Flávio Lewgoy

LEWGOY, Flávio. Memórias - Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular. Depoimento concedido em sua residência à historiadora Naida Menezes. Porto Alegre, 24 de setembro de 2009.

Historiadora – Professor Flávio, o senhor estava comentando sobre o Departamento de Genética...

Legoy – Desde antes de ser Departamento, ele era algo que estava na cabeça, na imaginação de um indivíduo e outros, porque o artífice, o construtor, sem dúvida nenhuma, foi o professor Cordeiro. No Rio Grande do Sul, para mim, é o cientista que... ignorando precursores, mas que realmente sempre soube o que queria, que tinha uma ideia muito clara do que é ciência, mais moderna, é o Cordeiro.

Quando nós começamos, nós começamos quase adolescentes, adolescentes praticamente. A gente se conheceu no curso médio. Naquele tempo chamavam de ginásio, tinha cinco anos de duração. Depois tinha dois anos de pré. Mudou para colégio, depois mudou para o que tem atualmente, a finalização do ensino médio. Nós éramos três: o Cordeiro, o Casemiro Tondo e eu. E nós tínhamos um interesse comum, uma paixão comum, que não era futebol, até certo ponto eram os estudos, mas era principalmente a ciência. Era um conceito um pouco ingênuo, um conceito estilo século XIX, princípio do seculo XX de ciência, que ninguém mais tem. O conceito iluminista. Você como historiadora, sabe o que eu quero dizer com isso. A ciência é uma luz em si mesmo, não deixa de ser, e que o progresso da ciência ia trazer o progresso da humanidade.

Era isso que nós pensávamos, um conceito completamente iluminista. Está fora de moda, e com alguma razão. O que se vê hoje não é isso. Nem os próprios cientistas acreditam muito nisso. Mas nós acreditávamos. Naquele tempo, o Júlio de Castilhos, uma instituição famosa até hoje, de onde saíram bons cientistas, artistas, escritores, cientistas sociais... Eu conheci gente naquela época que hoje talvez esteja até aposentada (risos). Muitos morreram, mas...

O fato é que era o nosso assunto. Nós três tínhamos reputação de gente não muito boa da cabeça. Não é que nós não gostássemos de meninas, nós gostávamos, nenhum de nós era gay nem nada. Mas não era assim, um assunto, como futebol, moda, viagens... O nosso interesse era este: era ciência, o que acabou se tornando realidade.

Eu que queria ser químico e acabei sendo. O Cordeiro que só queria ser naturalista, depois ficou de biólogo. O Tondo era um tipo assim, bem fora, como eu vou dizer? Fora de categoria. Ele queria ser biofísico também, terminou sendo um dos fundadores do curso de Biofísica. O Cordeiro é pai-fundador da Genética no Rio Grande do Sul. E eu que estou aqui dando meu depoimento, ajudei a fazer as coisas.

 

Então você citou nomes, como o Tales que eu conheci meninão, a Margarete, uma moça de Bagé, Suñe, filha de estancieiro, neta e sobrinha de estancieiro, mas no fim uma pessoa que sempre foi muito importante. O depoimento deles, que você já tem, pode ter te dado uma ideia de como foi o começo. Eu não sei te dizer, além desse começo que é quase da minha infância, adolescência, na companhia dos meus melhores amigos até hoje, o Cordeiro e o Tondo...

 

A pós-graduação foi uma espécie de fruto que caiu da árvore, que foi feita a persistência, briga, sangue. Você não faz ideia do que era a então Universidade de Porto Alegre, não era nem do Rio Grande do Sul. Mas na verdade não era universidade droga nenhuma. Eram faculdades isoladas que no papel viraram uma universidade. Não existiam departamentos, existiam cátedras. Quer dizer, existiam vultos que eram donos de determinadas áreas de conhecimento.

 

A Faculdade de Direito talvez fosse a mais tradicional delas. Mas tinha a Engenharia, que é a minha escola de formação, eu estudei Química, que era menos convencional, mas também eram catedráticos, era esse título que eles tinham. Os catedráticos, no fim da década de 40, princípio da década de 50, mesmo para época, eram gente bem conservadora. Nenhum deles era má pessoa, pelo contrário, mas eles tinham uma formação, um conceito das coisas. Eles queriam fazer como sabiam, como achavam que devia ser, e não eram exatamente favoráveis à pesquisa científica. Universidade para eles era um lugar de ensinar, eram pessoas que tinha formação e diploma – doutor não tinha praticamente nenhum no conceito atual. Não tinha pós-graduação, nesse ponto que eu quero chegar.

 

A Biologia começou... o que tinha de ensino de Biologia estava associado com faculdade. Não era faculdade, eram escolas, não tinham esse nome. A única faculdade que chamavam de faculdade era a Faculdade de Medicina. Depois criaram a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que tinha diversos cursos. Um desses cursos era o de História Natural, que foi onde o Cordeiro entrou. Era ele e mais dois alunos. Muitas vezes a aula era ele e um aluno, quando um não vinha. Eu me lembro dos professores da época, um deles foi meu professor no curso médio, que era o professor Alarich Schultz, como nós gostávamos dele!

 

Historiadora – Ele foi professor de vocês no Julinho?

 

Legoy – No Julinho também, e depois na faculdade. Eu tinha ódio de Botânica, e virou completamente o filme. Desde sua primeira aula que eu vi que a Botânica não era aquilo que tinham me ensinado. Não era morfologia, formato da folha e tal. Isto eram pessoas que na verdade não tinham noção, estavam lá apenas como ganha-pão. Médicos, advogados dando aula. Mesmo no Julinho era assim, não tinham uma tradição universitária. Todos eram profissionais formados em faculdades, em escolas, então, o Schultz era diferente porque ele tinha estudado na Alemanha, em uma Universidade tradicional, Marburg, sabia Botânica e era botânico antes de mais nada. Não era um diletante dando aula. Um advogado ensinando Geofísica. Pode não acreditar, né? Outro advogado dando Psicologia e Lógica, um médico dando Geologia. Era esse o ambiente, porque eles não tinham profissionais. Era diferente na Agronomia, pois desde o começo do século XX já se formavam agrônomos por causa das necessidades da agricultura do estado.

 

Eu estou te dando uma ideia de como era o ambiente naquela época. O Cordeiro tinha um objetivo e nunca desistiu dele, apesar de todo o ambiente adverso. Imagina: “Fazer pesquisa científica aqui? Isso é para os grandes centros”.

 

Nós discutíamos muito esse assunto. Nós tínhamos livros que para nós eram verdadeiros orientadores, né? Por exemplo, um livro do doutor Alexis Carrel “O Homem, esse desconhecido”, que hoje talvez nem em biblioteca se ache. O livro do prêmio Nobel, aliás o Carrel era prêmio Nobel. Então, era nosso ambiente. Os três loucos do prédio. A gente se reunia no bar e o que a gente tomava? Cada um, um litro inteiro de leite, daqueles de garrafa. (risos)

 

E era esse nosso assunto. O Tondo vinha de Santa Maria. Já pequeno ele vivia fazendo experimentos com eletricidade. Ele sabia dar injeções e coisas assim. Ele se aplicava ele mesmo, às vezes, injeção na veia. (risos)

 

E eu que tinha mania da Química, fazia as minhas misturas. Meus pais toleravam, me deixavam ocupar uma salinha. Nenhum deles tinha formação superior, mas eles achavam que alguma coisa ia sair daí.

