Milhares de brasileiros saem do país todos os anos em busca de mais segurança e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, outras milhares de pessoas chegam às terras brasileiras de maneira compulsória, fugindo de crises políticas e econômicas ou de desastres naturais. Nesse contexto, o caso menos comum ainda é o de estrangeiros que decidem migrar voluntariamente para o Brasil. Quais seriam, então, as motivações dessas pessoas? E, quando decidem arriscar essa mudança, como são recebidas aqui?
O contexto migratório no Brasil
O Brasil ocupava, em 2019, a segunda posição no ranking de países latino-americanos com maior número de emigrantes. De acordo com o World Migration Report 2020, feito pela Organização Internacional para as Migrações, estamos atrás apenas da Colômbia. Segundo o estudo Comunidade Brasileira no Exterior, feito pelo Ministério das Relações Exteriores em 2020, mais de 4,2 milhões de brasileiros vivem fora do país atualmente. Os principais países de destino são os Estados Unidos, Portugal, Paraguai, Reino Unido e Japão.
Estima-se que os imigrantes, por sua vez, somem pouco mais de um milhão de pessoas no Brasil. Essa população vem aumentando ano após ano: em 2018 eles eram 0,3%; agora, os estrangeiros já representam 0,5% dos residentes. Apesar disso, a percepção da sociedade é bastante distante da realidade: o estudo Perigos da Percepção, de 2018, mostrou que os brasileiros acreditam que cerca de 30% da população seja composta por estrangeiros.
Considerando essa população, grande parte veio para o Brasil de forma compulsória – como é o caso da onda de imigração venezuelana, que trouxe cerca de 250 mil pessoas para cá, e da anterior migração haitiana. Por outro lado, existem pessoas que, tendo a possibilidade de escolha, optaram por fazer do Brasil sua nova casa. Estudiosos acreditam que nesses casos, chamados de migração espontânea, a globalização e os recentes eventos esportivos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016) tenham influenciado por terem feito o Brasil ser visto por estrangeiros como uma possibilidade.
Entrada de estrangeiros no Brasil
A pandemia do coronavírus afetou diretamente os movimentos migratórios no mundo inteiro. O gráfico acima demonstra o volume de entrada de estrangeiros no Brasil de janeiro de 2019 a junho de 2021. No levantamento Expat Insider 2021, que analisa como vivem os expatriados globalmente, o país foi considerado o pior na categoria Comunicações Oficiais sobre a covid-19, ficando em 59º lugar.
Da ideia à concretização
A descoberta da possibilidade de viver no Brasil surge, muitas vezes, de amigos e familiares. Foi o que aconteceu com Seraphine Mukidi, uma jovem de 24 anos natural de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. Seraphine sempre quis estudar em outro país, mas só passou a levar o Brasil em consideração quando sua tia, que vivia aqui, sugeriu que ela pesquisasse sobre os acordos de cooperação entre as nações. “O Brasil não estava em uma das opções só porque eu não sabia que recebia estudantes estrangeiros”, relata. A jovem destaca que sua mãe também já havia vindo para cá a trabalho, fator importante para que a família apoiasse a decisão.
O caso de Mustapha Kane, de 26 anos, é bastante semelhante: durante o Ensino Médio, ele sonhava em estudar nos Estados Unidos. Segundo ele, o processo estava bastante intrincado; foi quando sua prima, brasileira, deu a ele a ideia de estudar em João Pessoa. Depois de pesquisar mais sobre o assunto, o jovem se mudou de Lagos, no sudoeste da Nigéria, para o Brasil, em 2017. “Eu tinha muita curiosidade de conhecer o mundo lá fora, então quando se apresentou essa oportunidade de vir para o Brasil, eu logo decidi”, conta ele. Tanto Seraphine quanto Mustapha são acadêmicos do curso de Medicina da Universidade Federal da Paraíba.
Para jovens e estudantes, fica clara a importância dos acordos de colaboração. A principal iniciativa nacional voltada ao Ensino Superior é o Programa de Estudantes – Convênio na Graduação, criado pelo Ministério das Relações Exteriores e Ministério da Educação. O programa busca incentivar a vinda de acadêmicos estrangeiros para o Brasil: no primeiro semestre de 2020, o PEC-G concedeu 86 bolsas-mérito em instituições públicas e privadas em todo o país.


