Wesley Carvalho | Arquivo pessoal

Wesley Ferreira de Carvalho é Assistente Social Especialista em Saúde Mental Coletiva, Mestre em Educação e em 2021 iniciará o Doutorado do Programa de Pós Graduação do Instituto de Psicologia da UFRGS.

Como residente no programa de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva da UFRGS, atuou no Programa de Prestação de Serviços à Comunidade da UFRGS (PPSC) e no projeto Gestão da Saúde da População em Situação de Rua em Porto Alegre e ainda no Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil (CAPSi) e no Projeto Tipo Assim! em Novo Hamburgo.

Wesley realizou seu Trabalho de Conclusão da Residência (TCR), baseado nas suas vivências no trabalho com as adolescências e juventudes.

Confira a entrevista:

Wesley, um trabalho de conclusão da residência (TCR) , escrito do lugar de quem há mais de uma década se dedica a trabalhar com as adolescências e juventudes. O que a política de saúde mental ainda deve para as e os jovens brasileirxs?

Acredito que a sociedade como um todo carrega uma parcela pela criminalização dos adolescentes e jovens na atualidade e pelo tratamento a esses sujeitos. As instituições que atuam com as adolescências e as juventudes, os serviços e as redes de proteção não são acolhedoras em sua maioria, e reafirmam a marginalização de certos adolescentes e jovens. Acho que essa é a dívida social com esse público, principalmente, ao pensar em sujeitos emaranhados nas tramas do Estado, da Justiça, do sistema socioeducativo que tensiona ainda mais as relações, ampliam as violências e a falta de acesso aos direitos.

Para o adolescente em conflito com a lei e para aquele em sofrimento psíquico, ou ainda, para um adolescente em conflito com a lei em sofrimento psíquico, a condição de ser ainda está em suspeição, sob vigília das câmeras de segurança, das grades da justiça a da polícia e dos olhos dos vigias do supermercado. São presenças inquietantemente estranhas, talvez por tensionarem políticas, práticas e ideais tão caros à sociedade.

A dívida é histórica na verdade, e trata das (neg)ações frente à essas vidas.   Vivemos tempos de crise – governamental, econômica, cultural e civilizatória – e os direitos fundamentais sofrem sucessivos ataques, e, na política de saúde mental não seria diferente. Assistimos ao desmonte das Redes de Atenção Psicossocial, do cuidado em liberdade e regredimos a um modelo que viola, segrega e violenta as vidas. O discurso ultra neoliberal e conservador bolsonarista ganha força numa sociedade desigual, marcada pelo preconceito contra as vidas jovens, sobretudo aquelas nas encruzilhadas de avenidas identitárias: as pretas e pardas, pobres e putas, piradas e periféricas.

Tu mencionas no trabalho a tua pesquisa de mestrado como sendo um estudo inédito que articulou os campos da educação especial e da socioeducação. Pensando na tua trajetória enquanto pesquisador:  o que aquela pesquisa tem a ver – e se tem – com a escolha por uma residência em saúde mental? Existe alguma relação de continuidade entre “os litorais do mestrado” e os “restos do cuidado em saúde mental coletiva” partilhados nesse TCR?

Sim… há uma ligação, e acredito que sempre haverá essa confluência em minha trajetória. Como pesquisador na academia, enquanto trabalhador técnico na ponta das políticas públicas, meu corpo também carrega os atravessamentos na vida de um sujeito racializado, então, aqui se fazem potentes as relações ao acompanhar outras pessoas negras, sobretudo, em contextos de violência, opressão, vulnerabilidade e sofrimento.

Na verdade, pensar sobre esses corpos jovens em sistemas de aprisionamento e encarceramento das vidas já fazem parte de minha trajetória desde a graduação, quando foi realizado o trabalho de conclusão de curso intitulado “Programa de Egresso do Sistema Socioeducativo: uma análise nacional em 2011”, que visou conhecer a existência dos programas de egressos do sistema socioeducativo em âmbito nacional.

Atuei na articulação da rede social do sistema socioeducativo mineiro, orientando as equipes dos centros provisórios e de internação e das casas de semiliberdade no fortalecimento da rede social dos adolescentes em cumprimento de medidas e também egressos do sistema. Momentos em que o indivíduo vive entre direitos e deveres, entre a liberdade e a responsabilização, o dentro e o fora, na difícil e complexa tarefa em que se vê afastado das relações, dos afetos.

Das montanhas mineiras aos pampas gaúchos, outras paisagens. De um (belo) horizonte a um outro porto (alegre) outra casa. Chego ao sul e desaguo na rua da praia. A beira das águas, nas corridas diárias pela orla partindo da antiga usina, me levavam até a FASE e a paisagem do meu destino final era o prédio herdado da FEBEM. Novas memórias e alguns pontos de encontro na minha trajetória, como a necessidade de estar próximo à água e as cruzadas com as vidas encarceradas.

No Mestrado em Educação foi realizada investigação acerca da escolarização de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul (FASE/RS) e, de outro lado, a reflexão aprofundada sobre a escolarização para aqueles com deficiência, especialmente os que apresentavam impasses em sua estruturação psíquica, no estudo que tem por nome “TERRA-MAR: litorais entre a Socioeducação e a Educação Especial”.