 

Era uma dificuldade, naquela época Porto Alegre era uma cidadezinha provinciana. Livraria tinha, vê bem... A Segunda Gerra Mundial, de 1939 até 45, que foi a nossa época de faculdade, de formação, não se conseguia acesso a livros técnicos, livros científicos, e nós forcejávamos. E o ambiente para pesquisa científica? Eles achavam graça. “Vocês estão sonhando, isto aqui não é um … Vocês depois que se formarem vão, quem sabe lá, para São Paulo, onde tem a USP”, que era a primeira universidade brasileira, era e ainda é, onde tinha pós-graduação, inclusive. O Cordeiro acabou indo para lá. Tu deves ter entrevistado eles, não estou te contando novidades.

 

Historiadora – O senhor traz detalhes que ele não contou, porque na hora a gente sempre tem uma linha de raciocínio diferente.

 

Legoy – E a minha vivência é outra. Eu estava de fora vendo o Cordeiro. Nós éramos muito amigos mesmo. Eu sabia das dificuldades dele. Por outro lado, ele era um privilegiado. O pai dele naquela época era coronel do Exército, era um homem que tinha ideias avançadas. Esquerdistas. Acho até que era comunista. (risos)

 

Então ele tinha uma conta... não precisava de dinheiro. Ele chegava na livraria do Globo e dizia: “Põe na conta do coronel Humberto Cordeiro”. Então, ele achava um livro interessante, que era difícil mas tinha, e comprava. Era bom porque eram coisas que a gente podia discutir, que nos interessavam. Como eu disse, éramos três loucos. Estávamos sentados em um banco, tinham professores que a gente gostava... O professor de Química, o professor Atawalpa, que realmente foi o primeiro que me deu aulas de Química inteligíveis e que eu pude fazer uma ideia do que era Química realmente.

 

Historiadora – Isso no Pré?

 

Legoy – No Pré. Tinha um querido professor meu que dava Química Orgânica, professor Abílio Azambuja. A gente às vezes interrompia o professor, questionava. Os outros achavam um escândalo: “Que bobagem é essa? Interrompendo o professor!”. Aí o Abílio dizia: “Deixa, ele leu nos livrinhos dele isso”. (risos). O Abílio era legal. E o Atawalpa não era muito tolerante.

 

O Tondo que era o que tinha mais leituras, em Física, e já naquele tempo lia sobre transmutação da matéria. O Atawalpa dizia: “A matéria e a energia são coisas separadas”. E o Tondo: “Professor, e a equação de Einstein, onde fica?”. O Atawalpa ficava uma fera! (risos). Naquele tempo o Tondo já questionava, e nós também.

 

Mas era ótimo, era um ambiente muito bom. Às vezes sentavam os três lá. Às vezes não dávamos a mínima. E o professor: “Aquele trio lá, vamos parar de conversar!” (risos). Cordeiro, Tondo e eu. E qual era o nosso assunto: só podia ser esse, né? Não era só isso. Às vezes se falava de moças também, claro. Os hormônios estavam trabalhando ali. Mas a prioridade não era isso. Talvez o que fosse mais para esse lado fosse o Cordeiro. O Cordeiro sempre foi muito... Esse lado dele, de sexo, sempre foi um lado importante. Não é que não fosse para nós, mas a prioridade máxima nunca era essa. Era uma coisa que às vezes surgia e às vezes não. Namoro aqui, namoro ali. Mas namoro daquele tempo, não de hoje. Pegar na mão era uma façanha. Tinha sempre olhos vigilantes. De qualquer maneira não era o assunto primordial. Não era futebol, não era cinema – que até a gente gostava, principalmente quando dava algum filme que dissesse respeito à ciência.

 

Então, os catedráticos eram os verdadeiros donos... Uma cátedra, para te dá uma ideia, o professor admite quem ele quer. Ele tem vários auxiliares que dão aula no lugar dele. Eu quando, depois de muito tempo, voltei a encontrar o Cordeiro, ele tinha ido fazer um pós-graduação depois de formado em Biologia. Eu me graduei na escola de Engenharia Química Industrial, cheguei a começar o curso de Licenciatura em Química, mas abandonei o curso porque a coisa não era bem... A Escola de Engenharia tinha mais Química do que a Filosofia, se aprendia mais. De qualquer maneira, eu queria mesmo me formar em Química. Então eu me formei e fiquei dois anos aí bobeando, dei aula em curso noturno, não tinha emprego...

 

Um belo dia passeando pelo Bom Fim, lá perto da casa dos meus pais, desce do bonde quem? O cara que eu não via, o Cordeiro!

- Ah! Mas que é isso, Antonio? Onde tu andavas?

- Ah! Eu estive em São Paulo. Acho que eu vou para os Estados Unidos, vou fazer lá um estágio. E sabes que fizeram agora o Instituto de Ciências Naturais?

- Ah. É?

 

Lá perto do Instituto de Educação. Estávamos na Osvaldo Aranha, não era longe. O Instituto era a algumas quadras. Lá onde é agora o... Não é o Biociências. Tem dois departamentos lá, se não me engano, Zoologia e Geologia. Um prédio que está lá. Naquele tempo, todas as disciplinas de Biologia estavam ali, Zoologia, Botânica. E tinha uma disciplina nova chamada Genética, que foi criada por insistência do Cordeiro junto ao catedrático. Era um cara muito legal, um médico, o Dr. Muccillo.

 

Historiadora Muccillo?

 

Legoy – Dr. Romeo Muccillo. Era um cara, um erudito, um sujeito de palestra muito agradável, mas aquelas aulas tradicionais, eram bem mais literárias do que aulas de... E ele era médico, etc. Então ele deixou o Cordeiro fazer o setor dele.

 

E o Cordeiro me disse: “Olha, aparece lá. Nós estamos precisando de um químico ali. Quem sabe tu vens fazer um estágio conosco lá”?

 

Eu, naquele tempo, estava começando um período criminalístico, foi o emprego que eu consegui. O meu primo foi o criador do Instituto de Criminalística. Naquele tempo era o Instituto de Polícia Técnica. Era a Química Forense do Rio Grande do Sul, que – desculpe a falta de modéstia – fui eu que criei. Tudo o que existe, fui eu que coloquei lá. Eu montei o laboratório, deixei os protocolos, tive meus alunos e entreguei. Eu já estava começando... Esse é um capítulo que não interessa, no caso. Aliás, interessa sim porque eu levei técnicas que eu aprendi lá. Aprendi sozinho, vê bem, tinha alguns livros e tinha meu curso de graduação em Química, e pude aplicar o conhecimento nos problemas de crime que surgiam ali. Havia instrumentos de identificação, na época eram modernos, que eu botei a funcionar. Tive que aprender sozinho, decifrar tudo. Tinha uma coisa chamada luz ultravioleta, que hoje tu compras em qualquer supermercado. Naquele tempo, tudo era difícil! Porto Alegre era o fim do fim do mundo. Era uma cidadezinha bacana, mas em termos de livrarias, enfim... Análises, eram análises clínicas. Tanto que até hoje, laboratório é laboratório de análises clínicas. O Tondo para ganhar a vida também trabalhava em análises clínicas.

 

Então eu fui lá com o Cordeiro. Entrei lá, olhei, organizei o dinheiro que existia, e com o apoio de um cidadão cuja biografia um dia vai ter que ser escrita, um dos únicos reitores de fato que mereceram esse nome foi o Doutor Eliseu Paglioli. O Paglioli era um tipo bem diferente, era um Reitor que o gabinete estava sempre aberto. Tu ias lá e ele estava sentado: “Chega aqui, vem cá” (risos). Não tinha porta fechada, gabinete e ante-sala. Até acho que é necessário.

