Como conversar com o xadrez?
O jogo de xadrez é popularmente associado à lógica, estratégia e apatia. Na verdade, é um esporte da imaginação, é uma conversa inédita entre dois jogadores que depende da originalidade que surge na interação com o outro. A reportagem vai explorar em que termos o xadrez é de fato uma linguagem e como essa linguagem gera narrativas, como cada tabuleiro é uma história de ascensão e queda de um império. Recentemente, graças ao sucesso de Gambito da Rainha (2020), série original da Netflix, o mundo do xadrez foi transformado para sempre, como já expressado pela Federação Internacional de Xadrez. Há parcerias de sites como o Chess.com com streamers da Twitch para incentivar o engajamento e o estudo do xadrez, os circuitos de campeonatos observam essa nova onda de interesse e desmistificação de um jogo que surgiu para que soldados do exército passassem o tempo. Além de ser um esporte dominado por um público masculino, é silencioso; o silêncio, o neologismo e a surpresa estão presentes na interação das peças. Ninguém joga para perder, mas jogando xadrez é possível jogar para o imprevisto do outro.
O enfoque é mostrar e revelar essa linguagem secreta para que mais pessoas conheçam esse mundo. O estereótipo do enxadrista como nerd silencioso é afirmativo em sua base, chega a parecer uma sociedade secreta, uma experiência carregada de algo que ninguém explica ou sequer remete em voz alta, só que estando diante do tabuleiro com o outro, há um acordo tácito que dança nos olhos. A cada vez que a mão toca uma peça, faz-se um convite, é um jogo sobre respeito, soberba e humildade. Tal como qualquer diálogo. Até grandes mestres sabiam que se fosse só por mérito de estudo, o xadrez seria um saco, quando na verdade um jogador que se diverte usa estratégias quando convém na sua narrativa criativa particular. Ou que, na era de cálculo de estatística das jogadas, dá pra subverter tudo e jogar um antixadrez.
Contexto: O xadrez é dividido em três fases: abertura, meio jogo e final. O verdadeiro jogo não está no manual de regras, e muitos jogadores iniciantes podem abandonar o passatempo por jogar com jogadores mais experientes, não necessariamente pessoas que são boas mas que sabem fundamentos que te garantem liberdade o suficiente para sobreviver no campo de batalha para além da abertura. Depois da abertura, começam às segundas intenções, por isso até para os mais românticos justifica-se aprender aberturas nos livros, pensando no que a sua abertura pode te facilitar no seu meio jogo. Sem o espaço de poder ser criativo, um iniciante que só foge e perde peças sente que o xadrez é um ato mecânico, que o tabuleiro responde como um ambiente hostil. Independentemente de contextos estratégicos, quero explicitar que essa reportagem navegará a jornada da diversão de ser um jogador e, embora tenha que tratar das regras e de eventuais consensos formais que alguns jogadores podem ter, que é um salão de festa particular e você pode jogar xadrez do seu jeito. Mas antes de ter autonomia de fazer os próprios passos é preciso saber onde se pisa. Acredito que se um iniciante ultrapassa essa primeira barreira, vai saber a linguagem do xadrez para sempre. Mesmo o jogo tendo que acabar com alguém perdendo, é um trabalho em dupla, o meio jogo é um momento puro em pedir e conceder ao outro.
A força dos jogadores, para fins de separação de oponentes de mesmo nível e para cálculo de probabilidade de vitória é feita pelo rating do Elo, o mesmo cálculo de elo do jogo de tênis. É um consenso de método, campeões mundiais de xadrez, como Magnus Carlsen tem em torno de 2800 como elo. Um jogador iniciante tem entre 300-1000. No xadrez casual isso não deveria implicar em nada, pois não estamos em uma competição da federação, mas é comum que os jogadores troquem essas informações para ter uma possível noção dos níveis de jogada do adversário. Ou talvez saber que nível de cautela e respeito ter pelo adversário. Acho simbólico e só um acessório quando não se trata de xadrez competitivo formal.
Fontes:
- Buscando uma jogadora iniciante e também buscando jogadores queer/trans/nB e contato oficial da FIDE pois a FIDE (Federação Internacional de Xadrez) vetou mulheres trans de competições em pleno 2023.
