Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais

[Trabalho em Anais] A consolidação do Feminismo a partir do Sul Global: A voz própria das feministas latino-americanas

Autora: Ellen Gomes Passos

Publicado em: 6° Seminário de Graduação e Pós-Graduação em Relações Internacionais da ABRI
Ano: 10/2022

RESUMO

A presente pesquisa focar-se-á em responder o seguinte questionamento: quais os principais aportes teóricos desenvolvidos pelo movimento feminista latino-americano e como eles se diferenciam em relação ao pensamento feminista ocidental advindo do Norte global? Para que o enfoque possa ser analisado devidamente, o trabalho estenderá seu estudo aos conceitos que permeiam entre a produção bibliográfica do feminismo latino-americano enquanto movimento social e teórico, levando em consideração o tecido histórico, político e social da região, atentando às intersecções entre cultura, raça, gênero, sexualidade e exploração econômica existentes nos contextos latino-americanos. Para que o desenvolvimento do trabalho seja possível, levanta-se como hipótese a ideia de que o feminismo latino-americano enquanto pensamento e projeto político-teórico necessita de uma constituição própria de conhecimento baseado nas experiências vivenciadas na região, uma vez que, de acordo com a antropóloga mexicana Marcela Lagarde y de Los Rios (2012), os feminismos latino-americanos são sincréticos, na medida em que pertencem a uma fatia do mundo na qual ninguém sabe se realmente pertence ao Ocidente, exceto pelas línguas dominantes nela faladas, pelas religiões hegemônicas e pela organização de sociedades e Estados de acordo com a tradição ocidental. A fim de contextualizar brevemente a pesquisa, parte-se do pressuposto de que o feminismo enquanto movimento é pautado primordialmente pelas lutas incessantes na busca por direitos civis, políticos e sociais das mulheres, questionando sua situação de enfrentamento da subordinação e da violência patriarcal. Dessa forma, em seu primeiro momento, o movimento mobilizou diversos grupos femininos, com a presença predominante de mulheres brancas e de classe média/alta, com o intuito principal de reivindicar direitos como o direito pleno ao voto e ao trabalho, visando a igualdade de gênero e a defesa da plena cidadania à todos, sem distinções sexistas. De acordo com essa perspectiva, é possível observar que, embora generalizantes, as primeiras ondas do feminismo hegemônico obtiveram um papel indispensável na obtenção e na conquista dos direitos básicos femininos, permitindo que outros questionamentos fossem trazidos ao debate e ganhassem força internacionalmente. Entretanto, é apenas com o advento da terceira onda do movimento feminista a partir da década de 90 que foram anexadas ao debate novas agendas e discussões, essas atentas às intersecções entre nacionalidade, raça, gênero, sexualidade e exploração econômica em uma escala mundial (CYPRIANO, 2013). Fora nesse contexto em que emergiram novas possibilidades de experiências do ativismo político e social do movimento feminista plural, refletindo diretamente nas produções acadêmicas feministas da América Latina, as quais, de acordo com a autora e ativista feminista Ana Marcela Montanaro Mena (2016), apontam a denunciar o caráter eurocêntrico, etnocêntrico e universalizador do sujeito central do feminismo hegemônico e da forma com que este reproduz a colonialidade, priorizando o desenvolvimento de uma abordagem de gênero e étnico-racial no sentido transversal. A partir desse cenário, os movimentos feministas oriundos da América Latina passaram a rever suas bases teóricas e reconstruir seus encontros por vontade própria, a fim de desenvolver um movimento essencialmente pautado nas experiências vividas no Sul Global, mesmo em um contexto de organização patriarcal que constantemente gera segregação e supremacia masculina (ALMEIDA, 2018). Como mencionado em Cypriano; Dias; Barbarela (2017), muitas vezes o que era intitulado como “teoria política feminista”, na verdade acabava sendo um campo de autocitações centrado na produção quase que exclusiva da academia feminista anglo-saxã, restringindo essa categoria somente ao sujeito mulher e sem abarcar a opressão de raça, classe, opção sexual, entre outras, revelando a endogenia e a prática direta de autocitações internas a esse campo. Desse modo, a presente pesquisa tem como principal objetivo revisitar as principais bases teóricas do pensamento feminista latino-americano, o qual enuncia as formas de luta próprias do contexto latino-americano, utilizando de conceitos e experimentos que provem a intensa ruptura com as relações de poder ocidentalizadas. Diante disso, ao questionar o modo como a teoria feminista dos países centrais chega aos contextos subalternos e como isso determina a forma na qual estes países desenvolvem suas lutas e análises, pode-se concluir que a criação de uma teoria com cunho “pluriversal”, assim como proposto pela autora Marlise Matos (2012), é uma forma do feminismo latino-americano se estabelecer como um sujeito não apenas teórico, mas também político de luta contra as inúmeras opressões e desigualdades existentes na América Latina.