Sextante

Mais antigo do que a liberdade

Clube social negro mais velho do país guarda histórias de resistência e afeto. Espaço também uniu idealizadores do Dia da Consciência Negra

REPORTAGEM
Júlia Ozorio
juliaozoriocontato@gmail.com

Arte: Ana Luiza Freire

“Mais antiga do que a liberdade” é a frase de slogan da Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, o clube negro mais velho do Brasil. Sediado no bairro Belém Velho, em Porto Alegre, a instituição foi criada por negros alforriados em 1872, 16 anos antes da abolição da escravatura. O clube marcou a história do Brasil: uniu idealizadores do Dia da Consciência Negra, que eram colegas da turma de teatro.

A instituição, ligada às lutas abolicionistas, nasceu porque os criadores buscavam auxílio mútuo e enterro digno de escravizados, até então jogados em valas rasas. O local se tornou reduto do povo negro – foi lá que amizades e famílias surgiram.

Atualmente, o clube, outrora famoso entre a mocidade por seus bailes, tem, em sua maioria, sócios pagantes com mais de 50 anos, conforme o vice-presidente de finanças, Sérgio Luiz Fonseca. Todos com vidas profundamente ligadas ao clube, como é o caso do advogado Antônio Carlos Côrtes, de 74 anos, criado na Colônia Africana de Porto Alegre e florestino há mais de cinco décadas.

Arte: Joana Falleiro Custódio

Ele conheceu o clube pelos pais, Egydio Ribeiro Côrtes e Isolina dos Santos Côrtes. “Meu pai me falava muito sobre a Sociedade Floresta Aurora, e a minha mãe tinha sido eleita a Rainha do Sorriso na década de 50. Então, nos anos 1970, procurei o clube e me associei”, relembra.

Foi lá que Antônio fez amigos e ajudou a escrever a história do negro no Brasil. Ele se reunia com colegas da turma de teatro do Floresta Aurora em casas e na Esquina Democrática para tratar de questões raciais.

Arte: Nashi

Em 1971, essa turma criou o Grupo Palmares, projeto que plantou a semente do 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra. “Propúnhamos o ‘não’ ao 13 de maio [dia da abolição da escravatura], porque nada tinha a festejar, e ‘sim’ a uma celebração à data da morte do Zumbi dos Palmares. Isso ecoou no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro”, recorda.

Nos anos 1980, a ideia foi abraçada pelo Movimento Negro Unificado, dando o arremate na proposta de criação de uma data para a reflexão sobre a cultura negra no país. Foi em 2011 que a data foi oficializada pela então presidente Dilma Rousseff como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra em formato de feriados municipais. Por ironia, em Porto Alegre, onde a ideia nasceu, a data não é feriado.

Último remanescente do grupo que sugeriu o 20 de novembro ainda vivo e no Estado, Antônio assumiu como presidente do Floresta Aurora em 1977. O clube estava endividado e integrantes temiam pelo fechamento.

Ainda pequeno, Antônio Carlos Côrtes via seus pais frequentando as festas do clube | Foto: Júlia Ozorio

“Havia um grupo de discoteca chamado Magia Negra que fez o primeiro Black Porto, no Grêmio Náutico Gaúcho, e foi um sucesso. Quando tentaram realizar a segunda festa, a direção não deixou. Não queriam negros lá. Procuraram outros clubes e também não conseguiram. O Floresta Aurora abrigou esses jovens. Fazíamos festas às sextas, sábados e domingos. Era cobrado um ingresso para participar e ainda havia os comes e bebes. Eu devo a esses jovens o pagamento de 90% das dívidas da Sociedade”, relembra.

Para ele, essas festas promoviam a união e a autoestima. “Esses jovens passaram a chamar o Floresta Aurora de Mansão Black”, diz.  Quando analisa os anos vividos juntos do clube, Antônio afirma: “Pode ter alguém que ame o Floresta Aurora, mas ninguém o ama mais do que eu”.

Amor para cuidar

Arte: Joana Falleiro Custódio

Maria Eunice da Silva, cuja idade, afirma bem-humorada, é a mesma da jornalista Glória Maria, passou a frequentar o clube ao ser convidada pelo colega da faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Antônio. Ela se associou em 1977 e foi estandarte dos carnavais do clube entre 1980 e 1982.

Em 2010, ela se tornou a primeira e única presidente mulher da instituição. A advogada assumiu a gestão em um momento turbulento: o clube tinha dívidas altas, em cerca de R$ 300 mil. Foi preciso vender a então sede, no bairro Pedra Redonda, e ainda assim Maria Eunice arcou com quase R$ 150 mil do próprio bolso para quitar as dívidas e não deixar o tão amado clube fechar.

Arte: Nashi

Com a venda do imóvel, a presidente foi ressarcida e ainda comprou a atual sede, no bairro Belém Velho. “Um lugar lindíssimo, grande, com piscinas, salão, campo de futebol e metros e metros de mata nativa”, se orgulha.

Ela explica o motivo para ter arriscado suas economias. “Nunca esqueço as palavras de um antigo presidente. Ele falava que aqueles negros que fundaram, escondidos, o Floresta Aurora não tinham condições econômicas. Eles fizeram muito mais do que nós, que estamos formados e temos casa própria”, observa. “Nós, negros, temos o dever de honrar a história daqueles que fundaram a Sociedade”, completa Maria Eunice.