 

Foi ele que começou. Como eu te disse, não existia universidade quando nós começamos na década de 50. Existia no papel: Universidade do Rio Grande do Sul. Bah, que bacana! Mas não! Se tu fazias, por exemplo, o curso de Bioquímica na Faculdade de Medicina, não podia usar Bioquímica em outra faculdade. Era um deus nos acuda! Cada catedrático tinha lá as suas disciplinas e para eles era o que valia. Não tinha esse negócio de hoje, por departamentos. Se tu fazes Genética no Departamento de Genética, é a Genética que vale para toda a Universidade, unificada, naquele tempo não tinha isso. Agora imagina: manter funcionando um Departamento de Genética já era difícil, pós-graduação era um sonho! Mas era um sonho que foi amadurecendo ao natural.

 

Quando se começou a ter bolsistas ali e a sair artigos de pesquisa – isso sim era o que nós achávamos importante, pesquisas científicas. E pesquisa científica significa escrever e publicar artigos de pesquisa. Era polêmico naquele tempo, o pessoal dizia: “Que bobagem! Depois para que serve isso? Tá, tu estás pesquisando erva-mate, estás pesquisando trigo, está tudo bem, isso é agronomia, isso nós entendemos. Ou estás pesquisando veterinária, vacinas e coisa, mas a pesquisa científica?”

 

Para implantar isso, foi uma luta do Cordeiro praticamente sozinho. Depois nós entramos e ajudamos. Eu queria fazer uma disciplina de Química para biólogos. Os biólogos não sabiam nada praticamente. Já naquele tempo eu achava que tu fazeres Genética ou entrar em qualquer disciplina biológica sem fazer Química, ter pelo menos os fundamentos, era impossível. Era apenas fazer papagaiação, classificar o animal pela forma, pelo “jeitão”, modo de dizer, né? (risos). Muito século XIX. Até no século XIX já tinha mudado isso. Mas até a metade do século XX em Porto Alegre, não. Pelo menos no Rio Grande do Sul. Dos outros lugares do Brasil não posso falar, mas acho que não era muito diferente. Modestamente nós, na verdade, o Cordeiro, foi o impulsionador, o cara que sozinho ia falar com o Reitor, que conseguiu apoio desse vulto incrível que se chamava Eliseu Paglioli. O cara que tu podias ir falar com ele quando tu quisesses. O máximo que podia acontecer era ele te mandar sentar e esperar um pouco. Estava aberta a porta, tinha um sofá e tu ficavas esperando. “O que tu queres, cara?” Às vezes: “Ah! Pô, vou ver se eu falo”.

 

O diretor da Faculdade de Filosofia era o Dr. Luiz Pilla, que era químico, e foi diretor muitos anos, ajudou demais, ele entendia o que a gente queria. Depois, isso já na década de 50, nós começamos a ter contato, tudo pelo Cordeiro, que tinha feito em São Paulo o doutorado... Ele voltou com o doutorado para cá. Quando ele falou comigo, ele já era doutor em Genética, porque tinha pós-graduação em Genética na USP. Ele fez contato, tinha contatos na Fundação Rockefeller, não sei se tu ouviste falar. E a Fundação Rockefeller dava bolsa para os Estados Unidos. O Cordeiro tinha ido, depois o Salzano foi. Eu comecei a pensar: será que eu posso ir? Será que eu tenho condições? E eu acabei indo. Então aos poucos as coisas foram indo, meio a forceps, sempre com a descrença alheia, comentários e bobagens desses caras metidos. E a gente, o setor de Genética, era trancado em um canto lá no Instituto, para não virem incomodar. Tinha que bater para entrar lá.

 

Historiadora O Dr. Cordeiro me explicou que no primeiro momento existia um laboratório lá nos porões...

 

Legoy – Nos porões da Faculdade de Direito, foi lá que começou tudo. Eu achei que ele ia ter te contado isso. Era lá que era o curso de História Natural. Nos porões da Faculdade de Direito.

 

Historiadora Tinha o laboratório do professor Schultz que era ligado a Botânica, né?

 

Legoy – Sim, e tinha pouca coisa mais... Um professor alemão, o professor [?]. E os alunos participavam ativamente, fazendo tarefas. Às vezes até acho que varriam o laboratório. (risos)

Tinha o Irajá Damiani Pinto. Tinha outros que eu não lembro agora.

 

Historiadora O Irajá era professor nessa época?

 

Legoy – Não, era aluno, colega do Cordeiro. Ele depois se tornou paleontólogo. Grande nome, sem dúvida nenhuma. O pai-fundador da Paleontologia no Rio Grande do Sul. O Cordeiro era o pai-fundador da Genética. Um dos pais fundadores da Genética no Brasil. Tinha uma meia dúzia, no máximo. Tinha o Pavan, que era uma espécie de figura paterna para todos os geneticistas. Todos os outros estudaram com ele.

E o Cordeiro hoje também é uma figura de pai-fundador. Muitos que estão hoje já com seus alunos, que já formaram doutores, foram alunos dele. Eu ajudei, modestamente. Tem alguns alunos que fizeram graduação comigo, participei de banca deles, mas eu nunca cheguei realmente a... Eu acredito que pela minha formação eu tenha direito a um título de doutor, mas eu nunca cheguei a ter formalmente esse título. Nem me interessou muito, porque eu já era professor titular. Não sei se isso foi bom para mim.

 

Historiadora O senhor era professor da Universidade, mas qual...

 

Legoy – Eu comecei por intermédio do Cordeiro. Entrei como bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas. Fui percorrendo os degraus da carreira de bolsista até chegar a bolsista-associado, que era o grau máximo na época. Então, depois de movimentar muita coisa, eu consegui ser o grau inicial de professor naquela época, nem sei se era monitor, uma coisa assim. Depois passei a professor associado e podia ter ficado nisso o resto da vida. Ser professor titular equivalia a catedrático, mas aí nós tivemos um pouco de sorte (risos). Houve uma lei que favoreceu aos que... Eu estava ocupando o lugar de um professor titular, dando aulas, mas não era titular. Dava aulas de Química como professor titular, mas não sendo. Veio uma lei que quem tivesse ocupando o cargo de professor titular em tal período, seria efetivado professor titular. O Salzano entrou nessa, eu entrei. Apesar de que o Salzano não precisaria disso, ele tinha méritos suficientes. O próprio Cordeiro depois fez concurso para professor titular e passou.

 

Historiadora O senhor dava aulas...

 

Legoy – Eu primeiro dava aulas de Química, no Instituto de Química, que me ofereceram o cargo para ficar no lugar do titular de Química Analítica, mas eu gostava mesmo é do ambiente da Genética e fiquei lá. Participei muito pouco. Na verdade não acredito que eu tenha tido importância na pós-graduação. Eu cheguei a dar aula na pós-graduação... Tinha uma disciplina de introdução a técnicas de laboratório, que insistiram que eu desse porque tinha uma pessoa que precisava muito. Depois não dei mais. Mais tarde fundei uma cadeira de Genética, chamada Ecogenética, que não tinha. Depois mudou para outro nome, depois que eu saí. Não me lembro de outras coisas que talvez tu queiras saber...

 

Historiadora Alguns detalhes de como era o laboratório quando o senhor foi trabalhar com o professor Cordeiro...

 

Legoy – Na verdade, o Cordeiro tinha lido um artigo de pesquisa sobre identificação de espécies, linhagens de Drosophila, com cromatografia em papel, que era uma coisa que ninguém fazia, mas ele tinha começado a fazer. Ele usava luz ultravioleta, que eu tinha lá também. Aí eu disse: “Cordeiro acho que eu faço isso. Vou fazer. E vou melhorar esse negócio”. Eu inventei umas coisinhas para melhorar. Desenhei umas câmaras que o Cordeiro mandou fazer lá no setor de carpintaria que tinha nas Biociências. A partir daí saiu um setor que nós pomposamente denominamos de Genética Biofísica (risos). O Cordeiro, eu e o Tondo. O Tondo foi o introdutor no Brasil, no Rio Grande do Sul, sem dúvida, da eletroforese. Eu fazia cromatografia em papel e ele eletroforese. Primeiro eu só colaborei com o Cordeiro, depois o Salzano me procurou para fazer algumas coisas lá. Ele tinha importado uns reativos que não estavam dando certo, estagnavam (?). Aí eu vi como se fazia, ele importou os componentes e eu fiz para ele. Então nós conseguimos fazer. Eu como químico, podia trabalhar, podia fabricar. E funcionou muito bem.

