Acervo de História Oral • PPGBM / UFRGS Drosophila & Evolução

Rivo Reinoldo Fischer

Professor & Pesquisador Pioneiro

Rivo Reinoldo Fischer
Drosophila & Evolução
“A dedicação ao laboratório e ao ensino prático formou a identidade científica do nosso departamento.”
Registro Histórico de Depoimento

Rivo Reinoldo Fischer

Líder em genética clássica e docência experimental, responsável pela formação de centenas de biólogos e geneticistas com atuação em todo o Brasil.

Referência Bibliográfica (ABNT)
FISCHER, Rivo Reinoldo. Memórias. Depoimento concedido em sua residência à historiadora Naida Menezes.
Registro Sonoro Histórico Ouça a Entrevista em Áudio (Voz Original)
Áudio MP3
~38 min Tempo de Leitura
15 Perguntas Transcrição Completa
Porto Alegre, RS • Museu da Genética (PPGBM / UFRGS) Local & Realização
Transcrição Integral

Depoimento de Rivo Reinoldo Fischer

Registro fidedigno da entrevista oral gravada para a memória e história do PPGBM / UFRGS.

Questão 01

A institucionalização da Pós-Graduação

Rivo - Sim de uma forma incipiente, ou seja, existiam os orientadores e os alunos, mas não era institucionalizado. Então, eu acho que realmente a coisa se institucionalizou a partir de certa época. Eu sei, por exemplo, que o Israel Roisenberg, o Fernando Rocha, o Edmundo Marques e a Helga fizeram as primeiras pós-graduações na UFRGS, foram os primeiros no Departamento de Genética. Acho que haveria pessoas como o Cordeiro e o Salzano, por exemplo, que saberiam dizer quando esse pessoal cursou. Aliás, a pós-graduação eu acho que não era um curso formal, e sim um conjunto de disciplinas, de atividades de pesquisa, desenvolvimento de teses que, depois, resultavam na obtenção do título. Então é possivelmente por isso que está essa dúvida. Depois, o curso de pós-graduação se instalou com currículos e coisas desse tipo. Aí, acho que já era na minha época de mestrado. Outra coisa interessante, não sei se alguém já mencionou, é que a partir de um determinado momento, mais ou menos na década de 1970, a ênfase foi no mestrado. O doutorado era uma minoria que fazia e o doutorado direto, em princípio não existia, o sujeito fazia primeiro o mestrado, e depois o doutorado.

Historiadora – Isso na década de 1970?

Rivo - Acho que foi na década de 70. Existiu então um crescimento gradual até o momento em que a pós-graduação se institucionalizou, mas eu não sei te dizer quando ela se institucionalizou, acho que também foi no final da década de 60 ou no início da década de 70.

Historiadora – Quando a genética entra na sua história, como foi o seu caminho?

Questão 02

Formação e ingresso no mestrado em Genética

Rivo - Bom, eu me formei aqui na Unisinos em 1969, e em 1970 o Salzano ministrou um curso chamado de Curso de Pós-Graduação, que seria hoje como uma especialização, um aperfeiçoamento. Era baseado em um livro de Genética Humana e Médica do Tomphson. Então eu fui fazer esse curso e aí ouvi falar da possibilidade de fazer pós-graduação em Genética. Em 1971, eu entrei na pós-graduação em Genética, que já era um curso com um currículo mais ou menos instituído, e fiz um mestrado.

Historiadora – O senhor foi um dos primeiros alunos do mestrado, oficialmente?

Rivo - Acho que sim, mas já existia, naquele início, existia bastante alunos, não eram poucos. Até porque, todo o pessoal do Departamento de Genética, os primeiros professores, também estava fazendo mestrado ou doutorado. Então, tem pessoas já falecidas, outros que estão em atividade em outros locais, outros já aposentados. Eu não sei se falaram com a Margarete…

Historiadora – Sim.

Rivo - A Margarete foi um dos primeiros doutorados.

Historiadora – Ela foi o primeiro mestrado.

Rivo - Mestrado? Mas ela logo em seguida começou o doutorado. Acho que o Fernando também, o Israel, a Helga. A Helga acho que fez doutorado na pós-graduação em Genética… Como eu te disse, não existia uma instituição formal chamada Curso de Pós-Graduação, Curso de Mestrado em Genética, curso de Pós-graduação em Genética, isso surgiu ao longo desse processo, foi um interesse possivelmente despertado pelo próprio Ministério de Educação nesse sentido, a própria UFRGS a partir de um determinado momento passou a estimular a realização de pós-graduação. Então, eu terminei o mestrado, na verdade eu terminei a parte da tese em 1972, aí em 75 eu apresentei a dissertação de mestrado.

Historiadora – E sobre o que era?

Questão 03

Currículo, laboratório e seminários

Rivo - Era sobre detecção de heterozigotas em hemofilia tipo A.

Historiadora – E como era o mestrado, o dia-a-dia de vocês… Como eram os estudos?

