
Thaís Goulart é pedagoga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, militante da União da Juventude Comunista e em seus 25 anos de vida, já atua há 5 como Educadora Social. Iniciou este trabalho como bolsista do Programa de Prestação de Serviços à Comunidade (PPSC), onde permaneceu entre dezembro de 2015 a janeiro de 2020 e atualmente trabalha em um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos de Porto Alegre.
Durante sua permanência na UFRGS e no PPSC, Thaís atuou no acolhimento individual de jovens e adolescentes em cumprimento de Medida Socioeducativa e como educadora nas oficinas socioeducativas, onde é realizado o acompanhamento coletivo dos adolescentes. Tais experiências foram conteúdo e inspiração para a construção do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), onde Thaís relata sua experiência na socioeducação enquanto pedagoga em formação.
Neste bate-papo, Thais nos conta um pouquinho da construção deste trabalho:
Thaís, por que um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) falando de “socioeducação”?
Escolhi a socioeducação como temática central do meu TCC por ser a área em que eu já atuava há 4 anos, mas principalmente por ser a área pela qual me apaixonei no segundo semestre do curso de Pedagogia e com a qual aprendi a ser educadora – na prática. Desde que o TCC começou a ficar próximo eu já sabia que minha escrita sairia das minhas impressões e reflexões sobre a socioeducação e o trabalho realizado com os e as adolescentes e jovens que tive a oportunidade de conhecer. É fato que a área pouco é conhecida e discutida no curso de Pedagogia, então para além de buscar valorizar as minhas vivências e o trabalho do PPSC, também foi uma forma de falar sobre socioeducação e os desafios e belezas que encontramos na mesma.
A questão suleadora do teu TCC procurou evidenciar o impacto do trabalho com os adolescentes em cumprimento de medida na tua formação enquanto Pedagoga. Que caminho metodológico tu percorreu para responder a essa questão?
Quando comecei a conversar com a minha orientadora sobre o recorte que teria minha escrita, ele não passava, em um primeiro momento, pelas minhas experiências pessoais, mas fomos maturando as ideias e quando cheguei na de falar sobre a minha própria trajetória ao lado dos e das adolescentes não tive dúvidas de que era isso que eu queria desde o início. Para engatilhar a escrita, acessei minhas próprias anotações em que eu relatava os encontros com os adolescentes escolhidos – e os mesmos foram escolhidos por nossas trocas terem diferentes desdobramentos e pelos desafios que me foram gerados ao estar realizando o acompanhamento individual de cada caso. A partir disso, retomei as histórias e, assim, pude retomar meus sentimentos e aprendizados através das memórias dos encontros e das conversas. Ou seja, tentei evidenciar o quanto meu trabalho para com esses adolescentes impactou na minha formação e na construção do meu papel enquanto educadora e profissional de referência buscando situações específicas vivenciadas e analisando meu comportamento, o comportamento dos adolescentes e quais marcas ficaram em mim e em nossas relações.
No TCC tu fala de três adolescentes, em especial, entre tantos e tantas acompanhados/as por ti, durante os anos de trabalho no PPSC: Kiane, Raul e Júlio. Na tua análise, existe algum aspecto comum que caracterizaria as três histórias?
Cada um dos três adolescentes protagonistas das minhas escritas tem um nome, uma história e suas próprias especificidades que os tornam únicos. Entretanto, há aspectos de suas trajetórias que são parecidos, como a cor de suas peles, os bairros em que residiam, os atos infracionais, terem passado pelo mesmo espaço em um mesmo momento, assim como terem passado por situações de negligência, violação de direitos e desigualdade parecidas. Esses aspectos fazem parte da vida de muitos dos e das adolescentes e jovens que cumprem medida socioeducativa. Por isso, mesmo que os encontros que eu, educadora, tenha tido com cada um deles tenham passado por pautas, momentos, sentimentos e aprendizados distintos, muitas coisas se assemelhavam pelo fato de eles viverem em contextos sociais próximos.
Há alguma diferença em acompanhar meninos ou meninas? Alguma especificidade relacionada a gênero?