 

Historiadora Era equipamento para quê?

 

Legoy – Para identificar deficiências enzimáticas na população de Porto Alegre. Uma enzima chamada Glucose-6-fosfato desidrogenase, muito comum em populações africanas, mas também em algumas populações ditas brancas. Hoje esse conceito de raça é ultrapassado. Na época vinham os americanos com os fotômetros para medir a cor da pele. Um troço meio nazistóide, mas eles acreditavam nisso. Então eu testei populações de origem mediterrânea que tinham essa deficiência e populações negras. Nós classificávamos: negro, mulato, mulato claro (risos). Porque eram genes ligados a esses genes de pigmentação.

 

Então eu fiz trabalhos com Cordeiro, na Genética Biofísica, graças ao meu conhecimento, graças ao fato de que eu tinha introduzido a cromatografia em papel, usando papel de filtro improvisado, que não era o papel ideal.

 

E tem uma coisa: como ele tinha ligação com a Fundação Rockefeller, aliás, vinha um cara cuja biografia merecia ser feita também no Brasil, o Dr. Harry Miller, grande amigo nosso. Ele vinha de vez em quando nos visitar. Conseguiu as bolsas para o Cordeiro e para o Salzano, depois para outros, inclusive para mim. Eu fui para Austin, Texas, na Fundação de Genética, estagiei ali.

 

Mas voltando ao princípio da década de 50, eu introduzi, então, esse método: a cromatografia em papel, com ultravioleta para identificar linhagens de Drosophila, conforme tinha saído na revista da Academia Americana de Ciências. Eu desdobrei depois. Eles faziam a cromatografia muito sumária. Eu desdobrei a cromatografia tridimensional. O Cordeiro ficou empolgado com isso. Eu me lembro que ele passou o dia inteiro esmagando bichinhos, pendurou para secar nos varais. Dia seguinte ele voltou, e as baratas tinham comido tudo. Como esse cara enlouqueceu (risos). “Então eu faço cozido para as baratas comerem”. Eu: “Oh, Cordeiro, não incomoda, não adianta, tá cheio de baratas aqui”.

 

Depois ele até saiu, fez excursão, foi para a América Central e levou uma lâmpada ultravioleta. Eu fiquei muito satisfeito com isso, porque eu que tinha apresentado para ele.

 

Mas quando ele me mandou vir, por intermédio do dinheiro que a Rockefeller... Tu não imaginas como era difícil importar coisas. Importação era coisa sobrenatural. Tinha uma burocracia medonha. Imagina importar! Mas nós conseguimos mandar vir uma lâmpada ultravioleta e alguns reativos. Ficamos orgulhosos. Abrir aqueles caixotes era um prazer medonho para a gente, tirar aquilo. Depois mandamos fazer as câmaras cromatográficas que eu desenhei. Como todo o material comprado no comércio e feito por um artífice aqui. Com essas câmaras nós pudemos fazer a nossa Genética Biofísica. Foi o começo de tudo.

 

Historiadora Nesse período era onde o laboratório?

 

Legoy – Lá na … Quando eles saíram do porão da faculdade, eles foram para aquele prédio que hoje é a Zoologia e Botânica, eu acho.

 

Historiadora – Não é aquele prédio perto da Reitoria, ali do lado?

 

Legoy – Exatamente.

 

Historiadora – É a Rua Sarmento Leite ali.

 

Legoy – É, bem à frente, meio enviesado, do Instituto de Educação, Avenida Luiz Englert. Perto da Química e tal. Era lá em um cantinho. Tinha várias salas envidraçadas, onde tinha o pessoal que dava aulas de Citologia, de outras disciplinas.

 

Historiadora – De Biologia?

 

Legoy – Nem era Biologia ainda, era História Natural. Biologia ficou depois. Uma pena, porque História Natural é uma coisa bonita, né? Estava muito mais perto do espírito moderno de integrar as disciplinas do que... Mas seja como for, a gente fazia tudo ali.

 

Historiadora – Era o senhor, o Tondo, o professor Cordeiro, o Salzano...

 

Legoy – O Salzano trabalhava lá também, fazia Citologia de Drosophila. Ele foi fazer essa especialização na USP. Eu vi uma correspondência que ele e o Cordeiro trocaram, e ele queria continuar, depois da pós-graduação, fazendo Citologia de Drosophila. O Cordeiro disse: “Não, tu já estás fazendo Genética Humana, tu estás começando... Aqui não tem, faz Genética Humana!”. Então, eu vi a resposta dele: “Está bem, ganhaste, vou fazer Genética Humana”. E fez.

 

O Cordeiro é um cara que gosta de viajar, gostava de barco, de navegar. E o Salzano para ele, o ideal é ficar, morar, comer no laboratório. Ele é workaholic. Férias, para que ele quer férias? Ele trabalhava até domingo. Na verdade, todos nós trabalhávamos domingo. Nós achávamos que feriado era bobagem. Uma coisa impressionante. Nunca houve, nem nunca vai haver coisa parecida.

 

Eu tinha que me desdobrar, pois já era casado, já tinha filho. Casei em 1952, e em 53 nasceu a minha filha mais velha. De 52 a 54 eu fui bolsista e também perito interino.

 

Historiadora – Continuo trabalhando como interino?

 

Legoy – Sim, eu ganhava pouco. Mesmo somando as duas coisas, não era muito. Muito depois que eu me licenciei e fiquei só como professor universitário. Só voltei para o Instituto de Perícias para completar um tempo para a aposentadoria. Voltar para o ambiente que eu criei, a Química Forense. Eu fui pioneiro. Com muito orgulho eu digo isso. Os protocolos que eu deixei continuam sendo usados para muita coisa. E graças a isso, também, eu pude iniciar o meu trabalho lá na Genética. Introduzi técnicas Bioquímicas, espectrofotometria que eu fazia na polícia.

 

Historiadora – Como é o nome?

 

Legoy – A medida da absorção de comprimentos de onda da luz, para identificar pigmentos de olho de Drosophila. A Drosophila era a obsessão naquele tempo. Era importante, continua sendo importante. Um animal de experimentação fantástico. A Genética Humana naquele tempo era insipiente. Tanto que o Pavan, que é o pai da Genética Brasileira – talvez avô seja o cidadão chamado André Dreyfus, judeu como eu – é considerado o cara que começou a Genética no Brasil, na USP. Não que não houvesse gente que fazia Genética agrária, para melhoramento. A Genética agrária vem do século XIX. Eles faziam empiricamente. O Pavan dizia: “Que é essa Genética lero-leresca dos bichinhos?” Como quem dizia: não é científico isso (risos).

 

Agora quem fez o primeiro trabalho científico publicado de Genética Humana do Rio Grande do Sul foi um cidadão chamado Milton Shansis. Eu me lembro dele, já morreu. Devia estar vivo, morreu cedo. Mas o Salzano, então, não é o autor do primeiro trabalho de Genética Humana publicado. O Salzano já naquele tempo trabalhava em grupos sanguíneos, que era a coisa mais acessível. Começou a fazer excursões às tribos de índios do Rio Grande do Sul. Os Kaingang e os Guarani. Então, a Genética de Drosophila muito tempo dominou o panorama.

 

Historiadora – Qualé o nome desse que teria primeiro publicado?

