Sextante

O refúgio residencial

Empresas e poder público começam a investir em moradias para idosos que buscam viver de forma independente

REPORTAGEM
Pedro Alt
silvaaltpedro@gmail.com

Arte: Gabs Baptista

Na recepção do Vintage Senior Residence, condomínio localizado no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, uma senhora impecavelmente bem-vestida aguarda sorridente. “Estou esperando minha amiga”, diz Leda Courtes, de 87 anos. Apesar de ser porto-alegrense, ela passou 66 anos em Cruz Alta, no noroeste do Rio Grande do Sul. Formada em Letras, trabalhou toda a vida profissional no setor administrativo de uma escola no município do interior gaúcho. Leda se mudou para Cruz Alta devido ao trabalho do marido, formado em Direito e Economia e que lecionava em uma universidade da região.

“Desculpem o atraso, ainda está um pouco difícil”, diz Terezinha Dieguez, de 83 anos, ao sair do elevador do edifício construído pela Cyrela Goldsztein e administrado pela Auxiliadora Predial. Terezinha retirou uma máscara de pano com a insígnia de Nossa Senhora Aparecida para contar que era professora de Artes em um colégio particular da capital gaúcha. Seu marido, Orlei, também professor, falecera oito dias antes após sofrer paradas cardiorrespiratórias decorrentes do Parkinson.

Leda Courtes (à esquerda) e Terezinha Dieguez (à direita) são moradoras do Vintage Senior Residence | Foto: Pedro Alt

Apesar de pensado para a população acima de 60 anos, a presença majoritária de octogenários, em específico, surpreendeu Luiz Paludo, diretor de incorporações da Cyrela Goldsztein, responsável pelo Vintage. O investimento, aberto em novembro do ano passado, resultou de uma prospecção de mercado feita pela incorporadora. “Notamos que duas capitais brasileiras apresentavam grande potencial nesse nicho: Rio de Janeiro e Porto Alegre”, comenta o diretor.

Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de idosos no Brasil subiu de 11,3% em 2012 para 14,7% em 2021. No Rio Grande do Sul, 18,2% da população tem mais de 60 anos e, em 2050, serão 32,3%, segundo projeção do IBGE. Em Porto Alegre, de acordo com a Pnad, 316 mil pessoas são idosas, ou 20,8% da população.

O Vintage é o primeiro empreendimento do Rio Grande do Sul na categoria senior residence, segundo a Cyrela Goldsztein. Há piscina coberta e aquecida com aparatos de segurança, academia planejada, estúdio para alongamentos, espaço de cinema e quintal orgânico. Além disso, apresenta garagem, salão de festas e segurança privada.

Novo condomínio para idosos

Em Porto Alegre, outro empreendimento do tipo está em construção: o Magno Sênior Premier Living, no bairro Três Figueiras. Segundo a ABF, incorporadora responsável pelo projeto, o condomínio contará com apartamentos entre 21 e 32 metros quadrados — o empreendimento da Cyrela Goldsztein tem apartamentos de 42 ou 85 metros quadrados. “Como empresa, temos de prospectar o mercado imobiliário e esse, sem dúvida, é um nicho em crescimento”, comenta Luiz. A ABF já anunciou a construção de outro senior residence no bairro Moinhos de Vento.

Leda foi uma das primeiras moradoras a se mudar para o Vintage, em novembro de 2021. “Não posso nem comentar quanto custou o apartamento, foi minha família quem comprou”, comenta a professora aposentada, que tem dois filhos. Leda conta que a intenção inicial, até ser apresentada ao Vintage, era se mudar para Porto Alegre e viver em uma casa geriátrica. Após a morte do marido, com quem vivia, ela se mudou sozinha para um apartamento em Cruz Alta, já que não queria ficar na antiga residência pelas lembranças do casamento.

Terezinha, que vivia no bairro Menino Deus, se orgulha de ter pagado pelo apartamento em que mora. “Eu mesma comprei. Sou bem independente, acho que filho não tem que ter obrigação de nada”, comenta a porto-alegrense, que tem três filhos e morava só com o marido no antigo apartamento.

Arte: Maria Eduarda Alegre

“Atualmente, a presença de um idoso é um fator que aumenta o poder aquisitivo da família. Décadas atrás, mal havia aposentadoria”, comenta o médico Angelo Bos, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e especialista em Gerontologia. É claro que existem famílias com realidades muito diversas tanto no Brasil quanto em Porto Alegre. Muitos idosos não teriam condições de morar em um empreendimento como o Vintage, que tem o condomínio mensal de cerca de R$ 1,5 mil, de acordo com a Cyrela Goldsztein.

Uma das características do Vintage mais elogiadas pelas moradoras é o atendimento feito pela empresa especializada em home care, isto é, de assistência médica a domicílio. No condomínio, enfermeira e técnica de enfermagem estão presentes 24 horas por dia.

A empresa de home care também atua no gerenciamento de atividades de lazer e confraternizações, como recitais de música e bingos. “Aqui o bingo é levado a sério, tem até prêmio”, brinca Terezinha. Angelo não se surpreende com a independência dos idosos do Vintage. “Meus pacientes diziam: ‘Doutor, estou me preparando para o [cemitério] João XXIII’. Agora, as pessoas com 60 e poucos anos pensam no que farão pela frente”, comenta o professor.

