Sobre Ninguém Falou Que Seria Fácil

“Em um clima leve e descontraído, nos damos conta aos poucos do quão horríveis as relações familiares podem ser. E o quanto conseguimos rir disso.”

 

Ninguém Falou que Seria Fácil”, peça que fez temporada no projeto TPE (teatro, pesquisa e extensão) da UFRGS no mês de setembro de 2018, nos leva em um clima “descompromissado”, leve e divertido pelas relações inusitadas de famílias. Assisti a peça em duas ocasiões, uma como obra de conclusão de uma cadeira no Departamento de Arte Dramática, e outra agora, em cartaz. Mas ou minha memória falha, ou não se teve grandes alterações de uma versão para a outra, a não ser uma atriz a menos, a qual não senti impacto da perda, pelo preenchimento feito para suprir a falta.

Quando penso em uma crítica, penso que se deve pensar em dois aspectos diferentes: artístico (visualidade, atmosferas, divertimento ou impacto gerado, etc) e técnico (desenvoltura dos atores, preceitos de iluminação, cenário, etc). Sendo assim, vou analisar por essas duas vias.

Pela questão artística, é simples, limpo, cores, texturas, cenário, divertido. A interação com a plateia clássica em comédias desse tipo, a “queixa da personagem com o transeunte desavisado, sentado em sua poltrona” funciona. A peça em si sabe dosar momentos, fluxos. Como gosto de chamar, a “montanha-russa teatral” que se dá pela nivelação e alteração energética devida para a peça não se tornar chata e monótona, seja tanto pela tranquilidade e lerdeza quanto ao caos sufocante. Temos momentos de riso, de riso, e de respiros, de riso, para em pontos específicos mergulharmos no subliminar coletivo e tocar no ponto mais verdadeiro das famílias modernas; a ausência e o escapismo. A peça se centra pela alternância de papéis, seja de atores e personagens quanto personagens e personagens, num, fluxo constante e até um tanto confuso do “quem é quem”, visto que temos quase nenhum signo exato para cada personagem além da fala, visto que como o palco é quase nu, o figurino uniformizado, mudando apenas cores e rostos. Nessa alternância, e com a metalinguagem constante, entramos em uma história que entra em outra história, e quando olhamos para trás, não sabemos o caminho que trilhamos. Em uma cena especifica, no “Drama Time”, momento a qual se tem a suspensão e sensibilização maior na peça, algo que parece necessário em todas as comédias, nos últimos tempos, o pai astronauta sofre um acidente e acaba perdido no espaço com pouco oxigênio, e logo em seguida, somos transportados para sua filha na Terra, lamuriando a ausência do pai, uma cena forte, com todos os pontos do espetáculo focando aquele rosto de menina chorosa iluminada por uma lanterna branca, é devastador, pois este é o momento do “gatilho” de entendimento de o quanto estamos rindo de momentos horríveis, desde o pai que perde a filha de 3 anos e inventa todo um trajeto narrativo para acalmar a mãe, dialogando sobre contratar uma atriz mirim de 3 anos, entre outros momentos.

Na questão técnica, é algo que vejo em um geral da cena teatral local: a falta de preparo. Não é de hoje que percebo uma certa falta de potência física e vocal, a qual tem momentos que não entendi o que se fala, seja pela articulação, seja pela projeção, e sempre me questiono qual é o trabalho corporal empregado, não é por ser uma comédia que o corpo pode ser jogado, o que não é exatamente o caso nessa peça. É um sentimento de “quase”, de “falta algo”, sinto que a falta de precisão em certos pontos me faz perder na história, deixando passar as informações principais dos discursos. Mas mesmo assim, os e as atrizes encantam, chamam atenção, existe um trabalho feito, existe um compromisso artístico. As atuações são dinâmicas, convencem, existe uma energia entre os e as atrizes. O cenário é simples, um retângulo de madeira servindo de cama e elevação, e outros objetos em momentos pontuais, para 7 artistas em cenas em momentos de palco cheio e palco vazio, é o ideal para o discurso da peça, com iluminação também simples, sem grandes acrobacias luminosas, seguindo em harmonias com todos os tons da peça; A Simplicidade. E justamente nesta simplicidade veio a armadilha; todos os barulhos externos havia a impressão de ser parte do espetáculo, o que pela reação dos atores confirmávamos pelo sim ou pelo não, então criando uma certa “sujeira cênica”, justamente pela simplicidade e falta de precisão devida, os momentos de “ruídos cênicos” se mostravam com mais força, assim diminuindo a potência das cenas.

A peça se resolve e funciona naquilo que se propõe, me deixando com um risinho de canto de boca em quase toda a sua duração, me levando pelas ondas do fluxo gerado, mas ainda sim, é perceptível algumas falhas, mas sem grandes equívocos. Uma boa peça para domingos em família.

 

 

Foto: Qex Bittencourt