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“Mulheres negras, jovens e em ascensão social são mais vítimas”, afirma sociólogo sobre discurso de ódio nas redes

Autor do livro “Discurso de Ódio nas Redes Sociais”, Luiz Valério Trindade fala ao Humanista em meio ao clima tenso das Eleições Gerais no Brasil.

Historicamente em posição de vulnerabilidade social, mulheres negras são as que mais sofrem com ataques e discursos de ódio disseminados nas redes sociais. É o que afirma o sociólogo Luiz Valério Trindade, doutor pela University of Southampton. O Humanista conversou com o autor do livro Discurso de Ódio nas Redes Sociais em meio ao clima tenso das Eleições Gerais no Brasil para entender o fenômeno da perseguição no ambiente digital, típico da contemporaneidade.

A pesquisa que originou o livro analisa textos veiculados na rede social Twitter. Discurso de Ódio nas Redes Sociais faz parte da coleção Feminismos Plurais, coordenado pela filósofa Djamila Ribeiro. Trindade fala ao #EntrevistaHumanista sobre como o fenômeno afeta a população negra, em especial em um momento político violento, e quais são os mecanismos de defesa dessa população. Leia!

Como você define discurso de ódio e quais particularidades ele adquire nas redes sociais?

Luiz Valério Trindade
O discurso de ódio, de uma forma bastante sucinta, constitui-se em práticas de transmissão de ideologias e pensamentos de cunho extremamente preconceituosos, misóginos, xenófobos, de toda natureza, contra indivíduos ou contra grupos minoritários. O que a gente observa é que, principalmente no contexto das redes sociais, muitas pessoas que se engajam nessa prática de construção e disseminação de discurso de ódio, sentem-se empoderadas por estar atrás do computador. Porque, por detrás do computador, eles estão isentas de serem responsabilizados por seus atos. Esse é o primeiro aspecto. 

O segundo é que elas acreditam também que elas não podem ser localizadas. Então, esse pseudo anonimato, indiretamente, fortalece as pessoas para elas destilarem todo o seu ódio e, eu digo pseudo anonimato porque esse anonimato não é real, é uma falácia.  Existem, hoje, mecanismos tecnológicos que permitem identificar essas pessoas.

Na sua pesquisa, você identifica que as principais vítimas do discurso de ódio nas redes sociais são as mulheres negras. O que explica isso?

Quando eu comecei a me debruçar sobre esse assunto, inicialmente eu imaginava que o fenômeno do discurso de ódio de cunho racista, afetava homens e mulheres negras na mesma proporção. Conforme eu fui para campo para coletar dados, conversar com pessoas, em diferentes redes sociais, eu comecei a perceber que esse fenômeno atinge em grande parte as mulheres negras. 

E que mulher negra é essa que nós estamos falando? São mulheres negras jovens, na faixa de 18, 20 anos, aproximadamente, até 35 anos, e também mulheres negras em ascensão social. Essas mulheres são as principais vítimas desses ataques de cunho racista porque a identidade nacional brasileira foi construída em cima de uma supervalorização da branquitude, de tal forma que quando mulheres negras acendem socialmente e passam a ocupar espaços sociais  que não eram considerados “legítimo local de pertencimento” delas, isso causa um estranhamento nessas pessoas que nutrem ideologias discriminatórias. Então, essas pessoas atacam as mulheres negras nas redes sociais como uma forma de reposicioná-las em seu lugar de subalternidade e inferioridade social

Você faz um paralelo entre redes sociais e o pelourinho durante o período de escravidão no Brasil. Pode explicar melhor essa ideia?

O Pelourinho no Brasil Colônia era aquele espaço, em uma praça pública, utilizado para o castigo de escravos que fugiam. Esses escravos, quando capturados, eram chicoteados em praça pública para servir de exemplo, para que os outros não seguissem o mesmo caminho. 

Fazendo a sinergia com as redes sociais, a gente observa que elas se tornaram esse Pelourinho moderno. Por exemplo, mulheres negras, que acendem socialmente e “subvertem” uma ordem natural – ocupando espaços sociais de prestígio, no imaginário coletivo associado a homens brancos, de classe média e média alta – essa mulher negra, ao ocupar esses espaços sociais de privilégio, é considerada como uma intrusa e, consequentemente deve ser punida para que outras não sigam seu exemplo. As redes sociais, então, se tornam essa praça pública e os discursos de ódio são os chicotes virtuais. Essa é a construção imagética que eu faço.

