Como a linguagem estrutura o nosso pensamento e quais são as consequências para a nossa visão de mundo?
Existem algumas vertentes teóricas no campo da linguística que debatem sobre como a aquisição da linguagem molda a nossa maneira de pensar. Duas grandes ideias dizem que o pensamento precede a linguagem, ou que a linguagem precede o pensamento, mas não há acordo entre os pesquisadores.
Outro debate acirrado é sobre a gramática gerativa: Noam Chomsky defendeu nos anos 1960 que todos os idiomas são idênticos entre si em algum nível mais profundo, mesmo que na superficialidade pareçam diferentes – ou seja, existe um mesmo sistema, baseado na sintaxe, que nos permite transformar uma língua na outra.
Alguns pesquisadores contestam essa teoria. Um deles foi Daniel Everett, um missionário que veio ao Brasil para viver com a comunidade Pirahã, uma das mais isoladas no interior da Amazônia. Ele afirmou que o idioma deles era mais “rudimentar” por não ter variações linguísticas de tempo ou por ter pouco vocabulário para números. Segundo Everett, o pirahã não teria recursividade, a capacidade de “encaixar” orações umas dentro das outras. Esta teoria também não foi aceita com unanimidade e hoje enfrenta contestações.
Em resumo, não há consenso no estudo das línguas sobre como elas se diferem e como isso influencia na vida de falantes nativos de diferentes idiomas. Porém, exemplos práticos são vistos – e estudados – ao redor do mundo. Existem estudos que demonstram, por exemplo, que falantes de espanhol veem o tempo de forma espacial e linear, enquanto falantes de sueco pensam nele como algo volumétrico e tridimensional.
Outras línguas determinam gêneros diferentes para o mesmo substantivo: “ponte”, em alemão, é feminino, enquanto no espanhol é masculino. Isso difere a escolha de adjetivos para caracterizar este objeto, pensando naquilo que relacionamos a feminilidade ou masculinidade. Em alemão, a ponte pode ser “esbelta”, “delicada” e “bonita”. Em espanhol, a ponte pode ser “forte” e “monumental”.
Esta (longa, perdão) introdução teórica serve para dizer que a linguagem influencia, sim, na maneira como estruturamos o nosso pensamento – só ainda não se sabe exatamente como. Diferente de pesquisas científicas, esta reportagem se propõe a apresentar a visão de um linguista e de um neurocientista, especialistas no assunto, para introduzir o debate sobre o tema.
O linguista pode falar sobre relatividade linguística e o impacto dos idiomas no pensamento, enquanto a neurocientista falaria sobre as sinapses e a estrutura cognitiva do nosso cérebro que estão envolvidas com a linguagem, além de possíveis benefícios físicos e biológicos para quem é bilíngue ou poliglota. Assim, posso trazer curiosidades e exemplos de como isso de fato impacta a vida real das pessoas no dia a dia com os cases.
Eu não quero que fique um texto muito voltado ao campo das ideias, sem algo que possa tornar o assunto “palpável” para o leitor. Pensei em algo mais no estilo da revista Superinteressante do que no da Veja Saúde, por exemplo. Queria que tivesse um forte viés de comportamento também. Por isso, quero pegar cases que possam mostrar, na prática, a diferença que cada idioma tem no seu pensamento.
Uma pessoa poliglota pode falar como vê as cores ou percebe o tempo de acordo com o idioma que está falando no momento. Se já tiver morado em outro país, pode falar sobre como a imersão no idioma impactou seu modo de pensar e sonhar. Famílias que criam os filhos de forma bilíngue podem comentar sobre as diferenças de comportamento ou raciocínio das crianças durante a aquisição das duas línguas. Um professor de idiomas pode descrever quais são os principais desafios de ensinar e aprender uma nova língua e o que muda de um aluno para outro quando este adquire a fluência no idioma estrangeiro.
Na maior parte dos materiais que eu consultei, inclusive outras reportagens que estão citadas abaixo, o viés científico tomou conta do texto. Eu não gostaria de seguir por esse caminho. Eu sei que é um jornalismo de ciência, mas gostaria de deixar o mais palpável possível, o mais ancorado na realidade prática do dia a dia possível, para que quem leia tenha curiosidade sobre o assunto e pense sobre como a nossa comunicação funciona.
Para isso, pensei em algumas outras perguntas que vão guiar as minhas entrevistas.
- De que forma aprender uma língua é determinante ou influencia a maneira como entendemos a vida e o mundo?
