Todo ano vemos o mesmo filme, ou quase. Estiagem, seca e calor cada vez mais intensos de um lado. Perda de lavouras, prejuízos e famílias desassistidas do outro. Essa é uma cena recorrente para os agricultores do Sul do país, e infelizmente, a cada novo episódio, a potência do desastre tende a ser maior.
O Rio Grande do Sul vive hoje a pior seca dos últimos 17 anos. O Estado manteve entre dezembro e janeiro, 100% de seu território com seca, conforme a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Mas isso é só a ponta do iceberg.
Segundo a Defesa Civil, mais de 80% dos municípios gaúchos estão com situação de emergência decretada por conta da forte estiagem que atinge o Estado. Um levantamento feito pela Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro/RS) estima que os prejuízos contabilizados pelos produtores gaúchos decorrentes do fenômeno já somam R$ 36,14 bilhões.
O agricultor familiar Júlio Cesar Marques da Silva, que vive em Três Vendas, interior de Cachoeira do Sul, no Estado gaúcho, conta que o prejuízo foi quase total. “Afetou 100% do nosso trabalho. Nas hortaliças tivemos perda total. Temos alguma coisa de batata doce e mandioca que conseguimos plantar, mas com pouco desenvolvimento até agora. Cenoura e beterraba também. As foliosas, prejuízo total. Nem usando irrigação foi suficiente, pois o problema maior é o forte calor”.
Ele explica que não houve ação dos governos estadual e federal para conter ou minimizar os estragos. “Sobre esse auxílio, o que existe de real é só conversa. Votaram lá em Brasília, mas ainda não tivemos nada, só promessa.”
No campo, quem sofre são os pequenos agricultores, que dispõem de menos recursos para se manterem e recuperarem a plantação, mas no contexto geral, todos nós sofremos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que os pequenos produtores contribuem com cerca de 80% dos estabelecimentos agropecuários no país, produzindo parte significativa dos alimentos consumidos pelos brasileiros. Para isso, ocupam somente 23% da extensão de terras destinadas a essa atividade, enquanto os grandes produtores dominam a maior parte das terras destinadas à agricultura e têm como prioridade a exportação de commodities. Nesse sentido, a produção agrícola e a distribuição de alimentos são impactadas pelas mudanças climáticas e se tornam um fator de preocupação para todos nós.
Com relação a esses problemas ambientais, que fatores têm contribuído para que a situação se agrave cada vez mais? Como o trabalho dos pequenos agricultores é impactado e quais as consequências para a sociedade? Afinal, porque o Rio Grande do Sul é o Estado que está enfrentando essa estiagem histórica? Através de pesquisa, leitura e entrevistas com especialistas, o Humanista foi atrás dessas respostas. Confira nos próximos capítulos da reportagem.
Parte do todo

Não é de hoje que desastres naturais estampam as capas dos jornais e revistas do mundo todo. A diferença é que agora isso é mais frequente e os resultados mais devastadores. Em uma ponta do Brasil, temos chuvas e enchentes de grandes proporções. De outra, seca e estiagem agravadas. O desequilíbrio natural acumulado de toda ação humana já feita na Terra pode estar nos levando para um caminho sem volta.
Entre outubro de 2020 e maio de 2021, o Brasil registrou o menor volume de chuvas em 91 anos, o que provocou uma crise hídrica em todo o país, desafiando até mesmo o abastecimento de energia. Somado a isso, fenômenos climáticos como o La Niña, o desmatamento e queimadas na Amazônia podem estar relacionados com a forte seca e estiagem que enfrentamos no Sul.
O pulmão do mundo
A Amazônia tem um papel fundamental para o equilíbrio do clima, a distribuição de chuvas e estabilização de temperaturas em toda a América do Sul. Segundo Luciana Gatti, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos mecanismos para isso é a evapotranspiração da floresta. Por meio disso, é possível manter um fluxo constante de umidade no ar e influenciar a precipitação de chuvas nos estados.
