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Exceções à regra

Sem dados oficiais sobre identidade de gênero, o Brasil ignora a própria violência. Enquanto isso, pessoas trans resistem ao tempo e ao apagamento

REPORTAGEM
Alice Pissollatto | Guilherme Vivan
alicepissollatto@gmail.com • gui.m.vivan@hotmail.com

Arte: Bru Burmeister
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Chris Allves acaba de completar 35 anos. Ela se orgulha por ser muitas coisas: assistente social, diretora administrativa do Hospital Psiquiátrico São Pedro, mãe de santo e estudante de Medicina Veterinária. Glória Crystal tem 60 anos. “Sessenta anos e cinco meses”, enfatiza, orgulhosa. Ela trabalha no Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), em Porto Alegre, como diretora adjunta do Departamento de Diversidade Sexual e Gênero da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. Glória e Chris são exceções à regra: mulheres trans com empregos formais, ensino superior e que ocupam cargos de chefia. Ainda mais simbólico: ultrapassam a idade média de vida de pessoas trans no Brasil, que é de 35 anos, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

São 41 anos a menos do que a expectativa de vida média brasileira, que é de 76,4 anos, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Antra é uma das poucas fontes de dados estatísticos sobre a população trans no país. De forma independente, produz dossiês anuais que registram assassinatos e outras formas de violência contra a comunidade. “Os levantamentos são um ato político e vital diante da política de invisibilização e não produção de registros governamentais consistentes”, relata Bruna Benevides, presidenta da associação.

Arte: Bru Burmeister

Mário Lahorgue, professor de Geografia Humana na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a expectativa de vida é calculada a partir da média de idade de morte da população. No entanto, como o IBGE não coleta dados por identidade de gênero, não há uma expectativa de vida trans oficial no Brasil. “Não existe dificuldade técnica em incluir o gênero nas pesquisas. O problema é político”, afirma Mário. Ele avalia que o tema ainda é polêmico em alguns setores da sociedade, um campo de disputa. Diversas instituições demandam a inserção da identidade de gênero no Censo Demográfico do país, inclusive a Antra, que baseia as estatísticas principalmente nas notícias de mortes de pessoas trans publicadas em jornais.

Nina Acacio, pesquisadora de transgeneridade e doutoranda em Antropologia Social na UFRGS, destaca que iniciativas de universidades e organizações trans são importantes, mas, sem respaldo do Estado, essas informações não podem sustentar políticas públicas que poderiam prolongar a vida da comunidade. Bruna, da Antra, complementa: “A falta de dados públicos atualizados e separados por identidade de gênero impede diagnósticos precisos e políticas eficazes, tornando as pessoas trans estatisticamente invisíveis”.

A violência física é a expressão mais extrema da opressão enfrentada por pessoas trans, mas seu tempo de vida é encurtado por múltiplos fatores: exclusão familiar, abandono escolar, discriminação no mercado de trabalho e problemas de saúde mental. Também não existem dados oficiais sobre a saúde mental de pessoas trans, mas diversas pesquisas apontam tendências negativas: 85,7% dentre 28 homens trans entrevistados em 2015 pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) já pensaram em suicídio. Isso é resultado de diversos preconceitos e da falta de direitos enfrentados. “A pessoa trans não se suicida, é suicidada”, resume Nina.

Contando o que ninguém conta

Enquanto o IBGE não coleta dados específicos sobre identidade de gênero, algumas cidades fazem pesquisas locais. Em 2025, Cachoeirinha, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, lançou seu primeiro Censo LGBTQIA+, proposto pelo vereador Gustavo Almansa (PT). A partir desses dados, será possível fundamentar a criação de políticas públicas para essa população.

A poucos quilômetros dali, o então secretário de Diversidades e dos povos e Comunidades Tradicionais de Canoas, Pai Santiago, conduziu, em 2023, um projeto semelhante: criou o primeiro Censo LGBTQIA+ da cidade. Para o ex-secretário, não se faz política pública sem dados. Os resultados serviriam de base para novas ações. Com o fim de sua gestão, no entanto, o censo deixou de ser atualizado, e as análises pararam.

