Abuso infantil: o pedófilo dorme ao lado

Anuário da Segurança mostra que 76% das crianças vítimas de abuso sexual conhecem seu agressor; na maior parte dos casos é uma pessoa da própria família.

Juliana Maciel

Esqueça a ideia de um pedófilo estranho, que fica à espreita em um beco escuro. Conforme dados do 13º Anuário de Segurança Pública, divulgado em setembro, 76% das crianças vítimas de estupro possuem vínculo com seu agressor. A pesquisa ainda revelou um dramático recorde de registros de estupro: em 2018, foram 66.041 casos notificados pelas delegacias de polícia; 53,8%, contra crianças de até 13 anos. Isso significa que, a cada hora, quatro crianças são estupradas no Brasil. Na maioria dos casos, dentro da própria casa.

Apesar dos números estarrecedores, os crimes de violência sexual estão entre os menos notificados à polícia pelas vítimas. “No Brasil, a gente sabe que menos de 8% das vítimas de violência sexual chegam a registrar a ocorrência. E o que leva a isso é uma série de questões: desde medo de retaliações dos agressores, medo de julgamento pelas pessoas, vergonha, e também descrédito nas instituições de justiça e de segurança pública”, explica Carolina Pereira, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Dados divulgados pelo 13º Anuário de Segurança Pública

O termo violência sexual infanto-juvenil, inclui os crimes de abuso sexual intrafamiliar (quando o abuso ocorre dentro da família, sendo comum que ele se repita de geração em geração), extrafamiliar (quando ocorre fora do âmbito familiar, mas geralmente também provocado por alguém em quem a criança confia, como um vizinho, um amigo da família, ou um professor) e de exploração sexual comercial.

Todas essas violências são marcadas por uma relação de poder de um superior a um mais frágil. Pode-se fazer uso da força física e/ou de artifícios psicológicos – como aliciamento, intimidação e sedução. No caso do abuso, ele costuma ocorrer na maioria das vezes dentro de um ambiente de fácil acesso à criança, onde já há um determinado nível de intimidade entre ela e o agressor. Além disso, a agressão costuma se repetir: 42% das crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual são vítimas recorrentes, conforme dados do Ministério da Saúde divulgados pela Folha de São Paulo.

A psicóloga Marisa Freire, que trabalhou por 10 anos com essa temática em um extinto projeto de extensão da UFRGS, lembra que “abuso não é só estupro ou penetração”. Existem, pelo menos, outras seis formas de abuso que não envolvem contato físico. Dentre elas está o exibicionismo (ato de mostrar os órgãos genitais ou se masturbar em frente ou dentro do campo de visão de crianças e adolescentes) e o abuso sexual verbal (quando se faz uso de uma linguagem sexualizada ou se fala abertamente sobre atividades sexuais em frente à criança para despertar seu interesse ou provocar espanto).

Independentemente do tipo de abuso, essa situação prejudica todo o desenvolvimento cerebral da criança. “A criança não tem maturidade para vivenciar tal situação” afirma Marisa. “Eu atendi a um bebê que, com 1 ano e meio, foi flagrado sendo vítima de abuso sexual. Imagina quanto tempo se levaria para descobrir. A criança não fala e aquilo ali já é inserido dentro do contexto da vida dela.” Outra paciente sua, mesmo depois de identificada a situação de abuso, tentou escapar do abrigo ao qual foi direcionada para voltar a morar com o pai, o abusador. Segundo a psicóloga, ela já havia internalizado o papel que exercia de mulher do próprio pai. O perigo nessas situações é culpabilizar a filha, chamá-la de louca. “A menina é filha, ela não tem outro parâmetro. Que referência ela tem de um outro modelo de pai? Nenhuma. Sendo pai e mãe, você sabe que artifício usar”, destaca Marisa.

Desconstruir a ideia de que a vítima possa ser de alguma forma responsável pelo que lhe ocorreu é, então, um dos desafios no enfrentamento à violência sexual infantil. Outros obstáculos incluem a insuficiência de provas (poucos casos deixam vestígios físicos), a ausência de testemunhas (é algo que acontece dentro dentro de quatro paredes) e a proximidade do abusador (o qual, em muitos casos, é o provedor da família).

