Tudo começou quando um bandeirante paulista talhou à faca as iniciais “TC” na casca de uma árvore à beira de três cursos d’água. Depois vieram os imigrantes açorianos, as famílias alemãs e italianas. A partir daí, um acumulado de situações e tribulações geraram o causo de uma pequena cidade do litoral norte gaúcho chamada Três Cachoeiras.
Três Cachoeiras é um município localizado entre Torres e Terra de Areia, banhado pela Lagoa Itapeva, atravessado pela BR-101, povoado por pouco mais de 11 mil pessoas. O território era um distrito de Torres desde 1956, tendo vindo a se emancipar em 1988.
Mas não estamos aqui para falar sobre as belezas do Poço das Andorinhas e dos Morcegos ou de tradições preservadas pelo povo local. Queremos contar uma história de intrigas e, sobretudo, explicar como se dá a dinâmica política do local a um nível tão atomizado que se torna difícil separar as contendas pessoais das hostilidades coletivas. São rixas entre dois lados, e um não vive sem afrontar o outro.

Os graxains contra os carrapatos
A lenda popular diz que, no princípio, era o “Galo”: “Três Cachoeiras é um município que é filho de Torres, e antigamente havia um candidato que foi prefeito de Torres por várias vezes, chamado Clóvis Webber Rodrigues, representante do PDS [antigo Partido Democrático Social]. Ele tinha o apelido de Galo. Aí a oposição, para enfrentar esse candidato, se deu o nome de ‘Graxaim'”, conta Gabriel Borges Hainzenreder, de 67 anos, contador e ex-vereador de Três Cachoeiras. O graxaim é um mamífero parecido com uma raposa que caça os galos. “Isso faz parte do folclore das campanhas políticas”, lembra Gabriel.
Há relatos de que, nas carreatas de campanha, os apoiadores de Clóvis, o Galo, andavam com um graxaim preso em uma gaiola, enquanto a oposição, formada por integrantes do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), ostentava um galo depenado como forma de provocação. Posteriormente, quando Três Cachoeiras se tornou um município independente, a divisão continuou, e o apelido “Carrapato” passou a ser uma forma pejorativa de se referir aos membros e simpatizantes do Partido Progressista, usualmente situação. “Se grudam na prefeitura como carrapatos e não largam mais”, como relembra Gabriel. Assim, os galos viraram carrapatos.
O núcleo duro da rivalidade política na cidade constituiu-se durante a Ditadura Militar, ao longo dos anos de confrontos entre MDB e os partidos que derivaram da antiga Arena, primeiramente como Partido Democrático Social (PDS), depois como Partido da Frente Liberal (PFL) e por fim, Partido Progressista (PP), hoje conhecido apenas como Progressistas. “O nosso povo mais antigo ainda mantém essa rivalidade muito forte, são ferrenhos, é tipo ser gremista ou colorado. Até hoje, se um puder derrubar o outro, vai fazer”, diz José Paulo da Silva Rodrigues, popularmente conhecido como Zé Paulo, de 72 anos, ex-vereador e atual presidente do MDB. Segundo ele, que esteve envolvido com a política do município desde a emancipação, as rixas pessoais influenciaram tão ou mais do que o alinhamento político dos partidos em questão: “Isso começou através dos líderes dos partidos, de pessoas que nunca se acertaram. É a mesma coisa que Bolsonaro e Lula”.
“Existem muitas histórias de brigas. Até na minha família houve brigas, amizades que se desfizeram, devido à política”
GABRIEL HAINZENREDER, contador
É difícil precisar a divisão entre esquerda e direita em um município cuja complexidade do discurso político ainda não teve tempo nem estrutura para se desenvolver a esse ponto. Haja visto, por exemplo, os 72% de votos que Jair Bolsonaro obteve nas últimas eleições presidenciais no município. Os partidos que existem para além de Progressistas e MDB, como o PT, o PDT e o PTB, costumam viver à sua sombra, como satélites, contentando-se em reivindicar assentos na câmara de vereadores e cargos administrativos.
Devido ao acirramento da rivalidade, o combate eleitoral por vezes transborda das urnas para as ruas. Três Cachoeiras é um povoado que foi construído por famílias originárias que flertavam ou brigavam entre si, levando o partidarismo a ser algo mais genealógico do que estritamente ideológico. “Existem muitas histórias de brigas. Até na minha família houve brigas, amizades que se desfizeram, devido à política”, relata Gabriel, que, em uma carreata de comemoração nas eleições de 2000, teve o carro atingido por um tiro de espingarda: “A sorte é que não chegou a acontecer nada, porque eu estava com meus filhos pequenos no banco de trás”.