Rivo - Pois é, não existia um grupo formal. Na verdade, o orientador montava um currículo de modo que fosse o mais interessante para se acompanhar a pesquisa, a dissertação, e um futuro interesse em lecionar, em fazer pesquisa, coisas desse tipo. Hoje, existe mais ou menos um currículo formal que o aluno tem de cursar para fazer o mestrado, para fazer o doutorado, tem de completar um número X de créditos. Os créditos eu acredito que já existiam, mas sem uma grade de disciplinas completa, e o resto do tempo era estudo e pesquisa, basicamente, como no meu caso, muito trabalho de laboratório. Eu testava, tirava sangue das supostas portadoras para verificar se eram ou não portadoras de hemofilia.

Historiadora – Existiam uns seminários, o pessoal comenta… Como eram?

Rivo - Existiam os seminários de Departamentos, eram do Departamento e da Pós-graduação porque os dois cresceram juntos. Depois, quando o curso se tornou um curso institucionalizado eles passaram a ter sempre uma existência paralela, o curso de pós-graduação sempre funcionou dentro das dependências do Departamento de Genética.

Historiadora – Os professores eram do Departamento?

Questão 04

Intercâmbios e congressos de Genética

Rivo - Muitos professores eram da pós-graduação e da graduação também, como hoje em dia continua sendo e… Voltando a pergunta…

Historiadora – Seminários…

Rivo - Ah sim, sobre os seminários… Os seminários eram basicamente relatos dos trabalhos de dissertação ou de teses que os alunos estavam fazendo ou de alguma pesquisa inédita que os orientadores estavam fazendo ou um relato de pessoas que vinham com curso de pós-graduação, pós-doutorado, por exemplo, relatando suas experiências em outros locais e também relatos de pessoas de outras instituições que vinham para bancas de defesas de teses, coisas desse tipo. Era um programa interessante porque nós conhecíamos todos os trabalhos que estavam em execução, e a partir de um determinado momento em que a coisa começou a ficar muito volumosa e as pesquisas muito especializadas… Então, para fazer um seminário, até o autor situar os ouvintes naquele assunto demorava muito. Na maioria das vezes, ou muitas vezes nós saíamos tendo entendido muito pouco do assunto em geral.

Historiadora – Claro, foi ficando mais especializado.

Rivo - É, muito especializado.

Historiadora – Existiam visitas, não é? Vocês faziam intercâmbios…

Rivo - Existia bastante intercâmbio, não sei como é que está agora, mas no início muitas pessoas vinham de fora para desenvolver estudos, para trabalhar com materiais locais. Vinha pessoas de outras universidades do Brasil ou do exterior. Era um convívio muito interessante porque trocávamos muitas experiências e aprendíamos muitas coisas.

Questão 05

Bolsas, iniciação científica e formação de pesquisadores

Historiadora – E vocês também participavam de seminários? O senhor lembra de algum que tenha participado fora de Porto Alegre?

Rivo – Ah sim, certamente. Era quase obrigatório ir todos os anos ao Congresso Nacional de Genética, que era realizado, inicialmente, junto com o Congresso da SBPC, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Eram congressos enormes, e depois de certa época, mais na década de 90 creio eu, aí foi que a Genética resolveu separar seus congressos do congresso da SBPC. Ambos ficaram muito grandes, tanto a SBPC ficou muito diversificada, com muitas sociedades, como o curso de Pós-Graduação em Genética e o departamento de Genética também cresceu muito, a Sociedade Brasileira de Genética também cresceu muito.

Eu me lembro que quando organizamos em 1999, aqui em Gramado, o grande problema era onde achar um espaço suficientemente grande para exposição de painéis. Tinha de ter lugar para posters de todos os trabalhos apresentados, no fim terminamos fazendo na rua coberta de Gramado, de tanto lugar que era necessário. Eu me lembro que foi uma noite muito fria, porque apesar de ter sido em outubro ainda estava frio e o pessoal quase congelou naquela rua coberta e nós totalmente desprevenidos.

Historiadora – E às vezes vem um pessoal lá de cima…

Rivo - Vinham pessoas totalmente desprevenidas, apesar de termos avisado sobre a possibilidade, mas ninguém nem nós esperávamos que fosse baixar tanto a temperatura, esperávamos uma temperatura em torno dos 15º a 20º porque já era plena primavera.

Historiadora – O estudante de mestrado já tinha bolsa no começo da década de 1970?

Questão 06

Coagulação sanguínea e o laboratório de referência

Rivo - Tinha bolsa do CNPq, principalmente, e da FAPERGS. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul estava iniciando com bolsas. A Fundação acho que é bem anterior, mas, começou a crescer, tendo mais atividades, e passou a ter mais atenção do governo estadual por aquela época. Então, também se conseguia bolsas da FAPERGS, e a própria UFRGS sempre estimulou, através das pró-reitorias de pós-graduação, sempre estimulou muito a pesquisa, tanto na graduação, como na pós-graduação, assim se conseguia verbas para alunos de graduação iniciar já as suas pesquisas. Era mais ou menos com é hoje, o aluno quando entra, se tem vocação para pesquisa, ele pode se associar a um laboratório, a um departamento, a um curso de graduação e já começar. Até mesmo porque ele vai ter de apresentar uma dissertação de bacharelado ou de licenciatura.

