Sextante

Idas e vindas do amor

Um ser humano conhece milhares de pessoas ao longo da vida. Entre elas , pode estar a que "era para ser"

REPORTAGEM
Maria Welter
weltermariae@gmail.com

Arte: Carolina Esteves

Em uma pesquisa inédita, a Universidade de York estimou que os seres humanos lembram, em média, dos rostos de 5 mil pessoas que conheceram ao longo da vida. Entre essas, está aquela que pode vir a ser o amor da sua vida. Porém, normalmente não é na primeira vez em que os olhares se cruzam que duas pessoas estão fadadas a ficar juntas, já que o amor não é linha reta.

Entre encontros e desencontros, pessoas que se conheceram a vida inteira podem ficar juntas anos depois. Dois desconhecidos podem virar namorados em um piscar de olhos, terminarem, voltarem, se separarem para, então, chegar a hora de se unirem para sempre. Amigos que nunca cogitaram se envolver podem se deparar com um sentimento que nem viram chegar. Como o editor da coluna Modern Love, do New York Times, define na introdução do livro homônimo: “Isso é amor. Qualquer um pode ter. Só é necessário um pouco de coragem. Ou muita”.

Vídeo: Maria Welter

Tudo acontece em setembro

Manuela Venancio e Matheus Labatut estudaram na mesma escola, em Maringá, no Paraná, desde a pré-escola até o segundo ano do ensino médio. “A gente se conheceu a vida inteira, só que, apesar disso, não era amigo, nem se falava”, explica Manu.

Reencontraram-se na faculdade, ele cursando História e ela, Psicologia. Mantiveram contato pelas redes sociais, mas nunca estavam solteiros ao mesmo tempo. Manu tinha relacionamentos casuais e Matheus teve uma relação que durou 10 anos. Em 2015, ela se mudou para Brasília, mas antes encontrou Matheus para se despedir.

Manuela e Matheus se conhecem desde a infância | Foto: Arquivo pessoal

Os dois conversavam on-line casualmente, porém isso mudou em maio de 2020, quando Manu resolveu puxar assunto sem saber que fazia apenas 23 horas que Matheus estava solteiro. A partir daí, passaram a conversar todos os dias. “Chegou o momento em que a gente falou: ‘vamos namorar e fazer dar certo’”, recorda Manu. Começaram o namoro em 5 de setembro de 2020, mesmo a distância. Ele com 25 anos e ela, 26. Nesse meio tempo, uma nova variável se atravessou no caminho deles: a mãe de Matheus havia se aposentado e decidido mudar para João Pessoa, na Paraíba, e ele decidiu ir junto para cuidá-la, já que ela é idosa.

“A gente só vai saber o que as coisas significam se a gente ficar tempo para apostar naquela relação e para fazer com que ela desenvolva algum significado”

CAROL TILKIAN, comunicadora e pesquisadora de amor

A primeira visita de Manu foi um ano depois da mudança. Da convivência de 10 dias, o casal relata a estranheza de terem uma conexão emocional forte, mas uma intimidade física quase inexistente. “A última vez que a gente tinha se visto, a gente era quase desconhecido, e quando se viu de novo, tínhamos um relacionamento de um ano e pouco”, conta Matheus. Perceberam, então, que precisavam morar juntos. Em setembro de 2022, a mudança de Manu já tinha chegado à Paraíba. “Foi a segunda vez que a gente se encontrou. No meio do caos de uma mudança, e a gente discutia, porque nada estava bom”, conta Manu, que, logo após, precisou voltar para Brasília para fazer uma cirurgia.

O que os ajudou a superar o momento foi uma cachorrinha que decidiram adotar: a Jabuticaba. Manu conta que passaram a dar menos importância para as discordâncias. “Nós dois temos que nos preocupar com alguém”, relata. Pouco tempo depois, Jabuticaba ganhou um irmãozinho, Mirtilo. Hoje, os quatro vivem em João Pessoa e constroem uma família que começou de um jeito nada usual, mas que virou o amor que classificam como “carinhoso” e de “companheirismo”.

Para a comunicadora e pesquisadora de amor Carol Tilkian, responsável pela coluna Amores Possíveis, na revista Glamour, o reencontro romântico de duas pessoas após anos separadas tem a ver com o acaso, que só vai adquirir significado depois. “A gente só vai saber o que as coisas significam se a gente ficar tempo para apostar naquela relação e para fazer com que ela desenvolva algum significado”, destaca Carol.

Arte: Kezia Mausolf

Unidos pela família

Iashini Macedo e Theodoro Saibro Junior afirmam que foi a fé da família que os uniu. Um tio de Theo conheceu Iashini na virada de 2003 para 2004, em uma viagem para Punta del Este, Uruguai, e disse que ela precisava conhecer seu sobrinho, pois achava que os dois combinavam. Desde então, Theo também passou a ouvir sobre Iashini. E foi no verão de 2004, no bar Gut Gut, em Capão da Canoa, no litoral gaúcho, que a história dos dois começou.

