Sextante

Predicado nominal

Por motivos hereditários, circunstanciais ou deliberados, nomes de pessoas comunicam, forjam e até confundem. Mas, sobretudo, revelam raízes que escapam às escolhas das próprias pessoas que os carregam

REPORTAGEM
Erivaldo Júnior
erivaldojr86@gmail.com

Arte: Alice Trisch Stefanon

Quem ouve os nomes Durval de Lima e Durval de Lima Junior talvez não saiba que se trata dos cantores Xororó e Junior – o da Sandy. Fernanda Montenegro, diferentemente da filha, assina seus documentos oficiais com seu nome de batismo: Arlete. Ela, por sinal, é viúva de Fernando Torres, ou seja, o nome é realmente uma marca da família. E quem é Sônia Vieira? É a famosa atriz Susana Vieira, que, há décadas, usa o nome da irmã em sua carreira artística. 

Constando no RG, composto ou monossilábico, criado na forma de acrônimo – com infinitas combinações de prefixos e sufixos –, o nome é um elemento importante na vida das pessoas. Como canta Arnaldo Antunes na música Nome, “algo é o nome do homem, homem é o nome do cara, cara é o nome do rosto, homem é o nome do outro”. Ou seja, a maneira como o sujeito é chamado ajuda a definir sua identidade.

Mas se, no Censo de 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou em torno de 130 mil nomes, o que motiva as opções “hereditárias”, em que os filhos herdam o nome do pai ou do avô? Ou as filhas recebem o nome da mãe ou da avó?

Orgulho do nome

Luiz Otávio da Silva Neto tem 16 anos, é de Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre, e joga futebol na categoria de base do Guarani de Palhoça, em Santa Catarina. “Tenho orgulho de carregar o nome do meu avô. Com sete anos, era ele quem me levava aos treinos, nas escolinhas, sempre me apoiando”, conta. “As pessoas comentam que eu lembro ele quando mais novo”, comenta o jovem, chamado de Otávio entre os colegas de time.

Sua mãe é Fabiana Chaves, de 43 anos, servente em uma rede de hospedagens de Porto Alegre. Fabi, como é conhecida, resume o momento de registrar Luiz Otávio: “Meu marido se chama Márcio. De início era para ele ter o nome do pai, mas a decisão foi minha em homenagear o avô, que é meu sogro”. Ela explica que o avô é um ídolo para toda a família. 

Juliana Soledade, professora do Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal de Brasília (UnB), lançou, em 2024, o livro Os brasileiros e seus nomes, baseado em sua pesquisa sobre as motivações para atribuição de nomes no Brasil. Ela imaginava que a motivação religiosa iria prevalecer, mas, para sua surpresa, ficou em quinto lugar entre as razões de escolha de nomes no Brasil. “A categoria homenagem foi, de longe, a mais frequente, correspondendo a um terço de todas as outras”, conta.

Entre as homenagens, a subcategoria família ficou em primeiro lugar, com 17,38%. “Desse modo, a pesquisa revela que o contexto familiar ocupa o lugar de centralidade na experiência das relações sociais dos brasileiros, uma vez que a escolha de um nome para um filho ou filha é muito frequentemente motivada pela intenção de se fazer uma homenagem a algum parente”, diz Juliana.

A pesquisadora constatou também que é mais frequente a retomada de nomes de figuras masculinas da família, que são atribuídas tanto a meninos quanto a meninas. É o caso, por exemplo, de quem se chama Carla porque o pai é Carlos. “Já o inverso – um menino se chamar Cristian porque a mãe é Cristina – é bastante raro, o que demonstra uma face do machismo que atravessa a nossa cultura”, analisa.

Arte: Alice Trisch Stefanon

Nome vezes quatro

Há, no entanto, quem fuja à regra. Elvira de Macedo Nascimento é filha de Elvira de Macedo Nascimento. Sim, é isso mesmo. A Elvira de 58 anos é filha da Elvira de 89. “Minha mãe somou o nome do meu pai ao dela. Ela Macedo, ele Nascimento”, conta a filha mencionando a tradição de algumas mulheres adicionarem o sobrenome dos maridos ao se casarem. “E quis repetir no meu nome para homenagear a minha avó.” Sua avó era Elvira Mércio Saraiva de Macedo e a bisavó tinha o nome de Elvira Mércio Saraiva. Elvira filha, portanto, é a quarta geração da família com esse nome.