Historiadora – Quando o senhor começou a trabalhar no laboratório, lá na UFRGS?

Rivo - Como professor?

Historiadora – Não, ainda não. Quando o senhor começou a fazer o mestrado, tinha alguma diferença do trabalho que o senhor já conhecia aqui da Unisinos? Como foi esse início? Como era o laboratório no Edifício Godoy?

Rivo - Sim. Nessa atividade de pesquisa em coagulação sanguínea em nível de pós-graduação,acho que o Israel foi pioneiro. Claro que existia o laboratório de hematologia, mas posso dizer com orgulho que pesquisas em coagulação especificamente no nível que nós fazíamos durante certa época, nós éramos os únicos. Então éramos um centro de referência em casos de problemas hereditários de coagulação que começou com a tese do Israel que foi em Hemofilias. Ele fez um levantamento de todos os casos de hemofilia. Nós éramos um centro de referência, e todos os médicos hematologistas, quando tinham alguma dificuldade de diagnóstico ou queriam caracterizar bem o diagnóstico, acabavam nos encaminhando os casos.

No final disso, nós tivemos, não sei como está atualmente, nós tivemos um acervo de praticamente todos os casos de coagulopatias ou doenças hemorrágicas hereditárias do estado do Rio Grande do Sul e de boa parte do país, ou do sul do país. Não tanto em quantidade, mas em tipos de hemofilias, dedoença de von Willebrand, e depois eu me dediquei a isso e de casos de doenças hemorrágicas hereditárias, mais raras. Antes de ser possível fazer estudos em nível molecular, era em nível gênico…

Historiadora – Gênico?

Questão 07

Docência, Santa Maria e ingresso na UFRGS

Rivo - É, no nível de gene, de molécula. Naquela época, era tudo feito com base em testes de laboratório de coagulação e esse laboratório de coagulação nós tínhamos muito bem desenvolvido, trabalhávamos com um bom nível.

Historiadora – E vocês tinham parceria com médicos ali da Santa Casa?

Rivo - Não era uma parceria formal, era uma parceria através do conhecimento, quer dizer, assim:

– Quem é que pode me diagnosticar tal caso? Eu tenho um caso em que suspeito que seja isso ou aquilo.

– Manda lá para a Genética.

Assim que foi acontecendo. Claro que Porto Alegre era o principal centro de encaminhamento, mas era de todo o estado. Porque onde tinha um hospital universitário, um centro, um hematologista que trabalhava em um nível mais especializado, ele acabava nos encaminhando os casos, e nós tínhamos um nível de sucesso de diagnóstico bastante elevado.

Historiadora – E depois do mestrado, como foi o seu caminho?

Rivo – Eu terminei o mestrado e já lecionava na Unisinos, mas lá na Unisinos eu lecionava uma disciplina de Genética, porque só tinha Genética no curso de Biologia. Lecionávamos eu e a Professora Helena Dill, a Helena também fez pós-graduação lá na Genética, o mestrado e depois o doutorado. Então, eu terminei o mestrado em 75, mas já estava com a dissertação pronta antes, no fim de 1974 já estava tudo pronto.

Em 1975, lá no primeiro semestre, foi no início, surgiu uma vaga em Santa Maria e eu fui para lá, fomos minha mulher e eu. Nos mudamos, pela distância tinha de ser, e eu trabalhei lá até 1980, acho que em1979 eu tinha feito concurso aqui na UFRGS e eu e outros colegas, fomos aproveitados, em 1980 viemos de volta.

Questão 08

Edifício Cândido Godoy e mudança para o Campus do Vale

Historiadora – E aí o senhor entrou como professor?

Rivo - Entrei como professor assistente.

Historiadora – Quando o senhor voltou o que notou de diferente? Como estava o laboratório, a própria estrutura?

Rivo – Bom, o laboratório, já na época em que eu fazia o mestrado, as instalações eram muito pequenas porque nós ocupávamos três andares do Edifício Cândido Godoy, ali na frente da Santa Casa. Pelo número de pessoas que existiam lá dentro, mais as drogas, mais toda aquela parafernália da cozinha de Drosophila para fazer meio de cultura, as câmaras de Drosophila. O pessoal dizia assim: “Trabalhando aqui, depois se acostuma a trabalhar em submarino, de certo”! Era tudo com espaço contado, mas dava para trabalhar. E depois então, na década de 90, mais especificamente no ano de 1990, nos mudamos para o Campus. Ali, cada chefe de grupo pôde escolher um espaço para fazer o seu laboratório, com todos os móveis e instalações que também foi possível conseguir, e nós ficamos bem acomodados. Claro que, no fim, o espaço acaba ficando insuficiente porque vai crescendo, vai adquirindo mais equipamentos, equipamentos que nem se imaginava surgiram nesse meio tempo e tudo o mais. Então, até o momento em que eu saí, nós nunca estivemos apertados como era ali na Genética do Cândido Godoy. Mas, já podia existir mais espaço, tanto que logo em seguida, pouco tempo depois da minha saída, eles construíram aquele outro prédio, que é transversal ao mais antigo. Não sei como está lá, mas imagino que já tenha gente reclamando de falta de espaço também. A coisa cresce, não é?

