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jornalismo e direitos humanos

EDITORIAL | Retrospectiva, despedida e uma dúvida: o que vem pela frente?

Dentro de uma semana, na primeira quarta-feira de dezembro, dia 2, a atual redação do Humanista se despede após um semestre letivo atípico. Lá em março, quando dos nossos primeiros e únicos encontros presenciais, não imaginávamos tudo que viria pela frente. Não passava pela nossa cabeça que teríamos um vírus a ser combatido em escala mundial, um Trump fora do poder, uma Mari Ferrer injustiçada, um João Alberto assassinado.

A surpresa é constituinte do Jornalismo, no entanto, e é sobre as novidades – sejam elas positivas ou negativas – que embasamos nossa futura, e porque não atual, profissão. Cada acontecimento novo deste 2020 evidenciou o desafio de levar para todos vocês informação e opinião necessárias para a compreensão de cada fato em sua complexidade, à luz dos Direitos Humanos. E, junto desses desafios, nos adaptamos à logística do Ensino Remoto Emergencial, entrando no ritmo e nos tornando, em conjunto, o Humanista.

A nós, como jornalistas, coube a missão de discutir temas atuais e caros à sociedade. Alguns temas, inclusive, foram pauta diversas e recorrentes vezes: há questões que precisam ser repetidas e ditas em voz alta, mesmo que doam em alguns de nós. O assunto racismo apareceu mais vezes do que gostaríamos; mas, certamente, menos do que deveria.

Ainda em setembro, Neymar teve de ouvir injúrias racistas proferidas pelo jogador espanhol Álvaro González em um jogo entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marseille. Na mesma época, acompanhamos manifestações de esportistas negros, como o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton e a tenista Naomi Osaka, manifestando-se contra o assassinato de Breonna Taylor e em memória a vítimas do racismo, respectivamente. Explicamos porque negros, mesmo após 132 anos da abolição da escravatura no Brasil, ainda são vistos como suspeitos preferenciais. Mostramos, também, que o preconceito racial não se restringe às ruas e está presente nos algoritmos que regem as redes.

Há poucas semanas, “celebramos” o 20 de novembro – Dia da Consciência Negra – com o feito de termos eleito cinco vereadores negros para a Câmara Municipal da capital dos gaúchos, maior bancada negra da sua história. Mas o dia, que não é feriado em Porto Alegre, foi marcado por imensa tristeza e revolta. Mais um corpo negro foi abatido como um animal. João Alberto Silveira Freitas foi assassinado cruel, covarde e inexplicavelmente por dois seguranças no supermercado Carrefour.

O ano de 2020 também não foi fácil para as mulheres. A influencer Mariana Ferrer teve seu abusador, André de Camargo Aranha, absolvido diante do tribunal, e foi humilhada durante a audiência. Antes disso, uma menina de 10 anos, grávida após ter sido estuprada pelo tio, quase teve seu direito ao aborto negado por ações conservadoras comandadas pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. É inegável que vivemos uma cultura do estupro no Brasil.

A violência por parte do Estado não parou por aí. Jair Bolsonaro, em discurso na Assembleia Geral da ONU, acusou a imprensa de disseminar desinformação, principalmente em relação às queimadas na Amazônia. Essa não foi a primeira vez que o presidente proferiu ofensas à classe. Além dele, Marcelo Crivella (PRB), prefeito do Rio Janeiro, também se mostrou uma ameaça à liberdade de imprensa. 

Em outubro, o líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), defendeu uma nova constituição federal, com mais deveres e menos direitos. Na mesma época, foram anunciados pelo governo planos de parcerias privadas para o SUS (Sistema Único de Saúde). No mês anterior, o então Ministro da Educação, Milton Ribeiro, opinou que “ser um professor é ter quase que uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”. Com ataques sistemáticos a tudo que é nosso por direito, ficamos nos perguntando até quando dura a democracia neste país.

Felizmente, tivemos notícias positivas também, que nos fazem crer que essa tal de democracia ainda se faz presente por aqui. Pela primeira vez na história das eleições municipais brasileiras, eleitores e candidatos travestis e transexuais tiveram seu nome social reconhecido na votação. Foi também nesse ano que a doação de sangue por homens que têm relações sexuais com outros homens foi permitida.