- O que acontece com o cérebro quando “trocamos” de um idioma para outro?
- Existem benefícios biológicos e cognitivos em aprender outras línguas? Pode diminuir a chance de desenvolver Alzheimer ou demência na terceira idade?
- Como pensar no futuro ou no passado em um idioma que não conjuga os verbos dessa forma?
- Como visualizar cores e padrões gráficos/visuais em idiomas que possuem mais ou menos vocabulário relacionados a essa ideia?
- Como descrever e adjetivar a vida e o mundo quando línguas mudam os gêneros do substantivos, ou não possuem gênero de forma alguma?
- Como funciona o raciocínio e o pensamento de pessoas bilíngues ou poliglotas? Elas usam um idioma com mais frequência para expressar pensamentos analíticos e outro para expressar emoções, sensações e ideias abstratas? Em que língua as pessoas demonstram amor, raiva e desejo? É necessariamente na sua língua materna ou em outra que a pessoa sente que “faz mais sentido”?
Claro que a linguagem não existe no vácuo e pertence ao conjunto de códigos que cada diferente bagagem cultural carrega. Não é possível isolar o idioma e separá-lo de outros fatores culturais – mas, mesmo assim, qual é o papel que ele tem no fim das contas?
Materiais de referência:
- “O Reino da Fala” (2017), livro de Tom Wolfe, jornalista estadunidense;
- “A Chegada” (2016), filme de Denis Villeneuve;
- “Relativismo linguístico ou como a língua influencia o pensamento”, livro de Rodrigo Tadeu Gonçalves, professor da UFPR;
- Langfocus, canal do YouTube;
- A Língua Que Você Fala Muda a Maneira Como Você Pensa (vídeo youtube);
- Hipótese de Sapir-Whorf, teoria da linguística;
- How language shapes the way we think | Lera Boroditsky (TED Talk);
- The secrets of learning a new language | Lýdia Machová (TED Talk);
- Both Not Half: How language shapes identity | Jassa Ahluwalia (TED Talk);
- Os benefícios de um cérebro bilíngue – Mia Nacamulli (TED-Ed, com animação);
- Matéria: A curiosa influência dos idiomas na sensação de tempo e espaço (BBC, 2022);
- Matéria: A língua que você fala pode determinar como vê o mundo (Exame, 2018);
- Matéria: Falar mais de um idioma diminui o risco de Alzheimer; entenda (Veja Saúde, 2023);
- Matéria: Qual é o idioma mais falado do mundo? (National Geographic, 2023);
- Estudo: Demandas de Aprendizagem de Inglês no Brasil (British Council, 2014, inclui dados interessantes – talvez defasados);
Possíveis fontes:
- ESPECIALISTA da linguística: professor(a) com domínio sobre linguística, recursividade, relativismo linguístico e sociolinguística para falar sobre a linguagem aliada à construção do pensamento e o impacto de aprender diferentes línguas [entrevista presencial];
- ESPECIALISTA da neurociência: neurocientista para falar sobre sinapses, cognição e impactos fisicoquímicos da linguagem [entrevista presencial];
- CASE/ESPECIALISTA Bernardo Rocha: professor de idiomas de SP, fez intercâmbio para Taiwan e já morou na China. Hoje fala, com mais ou menos domínio, inglês, espanhol, alemão, chinês e francês (para falar sobre como ensinar idiomas na sala de aula fora do ambiente da universidade/academia, com alunos de diferentes origens, e também sobre a experiência pessoal da imersão linguística de ter morado em outro país e como é o pensamento de um poliglota) [entrevista online];
- CASE Vanessa Maurente: professora de psicologia na UFRGS, é uma brasileira casada com um grego. Eles criam os filhos de forma bilíngue (para falar sobre o bilinguismo infantil e como ensinar idiomas em um ambiente familiar) [entrevista presencial];
Possíveis fotos:
- Fotos “factuais”:
- biblioteca do IL com livros sobre linguística/idiomas;
- biblioteca da medicina com livros sobre neurociência;
- alguma sala ou espaço do IL que tenha decorações/elementos que remetem a linguagens, como letras e outras expressões;
- alguma sala ou laboratório da Famed que tenha manequins/protótipos de cérebro, boca, língua e outros elementos físicos envolvidos na linguagem e na fala;
- Museu da Língua Portuguesa (tenho algumas imagens prontas de uma visita que fiz em julho, posso conferir se algo se encaixa);
- retratos das fontes em algum ambiente que remeta a sua área do conhecimento, podendo ser até o ambiente da entrevista.