Historiadora – Ouvi falar que era famoso o intervalo de vocês, o pessoal lembra com carinho…

Rivo - O momento do café realmente era um momento… Principalmente lá no Cândido Godoy, porque ali, como estava todo mundo bem próximo, o pessoal convergia todo para uma mesma sala, mesmo porque a sala de aulas e de seminários era uma só e o café era lá mesmo. Então, muitas vezes os alunos estavam tendo aulas e já ficavam lá, todo mundo para o café. Era uma turma grande que tomava café e conversava sobre vários assuntos, geralmente não eram assuntos sérios, científicos, eram mais piadas, brincadeiras e troca de ideias. Às vezes ficava sério o assunto, mas não era o momento de falar sobre ciência, era um momento de espairecer, refrescar as ideias. Mas o Salzano estava junto, então era uma coisa cronometrada, daqui a pouco: “Terminou o café”. Terminou, todos iam embora, faziam uma cara séria e iam embora, mas era muito divertido.

Depois, lá no Campus foi interessante, porque a coisa diminuiu de intensidade. Tinha uma sala de reuniões e de café, mas o pessoal, por exemplo, do andar de cima, que era a parte mais de Genética Animal, Vegetal e das Drosophilas, o pessoal não descia. Não sei se era porque era frio no inverno e tinham de sair, para sair do prédio tinha que descer a escada ao ar livre e o pessoal não vinha mais. Então, ficou mais ou menos só o grupo do andar de baixo fazendo o seu café, o grupo do andar de cima, se tinham um horário de café, não sei onde se reuniam. Aí a coisa foi meio que se esvaziando, e também porque cresceu muito, com certeza nessa época mais recente, se fossemos colocar todos na sala do café não caberiam.

Historiadora – Eu observei quando estava lá no Campus… Chega certa hora, entre 15h e 15h30min, sempre chegam umas duas ou três pessoas na sala do professor Salzano, o convidam para tomar café e vai um grupinho lá no bar. Mudou um pouquinho o ritmo, mas continua o café.

Rivo - Para fazermos isso lá no Centro, teríamos que descer de elevador, ir até um bar na rua e voltar. Naquela época, não tinha na rua, em Porto Alegre, o movimento que tem hoje, mas ia ser muito mais trabalhoso. Então o café era feito lá mesmo, o pessoal do andar de cima era geralmente quem fazia. Depois compraram uma máquina de fazer café, essas máquinas de bar porque realmente eu acho que a quantidade de café que ia era muito grande, mas era um momento de muitas trocas de ideias, muita alegria, ficávamos muito alegres, saíamos de lá sorrindo e comentando.

Questão 09

O café e a convivência no Departamento

Historiadora – Sim, imagino.

Rivo - O café era às 16h, acho que das 16h às 16h30min, com horário fixo. É interessante porque parecia uma coisa combinada, ninguém dizia nada, mas quando o Salzano levantava todos levantavam, sabiam que era 16h30min.

Historiadora – Bom, a sua relação foi mais com o professor Israel?

Rivo – O Israel era meu orientador, foi meu orientador do mestrado e no doutorado, e também era o chefe do grupo. A pesquisa em coagulação começou com ele e depois fomos desenvolvendo isso.

Historiadora – Como era a rotina com o professor Israel?

Rivo - O Israel não tinha rotina, era muito bom de trabalhar com ele porque nós nos entendíamos muito bem. De vez em quando tínhamos “uns pegas” de discordância de opinião, mas o Israel sempre foi uma pessoa muito acessível, muito boa de trabalhar, íamos lá e fazíamos o que tinha de ser feito.

O atendimento ao pessoal que vinha de fora fui mais eu quem organizou. Nós tínhamos um dia de coletas e execução dos testes, porque na coagulação temos que trabalhar com um material, que é o sangue, depois separar o plasma, sempre sob refrigeração e o mais breve possível, porque existem fatores de coagulação que se deterioram muito rápido à temperatura ambiente. Tínhamos que preparar toda uma parafernália de tubos para coletar, já planejar toda a quantidade de reagentes que precisaria e fazer todos os testes naquele dia. Então, não podia ser gente demais, porque podia não dar para terminar os testes naquele dia; e nem gente de menos, porque ficaria anti-econômico preparar os reagentes e depois não usar tudo.

