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Quando eu cheguei já tinha gente aqui

Apesar de ser história comum em muitas famílias brasileiras, a chegada de mais uma criança pode transformar as estruturas dos lares, a relação dos pais e o comportamento dos filhos mais velhos

REPORTAGEM
Cecília Martini | Fernanda Simoneto
cecimaltam@gmail.com • fesimoneto@gmail.com

Sobre o dia em que Alice Guidolin Rodrigues, de um ano, chegou em casa, recém vinda da maternidade, Sofia Guidolin Rodrigues, de seis anos, tem uma só lembrança. “Eu tava assoando o nariz, assim”, fala enquanto reproduz a cena. Todos que estão na sala se olham desconfiados. “É que ela estava gripada, né, filha? Então, ela foi assoando o nariz pra não passar para a mana”, explica Patrícia Guidolin, de 39 anos, mãe das duas meninas. A lembrança de Sofia pela chegada da única irmã – quase cinco anos mais nova – fala sobre um traço que se repete até hoje: o cuidado da mais velha com a caçula. Quando a mãe anunciou que estava grávida, dentro de uma loja de shopping, a menina perguntou se a irmã já nasceria no dia seguinte.

Sofia Guidolin Rodrigues com a almofada que leva como estampa um desenho feito pela menina quando esperava a chegada da irmã Alice Guidolin Rodrigues | Foto: Ana Terra Firmino

Moradores de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Patrícia e Fagner Rodrigues, de 40 anos, pais de Sofia e Alice, pensaram muito antes de decidir ter uma segunda filha. “Eu achava que a gente tinha feito o possível e o impossível pra dar toda a atenção para a primeira filha. E eu ficava me questionando se teria a mesma paciência e disposição pro segundo. E não, realmente não conseguimos fazer o mesmo”, assume Patrícia. 

“Na gravidez dele eu tive tempo pra me apavorar e na dela não, porque eu tinha que cuidar dele”

PAOLA DIAS, mãe de Caíque e Lívia
Paola, 27 anos, com os filhos Caíque, 9 anos, e Lívia, 7 anos | Foto: Arquivo Pessoal

Com Paola Dias, de 27 anos, não foi o mesmo. Quando o filho Caíque Dias, de nove anos, tinha pouco mais de um ano, ela descobriu que estava grávida de Lívia Dias, sete anos. A segunda gravidez chegou no mesmo momento em que Paola se reestruturava depois da chegada do primeiro filho. Além disso, estava passando por um término de relacionamento e se mudando para Viamão, onde mora atualmente com a família. “Eu acredito muito que na gravidez dele eu tive tempo pra me apavorar e na dela não, porque eu tinha que cuidar dele”, relata a mãe. Junto com a surpresa veio a culpa. Com filhos de idades tão próximas, alguns processos ainda não tinham se encerrado antes de começar de novo. A mãe ainda estava amamentando o mais velho quando optou por parar em função da segunda gravidez.

Caroline Rossato, coordenadora do Núcleo de Estudos Famílias e suas Relações (Nefre) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), afirma que a chegada do segundo filho pode ser considerada um acontecimento nodal para as famílias. Acontecimentos nodais são definidos como eventos capazes de criar instabilidades no funcionamento do sistema familiar. “Os pais vão sentir, o filho vai sentir, porque os padrões de funcionamento, aquilo que ele sabiam como viver, como se relacionar, não funcionam do mesmo jeito, então vai ter que acontecer um ajuste”, argumenta. 

A pesquisadora ressalta que é comum que pais e mães subestimem as mudanças trazidas pelo segundo filho para as famílias. Por já se conhecerem como pai e mãe, a expectativa é de que ocorra uma ampliação das funções já desenvolvidas anteriormente. Mas a experiência prévia também traz segurança na hora de desempenhar as funções básicas de cuidado com os filhos. “Eu comecei a me atualizar, e na gravidez da Alice eu já tinha toda essa bagagem do que tinha feito com a Sofia”, conta Patrícia. 

Na primeira gravidez de Paola, ela ainda morava com a mãe, então o apoio era constante e nem todas as decisões eram tomadas sozinha. Já na gestação de Lívia, ela escolheu viver o momento apenas com o ex-marido, na busca da autoridade em relação às escolhas sobre a criação dos filhos. 

A aldeia de cada família

Apesar de quase nenhuma experiência humana ser totalmente individual, cada família tem a sua própria colcha de retalhos para montar. Na dinâmica familiar de Paola, cujos filhos têm pais diferentes, foi montado um esquema em que “os dois são pais dos dois”, explica a mãe. Nos fins de semana, o ex-marido, pai biológico da filha mais nova, Lívia, fica com os dois filhos. Nas férias, ele leva as crianças para a casa do pai biológico de Caíque, que vive em Santa Catarina. Apesar de cuidar dos filhos sozinha no dia a dia, Paola considera que os dois pais são presentes. 

Quando Lívia nasceu, Caíque ainda não tinha completado dois anos | Foto: Arquivo Pessoal

Fagner, pai de Sofia e Alice, conta que, com a chegada da segunda filha, a participação paterna, muitas vezes entendida como facultativa, se tornou obrigatória. “A gente se revezava [no nascimento da primeira filha], mas se eu quisesse correr às 6 horas da manhã, estava tudo bem”, lembra. No nascimento da primeira filha, Sofia, ele considera ter demorado mais tempo para assumir a responsabilidade das tarefas. Com a chegada de Alice, não havia escolha: era dividir ou dividir. Os turnos, os horários de trabalho, os banhos, a comida, as mamadas. “O machismo faz com que as mães se sintam responsáveis por tudo. Elas não podem errar”, reflete. 

