Historiadora – Quando foi para o Campus o senhor chegou a acompanhar?
Legoy – Sim, eu me aposentei lá no Campus. Em 1992, já estava lá há uns 10, 15 anos. Eu acompanhei, levei minhas tralhas para lá.
Historiadora – A professora Margarete comentou que eles ajudaram a fazer a planta do prédio e que depois os arquitetos fizeram o contrário.
Legoy – Os arquitetos tinham uma ideia na cabeça e fizeram o que eles quiseram. Aí saiu esse absurdo ridículo que é um prédio que não tem banheiros. Isso é uma coisa que só arquiteto mesmo, com o devido respeito pela profissão. Um gênio que faz Brasília não como cidade, mas como monumento.
Historiadora – O que mudou vocês indo para o Campus?
Legoy – Mudou que o espaço desde o início era apertado. Quando a gente se mudou lá para o Cândido de Godoy, no início até dava, depois rapidamente foi ficando apertado, no fim era até perigoso, porque era tanta ligação elétrica que eles vinham lá e não sabiam por onde começar quando precisava fazer um conserto. Tinha câmara fria, tinha aparelhos disso, aparelhos daquilo.
Então no Campus se teve uma abertura, um espaço com possibilidade de expansão. Apesar de que alguns vícios se perpetuavam, nisso que eu falei. Os caras, não adianta, eles têm uma ideia na cabeça e… Seja como for, está se fazendo, continuam fazendo, estão publicando, publicações de níveis internacionais.
Eu me lembro de jovens que entraram lá, que começaram, por exemplo, o meu amigo, eu não sei se está vivo ou se continua hospitalizado, o Israel Roisenberg, que foi orientado pelo Salzano e que começou o estudo da coagulação sanguínea no Rio Grande do Sul. O estudo de hemofilia foi ele que começou. Cada estudante que vinha foi praticamente o pioneiro de sua área. Pessoas que estudaram variantes de proteínas. Eu me lembro quando houve a descoberta da hemoglobina Porto Alegre, uma nova hemoglobina, não sei se o Salzano te falou. Por quê? Porque se tinha a técnica que foi introduzida pelo Tondo. E usando uma técnica que não era apropriada! Tinha que ter um olho muito bom, conhecer muito bem para: “Olha aí! Aqui tem uma variante desconhecida!”. Era uma faixa estreitinha que saía, que não coincidia com o resto, e o Tondo identificou. Então daí saiu uma nova hemoglobina, Porto Alegre.
Mas foi graças a coleta em populações negras de Porto Alegre que o Salzano fazia, porque geneticamente era mais interessante. Foi em um desses orfanatos, não sei se era no [Pedro] Chaves Barcelos, que tinha uma fileira de moças, meninas negras, mulatas, mas tinha uma que era branca, e essa aí estava em um canto. O Girley que estava fazendo coleta, menos a dela, pensou: “Ah! Vou coletar nessa também, para ela não se sentir excluída”. Pois foi nessa é que encontraram a hemoglobina Porto Alegre, que hoje se encontra em várias famílias, mas na época era desconhecida no mundo. Teve o nome hemoglobina Porto Alegre por causa disso, foi uma variante encontrada aqui. Essa é outra história que eu não sei se ele te contou: porque o rapaz, o técnico que foi fazer a coleta, resolveu coletar de uma menina que não era de cor, porque ficou com pena dela: “Ela está se sentindo excluída, vou coletar dela também”. Claro, ele avisou: “Essa aí não é negra!”. “Ah, tá bom, vai entrar também, vamos ver o que dá”. Aí que deu: uma hemoglobina desconhecida. Depois entraram em contato com familiares dela e encontraram a mesma hemoglobina. Quer dizer, é uma coisa genética familiar mesmo.
E sobre as histórias da Salzano com os índios. O Salzano tinha que convencer os índios a estender o braço para deixar picar para tirar sangue.
Historiadora – Ele falou que até acabava fazendo algum trabalho de dar alguma informação para os índios.
Legoy – Sim, ele dava.
O Girley era um cara que tinha uma prática de fazer coleta. Eu me lembro que uma vez nós tínhamos colaborar, nós tínhamos que dar também a nossa hemoglobina para servir de referência. Eu não gostava muito, porque eu ia fazer coleta para fins de análise disso ou daquilo nos laboratórios e os caras me espetavam, custavam a achar minha veia. “Oh, Girley! Tu vais conseguir?”. “Deixa comigo!”. Para grande surpresa ali, vapt-vupt, na hora. Eu: “Pô, tchê, tu és um gênio. Se todo mundo fosse assim” (risos).
Historiadora – Interessante lembrar desse trabalho dos técnicos que estavam lá para apoiar vocês.
Legoy – Tinha também, dos técnicos, a Nena Morales. Ela era um braço, ela fazia o trabalho de manutenção de spots, ela conhecia Genética de Drosophila suficiente para separar, para colaborar… Ela até apareceu como coautora de vários trabalhos.
E tinha outras que depois apareceram, a Vera Rodrigues, que fez durante muitos anos a manutenção dos meus estoques de moscas. Eu tinha moscas resistentes a metais pesados: resistentes a cádmio, resistentes a chumbo, resistentes a selênio, e tinha que fazer a manutenção porque uma geração de moscas não dura dois meses, e o técnico tem que fazer esse trabalho.
Historiadora – E tinha também os estagiários…
Legoy – Sim, o estagiário era o que mais tarde ia ser o candidato de Pós, eles entravam lá já sabendo que iam ter essa chance. E gente que vinha aprender técnicas também, de outras faculdades, de outros lugares do Brasil, era comum. Eu tive gente que veio aprender comigo.
Historiadora – Até de Belém, né? O professor Cordeiro mostrou umas fotos de gente de lá com que ele teria colaborado…
Legoy – Sim, de Belém. Gente que está hoje chefiando setores de departamentos, reitores de universidades, eram nossos bolsistas aqui. Inclusive até do Rio Grande do Sul, as universidades de Santa Maria, Pelotas, lá tem pessoas que foram nossas bolsista, que fez mestrado, doutorado, e hoje eles têm sua própria fábrica de gente. Tem essa faculdade federal que fica perto do Hospital Santa Rita, na Rua Sarmento Leite. Tem uma chefe de laboratório que é doutora, a Ivana Bentes, saiu de lá… Uma capacidade, uma cabeça fantástica. Então é uma verdadeira fonte de pesquisadores. Essa pós-graduação é benemérita! Eu não estou dizendo que eu tenha muito que ver com isso, eu ajudei no começo e fiquei depois, modestamente, até depois me aposentar. Tem alguns trabalhos científicos, algumas linhas de pesquisa, teve a disciplina de Ecogenética, que depois evoluiu para outras, mas é do começo, sai as coisas, né?
Historiadora – Eu não sei se tem mais alguma coisa que o senhor lembre, para salientar?
Legoy – Não…
Historiadora – Se lembrar, a gente volta!