No começo, existia uma dificuldade muito grande. Todas as pipetas de material, que eram de vidro, e de aspirar. Então, se tu tinhas dez amostras de plasma, tinha dez pipetas lá dentro. Às vezes, tu não sabias mais se a pipeta era daquele ali ou não, e tinha que descartar e pegar outra, era um trabalho! Depois, quando surgiram as micro-pipetas que usam com uma ponteira de plástico descartável, aí ficou mais fácil. Isso já foi posteriormente. Ficou mais fácil porque tu deixavas só a ponteirinha dentro do material e ia trabalhando, e ia trabalhando com a mesma pipeta.

Questão 10

Israel Roisenberg e a rotina do laboratório

Então, o trabalho ficou mais facilitado, o trabalho do laboratório já aqui no Campus do Vale, no momento em que conseguimos adquirir um freezer a menos 80ºc. Nessa temperatura o plasma se conserva por longos períodos, então não estávamos mais tão escravizados pela necessidade de fazer os testes de laboratório imediatamente, podíamos colher várias amostras ao longo da semana e depois fazer em um dia ou dois dias, descongelar o plasma e fazer os testes. Isso foi um avanço. E por que não se fez isso antes? Porque antes do governo Collor essas coisas eram muito difíceis de importar, e a partir daquele momento houve certa abertura. Por causa dessas restrições esse tipo de freezer, que já existia no exterior, mas acho que não existia no Brasil, era muito caro. Acredito que hoje já se fabrique no Brasil, mas esse que nós tínhamos ainda era importado.

Historiadora – Então chegou uma determinada época em que vocês conseguiram esse freezer? Era financiado pelo CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) ou pela própria UFRGS?

Rivo - Sim. Existia um projeto da Genética com o qual conseguimos uma verba bastante grande na década de 90. Não me lembro em que ano foi, mas a partir dali foi possível comprar bastante equipamentos novos. Tínhamos, ainda, lugar sobrando no laboratório novo, isso foi um avanço grande no nosso trabalho, facilitou muito, facilitou essa questão de dependência de tempo, de urgência de tempo, porque se tu estavas com o material coletado ou testavas naquele dia, ou perdias. Então tinha de ir testando até conseguir todo o resultado.

Historiadora – E para a coleta, as pessoas iam até o campus?

Rivo – As pessoas iam ao campus, adultos principalmente e algumas crianças. Conforme a idade das crianças nós conseguíamos coletar, e quando não conseguíamos, porque eram pequenas ou tinham uma veia muito difícil, nós solicitávamos às pessoas para que fossem a um hospital. Aí sim, já existia uma combinação entre coletadores e os hospitais, que também tem coletadores especialistas em crianças, porque são coletas mais difíceis. Então eles coletavam para nós.

Historiadora – Agora, esse trabalho específico não é mais feito ali no Campus?

Rivo - Não sei, aí terias que perguntar para a Eliane Bandinelli se eles estão fazendo ainda, é possível que sim. Mas não sei se o Departamento conseguiu preencher todas as vagas, mas eu sei que a partir de uma determinada época vários professores se aposentaram e não houve reposição. Um departamento que tinha sempre 30, 31, 32 docentes ficou com bem menos, porque no serviço público acontece uma coisa: os concursos não são feitos à medida que alguém se aposenta, sempre tem essa restrição. Então, junta um monte de vagas e aí abre um concurso, e tem que preencher todas aquelas vagas e o pessoal entra em levas. Quando entram são vários juntos, e na hora de se aposentar a tendência é vários se aposentarem em tempos muito próximos uns dos outros, e aí fica aquela defasagem.

Historiadora – Em relação aos funcionários que trabalhavam nos laboratórios e na parte burocrática, de quem o senhor lembra? Na década de 1970, 1980…

Rivo - Na década de 70, 80 nós tínhamos a Ana Maria Braga, é o mesmo nome da apresentadora, tinha a Nena Morales, a Neiva, esposa do Girley. O Girley era o assessor do Salzano, o seu braço direito, e a Neiva trabalhava nas Drosophilas,lá em cima. Tinha a Dona Jura, que também trabalhava lá em cima, e tinha uma outra que entrou um pouco depois, não recordo o nome agora.

Questão 11

Equipamentos, coleta de sangue e avanços técnicos

Historiadora – E a Neiva e o Girley, o senhor sabe onde eles moram?

Rivo - A Neiva é falecida e o Girley estava morando em Santa Catarina, parece que voltou para Porto Alegre, ali para a Cavalhada, não sei exatamente.

Historiadora – Se o senhor descobrir me avise.

Rivo - Mas eu acho que no Departamento deve ter registros, na Secretaria do Departamento… Mas não existe mais Secretaria do Departamento, aliás, isso foi uma pena, ela foi juntada com as outras secretarias lá no Instituto de Biociências, mas lá devem existir documentos da época do Departamento.

Historiadora – Pois é, tem a Secretaria da Pós-graduação ali com o Elmo.