 

Legoy – Milton Shansis. Ele fez assim, despretensiosamente. Mas mandou o trabalho, foi publicado: Genética Humana. O primeiro a ser publicado.

 

Historiadora – Onde foi publicado?

 

Legoy – Publicado na Revista Brasileira de Biologia. Aliás, onde nós publicávamos os nossos trabalhos também.

 

Historiadora – Ele publicou em que ano?

 

Legoy – 1956, 57 por aí.

 

Historiadora – Ele era da História Natural?

 

Legoy – Eu acho que ele era aluno de graduação da História Natural. Se tu tiveres oportunidade de perguntar para o Salzano, ele talvez se lembre: Milton Shansis. Era orientado pelo Salzano.

 

Era uma fraternidade. Chegava às dez da manhã, a gente interrompia o trabalho e ia tomar um café. Tudo ali. Chega às quatro da tarde, novamente. Cada um com a sua xícara. O pessoal da cozinha preparava o meio de cultura de Drosophila, lavava os vidros e fazia o nosso café também. Tudo pago com o nosso bolsinho. A Universidade não pagava. A Universidade depois foi evoluindo para uma Universidade de fato. Mesmo quando passou à Universidade Federal, os departamentos não surgiram assim tão fácil.

 

Historiadora – Década de setenta teve a reforma, né?

 

Legoy – Exato, feita pelo regime militar. Eles queriam, na verdade, acabar com a universidade com o foco de liberdade intelectual. Outra história. Mas aí surgiram departamentos. Não sei se eu estou contando a história meio deformada. Então se pôde realmente unificar a Universidade. A Genética não dava Genética só para finalidade teórica, ou Genética para a Agronomia. Mas a mesma Genética servia para Medicina, para Farmácia. O Departamento de Estatística dava Estatística para toda a Universidade, e assim vai. Como uma universidade tem que ser mesmo.

 

E a pós-graduação era uma festa. Cada vez que alguém terminava, concluía, vestia uma beca e a gente ia lá na... Tinha seminário toda a semana na pós-graduação. Mesmo antes da pós-graduação, tinha seminário. A gente tinha que dar no mínimo um por mês, sobre as suas pesquisas.

 

Historiadora – Interessante.

 

Legoy – É, nós éramos avançados em todos os sentidos.

 

Historiadora – Então, essa ideia dos seminários era lá na Genética?

 

Legoy – Na Genética, sim. Não sei como era nas outras... A USP certamente começou antes de nós, devia ter isso. Mas a USP era uma ilha, né? No Brasil.

 

Historiadora – E como inicia a pós-graduação, o senhor lembra?

 

Legoy – Eu sei que foi uma ideia que foi uma batalha, primeiro no âmbito formal. Eu sei que começaram a satisfazer requerimentos. Se pediu ao reitor... O Cordeiro pode te dar uma ideia bem melhor do que eu. O Cordeiro e o Salzano foram os que impulsionaram. Eu acho que a pós da Genética deve ter sido uma das primeiras.

 

Historiadora – É o que a gente está querendo comprovar. Parece que foi a primeira, mas não há ainda comprovação.

 

Legoy – Eu acredito que sim, porque ela já tinha tudo o que era necessário. Tinha o pessoal, tinha os laboratórios, tinha gente com doutorado, que era uma das exigências, né? E outros que estavam a caminho de ser. Então eu acredito que primeiro houve um requerimento formal. Conversas, né? Sempre começa com conversas, né? Tu vais lá, pede audiência com o reitor. Depois do Paglioli a coisa não ficou tão fácil. As portas se trancaram, tinha ante-salas, tinha que marcar. Eu não acho ruim, mas no tempo do Paglioli não era assim. O Paglioli é que fez tudo, ele fez a Universidade. Ele desenhou os prédios e não era arquiteto. O Hospital de Clínicas, ele que desenhou.

 

Historiadora – Ele era da área da Medicina?

 

Legoy – Ele era neurocirurgião. Um sem-vergonha, também, mas, enfim... (risos)

 

Era grande amigo do então presidente Getúlio Vargas, que dava tudo o que ele pedia. Não faltava dinheiro. Tinha que fazer construção. Saiu prédio disso, prédio daquilo. E ele praticamente foi pai da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O primeiro reitor de fato. O reitor é um relações públicas. É um cidadão que vai falar, vai conseguir as coisas. Ele dita normas, ele nomeia os pró-reitores e tudo mais. E as sessões do Conselho Universitário, tudo foram estruturas que o Paglioli fez ou começou. E o Cordeiro e o Paglioli eram muito amigos.

 

Historiadora – O professor Cordeiro contou que ele foi junto com uma equipe de professores para ver uns morros, onde o Paglioli pensava em fazer um Campus...

 

Legoy – Pensava sim. Foi uma coisa que demorou a sair. A gente passou muito tempo lá naquele setor perto do Instituto de Educação. Depois fomos para um prédio não muito longe dali, subindo a ladeira onde é o edifício Cândido de Godoy, nos últimos andares, décimo terceiro, décimo quarto e décimo quinto.

 

Historiadora – Perto da Santa Casa?

 

Legoy – Em frente à Santa Casa. Só saímos de lá para ir para o Campus. Passamos uns bons vinte anos ali, no Cândido de Godoy, com a mesma rotina: o pessoal subia e descia aqueles andares, tinha sala de seminário, tomava café na mesma salinha. Todo mundo se conhecia. Não é que não se conheça hoje, mas havia mais intimidade. Acho que hoje a Genética está muito diversificada. A Genética Médica está em um outro prédio. Acho que está com o Juliano até hoje. Praticamente está no prédio da Faculdade de Medicina.

 

Historiadora – A professora Margarete falou de anfíbios...

 

Legoy – O lagarto é um anfíbio, parece que é. Eu não sou zoólogo, nem nunca tive pretensão de ser. Da Botânica o que eu aprendi, infelizmente não continuei.

 

Historiadora – O senhor lembra desse momento, de 1954, quando vieram esses professores?

 

Legoy – Sim, desde 1951 quando eu era bolsista. Entrei como freelancer, como tu disseste. Então eu requeri uma bolsa, por sugestão do Cordeiro, para o Conselho Nacional de Pesquisa. Então em 54 eu estava lá sim. Eu me lembro de um incidente. O Celso Jeager era um dos professores... Acho que isso deve ter sido em 56, ou quem sabe mais. Seja como for, o Celso, tinha um lagarto que alimentava e tal. O cara chegou e não teve dúvida. Matou o lagarto e dissecou. E Celso... Pô, nessa altura... (risos).

 

Historiadora – Foi o professor Ives Townsend que veio?

 

Legoy – Sim. Isso são coisas que a gente lembra. O Celso: “Você matou meu lagarto!”. E o cara: “Quá-quá-quá. Para que manter o animal? O animal é só para... Não é para manter como bicho de estimação”.

 

A gente conversava muito com outros setores. Íamos ao Instituto de Fisiologia, por exemplo, que era na Faculdade de Medicina. Era tudo ainda dentro de um terreno só. A gente saía, entrava, ia até lá. Por quê? Porque eles tinham biblioteca e, às vezes, se conseguia alguma coisa lá. Conseguir bibliografia era a coisa mais difícil. Eu tenho inveja do pessoal hoje por causa da internet, porque fazer um mestrado um doutorado hoje, tu te sentas num... neste netbook aqui, se tiver uma conexão, como chama? Essas antenas que estabelecem uma rede... Aqui tu não estás na rede, estás usando como instrumento de gravação.

 

Historiadora – Sim, mas eu posso acessar a internet.

 

Legoy – Então, com este instrumento aqui, ele acessa as bibliotecas online em Bucareste, Paris, Washington, não precisa esperar que venha uma revista, a duras penas, e quando a gente vai ver, não é o número que a gente quer. Ou ter que mandar vir uma fotocópia caríssima. Eram outros tempos, mas graças a esses tempos sacrificados que está aí o que tem hoje. Foi aquele esforço que a gente fez.