Maria Eunice foi a primeira e única presidente mulher do Floresta Aurora, em 150 anos de história | Foto: Júlia Ozorio

Convivendo desde a década de 1970 com o clube, ela resume o afeto que sente: “A minha relação com o Floresta Aurora é visceral. Eu o amo e sinto ciúmes dele. Vou fazer o que eu puder, enquanto estiver viva, por ele, em respeito aos meus antepassados”.

Vidas compartilhadas

Arte: Joana Falleiro Custódio

Um dos membros mais velhos do Floresta Aurora é o advogado José Flávio Rocha Silveira, de 80 anos. Por sua longa trajetória no clube, ganhou recentemente o título de Presidente de Honra da instituição.

Ele ajudou a fundar, em 1968, o bloco carnavalesco do clube, Os Intocáveis, para disputar os bailes de carnaval realizados no Restaurante Universitário da UFRGS, contra a agremiação do Clube Náutico Marcílio Dias. “Fizemos carnavais icônicos, muito elogiados. Havia três bailes e um infantil. Todo mundo se reunia e saíam festas bonitas”, conta.

Arte: Joana Falleiro Custódio

Foi em uma festividade no clube que José Flávio conheceu sua companheira, Jalmira Teixeira Silveira, de 79 anos. “Podemos afirmar que nos casamos aqui [no Floresta Aurora]”, diz.

Assim como o marido, Jalmira é “florestina” desde a mocidade. Ela, que veio do interior para estudar Farmácia e Bioquímica na UFRGS, conheceu o clube na década de 1950. Quando se formou, em 1963, foi homenageada na Festa dos Bixos – evento do clube que valorizava a conquista acadêmica dos frequentadores.

O casal sempre foi ativo no clube, assumindo diferentes cargos nos departamentos fiscal, cultural e beneficente da instituição | Foto: Júlia Ozorio

“Nós saímos pintados fazendo festa. Era um triunfo a todos os que passaram e se formaram naquele ano”, relembra Jalmira. “Isso incentivou a nossa juventude a estudar. Achavam bonito celebrar aquela conquista e também queriam estar ali”, acrescenta José Flávio.

Entre as comemorações, a vida do casal foi se desenrolando junto ao clube. “O Floresta Aurora é uma cachaça. Eu luto e faço tudo por ele”, conta José Flávio. A esposa concorda: “Faz parte da gente, de nossas vidas. Nos conhecemos aqui e frequentamos há mais de 50 anos”.

De geração em geração

Arte: Joana Falleiro Custódio

Maria Idalina Martimiano, de 98 anos, nasceu em Pelotas e veio para Porto Alegre ainda criança. Neta de escravizados, era levada pelos pais ainda criança para o Floresta Aurora.

Foi lá que constituiu seu círculo social e conheceu o amor de sua vida, Alberto Martimiano Filho. Eles engataram um namoro após uma festa do clube em 1939, se casaram em 1943 e viveram 57 anos juntos, até ele falecer, em 2000. O amor pela instituição passou de geração em geração.

“Quando eu era criança e adolescente, não podia frequentar outros clubes, via minhas coleguinhas indo e não podia. Aquilo me deixava angustiada. O Floresta Aurora era o nosso reduto”

MARGARIDA MARTIMIANO, de 69 anos, engenheira civil
Arte: Joana Falleiro Custódio

Margarida, que fez do clube o seu refúgio, hoje retribui o afeto recebido dentro deste espaço o mantendo seguro, forte e adequado para uso. A filha utiliza dos seus conhecimentos de engenheira para ajudar, voluntariamente, nas obras e para manter em dia o Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndios (PPCI) da instituição.

Já de bengala, Maria Idalina tem lapsos de memória, mas conta que foi no Floresta Aurora que viveu toda a sua vida. “Desde pequena eu frequento [o clube]. Sempre fui, toda a vida”, diz.

Preservar o futuro

O envelhecimento do clube, que por 150 anos manteve viva a história do povo negro, é motivo de orgulho para os frequentadores, mas também preocupação: a Sociedade enfrenta a baixa adesão da mocidade. “O nosso sonho é que nossos filhos assumam o clube, tenham cargos, cuidem e preservem”, diz a florestina Jalmira.

Para frequentadores, o Floresta Aurora precisa oferecer atividades para o público jovem e garantir a preservação da instituição. O atual presidente do clube, Gilmar Afrausiano, explica que estão sendo feitas mudanças, como a criação de um site e redes sociais, além de planos para a instalação de brinquedos.

Na visão de Giane Vargas, professora de História da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e coordenadora do projeto Clubes Sociais Negros, manter vivo o Floresta Aurora é também obrigação do Estado.

“Para preservar, é preciso de recursos humanos e financeiros. É preciso que o governo fomente esses patrimônios que, por muito tempo, relegou ao esquecimento. Preservar clubes sociais negros é de importância social e educacional para os jovens terem o direito de entender suas raízes, se enxergarem enquanto gente e sonhar”, conclui Giane.

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