Quatrocentos e trinta e quatro. Este é o número de mortos e desaparecidos durante o período da ditadura militar no Brasil. O dado foi apontado pelo relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), instituída em 2012 pela Lei 12.528/2011, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), e cuja atuação se estendeu até 2014.
Em uma coligação de forças entre o grande empresariado brasileiro, latifundiários e as Forças Armadas, em abril de 1964, ocorreu o golpe que deixaria o poder nas mãos dos militares por 21 anos. Marcado por repressão e censura, esse período da história brasileira não está apenas nas páginas de livros de História, mas é uma marca na vida de centenas de famílias que tiveram que lidar com a falta de um reencontro com seus familiares.
Araguaia
A Guerrilha do Araguaia é considerada o maior movimento armado de resistência à ditadura militar. O conflito ocorreu entre 1972 e 1974 em uma região de difícil acesso entre os estados de Maranhão, Pará e Tocantins. Ao contrário de outros movimentos, a eclosão do combate não partiu dos guerrilheiros, mas das forças militares que tinham o objetivo de eliminar o grupo e apagá-lo da história do país. Mais de 60 pessoas foram reconhecidas como presentes no local e dadas como desaparecidas. Com exceção de poucos casos, suas famílias nunca conseguiram reencontrar seus corpos. João Carlos Haas Sobrinho é uma dessas vítimas.

Filho de Ilma e Ildefonso Haas e o segundo de sete irmãos, natural de São Leopoldo, João Carlos foi, desde cedo, um aluno destaque na escola. Em 1958, aos 17 anos, foi aprovado para o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e se mudou para Porto Alegre, o que deu início a uma nova etapa de sua vida.
Aos poucos, o jovem passou a se envolver com os movimentos estudantis e com o ambiente político. Em 1963, ainda antes do golpe militar, João Carlos foi eleito presidente do centro acadêmico do curso e exerceu o cargo até o ano seguinte, quando foi deposto e preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), assim como outros líderes estudantis. Além da prisão, que durou menos de 30 dias, houve um pedido por parte dos militares para impedir que João Carlos concluísse sua graduação, o que foi negado pelos professores e pela instituição de ensino devido ao bom desempenho do aluno no curso.
A família do jovem foi pega de surpresa, pois desconhecia seu envolvimento político, e Ilma tentou fazer o filho abandonar o movimento, mas ele resistiu. “Minha mãe contou que ele se jogou na cama chorando e disse: por favor, me entenda, eu não posso parar, porque, se tu acredita e admira Jesus Cristo, então entende a minha causa. Se tu aceita ele, tu tem que aceitar minha causa, e ela ficou sem palavras”, conta Sônia Haas, de 64 anos, publicitária e irmã caçula de João Carlos.

Após se formar em 1964 e fazer residência em Porto Alegre até o início de 1966, o médico se mudou para São Paulo, onde faria uma especialização. Mas, sem que a família soubesse, João Carlos foi para a China participar de um curso de guerrilha. A partir desse momento, sua comunicação passou a ser estritamente por cartas, sem que os familiares tivessem um endereço para enviar respostas a ele. Quando retornou, João Carlos passou um período no Maranhão, atuando como médico em uma pequena comunidade antes de ir para a região do Araguaia. “Não se preocupem comigo, eu estou bem.” Esse foi o conteúdo da última carta que ele enviou para a família, em 1969.
“Esse vazio nos acompanha até hoje. Porque a gente não teve esse direito de fazer um sepultamento, de se despedir, então fica sempre faltando essa essa parte”
SÔNIA HAAS, irmã mais nova do guerrilheiro João Carlos Haas
Com base nos relatos de pessoas que conviveram com o médico, houve a confirmação de que ele havia sido morto durante o conflito, em 1972. Mas seus familiares só tiveram essa certeza nos primeiros anos da década de 1980, quando Sônia passou a buscar informações sobre o irmão. Mesmo com a confirmação, 51 anos depois, o corpo do médico nunca foi encontrado.
Antes de falecer, em 2001, aos 86 anos, Ilma pediu aos filhos que comprassem um espaço no cemitério de São Leopoldo para que, caso o corpo de João Carlos fosse encontrado, pudesse ter um local de descanso digno. “Esse vazio nos acompanha até hoje. Porque a gente não teve esse direito de fazer um sepultamento, de se despedir, então fica sempre faltando essa essa parte”, relata Sônia.
Esse sentimento não é exclusivo da família de Sônia, mas cerca aqueles que nunca conseguiram reaver os seus entes queridos. A professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) Deusa Sousa ouviu 36 familiares de desaparecidos no Araguaia para desenvolver sua tese de doutorado em História, defendida em 2011, intitulada Lágrimas e lutas: a reconstrução do mundo de familiares de desaparecidos políticos do Araguaia. “Os familiares tinham uma postura para fora e outra postura dentro de casa, e dentro de casa era uma postura de dor, de sofrimento e de luto permanente”, explica a historiadora.
De acordo com Deusa, muitas experiências têm similaridades. “Alguns se negavam a trocar o número do telefone residencial, porque, durante muito tempo, eles acreditavam, por exemplo, que a pessoa estava presa ou não podia se comunicar, que a pessoa estava em outro país, e também não mudavam de endereço para o caso de o indivíduo retornar”, explica.