Na atualidade
“Hoje a nossa realidade é muito diferente. Foi pregada muito a paz, procurando valorizar as pessoas e não os partidos. Eu vejo que a gente deveria levar a harmonia política que existe aqui para o país. Na época da primeira eleição do município, foi brabo, as pessoas queriam se matar. Hoje tá tranquilo”, afirma João Valerim Silveira, de 78 anos, atual presidente do Progressistas e secretário de Turismo de Três Cachoeiras. João Valerim é outra testemunha ocular da história, tendo sido o primeiro presidente da câmara de vereadores em sua primeira legislatura como vereador, em 1988. Sobre o apelido jocoso dado pelos adversários, João Valerim disse que não se incomoda com a tal denominação de “Carrapato”.

A trajetória de João Valerim permitiu que ele estivesse dos dois lados do balcão: também foi o primeiro presidente do MDB na cidade e foi o candidato do partido à prefeitura nas eleições de 1992, tendo perdido o pleito por 370 votos. Após a disputa, João trocou de lado. “Eu não me arrependo do que fiz, me arrependo da forma que fiz. Não gostei de situações que aconteceram no partido por causa de ciúmes político. Eu agi errado, porque esqueci que praticamente 50% do eleitorado tinha votado em mim, eu senti o descontentamento do povão que andou com a gente nas ruas”, expõe.
Nos dias que correm, João compõe a equipe de secretários do governo de Flávio Raupp Lipert (Progressistas), o Flávio Ratinho, único prefeito reeleito da história do município, vencendo as duas eleições com margens consideráveis. O predomínio do Progressistas não se restringe apenas ao maior número de eleições vencidas – o placar está em 7 a 2 –, mas também nas cadeiras na câmara: dos nove vereadores eleitos, apenas Elisângela Visintainer Santos (MDB) compõe a oposição.
Há quem diga que essa “paz cachoeirense” se deve ao abismo de apoio popular que se criou nas eleições de 2016 e foi apenas aumentando ao passar do tempo. Também há quem diga que a chama do antagonismo político ainda segue queimando: “Nós íamos ficar sem concorrer à eleição porque nosso próximo presidente migrou para o PP em cima do prazo de regularização dos partidos. Falaram no rádio que o MDB não ia existir mais. Tudo isso é dentro da rivalidade, o objetivo deles era ‘matar nós’ de vez pra não ter adversário contra”, comenta Zé Paulo. Mas, pelo menos em um futuro próximo, a batalha de graxains e carrapatos está longe de acabar.
Rio Grande do Sul: uma terra formada por peleias
O cenário de rivalidade está longe de ser uma exclusividade de Tês Cachoeiras. O historiador Cesar Augusto Guazzelli, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esclarece que o cenário de polarização visto na política nacional já era conhecido pelos gaúchos há muito tempo. Desde a independência dos países do Rio da Prata (atualmente Argentina, Uruguai e Paraguai), formou-se uma divisão entre Unitários e Federalistas. Essa separação afetou a província vizinha da américa portuguesa, o Rio Grande. O primeiro efeito dessa polarização foi a Revolução Farroupilha, na qual a elite gaúcha foi dividida entre aqueles que demandavam mais autonomia e os centralizadores, processo muito parecido ao que tinha levado à independência do Uruguai em anos anteriores.
Essa divisão não acabou com o Tratado de Poncho Verde, pois viriam ainda a Revolução Federalista de 1893 e a Revolução de 1923. A própria discórdia entre lenços brancos e vermelhos, que identificava Chimangos e Maragatos, se repetia na República Oriental, o Uruguai. Mesmo sem guerras civis e revoluções, a divisão política seguiu na região no período após o Estado Novo, quando os dois partidos criados por Getúlio, o Partido Social Democrático (PDS) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), se uniam nas chapas ao redor do país, mas não firmavam alianças nas eleições regionais.
O professor Cesar Augusto ainda relaciona as rivalidades políticas com as futebolísticas. “O futebol argentino vai muito além de Boca Juniors e River Plate, e não estou falando em número de torcedores. Uma rivalidade como Racing e Independiente, por exemplo, é absurda.” O Rio Grande do Sul é afeito às contendas nas quatro linhas, como são os confrontos entre Guarany e Bagé, Caxias e Juventude, Novo Hamburgo e Aimoré, entre outros. A centralização industrial e comercial de Porto Alegre e a cobertura midiática que torna sua atenção quase que exclusivamente para os times grandes da capital fizeram com que o Grenal se tornasse referência de rivalidade. Esse efeito cultural, de acordo com o historiador, faz com que o Rio Grande do Sul seja o estado que tem a maior aderência das torcidas aos clubes locais.
A ideia de ter “um lado” em todos os assuntos, da política ao esporte, envolvendo atritos familiares e por vezes descambando para a violência física, está entre os fatores que constituem a identidade gaúcha. Se tomarmos a história como indicativo do futuro, podemos esperar que, enquanto houver poder para ser disputado através da discórdia, muitas peleias ainda serão lutadas em solo gaúcho.
No podcast a seguir, o historiador Cesar Augusto Guazzelli explica as razões de o Rio Grande do Sul ser tão dividido
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