Em alguns casos, a própria mãe pode ser a abusadora, ainda que isso não seja o mais comum, já que
em 96,3% das vezes o agressor é alguém do sexo masculino. A psicóloga  clínica Juliana Menezes atendeu uma menina que passou por isso: “A mãe ficava tocando no seio da filha e dizendo ‘ó tá grandinho, já’, mostrava as genitálias para a avó e dizia ‘já tem pelinho’ e depois elas começaram a dormir na cama juntas”. Juliana explica que, quando a mãe falava na frente de todos os familiares, a criança ia naturalizando esse tipo de comportamento. 

Um dos canais mais eficientes para ajudar na prevenção da violência sexual é a escola. “Quem comete o abuso não vai dizer para a criança que isso é errado, um crime e que não pode. Pelo contrário: vai chantagear, vai falar que é certo e, se a criança não tiver outro modelo, um outro espaço que diga o quanto isso é errado, ela não vai ter como saber”, explica a psicóloga Bruna Pérez, que faz um curso de especialização em saúde da criança e do adolescente. Em seu trabalho de conclusão, ela aponta a importância de criar momentos para falar sobre educação sexual: “durante esses momentos, que têm que ser compatíveis com cada faixa etária, o que se diz, como se diz, as crianças podem tirar suas dúvidas. Nessas dúvidas, podem surgir alguns relatos, alguma denúncia, e isso é protetivo para a criança”. 


Poesia de Rupi Kaur

A escola como fonte de informação

Foi por meio de uma palestra na escola que Graziele Machado, hoje com 27 anos, começou a perceber que o que acontecia entre ela e o padrasto desde seus 7 anos não era certo. “Eu lembro que eu tinha uma palestra na escola justamente sobre isso. E o palestrante falava sobre os abusos dentro de casa. Então, ele relatou vários casos com os quais ele trabalhou e daí, logo depois da palestra, eu fui até ele e fiz umas perguntas na terceira pessoa. Coloquei no nome de uma amiga ‘ah, se o pai da minha amiga não deixa ela sair e não deixa ela fazer nada, não deixa ela conhecer ninguém, ela não pode ir pra lado nenhum, fica só encerrada dentro de casa. Ele não deixa ela conversar com nenhum menino, ele então tem outros interesses em cima dessa filha dele?’”

Então, aos poucos, Graziele foi se dando conta de que aquilo que vivia não era culpa sua. Ainda assim, faltava a ela a coragem para se abrir a alguém e pedir ajuda. O padrasto a ameaçava; dizia que ninguém acreditaria nela; que a mãe teria desgosto dela se soubesse; que mataria seus avós caso ela rompesse com o segredo.“Então, ele me ameaçava onde ele sabia que era o meu ponto fraco […] Minha avó, meu avô, pessoas que me cuidavam muito, que gostavam muito de mim, que me mimavam. Eram pessoas que eu me apegava mais, eram o meu refúgio.” Além de Graziele, sua irmã — um ano mais velha — também era abusada pelo padrasto. Ela lembra que a avó desconfiava de que algo estava acontecendo, mas, por medo, as duas não conseguiam falar nada.

Com 16 anos, Graziele engravidou do padrasto. Ainda com medo das ameaças, inventou que a gravidez era fruto de um caso de apenas 1 dia com um menino que não conhecia e nem sabia o paradeiro. A criança nasceu saudável e as situações de abuso entre a adolescente e o padrasto continuaram por mais 3 anos, até que ela conheceu seu atual marido. Aos 19 anos, ela teve a valentia de pedir ajuda pela primeira vez. “Eu tinha 19 anos e, do nada, eu liguei um dia pra ele e disse assim: ‘a gente precisa conversar’. Eu vim até a casa dele, a gente conversou e eu contei tudo. Ele foi a primeira pessoa, assim… parece que foi uma luz. […] e daí eu só disse pra ele assim, ‘se tu não quiser continuar o namoro comigo, não tem problema, só me ajuda.’ Eu só disse pra ele ‘por favor, me ajuda’”. (voz embargada, de choro)

Com o apoio do marido, Graziele deu entrada no processo de abuso. Seus avós também a apoiaram. Ela voltou a estudar e começou a trabalhar. “Sair da cabeça, excluir, deletar isso jamais vai acontecer, não vai sair da cabeça. Mas a pessoa tem que erguer a cabeça e seguir em frente.”



