Em uma pesquisa inédita, a Universidade de York estimou que os seres humanos lembram, em média, dos rostos de 5 mil pessoas que conheceram ao longo da vida. Entre essas, está aquela que pode vir a ser o amor da sua vida. Porém, normalmente não é na primeira vez em que os olhares se cruzam que duas pessoas estão fadadas a ficar juntas, já que o amor não é linha reta.
Entre encontros e desencontros, pessoas que se conheceram a vida inteira podem ficar juntas anos depois. Dois desconhecidos podem virar namorados em um piscar de olhos, terminarem, voltarem, se separarem para, então, chegar a hora de se unirem para sempre. Amigos que nunca cogitaram se envolver podem se deparar com um sentimento que nem viram chegar. Como o editor da coluna Modern Love, do New York Times, define na introdução do livro homônimo: “Isso é amor. Qualquer um pode ter. Só é necessário um pouco de coragem. Ou muita”.

Tudo acontece em setembro
Manuela Venancio e Matheus Labatut estudaram na mesma escola, em Maringá, no Paraná, desde a pré-escola até o segundo ano do ensino médio. “A gente se conheceu a vida inteira, só que, apesar disso, não era amigo, nem se falava”, explica Manu.
Reencontraram-se na faculdade, ele cursando História e ela, Psicologia. Mantiveram contato pelas redes sociais, mas nunca estavam solteiros ao mesmo tempo. Manu tinha relacionamentos casuais e Matheus teve uma relação que durou 10 anos. Em 2015, ela se mudou para Brasília, mas antes encontrou Matheus para se despedir.

Os dois conversavam on-line casualmente, porém isso mudou em maio de 2020, quando Manu resolveu puxar assunto sem saber que fazia apenas 23 horas que Matheus estava solteiro. A partir daí, passaram a conversar todos os dias. “Chegou o momento em que a gente falou: ‘vamos namorar e fazer dar certo’”, recorda Manu. Começaram o namoro em 5 de setembro de 2020, mesmo a distância. Ele com 25 anos e ela, 26. Nesse meio tempo, uma nova variável se atravessou no caminho deles: a mãe de Matheus havia se aposentado e decidido mudar para João Pessoa, na Paraíba, e ele decidiu ir junto para cuidá-la, já que ela é idosa.
“A gente só vai saber o que as coisas significam se a gente ficar tempo para apostar naquela relação e para fazer com que ela desenvolva algum significado”
CAROL TILKIAN, comunicadora e pesquisadora de amor
A primeira visita de Manu foi um ano depois da mudança. Da convivência de 10 dias, o casal relata a estranheza de terem uma conexão emocional forte, mas uma intimidade física quase inexistente. “A última vez que a gente tinha se visto, a gente era quase desconhecido, e quando se viu de novo, tínhamos um relacionamento de um ano e pouco”, conta Matheus. Perceberam, então, que precisavam morar juntos. Em setembro de 2022, a mudança de Manu já tinha chegado à Paraíba. “Foi a segunda vez que a gente se encontrou. No meio do caos de uma mudança, e a gente discutia, porque nada estava bom”, conta Manu, que, logo após, precisou voltar para Brasília para fazer uma cirurgia.
O que os ajudou a superar o momento foi uma cachorrinha que decidiram adotar: a Jabuticaba. Manu conta que passaram a dar menos importância para as discordâncias. “Nós dois temos que nos preocupar com alguém”, relata. Pouco tempo depois, Jabuticaba ganhou um irmãozinho, Mirtilo. Hoje, os quatro vivem em João Pessoa e constroem uma família que começou de um jeito nada usual, mas que virou o amor que classificam como “carinhoso” e de “companheirismo”.
Para a comunicadora e pesquisadora de amor Carol Tilkian, responsável pela coluna Amores Possíveis, na revista Glamour, o reencontro romântico de duas pessoas após anos separadas tem a ver com o acaso, que só vai adquirir significado depois. “A gente só vai saber o que as coisas significam se a gente ficar tempo para apostar naquela relação e para fazer com que ela desenvolva algum significado”, destaca Carol.