A evapotranspiração das árvores, ou seja, a capacidade de a floresta bombear a umidade das chuvas, dos solos e dos corpos d’água e transpirá-la, faz com que toda essa água retorne para a atmosfera em formato de vapor. Esse vapor forma uma massa de ar úmido que é empurrada através de ventos até a Cordilheira dos Andes, onde é redirecionada para outros pontos.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) estimam que uma árvore de 10 metros possa produzir mais de 300 litros de água por dia. Isso é mais do que o dobro de água utilizada por uma pessoa por dia. A Floresta Amazônia, por sua vez, lança na atmosfera quase que a mesma quantidade de água que o rio Amazonas – o maior em volume de água do mundo – joga no oceano diariamente.

O ciclo de evapotranspiração das florestas consegue garantir a umidade do ar e contribui com a precipitação de chuvas. Arte: Larissa Matté/Especial Humanista
O fenômeno que é chamado de “rios voadores” cumpre uma função importante para a formação de chuvas nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil. Países como Bolívia, Argentina e Paraguai também usufruem dessa capacidade da floresta de redirecionar umidade do ar.
“Então, se a gente está num desmatamento complemente acelerado, não é só na Amazônia que vamos impactar. É no Brasil inteiro que nós estamos desequilibrando a chuva e os gradientes de temperatura”, explica Luciana.

Ciclo dos “rios voadores”, que contribuem com a formação de chuvas no Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil. Arte: Larissa Matté/Especial Humanista
Outra questão relacionada à Amazônia é a capacidade da floresta em absorver grandes quantidades de carbono – principal gás causador do efeito estufa, e grande responsável pelo aquecimento global -, evitando um maior aquecimento da atmosfera. Porém, segundo pesquisa feita por Luciana e publicada na revista Nature, a Floresta Amazônica já emite mais gás carbônico do que absorve por conta das queimadas e do desmatamento que reduzem a capacidade da floresta de dissipar o carbono.
A degradação da Amazônia ocasionada pelo homem diminuiu a própria capacidade da floresta em umidificar as outras regiões do Brasil. Com isso, ocorre a desregulação dos ciclos de chuvas no país e contribui com efeitos extremos, como a intensificação de secas e estiagens, em alguns locais, e enchentes e chuvas em outros. Infelizmente, nos últimos anos, o desmatamento e as queimadas na Amazônia aumentaram drasticamente, piorando o cenário climático global.
Em 2021, o desmatamento foi o pior em 10 anos, de acordo com dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Mais de 10 mil quilômetros de mata nativa foram destruídos, um crescimento de 29% em relação a 2020. Confira os dados a respeito da destruição da floresta nos últimos anos, segundo levantamento do projeto Prodes, do Inpe:
La Niña e outros fenômenos
“Não vem tudo da Amazônia”, alerta o professor da Unicamp, pesquisador aposentado da Embrapa e especialista em Clima, Agroclimatologia e Mudanças Climáticas, Eduardo Delgado Assad. Para ele, o aquecimento e esfriamento das águas do Pacífico, além das mudanças climáticas, têm grande participação na estiagem do Sul.
O La Niña, que está em atividade neste ano, faz parte do grande fenômeno atmosférico-oceânico El Niño Oscilação Sul (ENOS), que causa alterações na temperatura da superfície do mar. Na primeira fase, o El Niño causa o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico próximas às zonas equatoriais. Os ventos com umidade quente formam nuvens que, geralmente, se traduzem em chuvas para o Sul e secas para o Norte e Nordeste.
Já na segunda fase, o La Niña, acontece o oposto, causando a intensificação dos ventos que resfriam as águas do Pacífico Equatorial. As águas mais frias que o normal alteram a circulação de umidade, podendo causar estiagem no Centro-Sul do Brasil e intensificação de chuvas no Norte e Nordeste do país. Segundo boletim da Agência Nacional de Oceano e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade do fenômeno persistir até o final de outono no Rio Grande do Sul é de 77%. Nesse sentido, os efeitos poderão ser sentidos até o final do ano.
“Primeiramente, é uma situação de La Niña, e sempre que ocorre o segundo ano do fenômeno a gente vê uma estiagem mais forte. Nem sempre a La Niña significa estiagem, mas dois anos consecutivos acabam impactando, principalmente na agricultura onde os efeitos são maiores. Então, esse é o principal fator que está acontecendo. E alinhado a isso, a gente vê a emergência climática, ou seja, um quadro mais grave de mudança climática provocado pelo aquecimento global”, explica o climatologista Glauco Freitas.
