Há cerca de oito anos, Juvenal Dal Castel, de 61 anos, ficou surpreso quando recebeu um vídeo gravado por um amigo durante o Festival do Azeite de Sant’Urbano, cidade italiana com cerca de dois mil habitantes. O festival era embalado por uma música que vinha dos alto-falantes da igreja. Juvenal logo reconheceu a melodia: Viver in colònia, uma das 16 músicas compostas e gravadas por ele em talian.
Chamado por alguns de “vêneto brasileiro”, o talian é uma língua brasileira que surgiu da mistura dos dialetos trazidos pelos imigrantes italianos e que acabou facilitando a comunicação entre grupos vindos de diferentes regiões da Itália. Segundo o Inventário do Talian, documento elaborado por pesquisadores em 2010, estima-se que 500 mil pessoas sejam falantes do talian no Brasil no século 21. A popularidade e a relevância da língua levaram o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a reconhecê-la como Referência Cultural Brasileira em 2014.
“Era vergonha, era uma língua considerada de pessoas toscas, grotescas, colono grosso, pessoas ruins”
JUVENAL DAL CASTEL, membro da Associação de Difusores do Talian
Juvenal se interessou pela preservação do talian recentemente apesar de tê-lo aprendido antes mesmo do português. Durante parte da vida, ele, que é natural de Guaporé, no interior do Rio Grande do Sul, acostumou-se a ouvir o talian ser menosprezado. “Era vergonha, era uma língua considerada de pessoas toscas, grotescas, colono grosso, pessoas ruins”, conta. O preconceito linguístico levou Juvenal a sentir vergonha do conhecimento que possuía e a não repassá-lo aos filhos, decisão da qual se arrepende até hoje.

Doutoranda do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Camila Barili explica que a valorização do talian começa pela forma como ele é chamado. A pesquisadora defende o uso da palavra “língua” ao invés de “dialeto”. Sua preferência é explicada pelo sentido que cada palavra possui: “‘Dialeto’ traz um status menor do que ‘língua’. Quando as pessoas chamam o talian de dialeto quer dizer que ele não chega a ser uma língua”, argumenta.
A conscientização de Juvenal sobre a riqueza da língua ocorreu em 2010, ao entrar em contato com a Associação dos Difusores do Talian (Assodita). O grupo, do qual hoje é membro, concentra esforços para a valorização e preservação da língua por meio da realização de encontros anuais e de parcerias com universidades para o seu ensino.
Além da música e da participação junto à Assodita, Juvenal se aventura no mundo da escrita em talian: é coautor de um dicionário e de uma gramática, escritor de poemas e do romance Grigialda: galina contadina da colônia. Faz também traduções e produziu uma radionovela. Suas atividades como músico, escritor e produtor ainda são conciliadas com a atuação como dentista em Porto Alegre, onde vive há 30 anos.
A vitalidade do hunsrückisch
Assim como Juvenal, Luiza Loch, de 23 anos, não carrega a língua portuguesa do berço. Até os três anos, o único idioma que usava para se comunicar com a família era o hunsrückisch, derivado do alemão. A jovem, moradora de Arroio do Meio, no interior do Rio Grande do Sul, conta que só foi aprender o português na escola: “Já era uma criança bem falante e eu lembro que eu tive essa dificuldade de que na escola todo mundo falava português e em casa eu me comunicava em alemão”. Anos depois, Luiza entendeu que, na verdade, falava o hunsrückisch.