Rivo - O Elmo é secretário da Pós-graduação e a Secretaria do Departamento era do lado, naquela portinha do lado, e a plaqueta essa que eu te falo do cinquentenário estava entre as duas secretarias, na parede, e todo esse pessoal continua, mas a Secretaria do Departamento de Genética foi lá para o Instituto de Biociências. Agora, o que eles fizeram com o material, se realmente não colecionaram, isso é uma pena, aí realmente grande parte do acervo do Departamento fica perdido.

Historiadora – Porque, por certo, a estrutura física era o Departamento de Genética…

Rivo - Era o Departamento de Genética, um órgão que administra o Departamento de Genética, então ele tem sob a sua responsabilidade as aulas de graduação, os cursos de graduação é o órgão de lotação dos professores, onde os professores se situam. Já o curso de Pós-Graduação é sediado no Departamento, tem uma secretaria e tem uma sala de aula ou salas de aula para ministrar os cursos e um secretario que administra a secretaria e dispõe sobre toda a documentação. No caso aqui existia uma associação muito grande entre o Pós e o Departamento, porque o curso usava a infra-estrutura do Departamento, e a maioria dos professores do Curso de Pós-graduação eram lotados no Departamento de Genética. Já o Departamento de Genética tinha também uma atividade acadêmica que era a graduação, fornecia aos professores os cursos de graduação e fazer parte do Conselho de Curso de Graduação em Biologia.

Questão 12

Docentes, funcionários e memória administrativa

Historiadora – E no final da década de 1960, início de 70, surgem os institutos…

Rivo - Isso aí é o seguinte: a UFRGS nunca adotou por inteiro a Reforma Universitária dos anos 70, que criou os departamentos e os institutos. Então, o que acontecia antes? Existiam as faculdades, por exemplo, a Faculdade de Odontologia. O que era a Faculdade de Odontologia? Era um prédio, um corpo docente, um corpo funcional e uma infra-estrutura que existia em função do curso de Odontologia, quer dizer, a razão de ser da Faculdade de Odontologia era o Curso de Odontologia. A Faculdade de Veterinária tinha o Curso de Veterinária e assim por diante. Com o correr do tempo, foi feita essa reforma de ensino porque eles chegaram à conclusão de que isso estava acarretando um isolamento dos docentes então, por exemplo, o professor de Genética do Curso de Medicina não conhecia o professor de Genética do curso de Odontologia, não conhecia a professor de Genética da Faculdade de Veterinária e assim por diante. Então, o espírito da Reforma foi criar um departamento que reunisse todos os professores de uma mesma disciplina, que lotasse todos eles no departamento, e que fornecessem as instalações para eles trabalharem em pesquisas e eles então iriam lecionar nos cursos.

Historiadora – Mas antes disso, tinha a Faculdade de Filosofia, porque a Biologia estava dentro da Faculdade…

Rivo - Eu estou falando da Universidade em geral. A Faculdade de Filosofia era uma das faculdades como tantas outras, mas ela não tinha só o curso de Filosofia, a área de História Natural também fazia parte da Faculdade de Filosofia. Em outros países existem as faculdades de Humanidades e Ciências que seriam o equivalente à Faculdade de Filosofia, não sei por que surgiu o nome Filosofia como prioridade, são especializações derivadas do ato de filosofar, deve ser isso. Então, na Reforma eles criaram os departamentos, que seriam os locais de lotação dos professores afins, da mesma especialidade, de lotação, de realização de pesquisas e de ministração de aulas. Essas aulas, tanto podiam ser dadas em salas de aula que o departamento tivesse, como em salas de aula que o curso tivesse. Então por exemplo, estava falando de Santa Maria, lá era assim: quem tinha as instalações para aulas era o curso, então o professor ia dar aula naquele curso se ele fosse designado para aquele curso. Quem tinha as instalações, a administração, os laboratórios, era o Departamento. Ao mesmo tempo, os departamentos afins foram reunidos em institutos ou centros. Lá em Santa Maria eles chamavam centros, Centro de Ciências Naturais, Centro de Ciências da Saúde, Centro de Ciências Rurais e Agrárias, Centro de Ciências Humanas e assim por diante.

Historiadora – E lá, no caso, a Biologia entraria no Centro da Saúde?

Rivo – A Biologia entrava no Centro de Ciências Naturais e Exatas. Era praticamente o que antes era a Faculdade de Filosofia, mas havia vários cursos ligados a esse Centro. Os cursos pertenciam aos Centros. Em Porto Alegre, a UFRGS nunca aderiu completamente porque ela manteve várias faculdades: Arquitetura, Farmácia, a Faculdade de Medicina, que foi desfeita e agora foi refeita lá do lado do Hospital de Clínicas.

Na verdade, há uma tendência da UFRGS de manter ou voltar ao regime das Faculdades, mas aí já começa a confusão porque, por exemplo, o Instituto de Biociências tem vários cursos e existem outros também que tem vários cursos, e aí também não contemplava a pós-graduação.

