Hoje estamos vivos, portanto respiramos
Começa como uma tosse.
Movimentos involuntários do organismo tentando livrar-se do corpo estranho preso na garganta.
Às vezes parece um pigarro, um pequeno incômodo próximo à úvula, que brota à cada tentativa de falar.
Também há os dias em que o bloqueio da passagem de ar está tão intensificado que quase não é possível proferir palavras.
Nesses dias dói.
Dá vontade de arranhar o pescoço e arrancar o que está lá no fundo, de forçar um vômito só pra sentir o alívio.
E a tosse,
sempre a tosse,
aumentando a saliva,
nos fazendo babar, nos fazendo engasgar mais e mais.
E em meio aos sons desesperados por ar, ao bombear do peito, a aflição de não poder falar e de não ser ouvido,
está o corpo.
Não apenas um corpo, mas a matéria viva que envolve tudo isso, que luta para expelir o engasgo.
O corpo sempre luta contra o que tenta derrotá-lo – isso é pura biologia.
Nossa vontade de viver faz com que combatemos o que ameaça nossos corpos. É por isso que temos febre, produzimos pus, suamos, salivamos
Mas
O que fazer quando o mundo rejeita a nossa existência?
Ou pior ainda,
O que fazer quando o próprio mundo nos engasga?
O palco não é mais apenas palco,
Torna-se espaço,
Mas não um espaço em branco, isso não
Um espaço preto – como um universo onde uma gigante anã vermelha está prestes a implodir e engolir tudo ao seu redor
Nesse espaço, os corpos
Vivos
Urgentes
Tentando desengasgar do mundo
Quatro atores e
Seis atores
Um círculo ao redor e
Público na frente e ao lado
Um talkshow e
Uma coreografia tão cheia de ódio que você nem imagina
O peito, os braços, as pernas nuas, vulneráveis, frágeis, abertos e
O preto e o vermelho rompendo o ar, desafiando o espaço, preenchendo o vazio de um mundo que costumava ser maior
Um membro gigante nunca visto e
O suor riscando o rosto
Projeções indecifráveis e
O samba que escapa dos pés
Sobre eles e
Sobre todos
Luno, Gabriel, Eslly e Phillipe e
Cira, Eslly, Gabi, Letícia, Maya e Phill
Juntos e
Fazendo Arte

(Por que nos surpreendemos quando assistimos a um espetáculo só com pretos se quase sempre assistimos a grupos totalmente brancos?)
Nós, artistas, estudantes, acadêmicos, professores, sociólogos, filósofos, historiadores, graduandos, mestrandos, doutorandos, músicos, dançarinos, atores, escritores, desenvolvedores, pensadores, feministas, esquerdistas,
Tão engajados, revolucionários
Adoradores da democracia
Tão desprendidos,
Amantes dos mesmos discursos de instagram e facebook
Tão #elenão,
Destiladores de ódio contra as opressões que NOS acometem,
Tão europeicamente brasileiros,
Produtores de protagonismos
Ainda nos chocamos com os corpos negros
Porque ainda não os vemos verdadeiramente
Amamos seu discurso, mas não queremos ouvir o som afogado
Temos medo da música do engasgue
Temos medo de ouvir o que já sabemos- que somos violentos e opressores apenas pela nossa existência,
E que aqueles em cena,
Desafiando todas as estatísticas
Probabilidades
Se recusam a sucumbir
Uma existência que se recusa a desexistir
Há! E ainda há alguns que se ofendem pela revolta contra uma branquitude coalhada
(O que é a ofensa perto da morte?)
Num lado, os corpos atrozes de quatro bixas pretas,
No outro – e ainda assim do mesmo lado – seis atores negros preparados para gritar
um grito que tentaram emudecer mas que não conseguiram.
As duas peças sobre sobrevivência,
sobre a atrocidade que é se recusar a morrer
Sobre existir por si, com toda a força acumulada pelos centenas de milhares de tantos
e outros tantos
anos engasgados
À carne viva, paradoxo do homem negro gay: ser firme para sobreviver e ao mesmo tempo lutar para não deixar-se endurecer pela sociedade,
Ser o que se é porque se é e quer ser e ama ser
E ponto.
Contra o mundo e contra todos,
Contra os incomodados, os em cima do muro, os que suportam, os compreensivos, os condescendentes, os amigáveis, os inimigos, os racistas, os preconceituosos, os frouxos
Existir.
Existir porque se é
Porque se quer ser.
Os sobreviventes que dançam ao som de Preto e Prata
Com sangue nos olhos
Denunciando o sangue nas mãos de quem assiste
(Quantas vozes já calamos socando coisas em suas gargantas?)
(Quanto tempo fazia que o teatro não acontecia?)
Ao final da peça
O público aplaudia de pé
E os atores respiravam
Com as gargantas livres
Os gritos ecoando na noite
Negra
Desengasgados
Respirando

SOBREVIVO
Atrozes: Cira Dias, Eslly Ramão, Gabi Faryas, Letícia Guimarães, Maya Marqz, Phill Coutinho
Diretroz: Sandino Rafael
Iluminação: Silvana Rodrigues
Orientação: Celina Alcântara e Patrícia Fagundes
CARNE VIVA
Elenco, Direção, Produção e Dramaturgia: Luno de Schrödinger y Gabriel Farias y Eslly Rafael y Phillipe Coutinho.
Iluminação de Sandino Rafael.
Qorpo Qrítico – Vol. 01, n. 02, outubro de 2019 a janeiro de 2020. ISSN 2675-4207.
