Sextante

Eu posso ser assim

Adolescentes não-bináries narram suas travessias para se encontrarem em uma identidade. No caminho, encontram também histórias que se parecem com as suas

REPORTAGEM
Anna Ortega
annaortega.c@gmail.com

Arte: Nashi

Com as duas mãos, Mirella, de 16 anos, segura o celular. Abre o TikTok e um dos primeiros vídeos que aparece no feed é o de uma pessoa que olha para câmera, veste uma camisa estampada colorida, e diz: “Oi, eu sou o Bê. E não, eu não sou uma mulher. E, definitivamente, eu não sou um homem”. Mirella não desliza o dedo para cima, como faz com a maioria dos vídeos. Ao contrário, fica alguns segundos atenta, ouvindo. Assim como Bê Machado, influenciador e poeta, Mirella Almeida é uma pessoa trans não-binária.

Mas antes de começar a pensar sobre sua identidade de gênero, Mirella desde criança já sabia que era LGBTQIAP+. Com 10 anos, quando os colegas de escola ensaiavam dizer “quem gosta de quem”, ela sabia que gostava de meninas. Contou para a irmã e depois para avó. A última pessoa que soube foi sua mãe, Michelle, que acolheu a filha desde o início. 

O encontro com a própria identidade de gênero veio no fim do ensino fundamental. “Não me sinto nem tão menino, nem tão menina. Agora eu tenho certeza disso. Me identifico na não-binariedade transmasculina”, conta Mirella, que sorri quando fala de si. “Antes de conhecer a não-binariedade, eu achava que só existiam caras trans. Sim, sou uma pessoa trans, mas não um homem trans”, afirma.  

Desde que se descobriu uma pessoa não-binária, Mirella tem percebido, quase diariamente, que as pessoas querem denominar um gênero a ela e se sentem  incomodadas quando ela não se coloca em nenhum. “Eu vejo que as pessoas não levam a sério a não-binariedade. Para elas, ser não-binário significa só usar linguagem neutra.” Mas, assim como Mirella, nem toda pessoa não-binária vai utilizar pronomes neutros, como elu ou delu. É possível preferir ser chamada no feminino, no masculino, no neutro ou em qualquer um deles. É importante perguntar e respeitar. Sem pressupor. 

“A minha confiança vem de toda a comunidade LGBTQIAP+, porque eu sei que eu não estou sozinha”

MIRELLA ALMEIDA, 16 anos, estudante

As situações em que pressupõem a identidade de Mirella são diárias. Teve um dia em um parque aquático que uma menina viu a adolescente no banheiro e gritou: “Menino, você está no banheiro errado”. Mirella, então, mostrou a alça do biquíni. “Ela pediu desculpa, e eu disse que não era a primeira vez que acontecia.” Mirella acredita que essas situações acontecem porque as pessoas ainda só têm duas ideias fixas de gênero. “Até hoje acham que eu sou uma menina lésbica. Erram que sou menina.  E minha sexualidade também, porque eu sou bi.”

Michelle apoia Mirella em seus processos de descoberta da própria identidade. A mãe quer que dentro de casa a adolescente sempre seja acolhida | Foto: Anna Ortega

“Se ela se sentir melhor, eu sei que a gente tem que apoiar”, diz Michelle da Rosa, sua mãe. “Do ano passado para cá, Mirella mudou mais. Cortou o cabelo, mudou as roupas. E tá tudo certo, é como ela se sente bem.” O apoio é importante para a jovem, que pensa em trocar de nome no futuro, mas quer manter o “M” no início, já que ela, a irmã e a mãe têm os nomes com a mesma inicial. Mas Mirella não parece ter tanta pressa, agora que se sente confortável na não-binariedade. “Eu acho que a minha confiança vem de toda a comunidade LGBTQIAP+, porque sei que não estou sozinha.”

Desenhar a si

Na sala de aula de um colégio na Zona Leste de Porto Alegre, Dani*, de 17 anos, está de frente para uma tela. Elu escuta da professora de artes a orientação de desenhar algo relacionado a ser mulher. Dani começa a pintar um corpo: cabelo curto, braços malhados, roupas largas. Ao lado da pintura, escreve: “Dê reconhecimento para pessoas não-binárias, elus também são seres humanos”.

Não é exatamente um autorretrato, mas é como uma imagem de futuro. Dani ainda não tem os cabelos curtos, mas deseja cortar em breve. “Coloquei um pouco de mim na tela. Eu fiz a pessoa em um pose não de imponência, mas como se ela dissesse ‘eu posso ser assim’”, conta. “Eu me identifico como não-binário, mas ainda não exclamei isso para sociedade. Não me sinto confortável, nem totalmente segure para falar. Contei para poucas pessoas.” Mas é como se, no desenho, elu já pudesse assumir a identidade que sabe ser sua. 

