Apesar de ter construído uma vida na Itália, Bruno Carlos Piccolo, de 35 anos, começou sua história do outro lado do oceano. Ele morou com as irmãs durante quatro anos no Lar Santa Terezinha de Carapicuíba, em São Paulo. Com seis anos, foi adotado por um casal de italianos e não lembra dos pais biológicos, mas recorda do dia em que foi embora. “Eu estava com a minha irmã mais velha e as freiras falaram: ‘esses são os seus novos pais. Vocês vão viajar com eles pra Itália, sua vida vai mudar’. E aí eu fui, criança vai né”. A irmã mais velha foi com ele para a mesma família e a mais nova foi adotada em outra cidade no mesmo país.
Bruno, que faz questão de dizer que seu sobrenome original era Da Silva, tem um bom relacionamento com os pais adotivos e é grato pela vida que tem. É pai de Carlos, de seis anos, Romeo, de cinco, e tem Deborah como companheira. Mesmo assim, vive uma contradição. Percebe os olhares que recebe por causa da cor da pele e vê o preconceito da população com estrangeiros. Dos três irmãos, é o único que cultivou o interesse em buscar as origens. Viajou ao Brasil três vezes. A primeira, com 18 anos, foi buscar informações com as freiras no orfanato em que viveu. Chegando lá, ouviu que o pai era um traficante e a mãe, uma prostituta.
“Quando você não sabe nada da sua família, você não sabe o que é”
BRUNO PICCOLO, brasileiro adotado por italianos
Quando fez 25 anos, retornou. Se apaixonou por Salvador, na Bahia, e, aos poucos, foi resgatando a língua materna. Bruno fala português com sotaque estrangeiro e, de vez em quando, insere no meio da frase uma palavra em italiano. “Não sei como vai acontecendo, mas morando na Itália você vai esquecendo. Eu procurei o meu português viajando no Brasil.” Pelos documentos de adoção, sabia como se chamavam os pais biológicos. Conta que tremia quando digitou o nome deles na busca do Google. Um dos primeiros resultados foi o texto de uma mulher que procurava os filhos desaparecidos. Com a ajuda de um amigo, conseguiu o endereço de onde vinha aquele depoimento. “Foi uma emoção. Quando você não sabe nada da sua família, você não sabe o que é”, define.

Bruno descobriu que a mãe já havia morrido, mas pôde conhecer tios, primas, uma nova irmã e a avó de 101 anos. Foi então que soube de outra versão da história. A mãe não sabia ler, nem escrever, e as freiras entregaram para ela um documento, que disseram ser uma carta nutricional para os filhos, que ela deveria assinar. A carta era, na verdade, uma autorização para deixá-los na adoção. “Eu acredito na minha família, todos trabalham, vão pra escola e universidade. São pobres, mas gente boa.”
De acordo com a fundadora da Organização Não Governamental Desaparecidos do Brasil, Amanda Boldeke, na década de 1980, o Brasil ficou conhecido mundialmente como o maior exportador de bebês para outros países, a maioria dos casos são de adoções irregulares e tráfico de crianças. A ONG atua há 30 anos ajudando a encontrar pessoas e é pioneira em desvendar casos de adoção internacional. Conta que a maior dificuldade na localização da família biológica são dados falsificados. No Facebook centenas de grupos são utilizados como um canal de busca para encontrar desaparecidos, o maior deles possui mais de 176 mil membros.
Nasce uma filha, nasce uma mãe
Apesar de saber que foi adotada, a psicóloga Anna Weber, de 50 anos, do Vale do Paraíba, nunca teve interesse em saber dos laços consanguíneos, mas não imaginava que, quando se tornasse mãe, mudaria de opinião. Anna tem três filhas e conta que, a cada dia das mães que passava, um pensamento se tornava mais forte. “Tem uma mulher chorando aí nesse Brasil que não sabe o que houve com o bebê dela.” Sem coragem de buscar respostas com o pai ainda vivo, pois tinha medo que ele duvidasse do amor dela, guardou essa vontade.

