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Meio a Meio

A jornada de pessoas que se relacionam com dois ou mais gêneros no contínuo caminho da autodescoberta

REPORTAGEM
Lucas Zanella | Vitória Garcia
lucas.zanella@outlook.com • vitoriagarcia34@gmail.com

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A primeira ideia que pode vir à cabeça quando se ouve a palavra bissexualidade é o prefixo carregado de duplicidade. Representa a atração sexual ou afetiva por mais de um gênero ou, ainda, a atração independentemente do gênero.

Soraya Bertoncello faz parte dos 0,7% da população bissexual do Brasil | Foto: Vitória Garcia

No Brasil, segundo dados publicados em 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 0,7% da população se declarou como bissexual em 2019, o que corresponde a pouco mais de 1 milhão de pessoas acima de 18 anos. Dos entrevistados, 1,1% (1,7 milhão) não sabiam sua orientação, enquanto outros 2,3% (3,6 milhões) se recusaram a responder.

A jornalista e publicitária de Porto Alegre Soraya Bertoncello, de 36 anos, trilha um caminho de autodescoberta. Faz apenas seis anos que um estalo durante a terapia acendeu uma nova fase de sua vida: descobriu-se bissexual. “Eu sempre me entendi como hétero, porque a maioria das pessoas com quem eu ficava eram homens”, diz.

Ainda assim, nunca sentiu que não gostava de mulheres. Pelo contrário, sentia carinho. Não via problema em ficar com um homem e depois ignorá-lo, mas jamais faria isso com uma mulher. “Meu afeto era para mulheres, e a minha vida sexual, para homens”, explica.

A partir desse carinho, Soraya fez amizade com Juliana Marques, de 39 anos, uma colega de trabalho. Quando a amiga foi injustamente demitida, entristeceu-se. Com outro emprego à vista e sem Juliana na equipe, achou melhor sair daquele ambiente. As duas se reencontraram no réveillon de 2023, quando a emoção do novo ano levou a um beijo inesperado e ao início de um novo caminho para trilhar. Desde fevereiro de 2024, Ju é a primeira namorada de Soraya.

“O bissexual está nesse ‘não-lugar’, porque ele é tudo e não é nada. Eu acho que é uma descoberta de todos os dias para quem não tem esse lugar marcado”

SORAYA BERTONCELLO, jornalista e publicitária

Para Soraya, a vida é um aprendizado contínuo, desde voltar a namorar após mais de dez anos solteira até redescobrir sua sexualidade. “Eu me encontro feliz. É a pessoa que eu gosto, que eu amo. Aprendo sobre mim e sobre ela”, conclui.

Se Soraya descobriu mais tarde, Gabriel Bandeira sabia desde sempre. “Acho que eu me descobri ainda sem saber qual era a palavra para bissexualidade”, explica o jornalista porto-alegrense de 25 anos, hoje morador de Brasília. A primeira memória de saber que gostava de homens e de mulheres é dos 11 anos. Apesar disso, em 2016 passou a se reconhecer como um homem gay.

Ele se questionava a respeito da admiração que sentia pelas mulheres. Afinal, se seus relacionamentos com homens eram mais frequentes, poderia se considerar bi? A sociedade tem como estereótipo uma divisão de meio a meio para cada sexo, sem considerar a possibilidade de alguém não ter uma preferência, o que atrapalhava o raciocínio.

“A sexualidade é uma questão tão ampla para ficar impondo suas caixinhas”, diz Gabriel, que reencontrou a bissexualidade em 2022 e explora suas possibilidades desde então. “Toda mudança gera desconforto.”

O preconceito dentro do não-lugar

Gabriel e Soraya mencionam o “não-lugar” que o bissexual ocupa. “Ele pode estar em todos os lugares, pode não estar em nenhum”, diz ela, refletindo sobre a dificuldade na representação. Cita uma propaganda com duas mulheres de mãos dadas, sem poder saber se retrata duas mulheres lésbicas, bissexuais ou uma de cada orientação: “O bissexual está nesse ‘não-lugar’, porque ele é tudo e não é nada. Eu acho que é uma descoberta de todos os dias para quem não tem esse lugar marcado”.

É a partir da falta de pertencimento que surge a bifobia, o preconceito contra a orientação sexual e a negação da sua existência. “Espera-se que um cara bi seja um homem hétero que fica com homens de vez em quando. Um cara bi é um cara que não pode dar pinta”, explica Gabriel.