O processo de se entender não-binário não foi linear. Quando tinha 12 anos, elu assistiu a novela A Força do Querer, que mostrou a história de um homem trans na TV aberta pela primeira vez. Dani pensou: “Uau, será que sou isso?”, porque não se identificava com a feminilidade que já era cobrada. Chegou a conversar com os pais, mas eles não souberam responder aos questionamentos e desconversaram. 

Arte: Yasmin Marchant

Elu seguiu com as inquietações, até que alguns anos depois, com 15, descobriu outras identidades possíveis. “Com o tempo, comecei a pesquisar sobre ser não-binário e entender que era sobre não se reconhecer nem como mulher, nem como homem. Não ser uma coisa exata. E eu me sentia exatamente assim. Sentia que eu não era totalmente um.”  

Dani sabia que não era gênero fluido, porque não conseguia transicionar para o feminino. E também que não era agênero. Para elu, o processo de encontro tem sido gradual e envolve negociar com as expectativas que os outros têm, inclusive sobre pessoas não-binárias. “Acham que, por ser não-binário, precisa ser andrógeno. Não precisa, mas no meu caso, eu gosto dessa aparência.”

Caminhar até (se) encontrar

Na sala de seu apartamento no centro de Porto Alegre, Bê Machado, de 28 anos, liga o ring light, posiciona o celular e começa a recitar um de seus slams. Na internet, ele fala sobre ser uma pessoa não-binária e questões que atravessam a sua vida. Ele já fazia vídeos compartilhando poesias, mas, quando passou a viver a transição de gênero, sentiu vontade de falar por ali o que ainda não conseguia dizer fora do virtual. Aos poucos, os vídeos foram chegando em mais pessoas, a maioria jovens, e hoje mais de 30 mil o acompanham no TikTok.

Bê Machado compartilha no Tik Tok e no Instagram vídeos sinceros sobre suas vivências na não-binariedade. Ele recebe todos os dias mensagens de jovens que se sentem encorajades ao ouví-lo falar | Fotos: Anna Ortega

Quando Bê se assumiu não-binário, as pessoas ao redor achavam que ele era um homem trans. “Mesmo eu falando que eu não era, a galera direto me colocava na caixinha de homem. Meu primeiro vídeo foi falando sobre isso”, conta. “Comecei a gravar mais para minha ‘bolha’ saber, sem precisar falar diretamente com cada um.” Ele não sabia que tantas pessoas iam se identificar. 

Quando lembra da adolescência, Bê recorda cenas em que as questões de gênero já estavam lá. Com 13 anos, já sabia que se interessava por mulheres. “Quando eu assumi minha sexualidade, uma das primeiras coisas que eu ouvi da minha mãe foi: ‘tudo bem tu ser lésbica, só não começa a se vestir que nem um homem’”. Bê só entendeu que aquela frase o acompanhou durante toda vida depois de adulto, inclusive durante o processo de transição de gênero. 

“O processo de me encontrar com a não-binariedade ainda está acontecendo. E eu entendo que ele durou a minha vida toda”

BÊ MACHADO, 28 anos, ator e poeta 

“Vivi fugindo desses estereótipos da ‘sapatão masculina’, porque eu pensava que não seria visto com bons olhos. As coisas que a gente escuta muito novinho ficam muito fortes.” Outro episódio que o marcou, e até virou verso em uma de suas poesias slam, foi quando teve que usar um vestido no seu aniversário de 15 anos contra sua vontade. 

Agora faz seis meses que Bê iniciou o processo de hormonização com testosterona, e ele conta que se sente em seu momento mais empoderado e confortável da vida. Assim como não existe uma única forma de viver a não-binariedade, a hormonização também é um processo individual – inclusive a decisão de fazê-la ou não. Bê começou pela vontade da mudança de voz e do corpo, mas sabia que não gostaria de ter barba. E a possibilidade de escolher como ser, longe do padrão, ou de uma cartilha de expectativas sociais, é um dos aspectos que fez ele se conectar ainda mais com a não-binariedade.

As falas de Bê chegam no celular de jovens como Mirella como um encorajamento. Antes, ela conhecia poucos influenciadores com quem se identificasse. “Sigo muitas pessoas trans no TikTok, é informativo pra mim, mas o Bê Machado foi a primeira pessoa não-binária que eu vi como inspiração”, conta Mirella. “Foi legal, porque via poucas pessoas transmasculinas negras na internet e isso me incomodava bastante. O que mais apareciam eram homens trans brancos dos Estados Unidos, e aí a gente não se sente tão representado.” Para Bê, ser uma referência não é sinônimo de que seu caminho em busca de si encerrou – pelo contrário. “O processo de me encontrar com a não-binariedade ainda está acontecendo. E eu entendo que ele durou a minha vida toda.” 

Foto: Anna Ortega

*O nome foi alterado para preservar a identidade da fonte


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