Depois que perdeu o pai, há quatro anos, voltou ao hospital em que nasceu, mas informaram que não conseguiriam ter acesso a dados de pessoas com mais de 25 anos. Sem saber onde procurar, conversando com um primo, teve uma revelação inusitada. Ele contou que, quando ela chegou na família, viu colocarem a pulseirinha do hospital no lixo. Na época, com sete anos, resolveu pegar e guardar. Tinha ela até hoje. Sem acreditar, Anna pediu que lhe enviasse uma foto e, pela primeira vez, viu o nome da genitora. Em grupos do Facebook, relatou a história na intenção de ter informações. Em poucos dias já estava conversando com quem seria a irmã biológica.
O primeiro encontro foi no laboratório para fazer o teste de DNA. Lá, pela primeira vez, viu as irmãs e a mãe. “Ela [a mãe] estava muito acanhada, não sabia como reagir. Fui e já abracei. Ela me abraçou e começou a pedir perdão. Me pede perdão até hoje.” Apesar do sentimento de culpa da mãe, Anna não guarda mágoas pelo ocorrido no passado. O teste deu positivo, assim como o elo com as irmãs. “Não importa que fomos criadas longe, nós somos idênticas, é o mesmo jeito de todas.” Uma das felicidades de Anna é poder dar uma avó para as filhas, já que sua mãe morreu quando tinha 14 anos. Porém, ainda é difícil incorporar em seu vocabulário novamente o termo mãe: “É tão forte pra mim, mãe é quem cria, e eu acredito nisso até hoje. Mas entendendo o lado dela, não tem como negar esse lugar para ela.”
Isolamento compulsório
Diferentemente de Bruno e Anna, Helena Bueno, de 62 anos, foi separada da família por ordem do Estado. “Eu nasci no antigo hospital colônia, em Itu, no interior de São Paulo. É onde eram internadas pessoas que tinham hanseníase na época em que havia o isolamento compulsório.” No Brasil, a política de segregação foi uma medida que violava os Direitos Humanos e foi aplicada dos anos 1920 até 1960 para isolar pacientes contaminados.

Quando Helena nasceu, imediatamente foi afastada dos pais. As recordações da infância são duras: surras, abuso sexual e cárcere privado. Curiosamente, assim como Bruno, também passou pelo preventório Santa Terezinha de Carapicuíba, onde ficou até os 8 anos. Um homem que dizia ser seu tutor, providenciava os lugares para ela ficar. Passou anos pulando de casa em casa. “Era a deus dará”, conta. Na última casa, depois de ter sido agredida por pegar uma banana, fugiu para uma vizinha que a ajudou. Lembra do que deixou para trás no dia da fuga: pulou o portão de ferro em direção à calçada e deixou cair o ursinho de pelúcia do lado de dentro da casa. Tentou enfiar a mão para pegar, mas não alcançou.
“Quando eu descobri essas duas tias, eu baqueei, porque ao mesmo tempo que você quer conhecer, te remete ao passado”
HELENA BUENO, separada dos pais biológicos ao nascer
Com 18 anos, reencontrou uma das irmãs e, pela primeira vez, teve acesso a documentos dos falecidos pais. Não tendo como mudar o passado, seguiu a vida. Casou-se com Nivaldo, de 61 anos, teve um filho, Alexandre, de 29, e adotou dois gatinhos de rua, Fumaça e Trem Bom. Um dia, na igreja, ao ver Santa Teresinha, desviou o olhar, pois a imagem a fazia lembrar do sofrimento da infância. Pensando nisso, resolveu buscar na internet quem era a Santa. “Sabe quando você entra no Google pra pesquisar uma coisa e daqui a pouco você tá num assunto que não tem nada a ver?”, foi assim que, com 50 anos, conheceu o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan). Com a ajuda da instituição, obteve fichas epidemiológicas da secretaria de saúde com o histórico de seus familiares.

Cinco anos depois, conheceu a família paterna. Com as palavras quase sumindo, lembra de quando conseguiu uma pista sobre a família materna. “Meu sonho era conhecer a família da minha mãe.” Depois de encontrar em um cartório a certidão de nascimento das tias maternas, percebeu a razão de nunca achar informações: o nome que buscava da avó estava errado. Com os documentos, foi de novo para a internet pesquisar e encontrou um número de telefone. “Falei, Deus, você não brinca comigo. Eu tô procurando isso há muito tempo.” Ligou e não acreditou: era uma das tias. Agora aguardam para se encontrar. “Eu não vejo a hora. Acho que vou ter que tomar um litro daqueles chás para acalmar. Quando eu descobri essas duas tias, eu baqueei, porque ao mesmo tempo que você quer conhecer, te remete ao passado.” Bruno, Anna e Helena conseguiram voltar no tempo, mas milhares de outras pessoas ainda não encontraram o ponto de partida e estão separadas pelo passado.
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