O Governo Biden e o Brasil: sinalizações em curso

Desde que Joe Biden assumiu a presidência dos Estados Unidos (EUA) em janeiro de 2021, as análises e percepções sobre as relações bilaterais Brasil-EUA alternam momentos de decepção, distanciamento e euforia dependendo do espectro político. Este espectro pode ser dividido em duas grandes linhas: a oposição e a situação. Em 2022, diante do contexto eleitoral no Brasil essa dinâmica parece se repetir. Entretanto, é preciso escapar destas cortinas de fumaça, por meio da compreensão destes posicionamentos e examinar as ações concretas que a gestão democrata aplica ao Brasil.
Mais do que representar o interesse estadunidense no país e na região, estas linhas representam as fraturas internas do Brasil e a forma como os EUA (e suas posições) são instrumentalizadas para garantir maior coesão a cada uma destas forças domésticas. Isso se aplica principalmente à dimensão do distanciamento que se refere às forças políticas da situação. Com a saída de Donald Trump do poder, tais forças buscam uma adaptação da agenda bilateral que concilie a manutenção de pautas essenciais à mobilização da base política do Executivo no campo social, cultural e religioso, com os demais setores econômicos nacionais. Dentre estes setores destacam-se o mercado financeiro, o agronegócio e parcelas do Ministério das Relações Exteriores que almejam um ponto de equilíbrio. Com isso, muitas vezes observa-se um descolamento de discursos, com posições não-convergentes entre o Executivo e esses outros atores.
Por sua vez, no eixo decepção e euforia, enquadra-se a agenda da oposição brasileira e de grupos de interesse tanto no Brasil quanto nos EUA que esperavam do governo democrata demonstrações de força mais incisivas, em relação às agendas de direitos humanos e meio ambiente. Ao longo de 2021, essa euforia foi substituída pela decepção, pois não se criticava abertamente o Brasil ou se promovia ações de estrangulamento. Isso não significava, contudo, que não existiam movimentações estratégico-diplomáticas norte-americanas ocorrendo. Entre julho e agosto de 2021, as visitas de William Burns da CIA e de Jake Sullivan, Assessor de Segurança Nacional ao Brasil, do alto escalão da Casa Branca, sinalizavam a relevância do país em termos geopolíticos e geoeconômicos, a despeito das diferenças.
Pautas como o 5G, energia, o avanço da China (definida em todos os documentos estratégicos da presidência Biden como uma ameaça multidimensional e a maior ao interesse dos EUA) e a dimensão securitária do país na região envolvendo a vizinhança hemisférica e o Atlântico Sul foram debatidas. Predominava, assim, uma certa inércia. Porém, em janeiro de 2022 este quadro começou a se alterar, tendo como ponto de partida a indicação de Elizabeth Bagley para Embaixadora dos EUA no Brasil.
Mantendo sua tradição de nomear pessoas de um círculo de confiança próximo e que já exerceram cargos em gestões democratas (incluindo Bill Clinton e Barack Obama), Bagley é mais um nome da “porta-giratória” Estado-companhias privadas nos EUA, atuando no setor de advocacia e telecomunicações (telefonia celular). Além disso, é uma das maiores contribuintes individuais e arrecadadora de fundos coletivos para campanhas eleitorais democratas, atuando como “bundler” [1] . Segundo o site OpenSecrets, o termo “bundler” aplica-se a pessoas que, independente de terem já contribuído individualmente até o teto limite, mantém-se ativas como captadoras de recursos adicionais para o seu partido e/ou representantes vindos de outras contribuições individuais ou de empresas.
Adicionalmente, a indicação de Bagley refletiu uma mudança de postura de Biden diante da situação do Brasil, o que gerou a euforia. Tal mudança é impulsionada por dois fatores: a proximidade do já citado ciclo eleitoral de 2022 e a deterioração das condições domésticas locais, em termos sociais, econômicos e políticos. Antes bastante discretos com relação a falas mais diretas sobre a situação do regime democrático no Brasil, os EUA iniciaram uma série de sinalizações de que o processo eleitoral e a transição de poder devem seguir o rumo previsto, em respeito às instituições e ao resultado das urnas.
Esta posição ofensiva é demonstrada por meio de três acontecimentos relacionados: a recuperação na mídia de notícias sobre a visita de Burns em 2021, no qual o chefe da CIA já teria alertado o governo brasileiro quanto ao risco do autoritarismo, as manifestações da Subsecretária de Estado dos EUA Victoria Nulland em recente visita ao Brasil sobre a importância de que sejam realizadas eleições livres e justas dentro da legalidade no Brasil e, por fim, as falas de Bagley em sua audiência de confirmação no Senado dos EUA, nas quais a futura Embaixadora sustenta o mesmo argumento de Nulland de que as eleições no Brasil serão justas e transparentes devido à força das instituições brasileiras.
Estes eventos foram mais uma vez instrumentalizados como provas da manifestação de que os EUA estariam atentos às tentativas de desestabilizar o cenário político brasileiro, e seriam uma espécie de “garantidores” do processo eleitoral. Inclusive, no eixo euforia-decepção, chegou-se a associar esta movimentação ao dossiê de abril 2022 produzido por diversas instituições acadêmicas e de classe dos dois países[2]. Este documento alerta para o risco de se repetir no Brasil um cenário similar ao da invasão do Capitólio em 06 de janeiro de 2021 e as ameaças à democracia nacional, e conclama a comunidade internacional e organismos multilaterais a acompanharem as eleições.
Independentemente deste dossiê, a visão dos EUA se solidifica por conta das questões concretas aqui apresentadas, as quais podem ser agregadas mais duas: a posição do Executivo na crise russo-ucraniana que, apesar de matizada pelo Itamaraty nas Nações Unidas com condenações às ações russas gerou, e gera, certo desconforto e a possível ausência do presidente na Cúpula das Américas a ser realizada entre 06 a 10 de Junho (lembrando que é possível também que o presidente mexicano Lopez Obrador não compareça).
A despeito de sua presença global e da imagem de que estaria “desinteressado” na região, os EUA nunca deixam, ou deixarão de estar atentos à sua zona de influência e aos riscos intra e extrarregionais que se colocam. Se a China surge como ameaça extrarregional, a instabilidade em países como o Brasil e o eventual renascimento de uma aliança de governos progressistas aparecem como problemas intrarregionais. Entre a euforia, a decepção e o distanciamento, se localiza a recente ofensiva de Biden. Afinal, pode-se sugerir que, para os norte-americanos, a situação do Brasil emerge como a pior entre estes cenários de crise institucional, mudança de linha política e/ou uma combinação de ambas as tendências.

NOTAS:
[1]OPEN SECRETS. Disponível em: https://www.opensecrets.org/search?order=desc&page=2&q=elizabeth+bagley&sort=D&type=donors e https://www.opensecrets.org/biden/bundlers. Acesso em 19 maio 2022.
[2]BBC Brasil. “Governo Biden recebe dossiê de acadêmicos com alerta de ‘versão mais extrema de ataque ao Capitólio’ no Brasil”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61267152. Acesso em 19 maio 2022..

PECEQUILO, Cristina Soreanu. ANÁLISE ESTRATÉGICA NERINT. AUSTRAL: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais, Porto Alegre, RS, v. 10, n. 21, Jan./Jun. 2022. ISSN 2238-6912. https://doi.org/10.22456/2238-6912.126529.