Sob o olhar atento da torcida e dos jurados, o mestre-sala e a porta-bandeira entram no sambódromo abrindo o desfile. Com sorriso no rosto e indumentária primorosa, eles dançam como se fossem um único organismo: em sincronia e ritmados.
Para alcançar esse nível de excelência, no entanto, é necessário muito treinamento. A porta-bandeira Hélida Freitas, de 40 anos, e o mestre-sala Luiz Marcelo Rodrigues, 52, moradores de Porto Alegre, são representantes da escola de samba Estado Maior da Restinga. Eles costumam iniciar os ensaios cerca de um ano antes da apresentação oficial. Começam devagar: somente um encontro por semana. Depois, passam para dois, três, quatro, até que acabam praticando quase todos os dias.
O esforço para apresentar uma coreografia perfeita possui um motivo: a harmonia e a integração são dois dos principais critérios de avaliação do casal no processo de julgamento do Carnaval. Os dados fazem parte do Manual do Julgador de 2024 desenvolvido pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa). “Nós fazemos um trabalho que é para ser assistido por alguém e esse alguém vai nos avaliar. Então, além de pensar como eu penso e como ele pensa, a gente tem que pensar como os outros vão pensar”, conta Hélida.

Embora nem todas sejam, necessariamente, avaliadas por jurados, as demais danças em pares, conhecidas como danças de salão, também exigem que o casal as executem de modo a formar uma unidade. Para transmitir a essência de cada dança, além de conhecer as técnicas, a dupla precisa estar em equilíbrio e ter muita intimidade, uma vez que são ritmos que não podem ser realizados de outra maneira a não ser a dois.
A especialista em dança de salão pela Faculdade Metropolitana de Curitiba (Famec) e autora do artigo O diálogo através dos movimentos das danças em pares, um contato de representações e sentidos, Daiane Oliveira, explica que isso acontece porque a tentativa de suprimir um dos indivíduos ou acrescentar outros acarreta na mudança de identidade desses estilos de dança. “Quando você tira do forró, por exemplo, a dança de par, você também tira um pouquinho da identidade dele”, afirma. Tentar dançá-los de maneira diferente, portanto, seria como modificar a própria história. O desafio é fazer com que cada indivíduo consiga se conectar consigo mesmo e com o outro, de tal forma que, juntos, possam funcionar como um só.
Mais do que ritmo nos pés, é preciso ter troca
Valentin Cruz, de 57 anos, natural de Buenos Aires, e sua esposa, Marlise Machado, 53, nascida em Porto Alegre, dançam tango em conjunto desde 2005. Apesar de possuírem uma longa trajetória como dupla, o início deles não foi fácil: enquanto Marlise estava acostumada à cultura coreográfica oriunda do balé clássico, Valentin preferia dançar improvisadamente, como fazia nos bailes populares argentinos.
Encontrar um equilíbrio entre os conhecimentos técnicos dos dois exigiu muito diálogo. Hoje, eles adotam um meio-termo quando se apresentam, na tentativa de priorizar ambas as preferências. “Mas, se eu tenho que escolher, eu sempre improviso. Sempre. E se ela tem que escolher, ela sempre escuta a música e trabalha uma coreografia. Juntos, temos que lidar com essas diferenças”, reflete Valentin.
“Quando você encontra os dois corpos, eles estão conversando, estão tendo trocas. O acolhimento, o sorriso, a alegria. Então, a importância de se dançar junto é fazer a conexão, é trazer esse contato com o outro”
DAIANE OLIVEIRA, pesquisadora de dança de salão
O diálogo ativo praticado pelo casal de tangueiros aponta que eles estão no caminho certo em relação ao que propõem as danças em pares. Segundo a pesquisadora Daiane, por também serem conhecidas como danças sociais, a principal finalidade delas é o convívio e a conexão genuína entre os indivíduos dançantes. “Quando a gente pensa a dança social, a gente pensa em danças entre indivíduos que se comunicam, o termo social pressupõe essa comunicação”, explica. Ela também acrescenta que o resultado da comunicação é o surgimento gradual da intimidade do casal. “Quando você encontra os dois corpos, eles estão conversando, estão tendo trocas. O acolhimento, o sorriso, a alegria. Então, a importância de se dançar junto é fazer a conexão, é trazer esse contato com o outro”, declara.

