Sextante

Do oi da poc à chuia

Pajubá é uma linguagem usada pela comunidade LGBTQIA+ no Brasil como forma de resistência

REPORTAGEM
Melga Marçal
melgamarcal@gmail.com

Arte: Magnólia Leão
Ouça a reportagem

Só quem sabe falar pajubá, uma linguagem usada pela comunidade LGBTQIA+ no Brasil, consegue entender a seguinte frase:

“Mona, as amapô aqui aquendam o bate-bate, mas os ocó são tudo ossibaré”.

Conhecido também como bajubá ou bate-bate, o pajubá é usado principalmente por mulheres trans e travestis que trabalham com prostituição para se comunicar em lugares públicos sem que outras pessoas as entendam. Sua origem vem da necessidade de falar em código para escapar da transfobia nas ruas, como foi o caso da Operação Tarântula, realizada pela polícia civil de São Paulo em 1987, que tinha como objetivo prender a população trans para “higienizar” a cidade. Muitas outras operações desse tipo já ocorreram no país.

Em 2022, 131 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, segundo relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Desde que a organização começou a realizar o dossiê em 2008, ela mapeou uma média de 121 assassinatos anuais. Há também casos de subnotificação pelo poder público ou não classificação desse tipo de crime como morte de pessoas trans. O pajubá serve, então, como forma de proteção diante de tanta violência.

gráfico ilustrando assassinatos de pessoas trans ao longo dos anos de 2008 a 2022
Fonte: Antra & Grupo Gay da Bahia (GGB)

Além de um código, o bate-bate também ajuda a formar a identidade da comunidade LGBTQIA+ brasileira. Chuia, poc, gilete, trava, entre outras expressões, são de uso comum dentro da comunidade e ajudam a expressar a diversidade sexual e de gênero. Porém, a popularização desses termos tem feito com que pessoas que não sabem o que é o pajubá também usem essas expressões, tirando o fator de proteção da linguagem.

O que é esse pajubá?

O pajubá, como qualquer linguagem, está em constante transformação e não possui gramática específica. Algumas tentativas de documentação geraram polêmica. O livro Aurélia: A Dicionária da Língua Afiada, por exemplo, foi tirado de circulação após sofrer ameaças de ação judicial pela Editora Positivo. Dona do dicionário Aurélio, a editora alegou que os direitos de propriedade intelectual e a honra de seu fundador foram feridos pelo uso da linguagem obscena.

Também há desafios para estudar pajubá no meio acadêmico. Renato Régis Barroso é mestre em Letras e Artes pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e analisou a linguagem em sua dissertação. “Fui pesquisar e vi que não havia pesquisa acadêmica sobre isso”, conta. Ele entrevistou pessoas da comunidade LGBTQIA+ em Manaus e percebeu que mesmo dentro da comunidade a língua é diversa.

A pesquisa de Régis tornou o pajubá objeto de discussão nacional quando o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) utilizou-o em uma questão, em 2018. A pergunta pedia para os alunos analisarem um texto e dizer o que configura um dialeto. Isso virou matéria nacional e entrou no debate político daquele ano de eleição, provocando reportagens sobre o tema que, segundo Régis, não ajudavam o público a entender o pajubá. Para o pesquisador o pajubá seria melhor classificado como gíria. Ele explica que isso se dá pois a linguagem tem base no português e utiliza expressões de outros idiomas (inglês, francês, línguas africanas e indígenas).

Essa diversidade de influências também permite que haja expressões em diferentes regiões do país com pronúncias e entonações diferentes. Para se referir a uma pessoa idosa na região nordeste, por exemplo, é comum usar o termo cacurucaia ou cacura, já no sul é irene.

“Se eu falar ‘a João’ sendo que ele é um homem trans, isso pode ser ofensivo, já que a linguagem pode ser uma forma de mexer com a nossa disforia de gênero”

VICTORIA MAIA, mestranda em educação pela UFRGS

Para Sofia Favero, psicóloga, ativista e doutoranda de Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o pajubá não seria apenas um código, mas também uma maneira de subjetivação. A comunidade apropria-se de expressões usadas para ofender pessoas LGBTQIA+, buscando novas formas de resistência à linguagem culta, transformando significados para empoderar-se e desafiar as normas estabelecidas.

“Pajubá é uma forma de falar sobre como comunidades são criadas no cruzamento entre pobreza, marginalidade, desassistência, talento, criatividade, estratégia e organização social. Falar pajubá é trazer à tona a história dessas disputas”, complementa Sofia.

Língua afiada, identidade marcada

Arte: Pedro Stelmach

“É Crystal com Y, meu bem”, informa Glória Crystal, de 58 anos, diretora adjunta do departamento de Diversidade Sexual da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. Mulher travesti, preta e periférica, ela participou de vários momentos na luta pelos direitos da população LGBTQIA+ desde que esse movimento político se iniciou no Brasil nos anos 1980, durante a pandemia da AIDS. “Em todos os protestos e encontros nacionais eu estava lá”, afirma.

