Às vésperas da 35ª edição do tradicional Festival Internacional de Balonismo, o município de Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, intensificou os preparativos para o grande evento. Entretanto, tem coisas que o município não quer que os visitantes vejam. Antes de os balões abrilhantarem os céus torrenses e milhares de pessoas voltarem suas atenções para o alto, o local passou por uma limpeza que ninguém notou: a remoção de cinco famílias ciganas que montaram acampamento no local onde o festival seria sediado. É no chão, a 700 metros das festividades e de uma forma despercebida, que os ciganos tentam se restabelecer e fazer do novo local um lar.

O terreno atrás do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Querência das Torres é dividido por dois cenários distintos. De um lado, as barracas fixadas por aqueles que foram removidos do Parque Municipal do Balonismo. Do outro, pilhas de entulho e materiais descartados. Mesmo separados por poucos metros do lixo acumulado, a família Fagundes celebra as instalações no local cedido temporariamente pela prefeitura.
Segundo o diretor de Manutenção dos Prédios Públicos e Serviços Públicos de Torres, Alberto Saldanha, para a edição de 2025 foi realizada uma reunião com os donos do CTG para que emprestassem o terreno para acomodar as famílias no local durante o Festival de Balonismo. Pela primeira vez em 15 anos, mesmo que afastados, os ciganos não tiveram que deixar o município por conta do evento. Apesar da conquista, ainda se sentem receosos com a possibilidade de serem varridos sob qualquer justificativa.
Quando nem a vidência prevê o ódio
Os relatos de limpeza étnica não são uma exclusividade de Torres. Desde o assentamento dos primeiros povos ciganos na Europa Central, na idade média, até a Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial, eles foram escravizados e perseguidos por motivos étnicos, muitas vezes relacionados à pobreza. Dezenas de anos depois, o preconceito segue entranhado na sociedade.
Rose Winter, de 62 anos, natural de São Leopoldo, é presidente da Associação dos Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul e um exemplo vivo da violência nos tempos atuais. No dia 1º de abril de 2019, um grupo de supremacistas brancos tentou jogá-la nos trilhos de uma estação de trem, em Porto Alegre, ao notar que ela portava trajes típicos ciganos.

“Quando o trem começou a se aproximar, eles falaram ‘vamos jogar ela no trilho’. Outras pessoas que viram a situação viraram as costas”, conta Rose. Ela ressalta que foi salva instantes antes de ser atropelada pelo trem por um casal que confrontou os agressores e a resgatou. Desde então, ela nunca mais saiu sozinha de casa com vestimentas tradicionais ciganas.
Fora das estatísticas
Além do racismo enraizado no cotidiano, o descaso é confirmado pela escassez de políticas públicas e até mesmo de informação sobre os povos ciganos. A última atualização sobre o número de ciganos no Brasil é de 2010, no Censo Demográfico daquele ano, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o estudo, entre 800 mil e um milhão de ciganos residem no país, mas lideranças questionam o dado.
“Em toda a minha vida, nunca vi algum pesquisador entrar em um acampamento cigano. Como vamos acreditar em uma pesquisa de 15 anos atrás que não retrata nem a metade da realidade?”, questiona Rose. Ela foi convocada pelo Ministério de Igualdade Racial para coordenar um mapeamento que preparará o terreno para as pesquisas do Censo 2030. O Brasil ficará, então, no mínimo, 20 anos sem dados atualizados sobre ciganos. Na edição mais recente, lançada em 2022, eles foram incluídos no grupo “População Geral”, que não tem distinção étnica.
“As tratativas iniciais, antes do início do levantamento, não foram suficientes para o desenvolvimento de estudos e testes que permitissem a inserção de um quesito de pertencimento étnico para os povos ciganos no Censo 2022”, afirma a pesquisadora do IBGE Marta Antunes, responsável pelo projeto de Povos e Comunidades Tradicionais do instituto. Sem dados atualizados ou um levantamento específico, é como se os ciganos não existissem.
“Cigano mora em barracas porque o nomadismo é imposto. Ninguém quer dar condições dignas aos ciganos”
ROSE WINTER, presidente da Associação dos Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul
Segundo o Estatuto dos Povos Ciganos, criado em 2022 pelo Senado Federal, o poder público deve assegurar moradia adequada aos ciganos e os acampamentos, enquanto parte da tradição e cultura deles devem ser invioláveis. Para os ciganos, basta eles se fixarem em um local para ser considerado lar.
Apesar disso, alguns municípios do Rio Grande do Sul contam com legislações que dificultam ou até mesmo restringem a presença de ciganos em seus territórios. Um exemplo é a cidade de Taquara, no Vale do Paranhana, que estabeleceu no ano de 1976 o prazo máximo de dez dias para a permanência no município. A lei segue em vigor.
Igor Nunes, de 30 anos, um dos integrantes da família Fagundes afetados pela remoção em Torres, desmistifica a ideia de que os ciganos viajam por escolha e aponta que a itinerância não é apenas cultural, mas também uma questão de necessidade. “A gente não gosta de estar montado em um local e ter que sair, né? A gente quer ficar parado”, afirma. Apesar do senso comum alimentado pela sociedade de que ciganos viajam a qualquer custo, Igor garante que as comunidades não se estabelecem de forma fixa em um local por falta de condições. “Para os políticos isso se tornou algo automático: ‘não vamos nos preocupar com os ciganos porque eles viajam muito, só vai ser trabalho perdido’. Isso não é verdade. Se a gente tivesse um terreno próprio, a gente ia dar um jeito de colocar uma casa”, salienta.