Um olhar fala mais que mil palavras
A comunicação também acontece quando Hélida e Luiz Marcelo, ou Marcelinho, como prefere ser chamado, entram na avenida. No entanto, não basta aguçar os ouvidos para compreendê-la, pois ela não pode ser escutada, somente vista. “Mestre-sala e porta-bandeira não podem conversar na avenida, apenas pelo olhar”, esclarece Hélida. É dessa forma que ela e o parceiro se comunicam para além da coreografia e decidem quais serão os próximos passos.
“Enquanto tem um corpo falando, tem outro escutando. Se ele estiver atento, vai conseguir responder. E aí a gente tem o primeiro contato, o primeiro diálogo da dança em pares”
DAIANE OLIVEIRA, pesquisadora de dança de salão
Trata-se do diálogo não-verbal que acontece entre dois corpos durante a dança. Daiane conta que essa dinâmica ocorre através de um sistema de condução e resposta, no qual há o condutor e o conduzido. Funciona como uma conversa, na qual um corpo fala e o outro escuta. Na condução, o condutor comunica suas intenções ao parceiro através de sinais sutis transmitidos pelo contato físico, como o toque das mãos, movimento dos braços e a postura corporal. “Levantou a mão é giro; posicionou o corpo, acompanha”, detalha a especialista. Na resposta, o conduzido deve estar atento aos sinais transmitidos para responder de forma rápida. “Enquanto tem um corpo falando, tem outro escutando. Se ele estiver atento, vai conseguir responder. E aí a gente tem o primeiro contato, o primeiro diálogo da dança em pares”, revela Daiane.
Para Marlise e Valentin, dançar tango é como falar qualquer idioma. A dançarina relata que, para conversar em diferentes línguas, é necessário conhecer a estrutura linguística, dominar o léxico e a fonética de cada uma delas. “Todas as danças de salão vão por este caminho também. Elas têm uma estrutura, um vocabulário, que são os movimentos, e a forma de comunicação, que é a fonética”, explica.


Mas seja pelo olhar, pelo contato ou pela movimentação, essa comunicação só é possível através do respeito e da compreensão entre o par. A chave para isso é entender as individualidades e os limites do parceiro, até onde o corpo do outro pode chegar de forma física e emocional. “A cada momento, a cada ano que passa, essa conjunção, essa intimidade corporal que a gente vai criando dentro da dança, vai ficando cada vez melhor”, orgulha-se Marcelinho.


A dama e o cavalheiro
Historicamente, a estrutura da dança a dois é representada pelo masculino, que conduz como cavalheiro, e pelo feminino, que responde como dama. Essa dinâmica de gênero foi perpetuada ao longo dos séculos e ainda existe nos dias atuais. Porém, engana-se quem pensa que a conexão durante a dança só pode acontecer entre homens e mulheres.
Com o avanço de movimentos sobre igualdade e inclusão, muitos dançarinos, professores e comunidades de dança começaram a questionar e modificar essas normas. De acordo com Daiane, até mesmo os termos “damas” e “cavalheiros” não são mais considerados usuais. “Começou a ficar não muito positivo falar cavalheiro e dama, porque eu poderia ter um par de meninas ou um par de meninos na turma de dança”, explica.
Um exemplo de ruptura com os estereótipos definidos pelo tango tradicional é o tango queer, modalidade frequentemente dançada em Buenos Aires, que permite que todas as pessoas assumam qualquer papel na dança. Marlise e Valentin acreditam nessas novas tendências e relatam que fazem uso delas no ensino do tango. A dançarina criou, inclusive, um projeto intitulado Mulheres Condutoras no Tango, no qual ensina às alunas a arte de conduzir.

No samba, por outro lado, o debate de gênero ainda não é tão evoluído. “A gente tem o tango queer, mas a gente não tem o samba queer. É menos comum a gente ver a questão do gênero no samba”, avalia Daiane. A pesquisadora ressalta, no entanto, que a evolução e o debate de gênero podem ocorrer de forma semelhante para qualquer dança: “O caminho é o mesmo: é dançar em par, dançar a dois, dançar junto, dançar de forma social”.
E quando essa dinâmica é compreendida, os dançarinos conseguem, enfim, se conectar e dançar como se fossem uma mesma pessoa. “E quando isso é verdadeiro, o público também se conecta. Então, a gente diz assim: ‘na dança de salão, um mais um é um’, porque eu tenho que estar inteira, ele tem que estar inteiro para que o par esteja inteiro”, afirma Marlise.
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