Ao longo das publicações, buscamos representar e defender a diversidade do povo brasileiro nos seus mais variados aspectos. Apresentamos a problemática da proibição dos carrinheiros em Porto Alegre, que são essenciais para o funcionamento do saneamento básico e da reciclagem na cidade e, assim, têm papel fundamental na preservação do meio-ambiente. Lembramos da função dos trabalhadores da construção civil durante a pandemia, muitos dos quais continuaram trabalhando durante os maiores picos do vírus no Brasil – por falta de opção. 

Falamos em defesa de uma compreensão mais precisa sobre os Correios, que estão ameaçados de serem privatizados, e dos funcionários públicos no país e da reforma administrativa proposta. Ressaltamos a existência e a importância de agricultores familiares e explicamos como eles estão sobrevivendo durante a pandemia e discutimos a Lei Aldir Blanc e a sua relação com os pequenos artistas. Também não nos esquecemos dos pequenos com deficiência: tratamos de educação inclusiva e da nova lei proposta em relação a isso e de crianças com autismo durante a pandemia, que, como qualquer um de nós, tiveram dificuldades para se adaptar às novas impostas pelo isolamento social.

Como bons defensores da democracia que somos, fizemos, ainda, a cobertura das eleições estadunidenses, em que o então presidente Donald Trump perdeu a disputa para o democrata Joe Biden, e falamos da influência dessa decisão sobre o nosso país, assim como abordamos a corrida ao pleito municipal em Porto Alegre, ainda em curso. Repercutirmos, ainda, o plebiscito no Chile, que possibilitou a ressurgência de uma voz democrática no país latino-americano. Além disso, discutimos por meio do nosso Podcast Conversa Humanista como o jornalismo brasileiro tem agido frente às problemáticas atuais, já que também é nosso papel a autocrítica da nossa atividade.

E em tempos de pandemia, em que mais de um milhão de pessoas já perderam a vida por causa do coronavírus, não tínhamos como não falar de saúde. O tema foi recorrente em nossas reportagens e entrevistas e mostra como ainda necessita de atenção no Brasil. Trouxemos à tona uma discussão sobre a qualidade dos serviços do SUS, que surpreende positivamente e nos é motivo para orgulho. Lembramos da importância da doação de órgãos e dos cuidados necessários com o câncer de mama. Discutimos sobre a greve sanitária da educação durante o isolamento social e sobre os hospitais de campanha, novidade surgida durante a pandemia. 

Pensamos, ainda, no futuro. Quando teremos vacina contra a Covid-19? Qual é o processo para que a vacina chegue até nós? E que questões éticas envolvem o seu desenvolvimento? Buscamos responder essas perguntas e deixar o cenário atual um pouco menos nebuloso. Tentamos entender, também, como as pessoas vão estar psicologicamente quando tudo isso acabar e como elas estão recebendo apoio agora.

Mas muitas outras perguntas ainda ficam pro futuro. Não conseguimos reportar tudo que acontece à nossa volta, naturalmente – por mais que tenhamos tentado. Na impossibilidade de transformar em jornalismo todo acontecimento que o mundo plural nos oferece, buscamos produzir materiais com aquilo que consideramos mais importante para cada um de vocês, sempre prezando pela qualidade do produto.

Queríamos nós poder responder quando a pandemia vai acabar, qual a cura para o câncer ou quando não haverão mais analfabetos no país. Ou, quem sabe, entender como acabar com o racismo e saber quando será seguro para as mulheres brasileiras andarem sozinhas à noite na rua. Agora, em 2020, ainda não temos essas respostas. Esperamos, porém, que quando todas essas questões forem respondidas, o Humanista possa contá-las e explicá-las para vocês com o empenho e compromisso de sempre.

Em nosso curto semestre, de meados de agosto ao início de dezembro de 2020, almejamos fazer alguma diferença na vida de quem nos acompanha, levando questões que permeiam a nossa democracia e que põem em jogo tudo o que se entende por Direitos Humanos. Esperamos ter sanado muitas dúvidas, mas também ter criado muitas outras. Em fevereiro de 2021 serão outras mãos a escrever e pensar o Humanista, na intenção de fazer um jornalismo honesto e de qualidade.

Agradecemos o empenho de vocês, leitores, em fazer com que esse projeto continue dando certo. Temos a esperança de que, em 2021, possamos trazer mais boas notícias.


FOTO DE CAPA: Carolina Pastl

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