Era 15 de fevereiro de 2022. Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Poderia ser 2021, ou mesmo 2022, em Minas Gerais, São Paulo ou Bahia e Espírito Santo. É sempre assim quando o ano começa, em meio ao verão tropical brasileiro: tragédias causadas por chuvas torrenciais.
Petrópolis, aliás, que voltou a sofrer no último domingo (20), quando uma nova enxurrada matou cinco pessoas, pouco mais de um mês depois de registra pelo menos 233 mortes pelo mesmo motivo. O volume excepcional de que caiu na cidade serrada e provocou deslizamentos nas encostas e alagamentos nas partes planas da cidade também deixou milhares de pessoas feridas, desalojadas e desabrigadas.
E a pergunta que fica é: como evitar? Depois de buscar explicações para o fenômeno, o Humanista foi atrás dessa resposta – que passa, entre outras medidas, por adaptação das cidades ante à crise global do clima.
As causas
A tragédia fluminense mais recente foi causada por um dos eventos climáticos extremos, que em razão da atual crise climática, estão cada vez mais intensos e frequentes. Menos de duas semanas antes do desastre no Rio de Janeiro, outro evento similar ocorreu em cidades da região metropolitana da cidade de São Paulo, principalmente em Franco da Rocha. Pelo menos 31 mortes foram confirmadas.
As mudanças climáticas não são um problema do futuro. Já impactam drasticamente o presente. “No contexto da mudança do clima, os eventos extremos têm se tornado mais frequentes, com intensidades cada vez maiores. As cidades atuais não são planejadas para lidar com esses eventos, e a população fica exposta às consequências”, afirma o cientista Lincoln Alves, doutor em Meteorologia, pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e Autor Líder do Grupo de Trabalho I do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), publicado em julho passado.
Neste último mês de fevereiro, o painel publicou a segunda parte do documento, intitulado Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade. O destaque principal é justamente em relação à situação de risco que a população mundial enfrenta, apontando que “aproximadamente 3,6 bilhões de pessoas vivem em contextos altamente vulneráveis às mudanças climáticas”.
“O último relatório do IPCC denuncia que mais de 3,6 bilhões de pessoas moram em áreas ameaçadas por diversas consequências da crise do clima. Por isso a importância de manter o aumento da temperatura global o mais baixo possível, já que seu crescimento gera mais eventos climáticos extremos, o que já afeta a vida de boa parte da população mundial”, ressalta Lincoln.
Além de não estarem adaptadas aos eventos climáticos extremos, as cidades, segundo alerta o IPCC, aquecem mais rapidamente devido às ilhas de calor formadas nos agrupamentos urbanos As áreas urbanas, por terem mais asfalto e concreto, menos vegetação e serem mais poluídas, acabam ainda mais aquecidas do que a média do resto do planeta.
“Os sistemas urbanos, de forma geral, negligenciaram em sua história o sistema ambiental onde estão inseridas. As cidades, ao invés de aproveitar cursos de água naturais para escoamento da água, canalizaram, soterraram, bloquearam os drenos naturais. Com o aumento das precipitações, por exemplo, esses sistemas se tornam cada vez mais ineficientes”, explica o geólogo Rualdo Menegat, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do Atlas Ambiental de Porto Alegre.
Cidades construídas à beira-mar, apesar de não sofrerem tanto com o calor, são as mais afetadas e sofrem os maiores riscos relacionados às mudanças climáticas, relata o IPCC. Aproximadamente 900 milhões de pessoas no mundo vivem em zonas litorâneas , o que representa quase 11% da população global. Além do aumento das chuvas, também precisam lidar com eventos como ciclones tropicais, ondas de calor marinhas e terrestres, acidificação dos oceanos e elevação do nível dos mares.
“As ameaças são diversas. Elevação do nível do mar, erosão costeira, secas, gestão da água, atividade agrícola, produção energética, segurança alimentar. É uma cadeia de acontecimentos que são afetados pela mudança do clima, atingindo diversos setores da sociedade. Isso é ainda mais amplificado nos países em desenvolvimento, como o Brasil, considerando as cidades com grande desigualdade social e alta densidade populacional”, frisa Lincoln Alves.

Desigualdade social aprofunda o problema
“O que está acontecendo em Petrópolis é resultado da crise climática que estamos vivendo. As pautas políticas precisam pensar moradia, e em racismo ambiental”, escreveu em suas redes sociais a vereadora de Niterói Benny Briolly.
Racismo ambiental é um termo designado para abordar os problemas ambientais a partir das desigualdades sociais, em especial o racismo. Um exemplo é o acesso desigual à água, ao saneamento básico e a própria moradia nas áreas de risco. No caso das fortes chuvas e de eventos extremos como os de Petrópolis, a maior parte das vítimas eram pessoas em situação social vulnerável.
“O desastre é a consequência de duas ameaças, a meteorológica e social. Estamos regredindo nas políticas de habitação e moradias dignas, de ocupação adequada do solo, urbanização planejada. O que aconteceu em Petrópolis poderia ter acontecido em vários municípios do país”, afirma o físico Osvaldo de Moraes, Diretor do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
“As tragédias são resultado da soma do clima com o aspecto socioeconômico. A chuva por si só não causa os desastres, suas consequências são sentidas porque há pessoas expostas morando em áreas de risco e em situação de vulnerabilidade social. As últimas tragédias causadas pelo excesso de chuva no Brasil reforçam esse contexto, onde a grande maioria das vítimas são pessoas com dificuldades financeiras e com a moradia precária”, complementa Rualdo Menegat.