“Eu mesma comprei. Sou bem independente, acho que filho não tem que ter obrigação de nada”

TEREZINHA DIEGUEZ, professora aposentada
Leda e Terezinha posam com Mariana, enfermeira (ao centro), e Érica, técnica de enfermagem (à direita), no posto da ATS | Foto: Pedro Alt

Sentadas de braços no sofá, Terezinha e Leda, que se conheceram no condomínio, riem contando histórias. “É como a gente sempre diz, a cabeça é de 30, mas o corpo é de 80”, brinca Terezinha. As moradoras fazem questão de mostrar o espaço dedicado ao atendimento médico diário no condomínio. “Não sei exatamente o porquê de chamarem a terceira idade de ‘melhor idade’. Todo dia, acordo com uma dorzinha”, comenta Leda, aos risos.

A importância do atendimento especializado é reforçada pela médica geriatra Estefânia Mocelin, que atua no Hospital Mãe de Deus. “Quando o idoso vive com semelhantes, há uma estrutura preparada apenas para eles. Isso é importante porque algumas pessoas de 80 anos são independentes, mas outras, de 60, podem ser superdependentes”, analisa a médica. Ela destaca que são fundamentais, em moradias para idosos, botões de pânico (para avisar autoridades em emergência) e pisos antiderrapantes, todos presentes no Vintage.

Quando adquiriu o imóvel, Terezinha buscou um apartamento em andar próximo ao posto de atendimento home care, no térreo, por conta da saúde do marido. Orlei, acamado há quatro anos, foi atendido tão logo sofreu paradas cardiorrespiratórias. “Me disseram: ‘Terezinha, tu precisas ficar perto da enfermagem por conta do teu marido’”, relata a professora aposentada, que mora no terceiro piso e se mudou em janeiro ao condomínio.

Mas especialistas fazem ressalvas sobre empreendimentos focados em idosos, como a limitação do convívio com outras gerações e o possível isolamento quanto a mudanças da sociedade. “Podem faltar estímulos. Com a tecnologia, por exemplo: a convivência com jovens pode tirar idosos da zona de conforto”, exemplifica Mocelin.

“Podem faltar estímulos. Numa troca intergeracional isso pode acontecer de forma melhor. Com a tecnologia, por exemplo: a convivência com jovens pode tirar os idosos da zona de conforto”

ESTEFÂNIA MOCELIN, geriatra

“A gente prefere conviver com outras gerações, claro”, diz Leda, mas ela comenta que essa lacuna é contemplada pela constante visita de familiares e pelo convívio com funcionários do condomínio. “Somos professoras, a gente gosta dessa troca”, acrescenta Terezinha.

Governos investem em moradias para idosos

O poder público de outros Estados vem investindo em condomínios voltados para idosos, o que não acontece no Rio Grande do Sul. Na cidade de São Paulo, o projeto Vila dos Idosos foi criado em 2007 e tem 145 apartamentos. O morador paga 10% de seu rendimento e condomínio simbólico de R$ 35 mensais. O idoso deve se inscrever na Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab). 

Já na Paraíba, o projeto Cidade Madura foi inaugurado em 2014 na capital, João Pessoa, pelo governo estadual. Desde então, o programa foi expandido para outras cinco cidades: Campina Grande, Cajazeiras, Sousa, Patos e Guarabira. Para terem acesso ao condomínio, os idosos devem ter renda de até cinco salários mínimos.

Arte: Alex Rezende

“Em Porto Alegre, mesmo no caso das instituições de longa permanência, moradias para idosos são todas filantrópicas”, diz Angelo, que participa de reuniões do Conselho Municipal do Idoso de Porto Alegre (COMUI), órgão que delibera sobre políticas voltadas para idosos. Nas últimas cinco reuniões com atas disponíveis, há referências a casas geriátricas em processo de liberação, mas nenhuma alusão a projetos públicos. No caso do Guia de Orientação para Gestão da Política da População Idosa, elaborado pelo Conselho Estadual da Pessoa Idosa, não há qualquer menção ao tema da habitação.

Leda e Terezinha brincam que são as mais assíduas frequentadoras da piscina térmica do Vintage, o local predileto de ambas no edifício. “Há pessoas aqui que a gente nem conhece, está chegando muita gente”, diz Leda. “Mas olha, se quiser, a gente coloca um maiô, viu? Nós também temos nossas roupinhas especiais”, brinca Terezinha.

No apartamento de Leda, no sétimo andar, a iluminação natural, proporcionada por duas amplas janelas voltadas a Sul e Oeste, impressiona. Fixado na geladeira, um esquema detalha horários de todas as atividades realizadas pela moradora ao longo da semana. “É muito bom morar aqui, só tem uma questão da lavanderia a resolver”, comenta a idosa sobre a dificuldade em lavar roupas devido ao tamanho reduzido do apartamento. A Cyrela Goldsztein esclareceu que instalará um serviço de lavanderia no condomínio.

Um comentário em “O refúgio residencial”

  1. Estou em busca de algo que eu tenha a mesma liberdade que teria na minha casa…Sou independe cuido da minha saúde vou aos médicos Fasso meus exames…Faço compras online…Sou professora aposentada…Busco interação com pessoas da minha idade…

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