Rose complementa que a itinerância cigana no Rio Grande do Sul é composta, majoritariamente, por pessoas em situação de pobreza ou extrema pobreza. “Cigano mora em barracas porque o nomadismo é imposto. Ninguém quer dar condições dignas aos ciganos”, analisa.
A punição por ser quem se é
Às margens da sociedade, a família Fagundes se estabelece como pode. No acampamento montado, as tendas são armadas de forma impecável. Com um chuveiro improvisado em uma área mais afastada e com a luz cedida temporariamente pela prefeitura, eles fazem das cabanas um novo lar. A maioria dos Fagundes não sabe ler ou escrever. Com isso, surgem dificuldades financeiras. A renda parte de atividades variadas, desde a venda de chás até a revenda de carros usados. Todos os dias organizam as camas e os cobertores para facilitar a logística em caso de uma nova remoção. “Cigano levanta acampamento mais rápido do que trocar de roupa”, brinca André Fagundes, de 39 anos.

Ele ressalta que questões logísticas sobre quando deixar um local e onde montar um novo acampamento são definidas em conjunto, ao lado do cunhado Igor e do irmão Rodrigo. Em todos os processos, a matriarca Ivoneti Fagundes, de 57 anos, é fundamental. As decisões sempre passam pelo crivo dela. Com sua experiência, vivenciou o peso do preconceito durante toda a vida: “Quem chega aqui diz que a gente rouba coisas, até crianças. É tudo mentira. A gente não mexe com nada dos outros. Graças a Deus, somos muito educados”, afirma.
André aponta que a discriminação é tão latente que a presença policial é constante ao redor de acampamentos. “Sempre que há algum assalto ou crime desse tipo, os moradores fazem denúncias e falam que os ciganos são os culpados. Várias vezes policiais nos abordaram e nunca encontraram nada”, ressalta.
A tradição sem endereço
Ivoneti é um símbolo de resistência para a família. Além de sofrer com problemas severos na coluna, enfrenta uma depressão profunda há cerca de três anos, tratada com medicação. Ainda assim, ela é a referência no acampamento para as duas noras, Asusena Fagundes e Elisangela Fagundes, de 24 e 27 anos, que escolheram repassar os conhecimentos da matriarca sobre a cultura cigana para os filhos. Ambas confessam que algumas tradições se perderam no caminho, inclusive a mais marcante delas: a cartomancia.

Considerada uma contravenção no Brasil, entre 1941 e 1997, a atividade mundialmente associada aos ciganos poderia levar à prisão. Nesse período, muitas ciganas deixaram de exercer e difundir a prática, pela repressão e também pelo preconceito. A cartomancia só foi reconhecida como uma profissão legítima em 2022.
Com esse contexto em mãos, Rose faz questão de manter viva a cultura da leitura de cartas. Afinal, para ela, a maior virtude cigana é a manutenção das suas origens, seja onde ou como estiver. “A base da resiliência do cigano é saber se moldar a todas situações. Sempre andando e mesmo assim carregando a sua tradição e a sua cultura.”
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