O perfil da grande maioria dos adolescentes que cumprem medida socioeducativa se encaixa no gênero masculino. Nos quatro anos em que trabalhei no PPSC acompanhei pouquíssimas gurias comparado ao número de guris. E isso, acredito eu, já é um reflexo sobre o debate de gênero, em que a maioria das mulheres que se envolvem com atos infracionais/crimes, normalmente o fazem a partir de seus parceiros, enquanto os homens são os protagonistas – até nessa história. Há uma diferença em acompanhar gurias porque as demandas são diferentes, o jeito de ver e viver o mundo são diferentes. A dedicação, o empenho e o afeto são colocados na mesma maneira no trabalho com gurias e com guris, mas a forma de abordar determinados assuntos e trabalhar em cima deles se dá a partir de como eles e elas se colocam no mundo, então sim, acontecerá de diferentes formas.
Um exemplo é falar sobre os direitos básicos da mulher e machismo. Falar sobre esse assunto com os guris requer uma abordagem diferente da abordagem com as gurias. Com as gurias podemos falar a partir de experiências próprias, de relatos e reflexões individuais, mas com os guris precisamos buscar outras estratégias, principalmente pelo fato de os mesmos em muitos momentos reproduzirem machismos em suas falas e atitudes. Para eles esse assunto pode estar mais naturalizado, enquanto para elas a pauta pode estar em processo de desnaturalização.
Acredito que cada adolescente, sendo guri ou guria, precisa de um olhar atento a suas demandas individuais e suas especificidades, onde a questão de gênero também entra como um ponto a ser considerado na hora de trabalhar com a ou o adolescente.

Se te perguntassem, afinal, o que os e as adolescentes te ensinaram sobre “ser pedagoga”, o que tu responderia?
Não tenho dúvidas de que eles me ensinaram tudo que eu sei. Sou pedagoga hoje porque eles me possibilitaram trocas, tensionamentos, questionamentos, desafios, reflexões e aprendizados. O diploma é importante para provar que estudei, que posso ter uma atuação minimamente qualificada, mas eu acredito que me fiz pedagoga na prática, nas salas do PPSC e hoje nas salas da instituição que trabalho. Me construí e sigo me construindo enquanto educadora no dia a dia – a cada encontro, a cada texto que li e ressignifiquei nas oficinas que planejei e desenvolvi, a cada resposta que dei a perguntas feitas, a cada sementinha que eles plantaram em mim.
O trabalho na socioeducação com esses adolescentes me fez mais humana, mais aberta, mais sensível, mais consciente, mais crítica e por aí vai.
Nunca me esqueço do dia que, em um curso para educadoras sociais, pediram que a gente escrevesse em um papel algo que sempre levávamos conosco no nosso local de trabalho. A maioria colocou materiais físicos, mas eu não conseguia pensar em nada sem ser os próprios adolescentes e todos os aprendizados que estar com eles me geraram. Hoje, mesmo há quase um ano desvinculada do PPSC, lembro do nome e dos rostos de vários. Com alguns foram poucos encontros, poucas palavras ou intensidade trocadas, mas nenhum passou em branco – todos deixaram um pouquinho de si e fazem parte da minha trajetória, da minha construção e dos meus primeiros passos na busca de me constituir como uma profissional da educação.
Que mensagem tu deixaria para as e os estudantes de Pedagogia que nos lêem agora?
Desejo que toda e todo estudante de Pedagogia não se limite ao currículo ou ao que está posto como única possibilidade de atuação. Precisamos ser curiosas e curiosos, buscar romper os limites que a academia pode nos colocar. A realidade nem sempre é a mesma que é discutida em sala de aula, por mais que haja um grande esforço de muitos professores e professoras ao buscar mostrar o leque de possibilidades, desafios e contextos que existem. A pedagogia não se restringe a ser professora, há outras formas de ser uma profissional da educação que não seja dentro do ambiente escolar. Conheçam a história e o trabalho da Educação Popular, da Educação Social e da Socioeducação – é impossível não se encantar. Desejo, também, que lutemos para que nossa profissão, seja aonde for que atuemos, não perca sua essência, sua autonomia e seus direitos básicos. Nossa categoria tem um histórico de luta forte e muito bonito, então desejo força para que sigamos na busca de uma educação de qualidade e no fortalecimento das políticas públicas para nossas crianças, adolescentes e jovens!
Para ler o trabalho completo e saber um pouco mais sobre as vivências da Thaís durante seu processo de formação, acesse o link:
https://lume.ufrgs.br/handle/10183/211652