Esses relatos são alguns dentre muitos de pessoas que tiveram que lidar com uma perda sem ter qualquer tipo de despedida. São mães, pais e irmãos que faleceram sem rever ou ter uma informação concreta do familiar que desapareceu. Aqueles que permaneceram passam por uma luta contínua, na busca por algum tipo de reencontro e despedida adequada.
Na clandestinidade
A relação entre Luiz Eurico Lisboa, o Ico, e sua esposa, Suzana Lisboa, aconteceu de forma rápida. O casal se conheceu em 1967, quando ela tinha 16 anos e ele, 19. Ela estudava no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o Julinho, em Porto Alegre. O jovem, o mais velho de sete irmãos, já havia saído da escola e atuava nos movimentos estudantis como membro da União Gaúcha dos Estudantes Secundários (Uges). Aos poucos, Suzana também começou a se envolver no que ela chama de uma luta por liberdade, ainda nos primeiros anos do governo ditatorial.

Após iniciarem o relacionamento, em 1968, os dois participaram de ações para reabrir o grêmio estudantil do colégio, onde ela ainda estudava. Em uma das iniciativas, o diretor da escola chamou o Dops, que prendeu Ico e o enquadrou na Lei de Segurança Nacional pela tentativa de reabertura de um entidade ilegal, sendo liberado após interrogatórios. Esse foi o início de uma nova trajetória para a dupla, que se casou em março de 1969 e, a partir de novembro, passou a viver na clandestinidade, depois de uma condenação à revelia a seis meses de prisão para o jovem.
“É uma vida muito pesada, abrir mão de relações, de tudo. Nós só tínhamos um ao outro. Eu até arrumava emprego, mesmo com nome falso, e trabalhava, mas para ele era mais difícil, porque não tinha um certificado de dispensa militar”, explica Suzana, hoje com 71 anos. A primeira vez que os dois se separaram por mais do que alguns dias foi também a última. Em julho de 1972, Ico ficou em Porto Alegre, enquanto a esposa teve que ir para São Paulo, inicialmente para passar um período de um mês, tempo que precisou ser estendido com a morte de um conhecido.

Preocupado com Suzana, o militante resolveu ir até a capital paulista e, naquele momento, o casal se desencontrou, pois ela retornou para o Rio Grande do Sul sem saber que o marido havia ido encontrá-la. Quando soube disso, voltou para São Paulo, mas já não conseguiu mais ter notícias de Ico. Em meio a anos de buscas, foi somente em 1979, sete anos depois, que ela encontrou o corpo do esposo, no cemitério Dom Bosco, em São Paulo. Devido à constante troca de identidades, Ico utilizava um documento com o nome de Nelson Bueno, que no registro de óbitos do cemitério constava como morto em setembro de 1972. Foi o primeiro corpo encontrado entre os desaparecidos do período.
“Eu me envolvi mais ainda do que eu já estava envolvida na luta dos familiares. É um marco para mim esse momento que encontrei o corpo dele, e eu queria que os outros familiares também tivessem essa graça, para, pelo menos na alma, sepultar essa história”, conta a viúva. Na última vez que Suzana teve contato com o marido, ele lhe deu um presente: um chaveirinho do Grêmio, time gaúcho pelo qual ela torcia, e rival do Internacional, o time dele. Mesmo 51 anos depois, ela ainda guarda essa última lembrança de amor.
Ouça uma seleção de músicas gravadas durante o período e que tentam expressar sentimentos despertados pela censura e perseguição política:
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Amei o texto e as ilustrações!
Parabéns!
Muito boa a reportagem desenvolvida por vocês. Parabéns.
É um tema muito dificil e delicado, e vocês tiveram muito cuidado e zelo na pesquisa e na redação e edição.
Agradeço muito a abordagem e a disseminação de nossas histórias, ainda inacabadas, que formam a história do nosso país.
Abraços a tpda a equipe.