Historiadora – No caso a Pós-graduação em Genética sendo ligada ao Departamento de Genética, ela faz parte do Instituto?

Rivo - Exatamente, o curso de Pós-graduaçãoem Genética pertence ao Instituto, não existe um vínculo de subordinação entre o Instituto e o Departamento, eles simplesmente coexistem, mas o curso tem o seu coordenador, tem a sua secretaria e usa as salas de aula que tanto poderiam ser no Departamento de Genética como em outros locais. Os grupos de pesquisa, que têm docentes vinculados à pós-graduação, têm geralmente as pesquisas dos orientados realizadas naqueles laboratórios do Departamento. Mas poderia ser em outro departamento, tanto, que houve várias teses e dissertações desenvolvidas no Centro de Biotecnologia, porque o orientador era do Centro de Biotecnologia. Existiu uma época em que o Curso de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular abrangia também os docentes da Biotecnologia, hoje são cursos separados.

Questão 13

Departamento, Pós-Graduação e estrutura universitária

Historiadora – O próprio nome da pós-graduação: Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular.

Rivo - Mas hoje eles se separaram, eles formaram um curso de pós-graduação independente na Biotecnologia.

Historiadora – Sim, está separado.

Rivo - Está separado o curso de Biotecnologia.

Historiadora – Sobre o início, as origens da Genética, o que ficou na sua memória?

Rivo – Bom, as histórias que eu ouvi contar… Eu acho que é a mesma que o Fernando te disse. O Cordeiro foi o pioneiro, depois veio o Salzano, que me parece foi aluno do Cordeiro. O Cordeiro queria um lugar para a pesquisa, aí o pai do Fernando que era o Eloy José da Rocha, me parece que na época era diretor na Faculdade de Direito, cedeu lá no porão da Faculdade de Direito para o Cordeiro colocar as instalações. Existia até uma foto, que eu não sei se está com a Biba ou com quem ficou, existia uma foto do porão. Foi quando o Cordeiro começou a reunir gente, o primeiro a ir com ele acho que foi o Salzano, e aí o Cordeiro foi fazer doutorado. Depois o Salzano foi fazer doutorado em São Paulo, acho que os dois fizeram na USP. A partir dali, a coisa foi se diversificando, mas eu não sei quem entrou quando. Eu sei que logo em seguida vieram a Helga e o Edmundo Marques, e depois o Israel. Então realmente a história começa em… 1999 menos 1950, quanto dá?

Historiadora– 1940.

Rivo - Década de 40, 1949. A coisa foi indo, e na década de 50, eles começaram a formar o grupo inicial, que é essa primeira geração que tu já sabes. Eu seria de uma segunda geração. Eu sei que dali eles foram para o Biociências, mas ainda não era Departamento, se chamava Secção de Genética. Ouvi contar que, depois, a Secção de Genética foi lá para o Cândido Godoy. Quando eu comecei a frequentar lá ainda tinha uma placa na porta: Secção de Genética. Mas eu acho que logo em seguida foi criado o Departamento de Genética.

Historiadora – Mas nas aulas para o curso de Biologia os professores iam até…

Rivo – Eles iam até o Biociências para dar aulas, não só para o curso de Biologia, mas quando veio a Reforma começou a ter Genética… Interessante que não veio nenhum professor de Genética de fora, de outras faculdades da UFRGS. Os professores de Genética eram os que estavam lá no Departamento, aí tinha na Medicina, na Odonto, na Farmácia e tinha na Enfermagem, além da Biologia. A Biologia tinha várias disciplinas: Evolução, Genética Geral, e outras Genéticas. Então, eram cinco cursos atendidos, e hoje eu não sei, mas deve ter aumentado porque tem a Biomedicina e outros cursos criados depois. Psicologia eu sei que agora tem Genética e assim por diante. Isso é o que eu sei daquela época, não sei se querias saber algum detalhe.

Historiadora – Era isso aí, é bem como o pessoal comenta, começou com o Cordeiro lá nos porões…

Questão 14

Reforma Universitária, institutos e cursos

Rivo - Não se sabe uma data específica de fundação, vamos dizer assim uma fundação formal, do Departamento de Genética, ou do Curso de Pós-graduação ou mesmo do laboratório de Genética lá do Cordeiro, as coisas foram acontecendo naturalmente. Deve existir o Diário Oficial da União criando pelo menos o Departamento, ou dentro da UFRGS, não sei se precisa ser publicado em Diário Oficial a criação de um departamento ou se a própria universidade pode criar e depois publicar isso como um todo.

É como eu te disse, não era institucionalizado, a Pós-graduação era uma coisa formada, apresentada a partir da realização de um determinado número… Acho que naquela época nem existiam créditos porque os cursos eram sequenciais, esse negócio de créditos surgiu depois. Então, o sujeito fazia determinados cursos, fazia a tese e defendia a tese perante uma banca de doutores, e aquilo tinha valor perante a universidade, que é o órgão adequado para avalizar um título de doutor. Então quando estamos falando da institucionalização do curso de pós-graduação, estamos falando do momento em que foi criado formalmente aquele curso, com o nome de curso de Pós-graduação em Genética e publicado no Diário Oficial.