Além disso, Glória é artista há 42 anos e relata que utilizava mais o pajubá durante seu trabalho em bares e boates. Nesse contexto, ela precisava escapar da polícia, que realizava patrulhas em locais de entretenimento queer. “Antes era algo muito de proteção contra a polícia e dos bofe também. Tipo, aquenda os alibã! Ou aquenda que esse ocó vai te dar a elza”, explica. Glória percebe que as gerações mais novas têm pouco contato com pajubá e sua história, pendendo mais para a linguagem de internet.

“A língua invisibiliza, mas também permite a gente existir. Sempre é uma disputa de linguagem”

DOUGLAS OSTRUCA, doutorande em comunicação pela UFRGS

Atena Beauvoir Roveda, de 32 anos, ativista política e artista, prefere não usar o pajubá por não se sentir confortável com a apropriação dessa linguagem para uso cotidiano. “Eu não uso porque acho que tem que ter respeito à existência das mulheres travestis que estão no espaço da prostituição”, explica.

Ela acredita que o uso da gíria é algo existencial e não deveria ser tratado no âmbito acadêmico por ser uma experiência das ruas e não um assunto teórico: “É complexo eu usar pajubá [no cotidiano ou na pesquisa] e dizer que é a mesma coisa que o código das trabalhadoras sexuais de esquina”, completa. Atena comenta ainda que é algo bastante pessoal e não tem pretensão de dizer quem pode ou não usar, mas acredita ser importante, especialmente para pessoas trans jovens, estudar e refletir sobre como se usa essa linguagem.

foto da artista Atena Roveda lendo um seu livro "Pão, Sol e Travesti"
Atena Roveda, ativista política, prefere não usar a linguagem pajubá no cotidiano | Foto: Guilherme Freling

Para Atena, infelizmente as discussões sobre a experiência trans ainda são rasas, já que não existem locais exclusivos para pessoas trans na sociedade e é complexo usar uma língua como pajubá sem participar ativamente de um espaço de cultura trans: “Eu não quero um casarão só de pessoas trans, isso já tem. Eu quero um bairro onde os negócios, as padarias, os açougues, tudo seja de pessoas trans. Enquanto não existir isso, a discussão ainda é superficial”.

Entre o close e o carão

O ballroom é um movimento cultural LGBTQIA+ que surgiu nos Estados Unidos e, nos últimos anos, vem ganhando mais visibilidade no Brasil. Os eventos, chamados de balls ou bailes, são competições de expressão artística em que times (houses ou casas) disputam diversas categorias. O pajubá entra nessa mistura, adotando os termos do inglês e enriquecendo mais o vocabulário dos membros dessa comunidade.

Victoria Maia, de 28 anos, mestranda em educação pela UFRGS, participa da cena ballroom desde 2021. Fazendo hoje parte da Casa de Leopardos, Victoria fala pajubá comumente com as pessoas da Casa. É comum em pajubá trocar todos os artigos para o feminino, porém Victoria pondera: “Se eu falar ‘a João’ sendo que ele é um homem trans, pode ser ofensivo, já que a linguagem pode ser uma forma de mexer com a nossa disforia de gênero”.

Conheça algumas expressões do pajubá:

Dentro de outras cenas artísticas queer de Porto Alegre, pode-se encontrar também as variações do pajubá. Na arte transformista, termos em inglês se misturam com as gírias do bate-bate. Douglas Ostruco, de 28 anos, é doutorande em comunicação na UFRGS e atua como a drag queen Professora Luná Maldita desde 2020. Douglas pesquisa sobre a comunicação da arte transformista na internet e vê como a linguagem usada pela comunidade se diferencia do online para o presencial.

foto da drag queen Professora Luná Maldita
A drag queen Professora Luná Maldita percebe diferenças quando o pajubá é comunicado de forma presencial ou pela internet | Foto: Guilherme Freling

A geração desempenha um papel crucial na determinação do uso de estrangeirismos e na decisão de se misturar ou não com o pajubá. Isso não se limita apenas ao ambiente online, mas também se manifesta em diversos espaços queer. Segundo Douglas, a escolha da linguagem é fundamental para expressar a postura do local em relação à comunidade: “A língua invisibiliza, mas também permite a gente existir. Sempre é uma disputa de linguagem”.

A tradução da frase do início desta reportagem é um aviso de quem percebe a gíria sendo usada por pessoas fora da comunidade: “Viado, as mulheres aqui sabem pajubá, mas os homens são tudo burro”. Um “oi” em pajubá pode ter várias formas do norte ao sul do país, mostrando a diversidade linguística dentro da comunidade LGBTQIA+. Porém, é importante avaliar quem, onde e por que se usa pajubá.

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