 

Historiadora – E esses professores que vieram, eles traziam alguma novidade para vocês?

 

Legoy – Eles davam aulas, projetavam slides, ensinavam técnicas. O pessoal era muito aplicado. E vinha mais tarde, isso já no tempo do Cândido de Godoy, professores franceses, veio até um médico alemão que tinha sido paraquedista nas tropas nazistas e era médico (risos). O cara veio. Eu não gostava muito dele não. Enfim...

 

Historiadora – E veio dar curso para o pessoal da Genética?

 

Legoy – Sim, não sei como é que ele tinha aprendido Genética Humana. Deve ter feito um curso... Não sei se aprendeu em prisioneiro de um campo de concentração, deus me livre! Mas seja como for, era um constante trânsito de professores estrangeiros. Era uma coisa que a gente já estava habituado. A maior parte falava inglês, com a exceção dos franceses, que falavam francês mesmo.

 

Se aprendia muito, se fazia perguntas para eles. Assim como vinha gente da Bahia, vinha gente de São Paulo, Rio de Janeiro, todas as partes do Brasil. E o nosso pessoal viajava para lá. A gente formava pessoas, isso já muito depois, quando a Pós já era essa instituição que continua sendo, respeitadíssima. Trabalho que se deve ao mérito de pessoas como Cordeiro, o chefão. Salzano, especialista de renome internacional, sem dúvida, a Margarete e outros. Tem gente que faz trabalhos publicados em periódicos de fama internacional. Sempre se insistiu nisso: todo mundo tem que publicar trabalho de pesquisa. Quando nós publicamos nosso primeiro trabalho em 1950 e poucos, foi uma festa! O Cordeiro já tinha trabalhos publicados, já era um doutor, mas para mim, olhar aquela separata, toda cheia de erros, mas tudo bem (risos).

 

Historiadora – Naquela revista brasileira?

 

Legoy – É, na revista brasileira que sai a coluna “Genética e Biofísica”, né? Usaram-se aquelas técnicas de cromatografia que eu desenvolvi - desenhei aquelas câmaras, né? Deu uns quatro ou cinco trabalhos. Depois o Tondo contribuiu com a eletroforese no papel, e mais tarde ele começou a trabalhar com eletroforese em gel, técnicas que ele ensinou para pessoas da Genética Humana. Ensinou para pessoas que foram ensinar no Rio de Janeiro as técnicas dele (risos). Viajavam com os aparelhos que o Tondo desenhou. Nós três fizemos alguma coisa!

 

 

Historiadora – O senhor lembra da professora Fanny Wolff?

 

Legoy – Ah! Me lembro sim. Ela tinha uma cabeça maravilhosa, só que ela não continuou na Genética.

 

Historiadora – Pois é, não estou mais conseguindo contato, não sei para que área ela foi...

 

Legoy – Ela tinha um nome de casada que eu não me lembro qual é. Ela foi uma ausência muito sentida, mas na época, a gente ser professor era quase um voto de pobreza. Eu tive que trabalhar em dois lugares. Ou a pessoa tinha já de família algum dinheiro, ou então, fazia como o Tondo, que trabalhava em laboratório de análise clínica, se não ele não ia poder... O Cordeiro implicava muito com isso: “Onde já se viu, tu trabalhando...” Eu dizia: “E daí”? (risos)

 

Historiadora – Havia seminários que vocês organizavam, aqui e também para o resto do Brasil, o senhor lembra?

 

Legoy – Não, seminários aqui no Departamento. Eram abertos, né? Qualquer pessoa podia frequentar. Mas em geral era restrito ao pessoal do Departamento. Poucas pessoas se interessavam além de nós. A não ser quando vinha um grande vulto, alguém famoso, aí eles publicavam no jornal. O Salzano conseguia que se publicasse no jornal quando tinha seminário. Publicavam no Correio do Povo e em outros jornais.

 

O Salzano sempre teve esse sentido muito alerta, de divulgar. Ele chegava e se estava para receber tal coisa ou fazer tal viagem, ele: “Vem cá Girley!” Girley [Valério] era o auxiliar, o cara que fazia a coleta para ele. E o Girley ligava para a redação do Diário e publicava.

 

Historiadora – Diário de Notícias?

 

Legoy – Sim, tinha dois grandes jornais: O Correio da Caldas Júnior e o Diário de Notícias dos Associados, do Chateaubriand.

 

Foi uma época que foi única. E como eu disse, a Pós saiu como fruto de uma árvore que já estava enraizada e que deu frutos normalmente. Não nasceu tudo pronto, no papel: a Universidade vai ter isso, vai ter aquilo. Não! Foi um filho que nasceu, como os filhos nascem depois dos avós, pais, netos. Então brotou uma árvore e amadureceu ali. Era impossível impedir que isso acontecesse. Mas foi preciso muita persistência.

 

Historiadora – Principalmente para essa questão da oficialização. Pelo que eu tenho notado, a pós já existia, mas para oficializar demorou um pouco.

 

Legoy – Demorou sim. Parece que a gente preparava para a pessoa ir a São Paulo e lá fazer... A USP aceitava a orientação oficialmente, mas o cara saia daqui já pronto. Parece que funcionou também o inverso. Para outras universidades depois, nós funcionamos como incubadoras para eles também. Eu acho isso muito legal.

 

Eu tive alguns orientados também, participei de banca também. Apesar de não ter o título formal que era necessário, como praticamente eu era um componente da Pós, orientei alguns, eu tinha algumas linhas de pesquisas que eles fizeram, né?

 

Historiadora – Lembra de alguma delas?

 

Legoy – Lembro da Maria Alva. A Maria Alva fez uma tese... Depois vieram outros, um nordestino, como era mesmo o nome dele? Fez um trabalho sobre selênio. Ele casou com uma moça daqui e levou ela embora para o nordeste (risos). E um terceiro ou quarto, uma meia dúzia que eu orientei, não foi mais que isso. Porque realmente eu não tinha, era uma coisa assim meio de contrabando. Eu era o orientador, mas o orientador mesmo, o oficial era outro. Eu até fazia parte da banca, mas como eu não tinha o título oficial nenhum... Eu era professor titular do Departamento, mas não tinha Mestrado, não tinha Doutorado.

 

Historiadora – O senhor ficou até a década de 70?

 

Legoy – Não, eu me afastei muito pouco tempo. Eu consegui uma licença sem remuneração da polícia, do Instituto de Perícias, né? E fiquei uns quinze ou dezesseis anos, só fazendo o tempo integral. Quando era gratificação de tempo integral eu podia sustentar a família.

 

Depois quando eles me disseram que eu tinha que voltar, que não tinha jeito, eu fui lá e fiquei um tempo. Eu trabalhava de manhã lá e de tarde eu ia para a Genética, mas isso foi pouco tempo. Nem me lembro bem o arranjo que eu fiz, eu sei que eu consegui fazer a ginástica para que os horários não coincidissem, para que eu pudesse me aposentar nas duas funções. Graças a isso que eu posso estar morando aqui, pagando esse condomínio, essa coisa toda.

 

Eu sempre fiz o que eu gostava, tudo bem!

 

Historiadora – O senhor contou a história hilária do lagarto. O senhor lembra de mais alguma história que tenha ficado no folclore da Genética?

