Deixe um comentário / Bancas de Tese e Dissertação / Por Helena Camillo
ENERGIA, FINANÇAS E PODER MONETÁRIO: A CHINA E A INTERNACIONALIZAÇÃO DO RENMINBI NA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
Resumo:
Esta dissertação analisa como a China vem articulando sua liderança na transição energética com a criação de instrumentos financeiros voltados à promoção internacional do renminbi (RMB), no contexto das transformações recentes do Sistema Monetário e Financeiro Internacional (SMFI). Parte-se da compreensão de que energia, moeda e poder constituem dimensões indissociáveis da economia política internacional. Historicamente, a consolidação do dólar como moeda internacional esteve vinculada à hegemonia estadunidense e à centralidade do petróleo como principal commodity energética global. A precificação do petróleo em dólar, associada às instituições erigidas a partir de Bretton Woods, conferiu aos Estados Unidos um “privilégio exorbitante”, estruturando um SMFI hierarquizado e assimétrico. A transição energética em curso, marcada pela expansão das energias renováveis e pela crescente eletrificação da produção, altera gradualmente essa base material, deslocando a centralidade dos combustíveis fósseis e elevando a importância de minerais estratégicos e terras raras, cuja extração e processamento encontram-se fortemente concentrados na China. O trabalho fundamenta-se no arcabouço teórico da Economia Política Internacional, combinando revisão de literatura sobre moeda e poder, análise de relatórios governamentais e de instituições internacionais, e levantamento de dados sobre a internacionalização do RMB. Argumenta-se que a ascensão chinesa não se limita ao plano produtivo ou tecnológico, mas se desdobra na construção deliberada de instrumentos financeiros voltados à ampliação do uso internacional de sua moeda. Entre esses instrumentos destacam-se a criação de mercados futuros e bolsas voltadas à precificação de commodities energéticas em RMB, a emissão de títulos verdes, a ampliação de linhas de crédito e mecanismos de swap cambial, bem como o desenvolvimento de sistemas alternativos de pagamento e liquidação. Sustenta-se que tais iniciativas não configuram uma ruptura imediata com a ordem monetária vigente, mas representam um movimento incremental de diversificação monetária, no qual a China busca reduzir as constrições impostas por um SMFI centrado no dólar. Ao articular sua proeminência na produção de energias renováveis, no controle de cadeias produtivas estratégicas e na oferta de financiamento internacional, o Estado chinês constrói “veias financeiras” que ampliam a circulação e a funcionalidade internacional do RMB. Conclui se que a transição energética constitui um vetor material relevante para a reconfiguração das dinâmicas de poder no SMFI, ao criar condições para a expansão do poder monetário chinês. Ainda que o dólar permaneça dominante, observam-se tendências de diversificação e maior protagonismo do RMB, refletindo transformações estruturais na economia global e sinalizando possíveis rearranjos na hierarquia monetária internacional.
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