Eventos que eram mais amenos antigamente, hoje em dia figuram como extremos. As alterações climáticas que se agravam pela atividade humana a cada ano já desencadeiam situações de desequilíbrio ambiental. No sul, temperaturas com máximas históricas, seca prolongada, estiagem intensa e episódios de chuvas torrenciais muito rápidos que causam mais prejuízos do que algum alívio. Na outra ponta do país, o antagonismo. Tempestades, alagamentos, deslizamentos e enchentes como noticiaram os jornais sobre Petrópolis, Bahia e Minas Gerais.
Segundo o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), a emergência climática é iminente e seu principal fator é a ação humana. Carbono, energias não renováveis, uso de combustíveis fósseis, a não conservação e restauração dos espaços naturais, entre outros, formam o combo que, segundo o documento, pode nos levar ao caos. O mundo está aquecendo e poderá atingir ou até exceder 1,5 ºC de aquecimento nas próximas décadas. Para se ter uma ideia, o mundo não experimentou um aquecimento global de mais de 2,5 ºC nos últimos três milhões de anos.
Essa combinação climática prejudicará as cadeias alimentares, contribuirá com a perda de alimentos, a subida de preços, afetará a segurança alimentar global, a estabilidade climática e até a vida de quem estiver na Terra. Todos esses fatores e mudanças no clima acabam afetando a temperatura no Rio Grande do Sul. “Juntando tudo isso, são outros sistemas meteorológicos que vão se combinar e se relacionar para que ocorram estiagens mais fortes”, concluiu Glauco.
A natureza reage

Apesar da atual seca ser a mais severa dos últimos 17 anos, o fenômeno em si está afetando o plantio das safras anuais do Rio Grande do Sul há pelo menos três anos consecutivos, sobretudo, no período de outubro a dezembro. Com a falta de chuvas, muitos agricultores familiares relatam a perda das culturas ou uma baixa qualidade do que é produzido.
O agricultor familiar Júlio César Marques, que foi apresentado no começo da reportagem, trabalha com hortaliças e sentiu de perto os estragos da estiagem. Com perda quase total da lavoura, Júlio relata que até mesmo o que sobrou não estava bom, o que o levou a destruir toda a plantação e preparar a terra novamente à espera da chuva. “O plantio de hortaliças é muito sensível às variações climáticas, principalmente ao calor e à falta de chuvas. E a cada verão vemos mais essa instabilidade. Nem a irrigação foi suficiente para salvar a lavoura”, relata.
Outro fenômeno que tem gerado prejuízos aos pequenos e médios produtores é a estiagem. Para o agricultor familiar do município de Cerro Grande, no interior do Estado gaúcho, e líder do Movimento dos Pequenos Agricultores do RS (MPA/RS), Plínio Simas, os prejuízos da revolta da Terra não são apenas econômicos e materiais. “Isso dá um prejuízo financeiro e acaba repercutindo também na saúde das pessoas, até mesmo com depressão”, comenta. O climatologista Glauco Freitas colabora com o pensamento. “Os efeitos da estiagem são vários. Pode ir para a parte social, para a ambiental e também econômica. Em 2004 e 2005, ocorreu uma série de suicídios de produtores rurais no Rio Grande do Sul porque eles perderam tudo em uma estiagem extremamente forte de dois anos seguidos”.
Apesar de impactar de frente quem está no campo, fenômenos climáticos como seca e estiagem afetam todos nós, principalmente quando mais intensos. O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag-RS), Carlos José da Silva, entende que as perdas causadas por essas ações climáticas aumentam o desemprego, diminuem os impostos que circulam nos municípios e encarecem os produtos que chegam às prateleiras do supermercado. “Os custos aumentaram muito para o agricultor. Ele não arca com esses prejuízos sozinhos, mas repassa para o consumidor final. O produto vai acabar chegando na prateleira do supermercado e todas as pessoas vão acabar pagando o preço dessa estiagem também”.
O fato é que a natureza reage a tudo. Mas nem sempre estamos preparados para enfrentar a resposta do nosso mau cuidado com a Terra. Nos últimos anos, essas respostas se tornaram cada vez mais fortes. E essas alterações climáticas, que ao mesmo tempo prejudicam o setor da agricultura, também são agravadas por ele.