Patrícia, Alice, Fagner e Sofia na cozinha de casa. Com a chegada da segunda filha, as tarefas passaram a ser mais divididas entre os pais | Foto: Ana Terra Firmino

Apesar dos avanços, a participação ativa dos pais na criação dos filhos ainda não é uma cena tão comum nos lares brasileiros. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, de 2023, mostra que o número de mães solo no país cresceu 17,8% entre 2012 e 2022. O termo se refere aos domicílios chefiados por uma única mulher, em que todas as responsabilidades recaem sobre ela. A desigualdade, no entanto, tem recorte de raça e de região. Das 11,3 milhões de mães solo no país em 2022, 6,9 milhões eram pretas ou pardas – cerca de 61% do total. A desigualdade também se apresenta quando se analisam os estados brasileiros. Enquanto o Rio Grande do Sul tem um dos menores percentuais, com 11,8% de domicílios de mães solo, na outra ponta do país, no Sergipe, o percentual chega a 19,9%. Mais da metade dessas mulheres, 54,3%, possui apenas o ensino fundamental completo ou menos. Somente 13,8% concluiu o ensino superior. 

Número de mães-solo no Brasil entre 2012 e 2022

Gráfico que mostra a proporção de mulheres negras e brancas em comparação ao total de mães-solo no Brasil | Fonte: Fundação Getúlio Vargas

Onde come um, comem dois

E como ficam os irmãos mais velhos ao verem a atenção ser dividida com um recém-nascido? Sofia é certeira e não tem medo de assumir. “Eu senti ciúmes porque a Lili estava mais doente uma época, e ela ficava ganhando muita atenção. Mas daí, passou. Daí agora ela tem ciúmes de mim. Eu vou pro colo da mamãe e ela quer ir junto ou me empurra”, fala a menina de seis anos sobre a irmã de um ano. 

 “A gente acha maravilhoso a chegada de um segundo filho, mas vão ter coisas ruins. Voltamos a não dormir direito, toda aquela função. Então por que esperamos que o filho mais velho entenda tudo aquilo como perfeito?”

PATRÍCIA GUIDOLIN, mãe de Sofia e Alice

A mãe conta que houve um momento em que a mais velha reclamou sobre receber menos atenção com a chegada da irmã. “Eu falei pra ela que é verdade, ela ganhou menos atenção. Mas também agora ela está crescendo e a gente espera que ela comece a brincar mais sozinha”, conta a mãe das duas meninas. Preparar o primogênito para a chegada de um irmão ou uma irmã é parte importante do processo. “A gente acha maravilhoso a chegada de um segundo filho, mas vão ter coisas ruins. Voltamos a não dormir direito, toda aquela função. Então por que esperamos que o filho mais velho entenda tudo aquilo como perfeito?”, questiona Patrícia. 

Sofia e Alice no quarto que dividem | Foto: Ana Terra Firmino

No escopo de responsabilidade dos pais, também está a mediação de conflitos entre os filhos. Apesar de difícil, é preciso suportar e acolher o ciúme, orientando as crianças em relação às formas de expressá-lo. Afinal, não há sentimento mais humano do que esse. “O ciúme é parte natural dos relacionamentos, ele acontece sempre dentro de um triângulo. Existe uma relação e ela é ameaçada por um terceiro”, argumenta Caroline. 

 “O relacionamento entre irmãos, em paralelo à amizade, ao companheirismo e à cooperação, traz também aspectos de conflito, de ciúmes, de rivalidade”

CAROLINE ROSSATO, psicóloga e especialista em relações familiares em diferentes contextos sociais

Na casa dos Dias, os medos, as inseguranças e os conflitos vão para a “assembleia”, como brinca a mãe. Em um período em que as crianças brigavam muito, ela sentou com os filhos para que eles pudessem reclamar de tudo que precisavam. Foi na escuta que Paola percebeu que por vezes exigia uma responsabilidade maior de Caíque, como se os dois filhos tivessem uma grande diferença de idade, quando na verdade somente dois anos os separam. “Eu me culpei, porque ele era tão pequeno quanto ela. Foi um processo entender que, apesar de ele ser o mais velho, ele não é muito maior do que ela e que eles têm que ter a mesma atenção”, conta a mãe sobre as demandas em relação aos filhos. Se por um lado o primogênito bradava dizendo que preferia ter continuado como filho único, para a caçula não fazia tanta diferença, pois ela já nasceu dividindo. “O relacionamento entre irmãos, em paralelo à amizade, ao companheirismo e à cooperação, traz também aspectos de conflito, de ciúmes, de rivalidade”, explica Caroline. 

E não é cena rara ouvir discussões sobre quem é o favorito das mães e dos pais. Em geral, os filhos nunca se enxergam como os preferidos. Para Paola, mais do que preferir um filho em relação ao outro, há uma questão de identificação. “Amar, a gente ama igual, mas vai ter um que tu vais te adaptar mais”, é como a mãe explica para os filhos uma possível diferença no tratamento. “As relações nunca vão ser iguais, os filhos possuem demandas e personalidades diferentes. É importante reconhecer e validar essas singularidades, mas sem compará-los. Relações diferentes não significam menos amor”, finaliza Caroline. 

Conheça livros que podem ajudar na hora de falar com as crianças sobre a chegada de um/a irmã/o

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