Milhares de brasileiros saem do país todos os anos em busca de mais segurança e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, outros milhares chegam às terras tupiniquins de maneira compulsória, fugindo das mazelas de sua nação de origem. Nesse contexto, o caso mais incomum ainda é o de estrangeiros que decidem migrar voluntariamente para o Brasil.
Quais seriam, então, as motivações dessas pessoas? E, quando decidem arriscar essa mudança, como são recebidos e que Brasil encontram ao chegarem aqui?
Para responder as duas últimas perguntas, pretendo entrevistar de três a cinco personagens que tiveram motivações diversas para fazer do país sua casa. Seja por um amor, uma oportunidade profissional, pela beleza natural… o objetivo é compreender a visão dessas pessoas sobre a nação que sempre foi nosso lar.
Contextualização:
O Brasil ocupava, em 2019, a segunda posição no ranking de países latino-americanos com maior número de cidadãos vivendo em outros países, com cerca de 1,5 milhão de expatriados. É isso que registra o relatório World Migration Report 2020, feito pela Organização Internacional para as Migrações (OIM). De acordo com o estudo, os principais destinos dos brasileiros são os Estados Unidos e o Japão.
Já os imigrantes somam mais de um milhão de pessoas no país, população que vem aumentando ano após ano: enquanto o estudo de 2018 registrou 0,3%, agora os estrangeiros já compõem 0,5% da população brasileira. Apesar disso, o número ainda é baixo se comparado com os hermanos, por exemplo: na Argentina, a população internacional representa 5% do total nacional.
Ainda de acordo com o WMR, a maioria dos imigrantes que chegaram ao Brasil recentemente vem da Venezuela, processo acelerado pela instabilidade política. Estima-se que mais de 248 mil venezuelanos estejam vivendo no país atualmente; essa população somada à acolhida humanitária totaliza 57% da imigração no país em 2020, segundo os Dados Consolidados da Imigração no Brasil (levantamento e publicação feitas pelo Observatório das Migrações Internacionais). Considerando esse processo e a anterior imigração haitiana, percebemos que o Brasil costuma receber, em sua maioria, os chamados imigrantes compulsórios. Isso significa que essas populações não desejavam, de fato, viver aqui; na verdade, essa foi a opção que lhes restou.
Por outro lado, existem pessoas que, tendo a possibilidade de escolha, optaram por fazer do Brasil sua nova casa. Estudiosos acreditam que nestes casos, classificados como migração espontânea, a globalização e os recentes eventos esportivos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016) tenham sido decisivos para que o Brasil fosse conhecido e visto por estrangeiros como uma possibilidade.
A Lei nº 13.445, de 2017, conhecida como nova Lei de Migração, prevê como um de seus princípios o “acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social”. Além disso, as modalidades de vistos são muito semelhantes às previstas por países da América do Norte e Europa, por exemplo, categorizando como visto temporário situações de estudo, trabalho e reunião familiar. Nesses casos, também é possível a obtenção de visto de residência, a depender de alguns critérios.
Ainda, é possível ao estrangeiro requerer a naturalização caso tenha residido no Brasil durante quatro anos e tenha capacidade de se comunicar em português. Para fins de comparação: Portugal exige o mínimo de seis anos de residência legal, enquanto a Espanha considera o mínimo de dois anos, excluído o visto de estudo (ou seja, fazer uma graduação de quatro anos não daria direito à naturalização espanhola). Considerando todos esses critérios, nota-se que as questões legais que envolvem a imigração ao Brasil são tão intrincadas quanto para os brasileiros que pretendem emigrar.
Todo esse contexto demonstra que, de fato, casos de imigração voluntária representam uma pequena porcentagem do total no Brasil; a questão burocrática também não é tão simples quanto costumamos imaginar, e aprender a língua portuguesa pode ser um grande desafio devido à sua complexidade. Por isso, investigar as motivações e visões de quem compõe esse núcleo será interessante para compreender o que, no final das contas, faz todo o esforço da expatriação valer a pena.
Notícias e links de apoio:
- Junho/2021: Quem são os novos imigrantes no Brasil? E quantos brasileiros vivem no exterior?