O grande agronegócio
Pelo menos 20% das exportações de soja e 17% das exportações de carne vindas da Amazônia e do Cerrado podem estar associadas ao desmatamento ilegal. É o que indica um estudo publicado pela revista Science e assinado por diversos pesquisadores internacionais e o professor Raoni Rajão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo mostra que um quinto das 53 mil propriedades que produzem soja nos biomas cultivaram em terras desmatadas após 2008. A estimativa é de que metade dessa soja tenha sido produzida em terras recentemente desmatadas de forma irregular.
Outra pesquisa também evidencia como o agronegócio passa por cima das leis, mata as florestas e, consequentemente, piora a situação climática mundial. De acordo com um estudo divulgado em 18 de maio de 2021 pela Forest Trends, mais de dois terços das florestas tropicais do mundo exploradas pelo agronegócio foram devastadas de forma ilegal para a produção de carne bovina, soja e óleo de palma. Ainda de acordo com o estudo, a maior parte do desmatamento ocorreu no Brasil e na Indonésia.
No caso brasileiro, uma pesquisa do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e a Universidade de Bonn, na Alemanha, revelou que o desmatamento na Amazônia impactará o próprio setor que colabora com sua destruição: o agronegócio. Com altos níveis de desflorestamento, haverá um menor nível de chuva, alterações climáticas, e consequentemente, menor produção agrícola. São estimados prejuízos para o setor de até US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,6 bilhões) por ano até 2050.
Diferentemente do que muitas pessoas pensam, não é o agronegócio que é responsável por grande parte da produção de alimentos. O setor produz commodities, colabora com o Produto Interno Bruto (PIB), promove a exportação e cria laços mercadológicos. No entanto, são os agricultores familiares, campesinos, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, neorruralistas, extrativistas e pescadores que produzem localmente. Apesar disso, eles recebem apenas 25% do orçamento destinado à agricultura no país.
Para Plínio, o senso comum tem uma visão distorcida sobre o agronegócio e não enxerga a dimensão dos seus impactos. “Esse agronegócio considerado como pop e tecnológico pela grande mídia é o mesmo que está destruindo a Amazônia, o que termina com as lavouras, com as matas ciliares dos rios, que drena todos banhados e espalha veneno para as comunidades. Não dá pra aceitar esse agronegócio que não produz alimento, só produz commodities”.
“Cinquenta por cento do alimento na mesa do brasileiro vem do pequeno agricultor. Então, eu acho que tem que mudar o enfoque de financiamento do governo. O investimento precisa ir para a agricultura familiar porque ela está muito mais equilibrada com a natureza do que o agronegócio”, analisa a pesquisadora Luciana Gatti.
Infelizmente, ações pouco benéficas ambientalmente têm grande apoio da chamada bancada ruralista – a expressão política do grande agronegócio no governo. Esse grupo busca flexibilizações ambientais que favorecem os grandes proprietários de terra. Com isso, ocorre a supressão de florestas e áreas protegidas para o aumento de monocultura e pasto. A longo prazo, esse conjunto de questões podem colocar em cheque a humanidade e o próprio agronegócio.
Futuro incerto

O futuro da agricultura, assim como o da humanidade, não é muito animador. É preciso de muita mudança de hábitos e de práticas de consumo para que possamos mitigar os efeitos do desequilíbrio climático, e ao que parece, isso não é de interesse do governo e dos setores mais conservadores da população. Se os efeitos da emergência climática enfrentados hoje são considerados extremos, o que nos espera é muito pior. Segundo o relatório IPCC, ondas de calor, secas extremas, enchentes, perda de produtividade humana e agrícola, extinção de espécies e deslocamentos humanos forçados são apenas alguns dos impactos do futuro. Apesar de já existirem agora, a tendência é que com o passar do tempo os eventos piorem em intensidade.
A projeção do relatório é de que as secas, desmatamentos e queimadas na Amazônia poderão transformar a floresta úmida em regiões de savana. Se isso acontecesse, impactaria a circulação dos rios voadores – responsáveis por levar umidade para o Centro-Sul do país -, e intensificaria ainda mais o cenário da estiagem e seca no Rio Grande do Sul.