Gabriel tinha convicção de sua sexualidade já aos 11 anos, mas a vida o fez questioná-la | Foto: Arquivo pessoal

A troca de olhares durante uma festa diz muito mais do que as palavras conseguem exprimir no meio da música alta. Gabriel e uma mulher se entreolhavam enquanto ele dançava. A música que tocava o fez assumir uma postura masculina, mas só até que outra, estilo vogue, saísse da caixa de som. O estilo de dança vogue foi criado em clubes gays dos Estados Unidos e popularizado no mundo todo pelo videoclipe homônimo de Madonna. Acostumado com a liberdade, Gabriel dançou como queria. Fez caras e bocas. Deu pinta. Depois, quando tudo estava certo para os olhos se encontrarem, quando Gabriel chegou na mulher que havia se interessado por ele, foi negado. Não se incomodou, acontece. Enquanto saía de perto, foi puxado de volta e ela lhe gritou no ouvido: “Mas tu não é viado?”.

Dentre os estereótipos negativos que atingem uma pessoa bissexual, está a ideia de que a traição no relacionamento é certeira, como comenta Mariana Schubert Lemos, pesquisadora sobre bissexualidade e doutoranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ela diz que o monossexismo é a lógica de mundo centrada em pessoas que sentem atração sexual ou afetiva por apenas um gênero e que exclui dele outras possibilidades e bissexualidades.

“Outro mito é de que pessoas bissexuais, quando estão em um relacionamento, deixam de ser bissexuais. Como se a história e a identidade de uma pessoa se fechasse ao ter uma relação com outro”, lembra a pesquisadora. A noção do sujeito bissexual como imaturo, em cima do muro ou como alguém que eventualmente irá pender para algum lado reforça essa visão equivocada.

Do ponto de vista histórico, Mariana traz a bifobia como proeminente nos anos 1980, durante a epidemia da aids. “A bissexualidade foi muito vista como uma ponte para o HIV por pessoas heterossexuais”, ressalta. A ideia da bissexualidade como algo promíscuo era difundida, inclusive, pelo jornalismo da época.

As crenças e os valores da sociedade mudam com o tempo. A pesquisadora comenta sobre o nascimento de grupos de pesquisa e seminários voltados à bissexualidade, viabilizando dados nacionais sobre essa população. O campo da psicologia dá passos para se manter atualizado sobre essa temática. A Resolução nº 8 de 2022 do Conselho Federal de Psicologia dispõe sobre a atuação de profissionais em relação às bissexualidades e orientações não monossexuais. O psicólogo deve reconhecer a orientação como legítima e fica vedado de considerar a bissexualidade como uma doença, distúrbio, ou de conduzir processos de reorientação sexual.

As tentativas de visibilidade 

Embora ainda existam preconceitos, a discussão da bissexualidade é cada vez mais comum. O perfil Bi__Blioteca foi criado em 2021 no Instagram pelas cientistas sociais Helena Monaco e Danieli Klidzio e reúne o conhecimento científico produzido acerca da sexualidade. “A gente percebeu que as pesquisas sobre bissexualidade não estavam chegando nas pessoas que eram as mais interessadas nela. Não chegavam no movimento, nem em quem também queria pesquisar”, diz Helena.

Ouça a entrevista com as pesquisadoras Helena Monaco e Danieli Klidzio, a dupla por trás do perfil @Bi_Blioteca

Fundado em Porto Alegre no ano de 2018, o Coletivo Amora é outra iniciativa que tenta visibilizar a temática da bissexualidade, composto exclusivamente por pessoas bi. O grupo faz parte da Frente Brasileira Bissexual e ajuda a organizar a Parada Livre de Porto Alegre, evento voltado à conscientização dos direitos das pessoas LGBTQIA+.

Pensando em outras pessoas que possam se sentir à margem, o grupo criou uma cartilha esperançosa. “Uma forma que vemos de transformar essa realidade é nos afirmando presentes”, escrevem no documento. Contra o preconceito, a bifobia e enaltecendo a liberdade das amarras que uma sociedade monossexista quer impor, a cartilha parece escrita por pessoas cansadas de terem de se encaixar no padrão alheio. “A maneira certa de ser bissexual é simplesmente sendo”, diz a cartilha.

Encontrando seu lugar

O Coletivo Amora, o perfil Bi__blioteca, a pesquisadora Mariana, Gabriel e Soraya reivindicam – direta ou indiretamente – um “não-lugar” para chamar de seu. Através da divulgação de sua existência, essas pessoas resistem em um meio ainda áspero mas que aos poucos se abranda. “Eu não convivo com pessoas que me invalidam”, diz Gabriel, enfático ao enaltecer suas amizades. Soraya também vê seu grupo como acolhedor para ela e sua namorada: “Todos os meus amigos, sem exceção, ficaram felizes por mim”.

A sexualidade pode estar nesse não-lugar, mas, como pessoas, os e as bissexuais não estão sozinhos. Soraya mostra um pin de dinossauro que comprou para o aniversário da Ju, segurando a bandeira do orgulho bissexual – listras rosa e azul, cortadas por uma linha roxa. É o símbolo do seu compromisso, a representação de que podem enfrentar as adversidades da vida e encontrar, uma na outra, o seu lugar nos momentos em que parecem não pertencer a lugar algum.

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