Historiadora – Tinha de seguir o mesmo roteiro dos outros cursos eu acho…

Rivo - É, existiam regras, regimentos e tal, acredito que sim. Na verdade isso aí também foi uma coisa gradual em nível de país, foi evoluindo, no início a ênfase era formar bastante mestres para trabalharem em pesquisa e ensino, depois começou a mudar essa tendência, já nos meados da década de 70, eu acredito, mudar essa ênfase para doutorado.

Na verdade eu sei mais sobre o Departamento do que sobre a Pós-graduação porque no Departamento eu fui chefe duas vezes, uma na época da mudança e uma em 99. Na época da mudança eu me lembro da trabalheira que deu para instalar o pessoal no Campus, embora chegássemos num prédio novinho, todo limpinho, tudo pintadinho existiam muitas coisas. O nosso maior problema foi a falta de telefone. Bah! Foi um inferno no começo. Tivemos que arranjar uma telefonista porque era um departamento com um ramal de telefone, aí chamava o sujeito ele estava lá embaixo no outro andar. Como ia localizar? Depois foi desenvolvido um sistema de telefonia bem como está hoje, com ramais, aí acabou o problema, cada um tinha acesso ao telefone da sua sala, não tinha mais de chamar quem não atendia, mas isso não foi obra minha, foi a Universidade quem instalou. Uma coisa que foi iniciada quando eu estava na chefia, ainda, foi a rede de computadores.

Historiadora – Quando foi isso, em 90?

Rivo – Pois é, acho que foi no meu segundo mandato, em 1998, 1999, acho que 90 é muito cedo. Aquilo ali foi muito útil, hoje tem Weirelesse tudo mais, não teria necessidade daquela instalação, mas na época foi muito útil e inclusive na época algumas pessoas foram contra, acharam que aquilo ali não servia para nada. É interessante como as coisas evoluem. Lembro que logo no início do uso de computação o pessoal estava discutindo se ter um computador por departamento não era um exagero, no início o Departamento era compatível com um computador, aí sim quatro ou cinco anos depois cada um tinha o seu. Tanto que a rede essa que foi instalada foi suficiente por dois anos no máximo, no quarto ano já não existiam mais pontos para ligar o computador. Hoje deve estar tudo resolvido, o sistema Wireless permite várias ligações.

Outra satisfação que eu tive foi o 45º Congresso de Genética que nós fizemos aqui em Gramado para comemorar o cinquentenário de fundação do Departamento. Fundação entre aspas, porque é como já discutimos, desde o surgimento do laboratório do Cordeiro lá no porão da Faculdade de Direito até 1999 se passarem 50 anos.

Historiadora – Foi quando começaram as pesquisas em Genética, foi com o Cordeiro…

Questão 15

Origens da Genética na UFRGS

Rivo - Isso é outra coisa… Na verdade nós temos de lembrar que a Genética é uma ciência muito recente, foi desenvolvida praticamente no início do século XX para cá. Antes, existiam os trabalhos do Darwin e o trabalho do Mendel. O trabalho do Darwin era muito questionado no início, principalmente por causa dos aspectos religiosos, e o trabalho do Mendel não obteve muito atenção até o início do século XX. Na verdade, o desenvolvimento da Genética hoje teria 110 anos e olha o caminho que já foi percorrido.

Historiadora – O professor Cordeiro começando na década de 40… Era recente no mundo inteiro na verdade…

Rivo - Sim, tanto que ele trouxe para cá, para Porto Alegre, para o Rio Grande do Sul, um dos maiores geneticistas que já existiu, falecido claro, que era o Theodosius Dobzhansky , que os ajudou. E tiveram vários outros, sempre que citamos alguém temos que cuidar para não cometermos injustiças, pode ficar alguém de fora, e isso é um perigo, mas o Dobzhansky, junto a outros, é que orientou o estabelecimento da parte de Drosophila, tanto que o Salzano no começo, se não me engano foi drosophilista. Ele começou com Drosophila, também. Ele conta que, depois, foi se dirigindo para a área humana, que era uma área também totalmente carente. Bom, toda a Genética, na época, era baseada em evidências e resultados, quer dizer, se tal coisa for verdade, então tem que dar tal proporção matemática. Era assim, era dedutivo o método. Hoje não, hoje já se pode analisar diretamente um gene, uma proteína e vários aspectos do funcionamento do mecanismo que leva da sequência de DNA até a produção de uma proteína e o funcionamento dessa proteína. Mas, no começo até, eu diria assim de modo geral, até a década de 1980, a Genética era feita com base em métodos empíricos, tu não vias aquilo com o que estavas trabalhando, tu vias os resultados, mas não o material.

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