Como a floresta amazônica absorve muito gás carbônico para transformação em oxigênio, que é lançado na atmosfera, se houver intensificação do desmatamento e das queimadas, a tendência é de que sejam liberadas toneladas de carbono no ar. Isso contribuiria e agravaria ainda mais o efeito estufa e outras problemáticas ambientais. Como consequência, um dos efeitos previstos seria as inundações frequentes em regiões como Acre, Pará, Rondônia e sul do Amazonas.
Esse contexto de instabilidade climática não é nada favorável para a agricultura, uma vez que fatores como temperaturas estáveis, regime de distribuição de chuvas, umidade do solo, entre outros, são necessários para a garantia da colheita saudável. Nesse sentido, a produtividade está ameaçada. A tendência é de que as plantações tenham cada vez mais prejuízos e perdas, caso a situação não seja revertida.
O contexto de mudanças climáticas não prejudica só o agricultor, mas toda sociedade. Uma das razões disso é que muitos empregos deixam de ser gerados e, com isso, os impostos obtidos com essa cadeia comercial não circulam nos municípios. Além disso, com o encarecimento dos produtos, poderá ocorrer o aumento da insegurança alimentar no país.
“Precisamos desenvolver um modelo de vida com mais harmonia com a natureza, modificando a agricultura de grandes propriedades de monocultura. Precisamos entremear mais árvores preservadas entre as áreas de agricultura, favorecer a agricultura familiar, que é mais natural. Precisamos entender qual é o nosso papel nisso, porque nossa sobrevivência está em jogo”, avalia Luciana Gatti.
Outras mudanças necessárias para amenizar a situação dependem mais de políticas e decisões de governos do que somente de ações individuais, como por exemplo o abandono do uso de combustíveis fósseis (como o petróleo) pelos países, ou o cumprimento do Acordo Paris pelos líderes mundiais. Mas enquanto a economia for mais importante do que o futuro da humanidade, continuaremos tentando nos adaptar aos dias cada vez mais extremos.
Seca ou estiagem? Apesar de muitas pessoas acharem que estiagem e seca são sinônimos, para os meteorologistas e climatólogos, são conceitos diferentes. Enquanto o primeiro se refere a um período prolongado de baixo índice de chuvas, no qual parte de umidade do solo é superior à sua reposição, o segundo diz respeito a um intervalo de tempo seco e prolongado o suficiente para que a deficiência acentuada, ausência ou fraca distribuição de chuva provoque um grave desequilíbrio no regime hidrológico. “Enquanto na estiagem ocorrem algumas precipitações ao longo de um período, na seca, não há precipitação durante um período longo”, resumiu o climatologista Glauco Freitas.
Ajuda para os pequenos No dia 8 de fevereiro, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e a secretária da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento, Silvana Covatti, foram até Brasília para uma reunião com o secretário executivo do Ministério da Agricultura, Marcos Montes. O encontro teve como objetivo discutir a situação da estiagem no Estado gaúcho e propor soluções de apoio aos produtores rurais, com base nas reivindicações do setor. Entre as demandas dos produtores rurais estavam a liberação de crédito e auxílio emergencial, junto da liberação de R$ 23 milhões dos recursos do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que estão na conta do governo do Estado, e a anistia das dívidas. Também houve o pedido da criação do Comitê Estadual de Combate à Estiagem. Na reunião, também foi discutida a preocupação dos produtores no que se refere ao financiamento do crédito rural. Como o pagamento da dívida depende da safra, em caso de prejuízos de produtividade, não há como pagar. Devido a isso, um dos caminhos apontados foi a criação de linhas emergenciais para ajudar os mais afetados, principalmente aqueles que não têm seguro agrícola ou Proagro — cobertura de parcela de financiamento de investimento rural. Ao final do encontro, foi informado que as tratativas com o Ministério da Economia estavam sendo finalizadas e que nos próximos dias já haveria a liberação das linhas de crédito emergenciais para auxiliar, sobretudo, os pequenos produtores rurais, incluindo os agricultores familiares. Para Júlio, no entanto, essas promessas de auxílios não são aplicadas na prática. “Sobre esse auxílio, o que existe de real é só conversa. Votaram lá em Brasília, mas ainda não tivemos nada, só promessa. Esses valores claro que não são suficientes, mas ajudariam muito. Nós agricultores familiares estamos sem recursos financeiros para manter nossas atividades”, revelou.