A pesquisadora Juliana diz que casos como esse são exemplos em que o nome passa a ser transmitido como um elo que solidifica a noção de linhagem. Mas o fato de a mãe e a filha serem homônimas já gerou ruídos em agências bancárias, consultórios médicos, telefonemas, na universidade e, mais recentemente, nas redes sociais em que uma recebe parabéns pelo aniversário da outra. Isso já se tornou folclore em Bagé, cidade da região sul do estado, onde vivem.

“São confusões, mas nada grave”, deixa claro a filha. “O mais próximo foi quando consultávamos com o mesmo otorrinolaringologista. Tive um problema de garganta e fui ao médico, e a secretária entregou a ficha da minha mãe. O médico me examinou com base na ficha dela. Quer dizer: me tratou com o procedimento baseado não nos meus dados. Na própria consulta, tudo foi esclarecido”, diverte-se. Elvira conta que, em situações mais cruciais, passou a preencher formulários acrescentando a palavra filha, como se fosse um sobrenome. 

Elvira mãe e filha têm o mesmo nome e sobrenome | Foto: Arquivo Pessoal

De Zeca a Zé

José das Neves Lapa Junior, de 55 anos, técnico judiciário em Porto Alegre, é, obviamente, filho de José das Neves Lapa. Este, formado em Odontologia e Ciências Contábeis. “Eu era o Zeca, meu pai era o Zé”, lembra o filho. “Entendo que o nome Junior tem um peso muito grande para o filho. Desde cedo colocam comparações e, sobretudo, expectativas para que o Junior em questão corresponda”, reflete.

A percepção de Zeca é semelhante à de Juliana. Ela diz que a escolha de um nome é atravessada pelos valores mais íntimos dos sujeitos nomeadores. “Ao dar o nome de um parente, ainda que não necessariamente tenhamos consciência, estamos fazendo uma projeção de natureza metafórica: ‘a criança será como fulano’”, exemplifica a pesquisadora.

As biografias de José e José Junior possuem semelhanças e diferenças | Foto: Arquivo Pessoal

José pai foi criado no antigo internato Pão dos Pobres, em Porto Alegre, já que sua mãe ficou viúva e não tinha condições de criar os sete filhos. O Zé de então, aos 17 anos, saiu dali com uma profissão: tipógrafo, conseguindo emprego no jornal Correio do Povo. 

“Era uma pessoa com defeitos, como todos nós. Mas foi um guerreiro. Veio de baixo, batalhou, estudou para ter uma vida melhor”, lembra Zeca. “Herdei dele um senso muito grande de responsabilidade com o trabalho, e, vá lá, a impaciência com quem não trabalha no meu ritmo. Mas uma ressalva: sempre respeito as pessoas.” No aspecto físico, ele diz, com bom humor, que herdou do pai a calvície e a luta com a balança.

Zé faleceu quando Zeca tinha 18 anos. “Eu, particularmente, gostaria que meus pais tivessem optado por Filho, ao invés de Junior”, diz. E ele é crítico com quem atualmente opta em colocar no filho o mesmo nome do pai.  “Particularmente, considero, ainda mais nos dias de hoje, uma forma ultrapassada e patriarcal de nomeação. E tem um lado pejorativo: consegues algo ‘porque és o Junior’. Não é uma regra, mas existe”, conclui.

“De alguma maneira, a avaliação do nome pode afetar a forma como a pessoa é vista e, por sua vez, a forma como ela se entende no mundo”

JULIANA SOLEDADE, linguista

Juliana explica que em muitas culturas se acredita que o nome pode ter um impacto sobre a personalidade que a pessoa irá desenvolver, ainda que não existam evidências científicas desse fenômeno. Por outro lado, ela diz que há estudos que apontam que o nome pode afetar a forma como a pessoa é vista pelos outros. “Isso porque nomes são avaliados socialmente. Um nome pode ser julgado como feio ou bonito, bom ou ruim, como de jovem ou de velho, como de rico ou de pobre, comum ou exótico”, exemplifica. “De alguma maneira, a avaliação do nome pode afetar a forma como a pessoa é vista e, por sua vez, a forma como ela se entende no mundo.”

Luiz, Elvira, José, entre tantos outros filhos e netos, acabam aprendendo como é viver com o mesmo nome de um parente. Mas se a homenagem pode representar um peso de ter que se parecer com o homenageado, pode ser também apenas a prova de que existem famílias que têm orgulho de suas raízes.


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