- Junho/2021: Pandemia reduz pela metade registros de imigrantes no Brasil (dos 90 mil que vieram em 2020, 70% são da Venezuela ou Haiti)
- Maio/2021: Os melhores e os piores países para imigrantes em 2021
- Estudo Expat Insider 2021:
- 4º lugar em felicidade pessoal;
- 9º lugar em opções de lazer;
- 10º em simpatia;
- 13º em facilidade para fazer amigos;
- 46º em qualidade de vida (pior país da América Latina);
- 58º no quesito segurança e proteção, na frente só da África do Sul;
- Dezembro/2020: Número de imigrantes cresce quase 700% no Brasil em dez anos
- Agosto/2019: Brasil registra mais de 700 mil migrantes entre 2010 e 2018
- Dez/2018: Brasileiro superestima em 75 vezes o número de imigrantes no país, diz pesquisa
- acham que 30% da população era estrangeira, na verdade era apenas 0,4%;
- Relatório anual da OBMigra – 2020
- Artigo Os efeitos da Migração, da médica e doutora em Filosofia Rosa Pérez Perdomo
Fontes principais:
- Regan Zanes (@thegringoinbrazil) – thegringoinbrazil@gmail.com
Natural dos Estados Unidos, Regan veio ao Brasil pela primeira vez em uma viagem de trabalho, em 2014. Depois disso, se dedicou a encontrar uma forma de voltar ao Brasil, feito que conseguiu ao ser expatriado pela empresa na qual trabalhava em 2018. Um ano e meio depois, deixou o cargo para se dedicar ao turismo, criando o Instagram “the gringo in Brazil”, que já soma mais de 100 mil seguidores no Instagram. Regan também já viveu na Tailândia, Alemanha, Paquistão e Holanda; atualmente reside em Belo Horizonte.
Fonte das informações: https://www.magnificentworld.com/expat-life-brazil /https://www.facebook.com/groups/mochileiroscom/permalink/10156693661032260/
- Cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras
Consegui o contato de um estrangeiro, natural de Camarões, que se tornou cadete após sua formatura na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), no último dia 14. Ele se chama Pius e, por ter nascido em uma “nação amiga”, teve a possibilidade de ingressar no serviço militar brasileiro. Se completar o restante da formação, ele se tornará oficial do exército. Possivelmente conseguirei o contato de mais um estrangeito que está na AMAN. Considero essas fontes interessantes pelo fato de ser incomum a presença de estrangeiros em exércitos nacionais.
Link notícia sobre a cerimônia: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2021-08/bolsonaro-participa-da-entrega-de-espadins-aos-cadetes-da-aman
- Lea Maria Jahn (@leamariajahn) – pixbadtrip@gmail.com
Natural da Alemanha, Lea se mudou para o Brasil em 2017 com o namorado, Juliano Gaspar. Ela mora em Florianópolis (cidade natal do companheiro), comanda o curso Alemão na Roda e é comediante – tendo mais de 600 mil seguidores no Instagram e 1,3 milhão no TikTok.
Fonte das informações: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/08/14/comediante-alema-faz-piada-com-dores-e-delicias-da-cultura-brasileira-e-bomba-com-videos-nas-redes-sociais.ghtml
- Nick Whincup – (@nickwhincup e @couple.miles)
Nick é inglês e se mudou para o Brasil para viver com sua namorada, a carioca Drya Alves. Juntos, criaram nas redes o perfil Couple Miles, no qual dividem as experiências e o dia a dia do casal – e que já soma mais de 70 mil seguidores no Instagram e 640 mil no Tik Tok.
- Estudantes de Medicina – Mustapha e Seraphine
Mustapha Muhammed Kane é natural da Nigéria, Seraphine Chrystelle Mukidi Milwama da República Democrática do Congo. Ambos são estudantes do curso de Medicina na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. Já tenho o contato de ambos e, segundo a pessoa que me passou o contato, ambos aceitariam ser entrevistados.