As alterações propostas nesta resolução são todas em torno do xadrez feminino. Se um homem fizer transição para mulher trans, mantém todos os títulos conquistados. Se uma mulher fizer transição para homem trans, perde todos os títulos conquistados. As justificativas são vagas sobre como a mudança de sexo altera a experiência de jogo, tratam genericamente como “mudança muito significativa no status do jogador”, o que implica que o xadrez é um jogo de aparências, aparência e gênero como fatores de credibilidade.
- Experiência gonzo: com Casa do Xadrez – Sergei Belavenets e Metrópole Xadrez Clube (Dois clubes/escolas/centros para jogo de xadrez.) Para campeonatos/ preparação de campeonatos, para aprofundar no processo do que é ensinar Xadrez, e tentar uma experiência meio gonzo colocando a tese da língua do xadrez em uma disputa com um jogador experiente. Um jogador experiente que pensei seria um professor ou um campeão.
PROPOSTA A: Quero que um professor de xadrez aceite que eu o desafie diversas vezes ao longo do período. Dizem que o jogo muda completamente a depender do elo, que o xadrez jogado por jogadores de nível/elo 2000 é diferente do xadrez de nós mortais (meu nível/elo é 600). Quero saber onde está a barreira de linguagem na percepção de um jogador formal que precisa de didática para se aproximar dos alunos iniciantes.
PROPOSTA B: Estou aguardando que o campeão nacional sub-8 (menores de 8 anos de idade) Pedro Kortmann que mora em Porto Alegre e seu pai aceitem participar, muitas pessoas não levam crianças a sério e no xadrez é comum que crianças sejam excelentes jogadoras. Xadrez como linguagem que independe de idade, de mentalidade. (Então porque dependeria de gênero?)
- La Furia Bar – O ambiente e interação que transformaram o bar, o dono nunca planejou ser o bar do xadrez, mas adora. Ambiente extremamente masculino na Cidade Baixa: Rua Luiz Afonso 287 – tem um clube de xadrez interno que se reúne às quintas feiras mas sempre que o bar está aberto há mesas com tabuleiro.
- Enviei e-mail: Confederação Brasileira de Xadrez – Posicionamento da inclusão e circuitos competitivos no Brasil
- Estou ensinando xadrez para uma pessoa que nunca jogou antes para ser uma experiência documentada. Quando comecei, sacrifiquei muitas peças e fiz muitos movimentos espontâneos que me levavam pra derrota antes de perceber que me divertia mesmo assim porque houve na história a escola de xadrez romântica, e me validou muito.
Fotos, Redes e Multimídia
Além de fotos conceituais com posições de tabuleiro, ou fotos de pessoas jogando em bares e ruas, acho mais marcante a maneira como as pessoas se sentam e olham pro tabuleiro fixamente. Não há necessidade de olhar nos olhos, o coração do adversário está no desenho das peças.
INSTAGRAM – IDEIA PARA POST EM FOTO E VÍDEO
TWITTER – IDEIA PARA TEXTO EM FORMATO THREAD
- Série de vídeos curtos/carrossel falando de dicas de xadrez para iniciantes. Ex: importância de estabelecer uma estrutura de peão já no início do jogo.
- Customize seu tabuleiro para levar por aí e jogar em qualquer bar/café/lanchonete!
- Postar tabuleiros de partidas que marcaram a história e explicar a história contida naquela composição ou questionar se o público sabe qual a armadilha contida.
- Vídeo de partida bullet (partidas de 1 ou 3 minutos de duração)
- Post ANTES e DEPOIS de treino com um professor de xadrez – tomara que eu acabe subindo de elo por consequência.
- Post sobre pessoas que se tornaram amigas jogando xadrez.
- Curiosidades das mudanças no jogo e na comunidade ao longo dos anos.
- História de atuais e antigos mestres (com contribuições)
- Por que há distinção entre xadrez feminino e masculino? Desde quando? Como a história do xadrez carregou isso ao longo do tempo.