 

Legoy – Tem muitas! Tem essa que eu falei da aula que eu dei, comigo e os alunos pulando a janela (risos). O porteiro, em vez de abrir às duas horas da tarde, ele simplesmente não apareceu, não sei o que houve com o seu Júlio. Como o seu Júlio não veio abrir, eu disse: “Quem sabe a gente pula a janela?” Disse meio na brincadeira. “Tá, vamos pular!”. Aí subimos em um banco, a janela era dessas de guilhotina, e fomos pulando, fomos pulando, e dei aula! (risos)

 

E tinha outros episódios, não me lembro agora. Tem tantos. Alguns não são muito bons para publicar. A maioria é preferível não lembrar (risos). Mas esses são inocentes. A do lagarto do Celso (risos). Quer dizer, hoje eu acho engraçado, na época o Celso não achou.

 

Historiadora – Mas ele usava para que o lagarto?

 

Legoy – Ele coletou o lagarto, fazia Zoologia, estudava lagartos, era zoólogo. O lagarto parece que era de uma espécie meio rara. Chegou oTownsend, especialista em anfíbios, se eu não me engano o lagarto é anfíbio. Não, o lagarto é um réptil, mas ele pegou o lagarto, matou, dissecou, descreveu. O Celso chegou:

- Meu lagarto!

- Fala com o americano aí.

- Tu mataste meu lagarto! - ele dizia meio em inglês, meio em português - Você killed my lagarto - e o cara dava risada. E ficou por isso mesmo (risos).

 

Tinha episódios amorosos e tal, no Departamento, moças e rapazes e tal. E a gente sabia de tudo, né?

 

Historiadora – Sim, conviviam juntos. Como era lá no edifício perto da Santa Casa? Como era dividido?

 

Legoy – Eram os três últimos andares. Tinha o andar da Genética de Drosophila, que era o décimo quarto. Tinha a Genética Humana, que era o décimo terceiro. E havia o décimo quinto onde eram as salas de aula e a cozinha. Era onde tinha a sala do café também, e a fofoca rolava livremente.

 

Historiadora – Então as aulas vocês davam ali mesmo?

 

Legoy – Dávamos ali. De vez em quando tinha que sair. A Agronomia não vinha até a gente, a gente tinha que ir, ou tinha que ir à Faculdade de Medicina, que naquele tempo era esse prédio que tem na esquina da Rua Sarmento Leite, prédio que tem até hoje, muito bonito, cujo destino não era para ser um instituto, era para ser um teatro ou coisa assim. Tu olhas o prédio e tem mais ou menos uma ideia. Era para ser um teatro e o governador da época comprou, desapropriou e deu para a Faculdade de Medicina.

 

Talvez para compensar a faculdade que ele recusou, que os americanos queriam fazer aqui. Os americanos queriam dar uma faculdade de medicina e ele por causa de princípios positivistas não quis. Acho que era o Borges de Medeiros. Então ele falou: “Vou dar um prédio para vocês”, e desapropriou. (risos)

 

Historiadora – Me chama a atenção na Genética essa questão da interdisciplinaridade, por que eram técnicos de várias áreas, né?

 

Legoy – Vinham farmacêuticos, médicos para estudar com o Salzano, agrônomos que vieram comigo, porque a gente nunca teve esse preconceito. Até porque o começo da Genética tinha sido assim. Começou do chão, do nada. É uma coisa que ninguém discute, o Cordeiro é o pai de tudo. Mas ele teve colaboração de alguns, eu sou um deles. (risos)

 

Historiadora – Ele teve essa visão de trazer pessoas de várias áreas que compuseram ali.

 

Legoy – Ele nunca foi catedrático. Ele sempre foi um pesquisador, chefe de pesquisa. Ele sempre fez trabalho de campo também. Eu me lembro das expedições para coletar Drosophila, eu não participava porque, na verdade, eu procurava técnicas para estudar as Drosophilas em laboratório.

 

Historiadora – E com o pessoal da Agronomia, qual era a sua parceria?

 

Legoy – Eu nunca tive parceria com o pessoal da Agronomia. Eu dei algumas aulas de Genética Básica para eles. Como dei também para o pessoal da Farmácia. Dava aula prática, por exemplo, de grupos sanguíneos. Então, cada um picava seu dedo, tirava um gotinha de sangue e ia ver o tipo. Ou tinha uma substância chamada fenil-tio-carbamida, fenil-tio-uréia que é extremamente amarga, muito desagradável o gosto. Mas tem gente que não sente gosto nenhum. Isto é um gene que a pessoa tem, uma variante de gene. Então, tu classificas a pessoa, se tem ou não tem esse gene. Então:

- Todo mundo aí, uma gotinha!

- Eca!

Outros: “Eu sinto um gostinho médio”, e outros: “Eu não sinto gosto nenhum”. Outro quase desmaia de repugnância com uma gota, outro não sente nada. É genético!

 

Até que as coisas ficaram bem sofisticadas, aulas de DNA e coisa, eu já estava meio por fora. Eu tive mais participação nessa parte inicial e intermediária. Depois eu só dava umas aulas práticas, como essa que eu te falei. Dava aulas, por exemplo, de Ecogenética, que foi a disciplina que eu fundei. Então eu levava a turma onde tinha um aparelho de raio-X, de radiografia de animais. O aparelho ficava em um pátio dentro da Faculdade de Agronomia. Eu levava o pessoal para fora da Faculdade, uns 30 ou 40m, acho que até 50m. Aí: “Liga aí o aparelho de raio-X”. Aí “pá” a agulha dava um salto. Aí eu dizia: “Vocês estão vendo?” Fazia parte da Ecogenética, o efeito das radiações. Aquele aparelho era bem antigo mesmo. Na terceira vez que eu fui lá, era uma aula por ano, aquele aparelho não estava lá, eles tinha trocado por um mais moderno. Graças! Eu digo: “Bom, dessa vez eu consegui alguma coisa”, (risos) porque o pessoal que tirava radiografia estava sendo irradiado tremendamente.

 

Historiadora – O professor Cordeiro contou alguma coisa também, que ele trabalhava com material radioativo e nem sabia que fazia mal.

 

Legoy – Ele tinha uma noção, mas não achava que fosse tão importante. Ele irradiava Drosophila com cilindro de cobalto. O cilindro estava dentro de um recipiente que se fazia subir com uma roldana e o cordão, de repente, se partiu e rolou no chão o cilindro. O que ele ia fazer? Ele segurou com a mão aquilo e enganchou no lugar:

- Mas tu és louco, cara?

- Sim, mas o que eu ia fazer, ia deixar ele no chão, para os caras entrarem e...?

- Sim, então tu pegaste uma radiação equivalente a milhares de radiografias? Sei lá, vai cair o braço, cara!

 

O cara é uma fortaleza!

 

Historiadora – Ele me comentou: “Até isso eu fiz e estou aqui!”

 

Legoy – E outras coisas também. Quando ele caiu no mar, estava naquele veleiro dele, ficou horas e horas segurando um cabo. Os caras não podiam socorrê-lo, ou tinha medo de socorrê-lo. Até que quando a borrasca amainou um pouco ele pôde subir a bordo. Pegou água nos pulmões, pegou o vírus que ataca o sistema nervoso, que come a palhinha de mielina dos nervos, que ficam expostos. É um troço que pouca gente consegue sobreviver. Eu digo: “Cara, tu é um super-homem, uma fortaleza!”

 

Historiadora – Ele falou muito das revistas Genetics e Heredity.

 

Legoy – Sim, eram revistas clássicas que a nosso pedido a Biblioteca do Instituto assinava. O Instituto tinha uma Biblioteca.

 

Historiadora – E agora onde essa biblioteca deve estar?

 

Legoy – Bom, eu não sei como ficou porque parece que a Biblioteca Central talvez tenha assimilado, por uma razão muito simples: não adianta ficar com os números atrasados, tem que estar sempre atualizado com as assinaturas. E verba para isso a Biblioteca Central tem. Então, se um instituto como o Instituto de Fisiologia da Faculdade de Medicina tem dinheiro para assinar... Eu acho que hoje em dia isso perdeu a importância com a internet, porque a Biblioteca Central da UFRGS participa da assinatura de milhares de revistas pela internet, uma fração do custo da revista impressa.