Outras possíveis fontes:
- Spencer Sabe (@spencersabe)
Spencer é um norte-americado graduado e mestre em Relações Internacionais. Veio ao Brasil pela primeira vez em junho de 2018 para estudar, e já em dezembro decidiu mudar-se definitivamente. Desde então vive em São Paulo e já soma mais de 270 mil seguidores no Instagram e 800 mil no Tik Tok compartilhando dicas para o aprendizado da língua inglesa.
- Tim Cunningham (@timexplica)
O também estadunidense Tim Cunningham, que está no Brasil há 5 anos, é professor de inglês (perfil @inglescomtim) e tem mais de 700 mil seguidores em seu perfil pessoal no Instagram.
- Loïc Koutana (lhommestatue)
O francês Loïc é modelo, cantor e influenciador digital (já soma mais de 1,2 milhões de seguidores na plataforma TikTok). Nascido em Paris, também passou um período na Costa do Marfim e veio ao Brasil através de um intercâmbio entre a Sorbonne e a USP. Aqui, também encontrou seu parceiro, Raphael Lobato, e oportunidades profissionais.
Fonte das informações: https://ffw.uol.com.br/noticias/gente/de-ginasta-a-figura-da-cena-underground-e-cantor-a-historia-de-loic-koutana-aka-lhomme-statue/
Fontes especialistas:
- Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras): aplicação na UFRGS: responsável Juliana Roquele Schoffen;
- E-mail: celpebras@ufrgs.br; site: http://www.ufrgs.br/celpebras
- Programa de Português para Estrangeiros (PPE) da UFRGS; Coordenadora Geral e Orientadora Pedagógica: Profa. Dra. Gabriela da Silva Bulla, professora Adjunta de Português como Língua Adicional, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
- E-mail: gsbulla@gmail.com
- Júlia de Freitas Girardi é doutoranda em Psicologia Intercultural pela Université de Toulouse II Jean Jaurès, na França; em seu mestrado na Univ. Federal de Santa Catarina, estudou “Impactos psicológicos da imigração voluntária: a experiência de universitários imigrantes”
- Aline Khoury: integra a equipe do projeto Visões do Contexto Migratório no Brasil, produzido pela OIM em parceria com o Ministério da Justiça; é graduada em ciências sociais pela USP e em Jornalismo pela PUC-SP, mestra em Ciências Sociais pela Universidade de Paris V – Sorbonne (França) e doutoranda em desenvolvimento social pela Universidade de Cambridge (Inglaterra). Sua especialidade é a inclusão social de migrantes, com foco em suas capacitações e percepções sobre bem-estar
Enfoque da abordagem com os personagens:
- Perfil geral do personagem:
- Nome completo, idade, nacionalidade, o que estuda ou profissão/ocupação;
- Cidade/estado onde mora: escolheu morar lá?
- Ano e motivo pelo qual se mudou pro Brasil;
- Sobre a motivação:
- Como foi o processo que o levou até a decisão da mudança? Ex: possibilidades universitárias, desenvolvimento de um relacionamento…
- Considerando o motivo pelo qual se mudou pro Brasil, quais considera serem as principais vantagens daqui em relação ao seu país de origem?
- Questões legais, burocráticas e idiomáticas:
- Como foi a regularização de documentos, obtenção de visto e afins?
- Enfrentou dificuldades com outras questões burocráticas, como para alugar um lugar para morar e criar documentos nacionais?
- Como foi a questão do idioma? Foi difícil aprender português? Encontrou pessoas que falam seu idioma nativo?
- Questões culturais:
- Quais foram os maiores choques culturais que sentiu no dia a dia?
- Como foi recebido pela comunidade local onde se inseriu? Se sentiu sozinho/solitário?
- Como foi o processo de fazer amigos? E o seu círculo de amizade é restrito apenas ao núcleo no qual está inserido (ex: colegas da universidade)?
- Em algum momento percebeu comentários feitos pelo fato de ser estrangeiro? Havia preconceito/discriminação ou foram perguntas feitas pela falta de conhecimento apenas?
- Outros:
- Pretende continuar morando no Brasil? Pensa em mudar de cidade ou estado?
- O que te faria deixar o país?
- Considerando as dificuldades e sabendo dos pontos negativos, se mudaria para o Brasil novamente?
