Projeto de extensão da Arquitetura, com participação de membros do PROPUR, aproxima estudantes e integrantes da Ocupação Rexistência
“Iniciativa lançada durante as enchentes de maio de 2024, resultou na elaboração de um plano habitacional do edifício ocupado e também na conexão entre produção acadêmica e direito à cidade”
2 de julho de 2025

“Criado no contexto das cheias que atingiram o RS em 2024 – ao lado de outras tantas iniciativas da Faculdade de Arquitetura daquele momento – o projeto de extensão “Espaços de Convergência Social e Comunitária” está ligado ao Laboratório de Narrativas Urbanas Margem-Lab do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade (Propur) e é coordenado pelas professoras Daniele Caron e Ana Elísia da Costa.
Por meio do reconhecimento da importância dos espaços comunitários antes, durante e após eventos climáticos, inicialmente a ação voltou-se para as cozinhas solidárias, fornecendo assessoria técnica para cozinhas ligadas ao Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Esta assessoria contou com financiamento do Fundo Casa Sustentável.
O trabalho foi ampliado a partir da necessidade urgente de apresentar à Prefeitura um estudo de viabilidade de reuso do edifício ocupado pela Rexistência, no Centro Histórico da capital, onde está localizada uma das cozinhas solidárias do MNLM. Segundo a professora Ana Elísia, “a análise buscou demonstrar a possibilidade de adaptação do prédio, anteriormente um centro cultural, para residencial com 22 unidades habitacionais”.
Conforme a docente, a experiência com as ocupações em Porto Alegre é explorada pelas disciplinas Projeto Arquitetônico 2, na graduação, e Laboratório de Narrativas Urbanas, na pós-graduação, além de pesquisas como Inventariar e inventar cidades, da estudante Julia da Cunha Fraga.”
Prática de ensino-extensão-pesquisa

“Ana Elísia conta que a demanda foi assumida como uma prática de ensino-extensão-pesquisa, ligando o referido projeto de extensão à disciplina de graduação Projeto Arquitetônico 2 (P2) e à pesquisa Inventariar e inventar cidades. Ela esclarece que a disciplina integra a grade do quarto semestre do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. “Aos estudantes das turmas A e C, conduzidas pelas professoras Ana Elísia da Costa e Daniela Cidade, foi solicitado compor um ‘repertório’ de soluções que pudessem subsidiar um projeto futuro a ser desenvolvido pela própria equipe técnica do MNLM. Alguns integrantes dessa equipe, como o engenheiro Guilherme Barbosa e a arquiteta Karla Moroso, e outros arquitetos convidados compuseram uma das redes de apoio do trabalho, atuando em forma de consultorias técnicas. Pautando relações dialógicas, os estudos foram desenvolvidos e discutidos na UFRGS e na própria ocupação, onde estudantes e moradores conviveram, em meio a levantamentos, rodas de conversas e dinâmicas de grupo”, detalhou.
A coordenadora avalia que, em meio a essa complexa trama de ações e agentes, as comunidades da UFRGS e da Ocupação foram naturalmente impactadas. “Estudantes foram atravessados (e atravessaram) realidades pouco visibilizadas pela sociedade e pelo mundo acadêmico, encontrando aí espaços para reflexão e a crítica. Eles também experimentaram um projeto que se diferencia da prescrição, abstração e idealização do projeto tradicional, enfrentando os desafios da dialogicidade, da interdisciplinaridade, e de pôr em execução desenhos, que, na frieza do papel, desconsideram conflitos, poucos recursos financeiros e mão de obra nem sempre habilidosa”, observou. Por outro lado, por parte da comunidade, ter um estudo de viabilidade já nas mãos da Prefeitura, mostrou-se relevante por ser mais um instrumento de negociação dos seus direitos.
Por fim, Ana Elísia considera que a experiência se apresenta como uma alternativa, um caminho de ressignificação do papel da Universidade e da profissão do arquiteto e urbanista.”
Projetos em paralelo
“Além do estudo de viabilidade, foram desenvolvidos em paralelo dois projetos. Um sobre intervenções nos dois primeiros pisos da ocupação Rexistência, que, a curto prazo e a baixo custo, qualificaram minimamente o espaço, incluindo aí a sua cozinha solidária. “Parte dessas intervenções foram executadas em oficinas coletivas de mosaicos, marcenaria e instalações elétricas, envolvendo um grande número de colaboradores da UFRGS e externos a ela”, revela a professora.
O outro projeto foi a realização de um evento de encerramento das atividades e de celebração de um ano de ocupação, contando com uma exposição. “Essa mostra explorou uma cartografia colaborativa sobre as ocupações no Centro Histórico de Porto Alegre, elaborada pelos estudantes de P2 e pela Ni, coordenadora do MNLM. A curadoria, expografia e montagem da exposição envolveu estudantes de P2 e equipe da pesquisa Inventariar e inventar cidades, que conta com estudantes de graduação do Design Visual e da Arquitetura e mestrandos em Planejamento Urbano e Regional.”