Unidos pela família
Iashini Macedo e Theodoro Saibro Junior afirmam que foi a fé da família que os uniu. Um tio de Theo conheceu Iashini na virada de 2003 para 2004, em uma viagem para Punta del Este, Uruguai, e disse que ela precisava conhecer seu sobrinho, pois achava que os dois combinavam. Desde então, Theo também passou a ouvir sobre Iashini. E foi no verão de 2004, no bar Gut Gut, em Capão da Canoa, no litoral gaúcho, que a história dos dois começou.
Theo, com 17 anos, estava com a família na praia de Atlântida e Iashini, com 15, em Capão Novo com amigas quando André, o tio cupido, combinou que todos se encontrariam na praia. “A gente ficou conversando e já ficou nesse primeiro dia. Já foi paixão mesmo. E começou a namorar rapidão”, conta Theo. Mas o namoro acabou cerca de nove meses depois.
Quando ela tinha 18 anos e ele, 21, o litoral os uniu novamente. Os dois se encontraram por acaso na Praia do Rosa, em Santa Catarina, e a paixão reacendeu. “E aí a gente ficou. Não foi um namoro, né, amor?”, diz Iashini pedindo a confirmação do atual esposo. Esse encontro foi mais rápido, durou apenas dois meses, acabando quando retornaram para Porto Alegre, onde moravam. “A gente terminou e aí passaram-se 12 anos”, conta Iashini.


Entre novas cidades, relacionamentos e vivências, o reencontro dos dois aconteceu em Porto Alegre, na inauguração da escola de yoga da mãe dela. Já que as famílias dos dois eram muito próximas, ele foi prestigiar o evento da ex-sogra, e, quem sabe, encontrar Iashini. “Quando a gente se encontrou ali, já deu aquela coisa, o mesmo sentimento lá do início, da primeira vez”, ela relata.
Theo conta que a mãe dele nunca tirou de um porta-retrato uma foto de Iashini com ele. “Eu ia com alguma namorada minha lá e tinha essa foto, eu tinha que mentir que era uma prima para não dar problema”, lembra Theo. “A nora da vida dela era eu”, brinca Iashini. Já a mãe dela chamava ele de “meu-ex-futuro-para sempre-genrinho”.
A família ficou radiante ao saber que haviam reatado, e foi na frente de todos que o pedido de casamento foi feito. “Acho que nós devíamos isso a eles, sabe?”, conta Theo. O casal reconhece que suas famílias sempre acharam que os dois eram almas gêmeas. Eles se casaram no dia 17 de janeiro de 2018 e hoje definem o amor que sentem um pelo outro como “parceria” e “cumplicidade”.
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A vida é festa (e o amor também)
Claudia e Pedro Sessegolo se conheceram no Ensino Médio, em 1985, em Porto Alegre. Os dois tinham 15 anos. Foram grandes amigos durante todo o período de escola e nem cogitavam qualquer envolvimento emocional. Festeiros, os dois planejavam as confraternizações da turma e, por isso, passavam muito tempo juntos. Mas foi só com o término da escola e a preparação para o vestibular que a amizade se transformou em outro sentimento. Dessas comemorações, resultaram horas de conversas e intimidade.
“A gente morava relativamente perto. Então, para ir embora, eu ia a pé com ela, pra ela não voltar sozinha, ela me acompanhava de volta, assim a gente ficava brincando”, relata Pedro.
Mas o interesse amoroso só surgiu quando foram fazer cursinho juntos, ele para entrar em Ciências Contábeis e ela, em História. Depois de muito estudo e uma aproximação ainda maior, o primeiro beijo aconteceu – e foi um dia antes do vestibular. A partir de então, Claudia e Pedro decidiram festejar juntos durante toda a vida. Em 1991, se casaram. Seis anos depois, nasceu a filha do casal, Natália. Os dois concordam que nem sempre a alegria predomina no relacionamento, mas tentam enxergar as adversidades como forma de agregar algum ensinamento.

“O Pedro tem uma máxima que ele diz ‘bom, do limão, faça uma limonada’. Então eu acho que a gente vai encarando a vida dessa forma, de ir percebendo dentro das situações difíceis aquilo que a gente pode aprender com elas”, diz Claudia. E fazendo limonadas ao longo do caminho, os dois dividem a vida há 38 anos, construindo no dia a dia o amor que definem, sem pestanejar, como “cumplicidade”.
O acaso que causou o reencontro desses casais também tem ligação com estar disposto a amar. O “companheirismo” e a “cumplicidade” que todos citam são sentimentos importantes, porque, para quem pesquisa o amor, como Carol, relacionamentos são vias de mão dupla. “A relação é troca, construção, não dá para a gente seguir oferecendo espaço, oferecendo carinho, oferecendo amor, se a gente não recebe em troca”, destaca a pesquisadora. Para encontrar o amor, é preciso, portanto, construí-lo.
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