Antigamente, era raro ver pessoas trans com empregos formais. Hoje, Glória é uma autoridade no governo | Foto: Guilherme Vivan

Nos anos 1980, o estigma do HIV enfrentado pela comunidade LGBT tornava a vida de Glória ainda mais árdua. Travestis evitavam sair durante o dia, já que xingamentos, empurrões e chutes eram comuns. “Eu sentava no ônibus e ninguém queria sentar do meu lado.” Glória costumava fazer muitos shows drag. Lembra especialmente de uma apresentação, já nos anos 2000: dublando “Supermodel ” da RuPaul, lotou o bar Opinião em Porto Alegre. Depois de ser ovacionada pelo público, caminhava para outra boate quando sentiu uma voadora nas costas e a surra começou. “O cara me bateu com a cabeça num vidro de Chevette. Ninguém fez nada. Cada um saiu correndo para um lado. Eu consegui fugir, mas apanhei muito”, conta. “Pensa: tu tá no palco, sendo aplaudida, e minutos depois apanha na rua. Era comum.”

Denunciar não era uma possibilidade. Glória diz que a própria polícia perseguia pessoas trans. Muitas vezes foi levada para a antiga Delegacia dos Costumes, órgão da Polícia Civil, que, segundo Glória, perseguia travestis. Eram humilhadas, limpavam a delegacia e apanhavam. “Lá, sofríamos todo tipo de violência. Algumas foram estupradas. Depois, nos largavam em qualquer lugar.”

Um outro compasso

Os anos passaram e, aos poucos, o Brasil foi mudando. Em 2018, a hoje deputada federal Erika Hilton (PSOL), mulher trans, foi a vereadora que recebeu mais votos em todo o país. Além disso, em 2020, foi inaugurada a Delegacia de Combate à Intolerância em Porto Alegre. Mesmo assim, foi por pouco que Chris sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 2022.

“Hoje, se me baterem vão ter que me matar, porque viva eu faço escândalo”

Glória Crystal
diretora adjunta do Departamento de Diversidade Sexual e Gênero do RS

Concorrendo à deputada federal, ela entregava panfletos no bairro Passo Fundo, em Guaíba, cidade na região metropolitana de Porto Alegre, quando um homem apontou uma arma para sua cabeça. Disse que iria matá-la. Talvez pela quantidade de gente em volta, ele não tenha puxado o gatilho e fugiu. Chris registrou um boletim de ocorrência, mas nunca recebeu retorno. Nenhum contato, nenhuma resposta, nenhum desfecho.

Neste local, na rua A, do bairro Passo Fundo em Guaíba, Chris sobreviveu a uma tentativa de assassinato | Foto: Guilherme Vivan

Sobre o tempo, a antropóloga Nina reflete: “A gente tenta seguir uma certa ideia linear, mas, quando falamos de pessoas trans e travestis, essa linearidade não se aplica”. Para ela, há um outro compasso, uma outra medida que escapa aos ponteiros. “A gente precisa lutar para conquistar o mínimo, ter o nome reconhecido, por exemplo. Em alguns aspectos, tudo acontece rápido demais. Em outros, tudo demora: o tempo da burocracia, o tempo da espera, o tempo do cansaço.”

A experiência de Chris tem a dualidade da qual Nina fala. Com apenas 35 anos, ela já fez de tudo. Como mãe de santo, teve 120 filhos. Foi a primeira a ocupar o cargo de conselheira municipal de povos de matriz africana em Guaíba, cidade onde também presidiu o partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB), tornando-se a primeira mulher trans a presidir o partido em qualquer nível federativo. Em 2024, aventurou-se no concurso de Miss Universe Trans e ganhou na categoria popularidade. Hoje, lembra do começo, da primeira profissionalização que fez: um curso de cabeleireira e maquiadora. Com 18 anos, já pensava: “A oportunidade de uma mulher trans é onde? Ou no salão, ou na prostituição”. Chris se preparava para enfrentar o mundo mesmo antes de transicionar. Quando se sentiu segura e finalmente tomou a decisão, aos 28 anos, estava tão pronta que fez a cirurgia só 13 dias depois.

Os progressos são dúbios. Glória já se sente segura no transporte público e não sofre mais violência física nesse espaço. Já é possível ver travestis na rua durante o dia. Ainda assim, conta que ir ao banheiro, algo tão simples, pode ser constrangedor. “Mas eu não preciso que me aceitem, só que me respeitem.” Por isso, pretende seguir lutando. “Eu não fico mais calada. Durante muito tempo eu tinha medo, observava tudo. Mas hoje não. Hoje, se me baterem, vão ter que me matar, porque viva eu faço escândalo.”


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