- Para os que mantém perfis com muitos seguidores nas redes sociais: o que que motivou a compartilhar sua vida no Brasil pela redes?
Imagens e ilustrações:
- Imagens de arquivo:
As imagens de arquivo pessoal também podem ser muito interessantes. Poderiam ser usadas fotos dos personagens em seus respectivos núcleos: os cadetes em sua cerimônia de formatura; os estudantes na universidade; a alemã comediante com seu namorado. Além disso, a primeira fonte citada (Regan Zanes) possui inúmeras fotografias de locais turísticos que poderiam ser cedidas para utilização.
- Infográfico:
Seria possível a produção de um infográfico, animado ou não, que mostrasse as trajetórias feitas pelos personagens em seu processo de migração para o Brasil. Para isso, seriam traçadas linhas ou flechas indicando o estado/país de origem e a cidade onde a fonte vive atualmente. Ainda, é possível criar infográficos semelhantes com base em dados mais gerais da pauta, como sobre os países com maior quantidade de imigrantes no Brasil, ou comunidades que são as maiores do mundo fora do país de origem (como a comunidade nipônica em São Paulo).
Sugestões multimídia:
- Utilização de trechos das entrevistas através de áudio e vídeo;
- No caso de entrevistados que possuem conteúdos em redes sociais, seria possível criar uma espécie de galeria com vídeos curtos produzidos por eles;
- Criação de imagem animada que ilustre as principais rotas de imigração no Brasil ou, ainda, que represente a rota feita pelos personagens da reportagem;
Produção para redes sociais:
- Dados sobre países com maior número de imigrantes no Brasil (Venezuela, Portugal, Japão, Paraguai e Bolívia)
- Post no Instagram no formato carrossel com o top 5 maiores populações estrangeiras no Brasil, mostrando o número total de imigrantes por país;
- Série de tweets com o mesmo conteúdo;
- Imagem animada no Facebook, “gif” feito com as imagens do post do Instagram em sequência;
- Enquete: qual porcentagem da população brasileira é composta por estrangeiros?
- No Instagram, é possível criar um stories com uma enquete (recurso interativo) sobre o tema, questionando sobre a percepção dos seguidores acerca da presença de imigrantes no Brasil; o stories seguinte pode trazer a resposta correta, citando a porcentagem e o fato dela estar crescendo nos últimos anos, mas ainda ser muito baixa em comparação com os países vizinhos;
- No Twitter também existe uma ferramenta semelhante, que pode ser usada de forma semelhante; nesse caso, porém, a resposta pode ser dada apenas no dia seguinte, já que a publicação simultânea pode interferir nas respostas da enquete;
- Para o Facebook também pode ser criada uma imagem animada a partir da mesma arte dos stories, mas como não há o recurso de votação o post não teria um caráter tão interativo;
Da pauta à reportagem
O desenvolvimento da reportagem sempre exige modificações em relação ao imaginado e planejado na pauta. Aqui, a principal modificação ocorreu pela falta de retorno das fontes com alguma influência em redes sociais, o que exigiu que o foco fosse mantido nos demais personagens.
Minha ideia era conversar com pessoas que tivessem motivações diferentes para viver no Brasil, mas essa limitação fez com que eu focasse a produção inicial somente nas fontes que haviam me respondido e em dados, levantamentos e notícias. Dessa forma, pude criar uma primeira versão sólida e já bem articulada.
A partir daí, reavaliei a necessidade de mais fontes-personagem e de especialistas. Buscar a experiência de mais uma ou duas pessoas faria com que o material ficasse excessivamente extenso e cansativo, então julguei não ser o ideal. Quanto aos especialistas, obtive retorno da Juliana Schoffen (responsável pela aplicação do exame Celpe-Bras na UFRGS), mas apenas sobre documentos oficiais.
Julguei que o formato da reportagem já estava adequado em relação ao que eu gostaria de abordar, então busquei apenas aprimorar o conteúdo – com gráficos, áudios, imagens, ajustes no texto e ilustrações. No final, acredito que, apesar de não ter conseguido abordar todas as frentes que gostaria, consegui abordar de maneira satisfatória as que estavam ao meu alcance.