Segundo dados do Cemaden, existem cerca de 10 milhões de pessoas morando em áreas de risco no Brasil. Elas se dividem em 50 mil locais de risco diferentes, que se localizam em 872 municípios, com riscos de inundações, enxurradas e deslizamentos em encostas.
“Os eventos climáticos extremos atingem as cidades de forma desigual. Os que têm violados seus direitos a moradia digna, acesso a água potável e saneamento básico, são a maioria dos que habitam as áreas de risco, sendo justamente os mais expostos aos efeitos diretos da crise do clima”, reforça o diretor do Cemaden.
Monitoramento de desastres no Brasil
As cenas da recente tragédia em Petrópolis remetem a outro desastre ocorrido naquela mesma região há pouco mais de uma década. Em janeiro de 2011, um volume excepcional de chuvas caiu em diversos municípios da região serrana do Rio de Janeiro, causando também deslizamentos de terra e inundações. Na ocasião, pelo menos 916 pessoas morreram, além de outras 345 declaradas como desaparecidas. Até hoje, este é compreendido como o maior desastre natural da história do Brasil.
Em razão da tragédia, naquele mesmo ano foi criado o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “O Governo Federal reconheceu que era necessário criar uma instituição para lidar com as condições do pré-desastre e emitir alertas, o que não havia no país”, afirma Osvaldo de Moraes, diretor do Cemaden.
O Centro, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, mapeia e monitora as áreas de risco no Brasil, através de uma extensa rede de observação espalhada pelo país. “Com base em observação de modelos meteorológicos, hidrodinâmicos, geodinâmicos e de impacto social, nossos técnicos criam um cenário de risco para os eventos e são emitidos os alertas”, explica Osvaldo de Moraes.
“O nosso alerta é emitido para a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Governo Federal, que entra em contato com as defesas civis municipais e estaduais para comunicação e planejamento adequados. Os alertas se referem aos municípios e regiões que podem ser atingidos, e também às pessoas e moradias que podem ser impactadas”, acrescenta.
A região de Petrópolis já estava sob monitoramento especial do Cemaden dias antes da tragédia. Segundo conta o diretor do instituto, um alerta chegou a ser emitido no dia anterior. Mesmo assim, como ressalta Moraes, é muito difícil precisar a localização e intensidade de um evento como esse.
“No caso de Petrópolis, no sábado já havíamos detectado a possibilidade de um evento atípico, e na segunda-feira abrimos o alerta específico. O aviso dizia que havia risco de desastre, mas não era possível dizer se o acontecimento seria na terça-feira, como foi, ou nos próximos dias, nem onde e qual seria o seu impacto exato”, salienta o diretor.
O fenômeno meteorológico que ocasionou o desastre de Petrópolis a ciência só consegue detectar com clareza cerca de 30 minutos de antecedência. De qualquer maneira, a Defesa Civil local já estava alertada, tomando ações de preparação. Mas o que ocorreu depois foi uma situação completamente excepcional, que todos lamentamos em razão das vítimas”, ressalta.
Planejamento
Diante do cenário de crescimento da ocorrência e intensidade dos eventos climáticos extremos, que incluem as quantidades excepcionais de chuvas, mas também a seca, as ondas de calor extremo e outras consequências, as cidades precisam estar cada vez mais adaptadas e resilientes.
Além do monitoramento de desastres, os governos, nas esferas municipal, estadual e federal, devem organizar planos de ação climática, definindo estratégias e objetivos de adaptação a médio e longo prazo aos impactos das mudanças do clima. As ações e metas devem estar de acordo com os princípios internacionais de preservação do clima, como os objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos pela ONU, destacados no Acordo de Paris e nas conferências anuais do clima da organização.
“As cidades devem se preparar melhor, o que envolve um planejamento urbano adequado. A gestão pública no Brasil é muito movida pelas urgências de curto prazo, e não há a necessária importância atribuída às atividades de planejamento a médio e longo prazo, tratando de problemas que atravessam diversos mandatos”, afirma o urbanista Pedro Xavier de Araújo, mestre em Planejamento Urbano.
Algumas medidas práticas que podem ser adotadas incluem a priorização das áreas verdes, favorecendo maior vegetação, a diminuição da poluição e a redução das emissões de gases de efeito estufa. “É preciso ainda afastar as pessoas das áreas de risco, provendo moradias adequadas aos cidadãos, e fazer um planejamento de preservação das áreas naturais, despoluição das fontes naturais de água e educando a população sobre a crise climática”, enfatiza Pedro.
“As cidades do litoral devem projetar a sua defesa costeira. Os governos devem articular planos de recepção das pessoas que terão que se mudar das áreas de maior risco. O desmatamento e a destruição da natureza têm que ser interrompidos, e as atuais formas de produção, consumo e desperdício de recursos devem ser repensadas para ser mais eficientes”, afirma o professor Rualdo Menegat.
“Esse é um processo de longo prazo, com ações que devem ser realizadas em todos os tipos de cidades: costeiras, rurais, e metrópoles. Ainda temos uma janela possível para pensar e aplicar esse planejamento estratégico, mas quanto mais demorarmos para agir no presente, mais sofreremos no futuro. Com o atraso das ações de adaptação, estamos perdendo um tempo precioso para enfrentar esse desafio, além de já estarmos perdendo vidas”, conclui Menegat.
Foto de capa: Fernando Frazão/Agência Brasil




