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Conversando em Xadrez

Arte, esporte ou jogo. Vencer pode significar várias coisas, mas até em sua natureza mais competitiva, é falar com o outro 

REPORTAGEM
Lisly Moreira
lmljornalismo@gmail.com

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O objetivo de jogar xadrez pode ser descrito como capturar o rei do adversário. É o xeque-mate. Em persa, rei morto. Mas eu vou falar sobre como brincar de xadrez, é uma diferença sentimental. Apesar de tentativas esporádicas, eu nunca conseguia aprender a jogar xadrez. As informações e os tecnicismos que explicavam a estrutura do jogo eram jargões e linhas de raciocínio acumulativas que não ganhavam vida na minha cabeça. Eu não podia compreender como arquitetar e controlar uma estrutura em 64 quadrados enquanto atacava e me defendia, cara a cara com o sistema de ataques e defesas do outro. Anos depois, assistindo O Gambito da Rainha, minissérie fenômeno da Netflix em 2020, voltei para a proposta do jogo com uma visão bem mais romântica, e, na minha intencionalidade, me apaixonei. E se você nunca se convenceu a jogar, talvez eu te conquiste.

Primeiro, eu aprendi a brincar de xadrez, que pode ser comparado a uma corrida, um quebra-cabeça, um jogo de apostas, e até um RPG – roleplaying game, ou jogo de interpretação de papéis. No fim, o tabuleiro é uma realidade paralela para se conectar com o outro, uma plataforma de símbolos. No livro Uma Teoria do Jogo e da Fantasia, o antropólogo inglês Gregory Bateson explica que o ponto crucial da compreensão de uma linguagem se dá quando uma mensagem deixa de ser um sinal automático para tornar-se algo que possa ser interpretado. 

 A presença de dois interlocutores garante a troca da mensagem e, no xadrez, o processo interativo pode até ser inconsciente, mas há movimentos de aceitação e rejeição sendo percebidos a cada novo lance. Mas por que se engajar em uma comunicação simbólica representada por peças de cavalos, bispos, torres e peões? Na verdade, nos divertimos com isso desde crianças. Compreendemos a alegria da simulação. Ninguém joga pra perder? Talvez. Um brinca pelo imprevisto do outro. 

A brincadeira é uma transgressão ocasional, e a transgressão só tem graça enquanto existem regras. É por isso que todos os jogos, do xadrez ao Uno, exigem que os jogadores acordem as regras primeiro, para que então se divirtam com dobrar os limites das fronteiras. Como em uma conversa. Um locutor e seu ouvinte, alternando local de proposição, ora presa, ora predador. A diversão está em você mesmo, mas o companheirismo necessário para criar uma coreografia única a cada partida é ampliado quando o oponente te respeita e te vê como igual. A satisfação da partida, as emoções e os suspiros, tudo está no sentimento que une os dois jogadores.

O exército do querer e do precisar

Pense no rei como um monarca que passa o dia sentado no trono. Ele só precisa se levantar para se defender, pois seus servos, soldados e clérigos estão fundados na honra do mártir e na audácia do ataque para protegê-lo. Enquanto o rei se protege, o exército é da rainha, a peça com maior pontuação e que, apesar de não ser obrigatória para uma vitória, é definitivamente decisiva. 

Dizem que é difícil se recuperar depois de perder a dama, antigamente conhecida como peça do conselheiro. Rainha e rei são fundamentais no jogo, mas o exército todo é importante. Não ignore os peões. Depois do meio do jogo, talvez tudo que você tenha sejam eles, que esnobou até então. Pratique consciência não apenas da formação do tabuleiro e das ameaças factuais que o rondam, mas também das possibilidades que surgem a cada nova informação acrescentada. 

O mestre nacional de xadrez Teófilo Lemos Almeida Filho, de 20 anos, joga hoje representando o Clube Atlético Ribeirense, de Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul. Esse título é concedido pela Confederação Brasileira de Xadrez aos enxadristas profissionais que tenham obtido pontuação igual ou superior a 2.200 pontos. Apesar de jogar desde os seis anos, Teófilo só passou a treinar rigorosamente aos 15, quando começou a participar do cenário mais competitivo do esporte.

Mestre nacional Teófilo Lemos carrega sempre um set de peças na mochila para emergências | Foto: Lisly Moreira

 Pense no jogo como um duelo que se desenvolve, como uma dança em um baile de máscaras. Durante a coreografia, alguém pode sacar uma faca e aplicar um golpe fatal a qualquer momento. Vão existir aqueles que nem sabiam que havia coreografia, há os que fingem passos despretensiosos, há os que possuem olhos mais afiados que a lâmina que carregam no bolso. É por isso que chega a ser covardia quando um jogador experiente enfrenta um iniciante, não dá para fingir não ver. Praticar para vencer no xadrez é praticar lucidez, quem vê a fraqueza do outro mais rápido vence. 

