Sextante

Minha mãe está na Lua

Até maio deste ano, ao menos 41 crianças e adolescentes se tornaram órfãs do feminicídio no Rio Grande do Sul. O impacto do crime, porém, se estende por toda a vida

REPORTAGEM
Laura Costa Bender | Júlia Cristofoli Campos
laucbender@gmail.com • jcristofolicampos@gmail.com

Arte: Catarina Lapa Gadret Allgayer, sete anos | Foto: Júlia Cristofoli Campos
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Na madrugada de 30 de março de 1981, Liliane de Grammont, com um ano e oito meses, dormia na casa do pai enquanto sua mãe, a cantora Eliane de Grammont, se apresentava no café Belle Époque, em São Paulo. Aos 26 anos, Eliane tentava retomar sua carreira após encerrar o relacionamento abusivo com o ex-marido, o cantor Lindomar Castilho, autor do sucesso Você É Doida Demais e pai de Liliane. 

Contudo, entre os versos da canção João e Maria, de Chico Buarque, os planos de Eliane foram interrompidos: Lindomar entrou no local e, com um revólver calibre 38, efetuou cinco disparos contra ela. Um deles atingiu seu peito. A artista foi socorrida, mas morreu a caminho do hospital. 

Eliane se tornou mais uma vítima de um crime que sequer possuía tipificação penal específica na época, uma vez que a Lei do Feminicídio (Lei 13.104) seria sancionada apenas em 2015. Já Lindomar se tornou réu, sendo condenado, em 1984, a 12 anos de prisão. E a filha do casal, Liliane, se tornou órfã.

 Esse também é o caso de ao menos 41 crianças e adolescentes que perderam suas mães para o feminicídio até maio de 2026 no Rio Grande do Sul, segundo dados disponibilizados pelo Centro de Apoio Operacional Criminal e de Acolhimento às Vítimas (Caocrim) do Ministério Público do Estado (MPRS). No período, 36 mulheres foram vítimas desse crime no Rio Grande do Sul.

Dançando com a dor

Aos 47 anos, Liliane, conhecida como Lili, é diretora artística da Companhia de Dança de São José dos Campos, em São Paulo. Além disso, também é mãe, coreógrafa, graduada em psicologia e pós-graduada em direitos humanos. Ainda criança, descobriu que era uma órfã do feminicídio após uma de suas primas, durante uma briga, dizer: “Você nem sabe que foi seu pai que matou sua mãe!”.

Até então, Lili acreditava que o crime havia sido cometido por um ladrão. Apesar do julgamento de Lindomar Castilho ter sido televisionado na época e ter incitado protestos populares, a avó materna de Lili, a compositora Elena de Grammont, escolheu não revelar à neta que Lindomar era o autor do feminicídio para não prejudicar a relação de Lili com o pai. 

A explicação que a avó, responsável legal de Lili, lhe oferecia, era lúdica. Elena escolhia estimular a imaginação da neta como uma forma de abrigar o luto. “Ela falava que a minha mãe estava na Lua. Que eu poderia colocar uma escada para subir até lá”, lembra Lili. 

Quando ela descobriu a verdade, o impacto apareceu de forma silenciosa. “Contam que eu era uma criança danada, corria, eu era um furacão e, depois disso, eu fiquei quietinha, boazinha, me deprimi por dentro”, relembra. Alterações no comportamento, segundo a psicóloga infantil Jacqueline Amorim, são comuns em crianças que enfrentam o luto. Os sintomas, no entanto, são diversos e podem oscilar entre dificuldades escolares, agressividade, tristeza ou desânimo excessivos. 

Com o passar do tempo, porém, a quietude de Lili deu lugar à dança. Aos 13 anos, ela encontrou no balé uma forma de expressar o que não conseguia dizer. Para ela, a arte ocupou um espaço tão fundamental quanto o acompanhamento terapêutico no processo de entender e enfrentar seu trauma. “A dança me salvou”, diz. 

Lindomar Castilho, Lili de Grammont e Eliane de Grammont, em uma de suas poucas fotos juntos | Foto: Arquivo pessoal

As marcas deixadas pelo feminicídio, contudo, permanecem. Para Jacqueline, perder a mãe já é, por si só, um dos eventos mais devastadores que podem existir no desenvolvimento emocional infantil. Quando a causa dessa morte é violenta, o impacto é ainda pior e seus efeitos podem reverberar ao longo da vida. “Após o trauma, é como se houvesse uma ruptura da confiança básica da criança com o mundo”, explica. Essa quebra, de acordo com a psicóloga, pode influenciar a forma como essas crianças constroem vínculos na vida adulta.

Lili conhece bem essa consequência. “Por muitos anos eu preferi não amar. Eu não queria ser mãe. Eu tinha medo de ser mãe e morrer”, revela. Ao longo da sua vida, a coreógrafa evitava falar sobre o caso que envolvia seus pais. Mas, em 2020, decidiu contar a própria história após ler uma reportagem sobre a quantidade de crianças que perderam suas mães para o feminicídio naquele ano. Desde então, passou a se dedicar a ações de ativismo voltadas à visibilidade dos órfãos, defendendo o apoio psicológico, a criação de um Centro de Referência aos Órfãos de Feminicídio (Crof) e a mudança na mentalidade coletiva.