 

Historiadora – É mas mesmo assim eles têm na Biblioteca Central alguns...

 

Legoy – É, eles tem alguns.

 

Historiadora – Porque para a gente fotografar essas primeiras revistas.

 

Legoy – Eu já estou aposentado, mas eu continuo encarando a Genética como uma coisa que foi minha casa muito tempo. O Cordeiro e o Salzano muitas vezes dormiam lá! O Cordeiro, no período em que ele estava solteiro, ficava lá.

 

Historiadora – Quando foi para o Campus o senhor chegou a acompanhar?

 

Legoy – Sim, eu me aposentei lá no Campus. Em 1992, já estava lá há uns 10, 15 anos. Eu acompanhei, levei minhas tralhas para lá.

 

Historiadora – A professora Margarete comentou que eles ajudaram a fazer a planta do prédio e que depois os arquitetos fizeram o contrário.

 

Legoy – Os arquitetos tinham uma ideia na cabeça e fizeram o que eles quiseram. Aí saiu esse absurdo ridículo que é um prédio que não tem banheiros. Isso é uma coisa que só arquiteto mesmo, com o devido respeito pela profissão. Um gênio que faz Brasília não como cidade, mas como monumento.

 

Historiadora – O que mudou vocês indo para o Campus?

 

Legoy – Mudou que o espaço desde o início era apertado. Quando a gente se mudou lá para o Cândido de Godoy, no início até dava, depois rapidamente foi ficando apertado, no fim era até perigoso, porque era tanta ligação elétrica que eles vinham lá e não sabiam por onde começar quando precisava fazer um conserto. Tinha câmara fria, tinha aparelhos disso, aparelhos daquilo.

 

Então no Campus se teve uma abertura, um espaço com possibilidade de expansão. Apesar de que alguns vícios se perpetuavam, nisso que eu falei. Os caras, não adianta, eles têm uma ideia na cabeça e... Seja como for, está se fazendo, continuam fazendo, estão publicando, publicações de níveis internacionais.

 

Eu me lembro de jovens que entraram lá, que começaram, por exemplo, o meu amigo, eu não sei se está vivo ou se continua hospitalizado, o Israel Roisenberg, que foi orientado pelo Salzano e que começou o estudo da coagulação sanguínea no Rio Grande do Sul. O estudo de hemofilia foi ele que começou. Cada estudante que vinha foi praticamente o pioneiro de sua área. Pessoas que estudaram variantes de proteínas. Eu me lembro quando houve a descoberta da hemoglobina Porto Alegre, uma nova hemoglobina, não sei se o Salzano te falou. Por quê? Porque se tinha a técnica que foi introduzida pelo Tondo. E usando uma técnica que não era apropriada! Tinha que ter um olho muito bom, conhecer muito bem para: “Olha aí! Aqui tem uma variante desconhecida!”. Era uma faixa estreitinha que saía, que não coincidia com o resto, e o Tondo identificou. Então daí saiu uma nova hemoglobina, Porto Alegre.

 

Mas foi graças a coleta em populações negras de Porto Alegre que o Salzano fazia, porque geneticamente era mais interessante. Foi em um desses orfanatos, não sei se era no [Pedro] Chaves Barcelos, que tinha uma fileira de moças, meninas negras, mulatas, mas tinha uma que era branca, e essa aí estava em um canto. O Girley que estava fazendo coleta, menos a dela, pensou: “Ah! Vou coletar nessa também, para ela não se sentir excluída”. Pois foi nessa é que encontraram a hemoglobina Porto Alegre, que hoje se encontra em várias famílias, mas na época era desconhecida no mundo. Teve o nome hemoglobina Porto Alegre por causa disso, foi uma variante encontrada aqui. Essa é outra história que eu não sei se ele te contou: porque o rapaz, o técnico que foi fazer a coleta, resolveu coletar de uma menina que não era de cor, porque ficou com pena dela: “Ela está se sentindo excluída, vou coletar dela também”. Claro, ele avisou: “Essa aí não é negra!”. “Ah, tá bom, vai entrar também, vamos ver o que dá”. Aí que deu: uma hemoglobina desconhecida. Depois entraram em contato com familiares dela e encontraram a mesma hemoglobina. Quer dizer, é uma coisa genética familiar mesmo.

 

E sobre as histórias da Salzano com os índios. O Salzano tinha que convencer os índios a estender o braço para deixar picar para tirar sangue.

 

Historiadora – Ele falou que até acabava fazendo algum trabalho de dar alguma informação para os índios.

 

Legoy – Sim, ele dava.

 

O Girley era um cara que tinha uma prática de fazer coleta. Eu me lembro que uma vez nós tínhamos colaborar, nós tínhamos que dar também a nossa hemoglobina para servir de referência. Eu não gostava muito, porque eu ia fazer coleta para fins de análise disso ou daquilo nos laboratórios e os caras me espetavam, custavam a achar minha veia. “Oh, Girley! Tu vais conseguir?”. “Deixa comigo!”. Para grande surpresa ali, vapt-vupt, na hora. Eu: “Pô, tchê, tu és um gênio. Se todo mundo fosse assim” (risos).

 

Historiadora – Interessante lembrar desse trabalho dos técnicos que estavam lá para apoiar vocês.

 

Legoy – Tinha também, dos técnicos, a Nena Morales. Ela era um braço, ela fazia o trabalho de manutenção de spots, ela conhecia Genética de Drosophila suficiente para separar, para colaborar... Ela até apareceu como coautora de vários trabalhos.

 

E tinha outras que depois apareceram, a Vera Rodrigues, que fez durante muitos anos a manutenção dos meus estoques de moscas. Eu tinha moscas resistentes a metais pesados: resistentes a cádmio, resistentes a chumbo, resistentes a selênio, e tinha que fazer a manutenção porque uma geração de moscas não dura dois meses, e o técnico tem que fazer esse trabalho.

 

Historiadora – E tinha também os estagiários...

 

Legoy – Sim, o estagiário era o que mais tarde ia ser o candidato de Pós, eles entravam lá já sabendo que iam ter essa chance. E gente que vinha aprender técnicas também, de outras faculdades, de outros lugares do Brasil, era comum. Eu tive gente que veio aprender comigo.

 

Historiadora – Até de Belém, né? O professor Cordeiro mostrou umas fotos de gente de lá com que ele teria colaborado...

 

Legoy – Sim, de Belém. Gente que está hoje chefiando setores de departamentos, reitores de universidades, eram nossos bolsistas aqui. Inclusive até do Rio Grande do Sul, as universidades de Santa Maria, Pelotas, lá tem pessoas que foram nossas bolsista, que fez mestrado, doutorado, e hoje eles têm sua própria fábrica de gente. Tem essa faculdade federal que fica perto do Hospital Santa Rita, na Rua Sarmento Leite. Tem uma chefe de laboratório que é doutora, a Ivana Bentes, saiu de lá... Uma capacidade, uma cabeça fantástica. Então é uma verdadeira fonte de pesquisadores. Essa pós-graduação é benemérita! Eu não estou dizendo que eu tenha muito que ver com isso, eu ajudei no começo e fiquei depois, modestamente, até depois me aposentar. Tem alguns trabalhos científicos, algumas linhas de pesquisa, teve a disciplina de Ecogenética, que depois evoluiu para outras, mas é do começo, sai as coisas, né?

 

Historiadora – Eu não sei se tem mais alguma coisa que o senhor lembre, para salientar?

 

Legoy – Não...

 

 

Historiadora – Se lembrar, a gente volta!