“Tchau mãe! Eu vou pra Itália, pra terra da vó.” Essas palavras foram repetidas inúmeras vezes pela pequena Cátia Dal Molin. Com cinco anos, ela colocava suas bonecas na mala e subia o morrinho de sua casa em Faxinal do Soturno, na região central do Rio Grande do Sul, fazendo de conta que estava viajando para a terra de seus antepassados.
A viagem imaginada pela menina hoje tem nome: turismo genealógico. Ou turismo de raízes, de origens, de retorno, de ancestralidade, de herança. São diferentes terminologias utilizadas para denominar a experiência que Cátia sonhava em viver: uma viagem de retorno às origens e de reconexão com a história familiar, que permite percorrer os mesmos caminhos dos antepassados.
A fim de compreender o fenômeno, o Primeiro relatório sobre turismo de raízes na Itália foi desenvolvido pelas pesquisadoras Sonia Ferrari e Tiziana Nicotera, da Universidade de Calábria. Publicado em 2021, o documento explica que faltam estatísticas oficiais sobre essa forma de viagem. Porém, estima-se que o mercado potencial da modalidade, constituído por ítalo-descendentes que moram fora do país, engloba de 60 a 80 milhões de pessoas – desses, calcula-se que cerca de 30 milhões residem no Brasil.
Histórias que transcendem gerações
Na Itália, em 1883, os trisavós de Cátia, Luigia Muraro e Giovanni Ferron, embarcavam em um navio para o Brasil em busca de melhores condições de vida. Originário da região do Vêneto, o casal vinha acompanhado de seus seis filhos – entre eles, Silvio Ferron, bisavô de Cátia. A trajetória de imigrantes italianos, como os da família Muraro Ferron, é narrada na canção Merica, Merica: “Da Itália nós partimos, partimos com grande honra, 36 dias de carro e navio, e na América chegamos”.
Basta ouvir esses primeiros versos que Cátia, hoje com 47 anos, se emociona e lembra da sua avó Santina. Nascida no Brasil, Santina Ferron nunca teve a oportunidade de visitar a Itália, mas herdou dos pais o brilho no olhar ao falar do país. Para sua neta, a vó Santina cantava canções folclóricas e contava histórias detalhadas sobre a “terra mágica” do Vêneto, apesar de nunca ter pisado lá.
“Quando eu pisei na terra de origem da minha avó, eu vi a minha avó, ela foi comigo”
CÁTIA DAL MOLIN, ítalo-descendente
Influenciada pela nonna, Cátia cresceu fascinada pela Itália. Na sua graduação em História, realizou trabalhos sobre imigração italiana, além de contribuir em iniciativas que envolviam a temática, como programas de rádio, artigos de jornal e organização de eventos. Até que, em 2003, Cátia ganhou uma bolsa de estudos para um curso de curta duração no Vêneto.
Na Itália, apesar de ser tudo muito novo – como a neve que pela primeira vez viu cair –, tudo era também bastante familiar. “Quando eu pisei na terra de origem da minha avó, eu vi a minha avó, ela foi comigo. Ver tudo aquilo que ela me contou desde criança, sem ela nunca ter ido pra lá: cada lugar, cada construção, cada história. Naquele momento, eu voltei pra casa”, relembra Cátia. Ela fez sua brincadeira de infância virar realidade.
Ponte aérea Brasil–Itália
De volta ao Brasil, Cátia vivia pensando na Itália. Até que, em 2007, o país se tornou sua casa. Hoje, ela mora na província de Treviso, no Vêneto, mas todos os anos passa alguns meses na casa de família em São João do Polêsine, na região central do Rio Grande do Sul. Ambas as localidades possuem sede da Gens Turismo Genealógico, agência criada por Cátia que auxilia ítalo-brasileiros a conhecerem a terra de seus antepassados.

Cátia atende cada cliente de forma personalizada: a partir da pesquisa genealógica, elabora um itinerário com os locais da história familiar e faz o acompanhamento turístico nas cidades italianas. “Tu vai tocar com as mãos realmente a casa onde o teu antepassado nasceu, vai viver o que eles viveram, vou te mostrar como eles trabalhavam, o que usavam, como viviam”, explica.
Geralmente, o itinerário só é revelado na hora da viagem; e, assim, Cátia já pôde proporcionar surpresas aos clientes, como o reencontro de parentes distantes. Uma de suas clientes, Cidiane Guisso, conheceu a terra de seus antepassados no vilarejo de Soligo e transformou suas vivências em arte, na história em quadrinhos Os Filhos da Nossa Terra – O Retorno às Origens.