As iniciativas de cooperação, porém, não são importantes apenas para estudantes do ensino civil. O ensino militar do Exército Brasileiro também recebe estrangeiros de nações-amigas, entre elas: Guiana, Panamá, Paraguai e Senegal. Um exemplo dessa parceria é Ikana Pius, um dos novos cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). O jovem de 21 anos é natural de Buea, cidade de mais de 300 mil habitantes na região sudoeste de Camarões. Ele ingressou na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) em 2020, onde passou um ano até sua formatura no curso inicial, que aconteceu no dia 14 de agosto de 2021.
Agora, ele passa a integrar a Aman, na cidade de Resende, no Rio de Janeiro, onde estudará por mais quatro anos. Como deseja aprender sobre logística e finanças, Ikana pretende optar pelo curso de Intendência, que trata da ordem administrativa e inclui essas temáticas. Ao final do período na cidade de Resende, os cadetes recebem o título de bacharel em Ciências Militares. De acordo com Ikana, o processo até a admissão foi complexo: “Tivemos muito treinamento físico, documentos e exames médicos para verificar se estávamos fisicamente bem para o curso”. A burocracia, é claro, faz parte de mudanças internacionais, mas ela não é a única dificuldade que os expatriados enfrentam.

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Entraves burocráticos e idiomáticos
A estudante de medicina Seraphine destaca que o processo de candidatura à universidade é longo, levando até seis meses. A jovem congolesa relata que uma das exigências é uma extensa lista de documentos, que inclui o histórico escolar completo, comprovação de proficiência da língua portuguesa e outras declarações.
Para ela, a ajuda de outros expatriados foi fundamental: “Graças a Deus não enfrentei tantas dificuldades com questões burocráticas, porque eu tive a graça de ter outros estrangeiros aqui, então ficava muito mais fácil, porque essas pessoas me davam orientações, me ajudavam”. Mustapha considera o processo burocrático e amplo, mas acredita que seja justificável.
A questão idiomática, fundamental para a mudança, também pode ser complexa. Para Ikana, aprender português é seu maior desafio no Brasil – seu idioma nativo é o francês. Já o jovem nigeriano relata que hoje, olhando para tudo que passou, percebe que foi corajoso: “Teve algumas pequenas fases [em] que eu tive um ‘bloco’, parece que não conseguia subir, meio que uma ladeira, e assim que a pessoa passa essa ladeira o ganho é muito grande”.
A comprovação de conhecimento idiomático para não-brasileiros acontece através do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras), uma prova de até três horas de duração. O Celpe-Bras foi criado em 1994. Em dezembro de 2021, a prova será aplicada em 95 postos (37 no Brasil e 58 no exterior) para 4.980 inscritos.
Adaptação cultural e percepções sobre receptividade
Quando falamos sobre cultura, a culinária do Brasil é citada com frequência. Mustapha relata que a base da culinária nigeriana é bastante semelhante com a nossa: arroz, feijão e proteínas variadas. O camaronês Ikana concorda, mas para Seraphine o que surpreende é a repetição: “O que mais me chamou atenção é que o brasileiro come a mesma coisa todos os dias. É bem diferente, no Congo a gente gosta de variar bastante os nossos pratos”, relata a jovem.

A liberdade também é citada como ponto positivo. Em uma de suas primeiras viagens, ao Recife, Mustapha conta ter ficado surpreso ao ver vários homens sem camisa e descalços em uma motocicleta, o que, na verdade, é probido: “Não pareciam pessoas que não tinham condição para sapato ou camisa, mas parecia que era própria vontade mesmo”. De fato, aqui existem comportamentos que em outros países são inimagináveis. Para Ikana, a maior diferença foi perceber que no Brasil os relacionamentos homoafetivos são permitidos. Camarões é um dos 30 países africanos nos quais as relações entre pessoas do mesmo sexo são proibidas.
Outro destaque do Brasil é a receptividade. No estudo Expat Insider, o país ficou ranqueado em 4º lugar em nível de felicidade pessoal, 9º lugar em opções de lazer, 10º lugar em simpatia e 13º lugar em facilidade para fazer amigos.
