bairro Agronomia (apenas um exemplo recente dos efeitos da falta de atenção para o serviço).      


FOTO: Eduardo Beleske/PMPA

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