Essa modalidade de turismo vem se popularizando graças ao acesso à informação e à facilidade para viajar proporcionados pela globalização. Na percepção da terapeuta familiar Cristina Thudium, que está na área clínica há mais de 35 anos, os jovens de hoje estão muito interessados nesse resgate, em busca de autoconhecimento.
A psicóloga explica que a construção da identidade pessoal passa também pelo contexto familiar: cada pessoa traz dentro de si, de forma consciente ou inconsciente, marcas de seus antepassados. “A gente vê que lá atrás, daqui a pouco, teve um grupo familiar que vivia num determinado lugar, que tinha determinados hábitos, e que as pessoas acabam trazendo para si, sem nem ter vivido com aquelas pessoas”, conta Cristina. Dessa forma, a motivação dos turistas de raízes é se conhecer mais profundamente, através não apenas do presente, mas também do passado.
A infância entre dois países
“Eu não entendia por que meus pais voltaram ao Brasil. Para mim, não fazia sentido”, relembra Akemi Ueno, de 31 anos. Neta de imigrantes japoneses pela parte paterna de sua família, ela nasceu no Brasil, mas, quando tinha três anos, seus pais decidiram morar no Japão, na província de Yokohama. Na época, o país vivia um período de crescimento econômico, e muitas pessoas foram trabalhar nas grandes fábricas japonesas. O objetivo dos pais de Akemi era aproveitar essa oportunidade para ganhar dinheiro e, depois, retornar ao Brasil para construir uma vida por aqui.
O período em que viveu no Japão – da creche até a quarta série do ensino fundamental – foi crucial para que ela se alfabetizasse primeiro em japonês. Ao retornar para o Brasil, se deparou com uma grande diferença cultural e com a dificuldade de ter que aprender português em uma idade mais avançada que a das outras crianças. “Existiu esse momento de muita repulsa por ter voltado. Na época, eu me via muito mais como uma pessoa japonesa. Hoje em dia, não mais. Hoje eu sou brasileira.”
Mesmo vivendo no Brasil, sua família sempre manteve uma forte ligação com a comunidade japonesa, auxiliando na organização de atividades e em diretorias de associações culturais. Por esse envolvimento, ela foi convidada, em 2018, para participar de um evento no Japão, oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores para pessoas que atuavam ativamente na comunidade. “Foi muito interessante sentir que, ao mesmo tempo em que eu fiquei tanto tempo longe, parecia que eu nunca tinha saído de lá. Eu me senti muito confortável, muito em casa”, comenta.
Após 23 anos, as lembranças da infância seguiam intactas em sua memória e lhe marcaram tanto que, mesmo depois de anos sem usar a língua japonesa, não havia esquecido. Ficou 15 dias no Japão, mas esse reencontro com o passado despertou a vontade de retornar para uma visita com mais calma.
De volta às origens
Em 2019, Akemi voltou ao país, dessa vez para Kagoshima, terra de seus avós. Além de nunca ter se interessado em conhecer a fundo a história deles, que também pouco falavam sobre o lugar de onde vieram, ela não teve a oportunidade de visitar a região quando morava no Japão, já que a rotina de trabalho exaustiva dos pais tornava inviável qualquer viagem longa.
A oportunidade surgiu por meio de uma bolsa de estudos concedida pelo governo japonês a descendentes de japoneses. A confirmação de que havia sido selecionada chegou no dia da sua formatura de graduação. Akemi tinha uma ligação especial com a avó, que costumava lhe dizer que os antepassados estão sempre cuidando de seus descendentes. Embora não seja apegada a crenças, hoje ela acredita que a avó está cuidando dela. “Quando veio a confirmação da minha bolsa para Kagoshima, que era a região de onde ela veio, eu pensei muito nela. Cara, é certo que é ela ali, me dando essa força”, reflete.

Durante a viagem, conheceu dois irmãos do avô e um irmão da avó, os quais foram seus guias, mostrando os pontos turísticos, os locais onde nasceram e a casa da família – que, por tradição cultural, vai sendo passada para o filho mais velho de geração em geração. Essas viagens não apenas a aproximaram de suas raízes, mas também abriram caminhos que seguem se refletindo em sua trajetória até hoje.

Embora tenha formação em Design de Produto, atualmente Akemi trabalha como assessora cultural no escritório consular do Japão em Porto Alegre. Para ela, esse trabalho é uma forma de retribuir tudo o que recebeu da comunidade ao longo dos anos, inclusive da própria família, que se orgulha de vê-la atuando nessa ponte entre culturas.
Mesmo quando não se sabe exatamente de onde vêm as origens, elas são heranças significativas. Para Cátia e Akemi, essas viagens representaram a chance de semear novos sentidos em suas vidas, dando início a um processo de reconstrução das próprias trajetórias, compreendendo o passado como parte essencial de quem são hoje.
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Maravilhosas as reportagens! Trouxeram-me uma sensação de conforto.
Muito bom ver as pessoas encontrando coisas positivas nessa busca pelas raízes.
Parabéns.