Theo, com 17 anos, estava com a família na praia de Atlântida e Iashini, com 15, em Capão Novo com amigas quando André, o tio cupido, combinou que todos se encontrariam na praia. “A gente ficou conversando e já ficou nesse primeiro dia. Já foi paixão mesmo. E começou a namorar rapidão”, conta Theo. Mas o namoro acabou cerca de nove meses depois.

Quando ela tinha 18 anos e ele, 21, o litoral os uniu novamente. Os dois se encontraram por acaso na Praia do Rosa, em Santa Catarina, e a paixão reacendeu. “E aí a gente ficou. Não foi um namoro, né, amor?”, diz Iashini pedindo a confirmação do atual esposo. Esse encontro foi mais rápido, durou apenas dois meses, acabando quando retornaram para Porto Alegre, onde moravam. “A gente terminou e aí passaram-se 12 anos”, conta Iashini.

Entre novas cidades, relacionamentos e vivências, o reencontro dos dois aconteceu em Porto Alegre, na inauguração da escola de yoga da mãe dela. Já que as famílias dos dois eram muito próximas, ele foi prestigiar o evento da ex-sogra, e, quem sabe, encontrar Iashini. “Quando a gente se encontrou ali, já deu aquela coisa, o mesmo sentimento lá do início, da primeira vez”, ela relata.

Theo conta que a mãe dele nunca tirou de um porta-retrato uma foto de Iashini com ele. “Eu ia com alguma namorada minha lá e tinha essa foto, eu tinha que mentir que era uma prima para não dar problema”, lembra Theo. “A nora da vida dela era eu”, brinca Iashini. Já a mãe dela chamava ele de “meu-ex-futuro-para sempre-genrinho”.

A família ficou radiante ao saber que haviam reatado, e foi na frente de todos que o pedido de casamento foi feito. “Acho que nós devíamos isso a eles, sabe?”, conta Theo. O casal reconhece que suas famílias sempre acharam que os dois eram almas gêmeas. Eles se casaram no dia 17 de janeiro de 2018 e hoje definem o amor que sentem um pelo outro como “parceria” e “cumplicidade”.


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A vida é festa (e o amor também)

Claudia e Pedro Sessegolo se conheceram no Ensino Médio, em 1985, em Porto Alegre. Os dois tinham 15 anos. Foram grandes amigos durante todo o período de escola e nem cogitavam qualquer envolvimento emocional. Festeiros, os dois planejavam as confraternizações da turma e, por isso, passavam muito tempo juntos. Mas foi só com o término da escola e a preparação para o vestibular que a amizade se transformou em outro sentimento. Dessas comemorações, resultaram horas de conversas e intimidade.

“A gente morava relativamente perto. Então, para ir embora, eu ia a pé com ela, pra ela não voltar sozinha, ela me acompanhava de volta, assim a gente ficava brincando”, relata Pedro.

Mas o interesse amoroso só surgiu quando foram fazer cursinho juntos, ele para entrar em Ciências Contábeis e ela, em História. Depois de muito estudo e uma aproximação ainda maior, o primeiro beijo aconteceu – e foi um dia antes do vestibular. A partir de então, Claudia e Pedro decidiram festejar juntos durante toda a vida. Em 1991, se casaram. Seis anos depois, nasceu a filha do casal, Natália. Os dois concordam que nem sempre a alegria predomina no relacionamento, mas tentam enxergar as adversidades como forma de agregar algum ensinamento.

Claudia e Pedro festejam a vida juntos há 38 anos | Foto: Arquivo pessoal

“O Pedro tem uma máxima que ele diz ‘bom, do limão, faça uma limonada’. Então eu acho que a gente vai encarando a vida dessa forma, de ir percebendo dentro das situações difíceis aquilo que a gente pode aprender com elas”, diz Claudia. E fazendo limonadas ao longo do caminho, os dois dividem a vida há 38 anos, construindo no dia a dia o amor que definem, sem pestanejar, como “cumplicidade”.

O acaso que causou o reencontro desses casais também tem ligação com estar disposto a amar. O “companheirismo” e a “cumplicidade” que todos citam são sentimentos importantes, porque, para quem pesquisa o amor, como Carol, relacionamentos são vias de mão dupla. “A relação é troca, construção, não dá para a gente seguir oferecendo espaço, oferecendo carinho, oferecendo amor, se a gente não recebe em troca”, destaca a pesquisadora. Para encontrar o amor, é preciso, portanto, construí-lo.


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