Herança dos imigrantes alemães, o hunsrückisch é a mais popular entre as cerca de 14 variedades dialetais do alemão no Brasil. Apesar da dificuldade em organizar pesquisas que quantifiquem o total de falantes, o Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração (IHLBrI), relatório de 2018 que mapeia a sua trajetória histórica e social, estima que existam cerca de 1,225 milhões de falantes da língua no país. O cálculo é baseado no Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1940 – último censo nacional a abordar as questões linguísticas de descendentes e imigrantes – e em um levantamento linguístico desenvolvido entre 1988 e 1990 pelo projeto Bilinguismo no Rio Grande do Sul (Birs).
Professor do Instituto de Letras da UFRGS e um dos organizadores do Inventário do Hunsrückisch, Cléo Vilson Altenhofen explica que a língua foi favorecida pela proximidade com o alemão padrão: “O hunsrückisch era muito próximo da norma escrita, do hochdeutsch [alto alemão ou alemão padrão]. Então, ele se beneficiou dessa possibilidade, e logo imigrantes de regiões diferentes começaram, para se entender, a aproximar sua fala desse alemão mais comum”. Ele acrescenta que o nome “hunsrückisch” surgiu posteriormente e que hoje em dia é comum encontrar falantes que não possuem consciência de qual variação dialetal usam para se comunicar.
Luiza também percebe a semelhança entre o alemão padrão, falado na Europa, e o que aprendeu em casa. Há cerca de um ano e meio, ela decidiu inscrever-se no curso de alemão oferecido pela Universidade do Vale do Taquari (Univates), onde faz pós-graduação em Odontologia. Para ingressar no curso, teve que realizar uma prova de nivelamento, cujo resultado a surpreendeu: sua bagagem do hunsrückisch possibilitou que ela ingressasse no curso em um nível intermediário.
Um dos assuntos que mais intriga pesquisadores do tema é a vitalidade do hunsrückisch. Estudos sociolinguísticos apontam que a tendência é de que uma língua de imigração permaneça viva na comunidade durante três gerações. Enquanto a primeira geração de imigrantes a carrega consigo e, em geral, não desenvolve o uso do idioma do novo lugar, os seus descendentes tornam-se bilíngues. A partir da terceira geração, a tendência é de que a língua dos antecessores seja deixada para trás, e os membros da comunidade passem a se comunicar apenas na forma dominante. No entanto, passados mais de 200 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães, o hunsrückisch segue vivo.
O pesquisador Cléo sugere algumas explicações para o fenômeno. A primeira delas é que os imigrantes formaram comunidades fechadas desde a sua chegada, com contato reduzido com falantes de português, o que estimulou que o dialeto seguisse sendo utilizado. Outra explicação é a demora para o desenvolvimento econômico da região sul do país, o que levou os alemães a construírem suas próprias escolas e igrejas, espaços de contato social e compartilhamento da cultura alemã.
Risco de apagamento
Durante o Estado Novo (1937-1945), o talian e o hunsrückisch foram alvos da política nacionalista de Getúlio Vargas através de uma série de decretos que proibiram o ensino das línguas de imigração aos jovens. Em 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, durante a Segunda Guerra Mundial, o cerceamento à cultura alemã, italiana e japonesa aumentou, acarretando na proibição do uso de suas línguas, seja por meio da fala, de jornais ou de livros. “Nossos avós e nossos pais foram condenados a ficar quietos, a não falar nada, porque era a única forma que eles tinham para se expressar”, sintetiza Juvenal.
“Toda língua é um conhecimento muito valioso. Sobretudo quando você trata de um dialeto que não se aprende em qualquer estabelecimento de ensino”
CLÉO VILSON ALTENHOFEN, professor do Instituto de Letras da UFRGS
Hoje em dia, especialistas debatem o risco de desaparecimento dos dialetos. A doutoranda Camila, que estuda o talian, identifica que as novas gerações já não possuem o domínio linguístico dos mais velhos. Em contrapartida, ela tem visto cidades do interior se interessarem pela proteção da língua através de campanhas de cooficialização desses idiomas, mas salienta a necessidade de que a conscientização seja acompanhada por políticas públicas eficientes.
“Eu espero que essa cooficialização não seja só para chamar a atenção. Mas que realmente sejam feitas algumas ações, algumas políticas em relação à língua”, diz Camila. A pesquisadora defende o ensino das línguas em escolas e a promoção de eventos como forma de valorizar a cultura dos imigrantes.
Por sua vez, Cléo não acredita que as variedades dialetais possam desaparecer de uma hora para a outra. O desaparecimento seria, na verdade, consequência da falta de compreensão do valor que as línguas carregam: “Toda língua é um conhecimento muito valioso. Sobretudo quando você trata de um dialeto que não se aprende em qualquer estabelecimento de ensino. É da vida e é uma habilidade, como todo o conhecimento linguístico.”

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