- Os diferentes tipos de xadrez (Rei da Colina, CrazyHouse, Australiana, 3xeques, Antixadrez, Fisher, etc)
- Aberturas para aprender primeiro
- Top coisas para NUNCA fazer como um iniciante, já que mestre pode tudo.
- Para desmistificar: Não é jogo de inteligência, é jogo de prestar atenção. É um quebra cabeça. Quais os estereótipos que afastam o público?
Para o site se adapta qualquer um desses tópicos que possa ser narrado com experiência e com demonstrações/explicações mais longas. Imagino que uma jornada tentando subir de nível com a ajuda de um professor enquanto me mantenho em valores românticos pode ser divertido. Os valores românticos a que me refiro são os que diferenciam um jogo. Há os jogadores analíticos, com hábitos de decorar jogadas e decorar sequências, mas as escolas de pensamento do xadrez mudaram ao longo dos séculos justamente por conta disso, xadrez não pode ser só sobre cálculo e teoria, uma pessoa pode até ter sucesso com leigos e desavisados assim mas eventualmente quando enfrentar um mestre ou alguém que estudou a mesma sequência, não terá pra onde correr. Xadrez é um jogo de criatividade.
I Trained Like A Chess Grandmaster
Da pauta à reportagem
Para o xadrez me seduzir demorou muito, as “ocasiões não faziam o ladrão” e eu também sei que preciso me distrair com alguma história pra ficar presente na realidade. A didática de xadrez é terrível. Entendo que pode ser algo para evoluir com prática, dirão, e o que eu escutei é que na verdade é um tesouro que querem que você descubra sozinho. Ah sim, quero que todos tenham noção do valor do meu tesouro, não necessariamente vou revelar o endereço da mina. Vão te ensinar o movimento das peças, vão te ensinar as regras – isso é como saber os símbolos do alfabeto, saber os sons da língua, identificar padrões – e onde se completa a alfabetização? onde se faz um poeta? onde se dá autonomia para interação de signos? Sem isso, deve ser um jogo muito sem graça mesmo. A reportagem começou como um diário de jornada antropológica de gênero no jogo do rei que não faz nada e da rainha que pode tudo.
Entendo totalmente a frustração de quem tenta começar mas pega um jogo frio e não se interessa muito. Acho que é igual fazer um motor pegar. Eu entendi o que parecia ser segredo, mas não queria deixar em segredo, quis tentar explicar para o máximo de pessoas possível. Explicar que o jogo é uma língua, que é aprender a conversar algo universal, que pode te fazer sorrir para alguém de um país completamente diferente, transpõe barreiras de aparência, de vícios cognitivos. Com isso surgiu a pauta, de como fazer as pessoas entenderem a conversa do xadrez. O xadrez tenciona nossa visão de mundo do mesmo jeito que acontece quando saímos na rua e conversamos com alguém. Encare o outro, veja suas noções de imagem serem desconstruídas e reconstruídas até a humildade de não julgar pela capa te alcançar.
Como as piadas da vida já vem prontas, todas as fontes que encontrei eram homens. Ri pouco, fiz colegas, descobri clubes de xadrez, escrevi a reportagem sobre linguagem do jogo. Não coube tudo que eu queria, não coube tudo que dá pra falar de um jogo que é arte, esporte e brincadeira. Ao invés de conseguir um viés do subestimar entre gêneros, consegui um viés do subestimar da idade, aos jogadores que são crianças ou idosos, que passam bastante por esse momento em que alguém abaixa a guarda por condescendência. Também há um respeito interessante de se conquistar dentro disso. Com o case de um jogador de sete anos, eu me concentrei no aspecto de crianças que brincam. Saudades de uma época em que eu não carregava nos olhos tanta bagagem, quando a maior parte do tempo era nós, quando não precisava haver noção da falta de horizontalidade.
Em uma lição de hipocrisia, minha moral dessa história foi aprender que, choramingando ou acenando, eu quero jogar e o outro também, e se sou vencida pelo cansaço e por superestruturas no mundo real, todos meus argumentos devem ser traduzidos para as minhas jogadas. Caso o jogo esteja chato porque o outro me diminui aos próprios olhos, então é melhor dar um xeque o mais rápido possível para começar outra partida, eventualmente tem que sentar na minha frente alguém que saiba brincar.