Como identificar uma situação de abuso

Na maioria dos casos, a vítima não apresenta marcas físicas que comprovem o que está acontecendo. Maus tratos podem ser um sinal, mas não o principal deles. A psicóloga Márcia Nunes Pinto, que trabalha com a perícia psicológica em casos de abuso, explica que o indicador mais importante a se estar atento é a mudança de comportamento. 

“Nós observamos, muitas vezes, mudança de humor: a criança se torna mais chorona, fica mais triste. Se ela era extrovertida, se torna mais introvertida. A que era tranquila, passa a ser agressiva na escola, bate nos colegas… A mudança de comportamento é sempre o primeiro indício de que algo está acontecendo com a criança.”

Confira outros sinais que podem caracterizar uma situação de abuso:

    1. Hipererotização: o corpo se torna uma via de comunicação. Ela toca no corpo, usa-o como mecanismo de sedução.
    2. Isolamento: a criança perde auto-estima e se torna insegura. Não quer mais brincar com os amigos nem sair de casa.
    3. Regressão no desenvolvimento: tanto cognitiva, quanto fisiológica. A criança volta a usar chupeta e a precisar de fralda, por exemplo;
    4. Existência de segredos: eles costumam ser indícios de chantagens que podem estar sendo feitas pelo abusador;
    5. Oscilações de humor;
    6. Perda de interesse nos estudos;
    7. Distúrbios alimentares;
    8. Conhecimento sexual impróprio para a idade;


O que fazer se notar sinais

  • Converse com a vítima: busque um ambiente apropriado. Se necessário, converse primeiro sobre assuntos diversos. Na hora da escuta, ouça e acolha seu relato de coração aberto, sem interrupções. Respeite o ritmo da criança e faça o mínimo de perguntas para não invalidar seu testemunho. A linguagem deve ser simples e clara. Recomenda-se usar as mesmas palavras que ela.
  • Jamais desconsidere os sentimentos da criança/adolescente com frases como “isso não foi nada”, “não precisa chorar”. Essas frases revivem sentimentos de dor, raiva, culpa e medo. Também não a trate como “coitadinha”, ela quer ser tratada com carinho, dignidade e respeito.
  • Reitere que ela não tem culpa pelo que ocorreu. Lembre-se de que é preciso coragem e determinação para uma criança/adolescente contar a um adulto que está sofrendo ou sofreu alguma violência. Diga a ela que, ao contar, agiu corretamente.
  • Explique à criança o que irá acontecer em seguida, como você irá proceder, ressaltando sempre que ela estará protegida. 
  • Avalie entrar em contato com um membro da família. Em caso de abuso intrafamiliar, procure um membro não agressor, de preferência com o consentimento ou indicações da criança.
  • Denuncie.
  • Leve-a a uma avaliação e tratamento especializados.
  • Interrompa o contato entre ela e o possível abusador.

Fonte: Guia de Referência, Childhood Brasil. 


Saiba onde denunciar

Disque 100.
É possível ligar de qualquer lugar do Brasil e funciona 24h. O sistema registra casos de violação de direitos humanos. 

Aplicativo Proteja Brasil.
Outra maneira é baixar gratuitamente o aplicativo Proteja Brasil no celular (disponível para iOS e Android). Para registrar a denúncia, basta responder o formulário. A denúncia será recebida pela mesma central de atendimento do Disque 100.

Ouvidoria Online
Outra forma de encaminhar sua denúncia ao Disque 100, é preenchendo o formulário disponível aqui.


FOTO DE CAPA: Reprodução

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