A internet é causadora ou facilitadora nesse processo? E por que ainda é difícil, de certa forma, punir quem dissemina esse tipo de discurso?

O ódio é um tipo de sentimento que já estava presente nas sociedades há muito tempo. O advento da internet e, posteriormente, das redes sociais, não criou o ódio. No entanto, eles se amplificaram em proporções que nós não havíamos visto antes no contexto, digamos, de convívio social offline. Essas tecnologias potencializaram um tipo de comportamento, um tipo de atitude, de uma forma nunca vista.

E como é que elas funcionam?  Elas são conexões entre nós. Não “nós” na terceira pessoa do plural, mas “nós” entre pontos. Esses nós, são os usuários, de tal forma que quanto maior a rede de contatos de indivíduo, maior também a amplitude daquele conteúdo depreciativo.

Para ilustrar melhor, esse tipo de conteúdo depreciativo que as pessoas postam nas redes sociais, eles não se dissipam da noite para o dia. Eles continuam lá naquele ambiente virtual, por muito tempo e atraindo novos usuários, novos e recorrentes e por até três anos. 

Luiz Valério Trindade

O indivíduo postou um conteúdo depreciativo, atacando uma pessoa ou um grupo de pessoas, e aquele ataque não cessará naquele momento. Ele continua como um ímã, atraindo mais pessoas para aquela mesma conversa depreciativa por um período muito longo. E a consequência disso é a amplificação do impacto negativo que aquele post original causou na pessoa vítima.

E como você vê que estamos nos preparando, ou deveríamos estar se preparando, para lidar com esses ataques? Em termos da responsabilização das plataformas, dos governos ou mesmo da sociedade civil.

Não podemos nos esquecer também que essas tecnologias são produtos de gigantescas corporações. E elas recebem lucro, direta ou indiretamente, com esse discurso de ódio que circula livremente por todas essas plataformas. 

Existe um movimento muito forte nos Estados Unidos, que eu acho que ainda não é da mesma proporção no Brasil,  é um movimento que chama Stop Hate for Profit, ou seja, vamos parar de lucrar com o ódio. Em 2020, onde durante 30 dias, Organizações Não Governamentais pressionaram grandes anunciantes dessas plataformas para que suspendessem os anúncios por esse período, no sentido de pressionar essas corporações para que elas tomem atitudes para coibir esse tipo de prática. 

Além disso, se olharmos especificamente no contexto brasileiro, existem diversas comunidades virtuais que procuram apoiar essas vítimas de ataques nas redes sociais e apoiar no sentido de demonstrar para as vítimas e que elas não estão sozinhas. 

Estamos vivendo um momento político bastante violento, cujo discurso de ódio tem extrapolado para a violência física. Como é possível que grupos vulneráveis possam se sentir mais seguros nesse contexto?

Essa é uma pergunta bem interessante e difícil. O que a gente observa é que muitas pessoas que se engajam na prática do discurso de ódio nas redes sociais, argumentam que o ataque, proferido naquele ambiente virtual, se restringe a ele. Mas isso não é verdade, porque existem diversos estudos que relacionam ataques nas redes sociais com crimes de ódio no mundo offline. Então, ele extrapola e atinge a vida real das pessoas, agora, como contra-atacar isso? Eu entendo que o primeiro aspecto é a denúncia. Existem delegacias especializadas em crimes virtuais. 

E também não podemos esquecer que tem um Marco civil da internet, que pode não ser perfeito, mas é o instrumento legal que existe atualmente e ele estabelece que práticas, atitudes ou comportamentos manifestados no ambiente virtual são passíveis de serem punidos pelo Código Civil brasileiro.

Sobre o livro

Com rigor metodológico, Luiz Valério Trindade evidencia o crescimento das redes sociais e analisa o quanto elas cooperam para o aumento dos discursos de ódio ao mesmo tempo que lucram com essas ações. Por meio de conhecimento qualificado e embasado, o autor revisita momentos importantes da história do Brasil pós-abolição para sedimentar conceitos fundamentais que permitem compreender a dinâmica racial nos tempos atuais, evidenciando o quanto o processo de construção da identidade nacional baseou-se pela ideologia do branqueamento. 
A partir de evidências de que as mulheres negras são as principais vítimas dos discursos que ridicularizam e inferiorizam suas existências, Luiz Valério Trindade analisa textos postados em redes sociais e mostra o quanto o racismo intersecciona-se com sexismo e questões de classe. Dessa forma, a obra contribui para conscientizar a sociedade e enriquecer o debate público em busca de soluções, com alternativas práticas para o enfrentamento deste problema.

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