“Uma morte por feminicídio é uma morte social. É uma morte anunciada”

LILI DE GRAMMONT, órfã do feminicídio

Ao longo dos anos, Lili passou a refletir sobre os fatores sociais que levam à violência contra as mulheres. Para ela, muitas músicas e filmes populares ajudam a naturalizar comportamentos misóginos e, consequentemente, contribuem para o aumento dos feminicídios. Ela cita como exemplo o verso “Se te agarro com outro, te mato! Te mando algumas flores e depois escapo”, cantado por Sidney Magal apenas quatro anos antes do assassinato de Eliane. 

Embora décadas tenham se passado desde o crime, Lili acredita que a misoginia continuou presente na sociedade e assumiu novas formas. Se antes ela aparecia em músicas e filmes, hoje também se espalha pela internet. É nesse contexto que surge a “machosfera”, termo que se refere a comunidades online que promovem o conceito de superioridade masculina. Segundo Lili, esse tipo de conteúdo contribui para formar uma nova geração de jovens que cultivam o ódio contra as mulheres. 

Para a diretora artística, esse cenário mostra que a violência de gênero é resultado de uma estrutura social que normaliza abusos e falha em interrompê-los. “Uma morte por feminicídio é uma morte social. É uma morte anunciada, é uma morte que poderia ser evitada”, afirma. Romper esse ciclo exige mudanças culturais, bem como políticas públicas eficazes na prevenção e no enfrentamento do crime. Essa realidade, entretanto, ainda está distante.

As crianças que ficam

No Rio Grande do Sul, existem iniciativas voltadas ao combate do feminicídio e ao acolhimento dos órfãos. Uma delas é o projeto Vidas Que Ficam, criado em 2025 pelo Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente (Nudeca) da Defensoria Pública do Estado (DPE/RS). Entre as suas atribuições, estão a regularização da guarda e o encaminhamento dos pedidos de pensão especial para os filhos das vítimas.

A defensora pública Paula Simões, dirigente do Núcleo, afirma que a iniciativa tem como principal objetivo dar visibilidade aos órfãos. O projeto atua de forma ativa, buscando e iniciando o contato com as famílias impactadas pelo feminicídio. Todavia, ela ressalta que iniciativas isoladas não são suficientes para enfrentar o problema. É necessário promover uma cultura baseada na igualdade e no respeito às mulheres. “Ainda há muito a fazer para que haja uma nova cultura de respeito, de relações saudáveis”, avalia.

Em resposta aos índices alarmantes de feminicídio no estado, foi anunciada a recriação da Secretaria da Mulher do Rio Grande do Sul (SDM) em junho de 2025 — o órgão estava inativo há uma década. Já em março deste ano, foi lançado o Programa Estadual de Proteção e Promoção dos Direitos das Mulheres pelo governo estadual.

A SDM foi contatada pela reportagem e afirmou em nota que “está amplamente comprometida com a proteção das mulheres em todo o território gaúcho”, salientando que trabalha em parceria com a Secretaria da Segurança Pública (SSP) e a DPE/RS. 

Apesar disso, até o mês de maio de 2026, os feminicídios no Rio Grande do Sul apresentaram um aumento de 20% em comparação com o mesmo período de 2025, conforme levantamento da Sextante a partir de dados da Polícia Civil. Quando a apuração desta reportagem começou, em março de 2026, 20 mulheres haviam sido vítimas do crime. No final de maio, após a conclusão do texto, o número aumentou para 36. Com isso, cresceram também as histórias de infâncias marcadas pelo trauma.

Fonte: Polícia Civil RS e SSP/RS | Infográfico: Júlia Cristofoli Campos e Laura Costa Bender

É por essas crianças que Lili continua transformando sua dor em ativismo. Décadas depois do assassinato de Eliane, a menina que acreditava que a mãe estava na Lua busca por memória, justiça e cuidado com os órfãos do feminicídio. Hoje, Lili tenta impedir que outras crianças cresçam procurando suas mães no céu. “Por que eu faço isso? Porque se eu não fizer, vai doer mais”.

Liliane se dedica a palestras de conscientização sobre o machismo, a violência contra mulher e a vida dos órfãos do feminicídio | Foto: Arquivo pessoal
Onde buscar ajuda
  • Central de Atendimento à Mulher (180) – Canal gratuito e sigiloso para orientação, acolhimento, registro de denúncias e encaminhamento à rede de proteção.
  • Delegacia Online da Mulher – Permite registrar ocorrências de violência doméstica, ameaça, injúria, difamação, perseguição e outros crimes sem sair de casa. O serviço está disponível 24 horas por meio da Delegacia Online da Polícia Civil do RS.
  • Polícia Militar (190) – Deve ser acionada em situações de risco imediato ou emergência.
  • Centro de Referência em Direitos Humanos da Defensoria Pública do RS – Oferece orientação jurídica gratuita pelo telefone 0800-644-5556.
  • Conselho Tutelar – Deve ser acionado quando crianças e adolescentes necessitarem de proteção, acolhimento ou acompanhamento após a perda da mãe em decorrência do feminicídio.
  • CRAS e CREAS – Prestam apoio psicossocial, acompanhamento familiar e encaminhamento para benefícios e serviços de assistência social.
  • Projeto Vidas que Ficam (Defensoria Pública do RS) – Auxilia familiares e responsáveis na garantia de direitos, acesso a benefícios, guarda de menores e demais medidas de proteção. Atendimento pelo telefone 0800-642-3225 ou pelo e-mail ouvidoria@defensoria.rs.def.br.

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