“Fazer amigos não é difícil, é divertido estar perto deles, mas às vezes não posso deixar de me sentir triste, porque sinto muita falta da minha família e amigos”
IKANA PIUS, camaronês cadete da Academia Militar das Agulhas Negras
Entre os adjetivos utilizados para caracterizar os nativos, Seraphine, Ikana e Mustapha citam “receptivos”, “simpáticos” e “calorosos”. Mustapha diz ter sido acolhido de forma espetacular. Apesar disso, para os imigrantes, a saudade de casa também está presente. “Fazer amigos não é difícil, é divertido estar perto deles, mas às vezes não posso deixar de me sentir triste, porque sinto muita falta da minha família e amigos”, diz Ikana.
Por outro lado, apesar dos aspectos positivos e das boas colocações em algumas categorias do levantamento citado, o Brasil amarga a penúltima posição no quesito Segurança e Proteção. Com isso, o país se encontra em 46º lugar no ranking geral de qualidade de vida, estando na pior colocação entre países latino-americanos.
Podemos enxergar mais além
Existe, ainda, um tópico que os brasileiros não costumam levar em consideração – é comum estrangeiros citarem o desejo de que conheçamos mais sobre outras culturas. Mustapha cita a variedade linguística de sua nação como um aspecto interessante: “O idioma que eu falo é iorubá e ele tem vários dialetos. Tem pessoas de outros estados na Nigéria que falam iorubá, [mas] que eu não entendo nada que eles falam… e é o mesmo idioma, então tem essa complexidade”. O idioma oficial do país é o inglês, mas estima-se que existam 510 línguas vivas no território.
A congolesa Seraphine destaca aspectos educacionais do Brasil que influenciam a consciência da população sobre o continente africano: “Nas escolas, principalmente no setor público, não ensinam muito sobre a cultura africana. Mas tem muitas coisas lindas no continente africano. Tem uma diversidade cultural riquíssima que eu acho que as pessoas deveriam aprender mais, sabe?”. Ela acredita que seria válido aprendermos mais sobre a culinária, as danças e até mesmo sobre os componentes demográficos da República Democrática do Congo.
A jovem também relata ter ouvido comentários por ser estrangeira e estar cursando uma graduação tão concorrida: “As pessoas, muitas vezes, nem procuram saber e só falam que ‘oh, essa pessoa chegou, não fez prova nenhuma, não passou por nenhum processo seletivo e só entrou na faculdade federal de graça”. Nesse contexto, aproximação, conversa e busca por entendimento podem gerar bons frutos e desfazer ideias pré-concebidas. É comum que as pessoas não saibam do longo processo que um estrangeiro passa para ser aceito em uma universidade brasileira, mas ele costuma ser ainda mais longo que o processo para nativos.

Afinal, vale a pena viver no Brasil?
Escolher viver em outro país traz consigo uma série de implicações boas e ruins. Embora se possa conhecer uma nova cultura e novos lugares, também existe a saudade da família e as dificuldades para se comunicar. No final das contas, para os jovens africanos, o saldo é positivo. Ikana precisará voltar para Camarões depois de terminar seu período na Aman, mas não pretende fazer disso um adeus: “Acho o Brasil um lugar muito legal e, se tiver a oportunidade de visitá-lo novamente após o meu curso, eu irei”. Os relatos dos estudantes de medicina também são otimistas.
“Eu acho que todo país tem os seus defeitos e os seus pontos negativos, mas, para mim, vir para o Brasil foi uma experiência, e está sendo uma experiência muito boa. Eu aprendi muito, não só sobre a cultura brasileira e a cultura que é diferente da minha, mas também sobre mim, e eu super encorajo a qualquer pessoa que quiser viajar para outro lugar: só vá, só vá, conheça, não tenha medo, porque é uma experiência única, é uma experiência muito, muito, muito boa”, diz Seraphine.
“Com certeza, eu amo o Brasil, eu acho um país excepcional, as pessoas excepcionais, o Brasil tem tudo e os problemas que tem são problemas super-resolvíveis, e acho que é uma questão de tempo que as coisas vão melhorar. Mas o Brasil é um dos melhores países para mim no mundo e, assim, eu me sinto muito privilegiado de estar aqui”, fala Mustapha.
Apesar dos benefícios, os acadêmicos também pretendem retornar à África após formados. Para eles, essa é uma oportunidade de contribuir com a população local através do conhecimento adquirido no Brasil: “É meu lar, é minha casa. Eu sou de lá, os meus pais moram lá e a família mora lá, então com certeza eu vou voltar”, relata Seraphine. Talvez a sensação de pertencimento seja algo um tanto mais difícil de recriar.
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