- Fotos “conceituais” (a serem feitas em estúdio ou alguma outra locação que faça sentido, com modelos e recursos visuais):
- grandes letras ou peças que estejam misturadas montando alguma palavra ou alfabeto;
- mãos de modelos manipulando diferentes pedaços de papel com coisas escritas (revista, jornais, impressões, dicionários, etc): aqui pensei em deixar a câmera fixada em um tripé e apontada para baixo, onde estariam os modelos e os objetos, para diminuir a velocidade do obturador e pegar o movimento “borrado” dos papéis e das mãos se mexendo;
- pessoa em um fundo neutro com uma imagens sendo projetadas na sua direção “cobrindo” o seu corpo, pode ser uma projeção de letras/alfabetos/símbolos de fonemas ou coisas parecidas, para dar a ideia de a linguagem nos “molda” ou “assujeita” e influencia no nosso corpo.
Propostas multimídia (site)
- VT com trechos de entrevistas e talvez offs/passagens que complemente o texto (não repetir as mesmas coisas que já estarão escritas na matéria);
- VT “extra” com vídeos de convivência e sonoras da família com criação bilíngue;
- aqui a ideia é ir na casa dessas fontes e filmar eles conversando com as crianças em duas línguas, além de pegar algumas sonoras dos pais e das crianças;
- Vídeo de animação que ilustre como funciona o caminho neurológico para a aquisição de uma linguagem, que será referenciado no texto mas explicado melhor em offs que podem cobrir essa animação (estilo Ted-Ed);
- Recomendação do canal Langfocus, citado nos materiais de referência, com link para algum vídeo que contemple mais o assunto da reportagem.
Redes sociais:
- Animação de palavras se formando ou cérebros;
- Vídeo de bocas (modelos) diferentes falando diferentes línguas, cortes de trechos das falas deles;
- Jogo interativo de trava-línguas;
- “Brincadeira/teste”: colocar palavras de cores escritas nas “cores erradas” e pedir para as pessoas contarem quantas conseguiram nomear corretamente (por exemplo, a palavra “marrom” escrita com um fonte em vermelho, e assim por diante);
- “Brincadeira/teste”: mostrar um texto escrito com abreviações exageradas (sem todas as vogais, por exemplo) e sugerir que as pessoas tentem ler;
- Recomendações de “O Reino da Fala” e “A Chegada”.
Da pauta à reportagem
Quando definimos o tema “língua” para a nossa edição, eu imediatamente pensei em linguagem. O universo da linguagem é vasto e complexo, podemos encontrar muitas pautas nesse meio. Meu pensamento se voltou, justamente, ao próprio pensamento. Como a língua que falamos nos ajuda a estruturar aquilo que a gente pensa, sente e comunica?
Minha pergunta inicial me levou a pesquisar muitas coisas. De início, confesso que senti uma certa ansiedade em ver que não existia consenso na comunidade científica sobre isso. Linguistas e neurocientistas nunca encontraram uma resposta exata para esse questionamento, e muitas teorias passaram a coexistir. Nesse momento, a presença do linguista e professor de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Reiner Perozzo se mostrou indispensável. Ele fez parte do conselho editorial da Sextante e se disponibilizou a trocar inúmeros e-mails e mensagens comigo, explicando teorias da linguagem e sugerindo fontes.
Foram nessas conversas que eu entendi como poderia escolher meu foco. Decidi me aprofundar em como a mente humana funciona quando consegue se comunicar em dois idiomas distintos. Pronto. Fácil, né? Eu imaginei. Logo percebi que não era bem assim (e quase nunca é quando nos propomos a construir pautas que são desafiadoras para nós).
Precisei de muita conversa com especialistas para entender o jeito que a linguagem se constrói e se expressa. Os cases foram essenciais para dar vida às ideias que até então eram abstratas e para me alimentar de exemplos sobre como tudo isso acontece na prática. Conversei com bilíngues e poliglotas que dividiram a sua história comigo e me mostraram como sentimento e comunicação estão ligados.
Com tantas ideias borbulhando na minha cabeça, a escrita veio correndo. Reuni bastante material e precisei de um tempo para organizá-lo da melhor forma que consegui. Sempre mantive em mente que, por mais que fosse uma matéria de ciência, não queria que o texto estivesse descolado da realidade do dia a dia. Foi uma experiência desafiadora e muito divertida.