Para falar sobre os sentimentos que o jogo lhe traz, Teófilo cita Bobby Fischer, jogador americano e mestre mundial conhecido pelas opiniões críticas ao xadrez. Fischer abandonou o título porque o jogo já não era mais divertido para ele. O xadrez pode ter esse lado matemático, de padronização e estatística, e assim todos acabam repetindo jogadas já existentes. A criatividade pode se perder em jogadores mais experientes, que passam a esquecer de como é brincar. Teófilo conta que, em torneios profissionais, a maioria dos jogos – e em alguns casos todos – termina em empate. Por isso ele gosta de acompanhar os torneios infantojuvenis, pois as crianças têm muito mais a instigar e surpreender. Elas sabem brincar de xadrez de verdade.

 Teófilo lembra novamente de Bobby Fischer para falar de sua diversão particular como jogador e cita uma frase forte do americano com a qual se identifica: “Eu gosto do momento em que destruo o ego de um homem”. Fischer dizia às vezes esquecer que seu oponente também podia fazer boas jogadas. Suas estratégias são estudadas pela sua iniciativa em fazer o outro sucumbir. Mas é preciso ter cuidado, senão o próprio jogo pode sucumbir para a dicotomia entre  dominância do ganhar e submissão do perder.

 De várias formas o xadrez é uma filosofia sobre equilibrar a humildade e a brutalidade. Quando o jogador descobre as intenções e limitações do outro, o tabuleiro deixa tudo à mostra, causando constrangimento. O constrangimento é o que todo mundo sabe, mas ninguém fala. O xadrez está explícito no silêncio. Nem mesmo um mestre mundial joga sozinho, não importa quão bom seja o seu plano: ele tem uma estratégia para o tabuleiro e quer executá-la, mas precisa da estratégia do outro para desvendar o quebra-cabeça. 

O gênio da diversão

Arte: Dantara Ordovás

No primeiro torneio de xadrez infantojuvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, em novembro de 2023, um dos jogadores presentes era Pedro Kortmann, de sete anos, atual campeão nacional de xadrez escolar e campeão sulbrasileiro. Seu pai e maior fã, Gustavo Kortmann, de 36 anos, é um grande incentivador do xadrez, que, para ele, é uma arte que precisa de mais divulgação. Por ser apaixonado pela linguagem do jogo, preza pela diversão de Pedro mais do que pela pressão de ganhar.

“Há um preconceito a cada jogador que tu senta na mesa à frente, né? Seja pra jogar uma partida amistosa ou quando tu vai jogar uma partida valendo, é inevitável que tu pense, quando tu vê uma criança, tu cria uma ideia de inexperiência” 

Gustavo Kortmann, pai de Pedro, 7 anos, campeão de xadrez

O desenvolvimento rápido do porto-alegrense Pedro no cenário do xadrez chama a atenção de campeões gaúchos e nacionais que se oferecem para treiná-lo. O jogo acabou sendo um hobby que envolve a família toda e já faz parte da rotina. As semanas de Pedro são preenchidas com estudo, mas também com jogos com amigos e família. Os fins de semana são para campeonatos, que se tornam também viagens para parques de diversões e pontos turísticos. Pai e filho usam camisetas da sorte.

 Quando Pedro bate metas de treinamento, ganha cartas de pokémon e pode pedir quantos sushis quiser. Ele abre os melhores sorrisos quando faz xeque-mate. Gustavo relata que, no início, quando Pedro era desconhecido nos campeonatos, era possível observar a despreocupação que vem de subestimar a imagem do outro. “Há um preconceito a cada jogador que tu senta na mesa à frente, né? Seja pra jogar uma partida amistosa ou quando tu vai jogar uma partida valendo, é inevitável que tu pense. Quando tu vê uma criança, tu cria uma ideia de inexperiência.”

Gustavo tira fotos do filho, Pedro, para postar em suas redes sociais (@pedrinho.chess) | Foto: Lisly Moreira

Quando Pedro joga, se mexe bastante na cadeira, muda de posição, usa as mãos, balança os pés, mas olha fixamente para as peças e às vezes para o pai. Entre as partidas do campeonato, se diverte pela Feira. Em um momento do torneio, vejo Pedro e Matheus Sebastian, de 12 anos, se olhando ansiosos para se enfrentar, reconhecendo um no outro um coleguismo que vai além do interesse pelo mesmo jogo. Longe um do outro, cada um deles me diz que o adversário é muito bom jogador. Mas quando se sentam cara a cara, eles sorriem e dizem juntos: “Vou acabar com você”. Quantas vezes será que o gênio Bobby Fischer tentou e falhou em destruir o ego de uma criança? 

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