Entre os anos de 2018 e 2020 transitei pela Residência em Área Profissional da Saúde da UFRGS, e, novamente, as adolescências e juventudes se fazem presentes em minhas escritas. Dos Restos do Cuidado em Sáude Mental Coletiva conto de histórias e memórias de dois anos intensos de reflexões e trabalho. Os fios que compõem a trama são cenas dos processos pessoais, profissionais e formativos vivenciados nos espaços-instituições-lugares para o trabalho e são narradas quatro histórias-memórias, advindas de cada cenário de prática em que pude realizar o cuidado em Saúde Mental Coletiva.

Wesley, como foi – e é – trabalhar com o sofrimento psíquico na adolescência? Que desafios são próprios desse contexto?

Há uma instância de violência institucional na sociedade brasileira contra pessoas que vivam algum tipo de deficiência ou que estejam em sofrimento psíquico. Estar nessas condições pode produzir encarceramento dos corpos, causar sofrimento e impactar nas subjetividades. Principalmente ao pensar nesses corpos sob olhares e leituras outras. Que não operam – ou superam – diagnósticos fechados, patologizantes, carregados de classificações, estigmas e discursos hegemônicos, que fazem uso de doenças e CID’s para a partida da construção dos casos e planos de ação, acompanhamentos e atendimentos.

Os desafios são essas formas simbólicas de contenção – manicomiais – que desconsideram outras narrativas enquanto possibilidades de leitura de mundo e produção de sentidos. Os impasses na caminhada destas vidas jovens são muitos, como ter acesso à saúde, ao trabalho, ou estudar, por exemplo, e ter garantido o direito à crítica do patrimônio cultural e humano são possibilidades reiteradamente suspensas. Muitas vezes, lhes restam a falta de escolarização, o adoecimento, as negligências e violências, ou, até mesmo inserções sob os auspícios da desconfiança, da normatização e do empobrecimento na relação com o outro. Manutenção de um conhecido e já marcado lugar marginal, entre as negativas e o cárcere, quando não, com o corpo jogado na latrina.

A passagem por um CAPS, um projeto com adolescentes e jovens e uma unidade de execução de medida socioeducativa. O que esses adolescentes/jovens tinham/têm em comum da perspectiva do Wesley, residente em saúde mental?

Todos os caminhos nas escolhas de cenários da Residência (consciente ou inconsciente) foram muito pessoais durante o percurso e convergiram para o trabalho que abarcasse o atendimento de jovens durante os dois anos de prática e educação em trabalho. Tive a oportunidade de participar de oficinas, realizar visitas domiciliares, atendimentos individuais, estive nos espaços institucionais e perambulei pelas ruas das cidades quebrando paredes manicomiais. Participei de matriciamentos e partilha de casos, de seminários e de reuniões de equipe, e o comum, nesses espaços, eram as múltiplas semelhanças, em histórias que se entrecruzam, se parecem.

São muitas as semelhanças no que se refere às histórias de abandono, de vulnerabilidade, de negação. Brigas, ameaças, uso de força e violências, eram constantes. A cor desses jovens também sempre foi uma constante. Trajetórias ordinárias. Atuar em contextos com adolescentes e jovens que têm a cor da pele preta me constitui – pessoal, profissional e academicamente – e meu olhar nunca desvia. Auto evidente, talvez, por não ter a pele branca ou por ter re-conhecido e reafirmado meus traços racializados.

Os negros são predominantes nos abrigos, no sistema socioeducativo ou no sistema prisional, nos neo-manicômios (internações para desintoxicação, alas de Hospitais Psiquiátricos, Comunidades Terapêuticas ou Institutos Forenses, como exemplos). O trabalho com e no social traz circunscrita a marca do racismo estrutural que, há quase duas décadas a voz de Elza Soares (2003) nos lembra ao cantar, que a carne mais barata do mercado é a carne negra. Reafirmando que são os pretos e as pretas que superlotam os sistemas de justiça, os números de vítimas de feminicídios, de violências policiais, e, majoritariamente, as estatísticas letais com suas vidas descartáveis.

Nos escritos finais do texto tu faz referência às “corpas e corpos jovens, atravessadas/dos pelo racismo, pela pobreza e pela violação de direitos”, acompanhadas/dos ao longo da residência. Como o conflito com a lei aparece nessa trama? A infração está de algum modo relacionada à situação de vulnerabilidade social desses e dessas adolescentes?

O que se percebe é que muitas vezes os adolescentes e jovens abandonam (muito cedo) a escola e não são resgatados e acompanhados pelos órgãos de proteção à infância – Conselhos Tutelares, Escola, família, serviços da saúde e a sociedade, como exemplos. A partir daí, a vizinhança com a criminalidade, o preconceito contra os materialmente pobres, a segregação e a falta de perspectivas e de oportunidades podem produzir tal trajetória infracional.

Não que as possibilidades de estar no mundo se equacionem de forma determinística. Não se trata de um jogo de cartas marcadas, contudo, não se nega o impacto dessas contingências na construção das impossibilidades da vida. Daí, o ato infracional pode ser uma solução encontrada pelo adolescente frente ao mal-estar produzido.

Quando aprofundamos na realidade desses brasileiros, o que se percebe é que as vidas se assemelham: milhares de pobres, em sua maioria pretos ou pardos, posicionados em uma situação extrema, caracterizada pela ausência de direitos básicos. São corpos desde cedo marcados por vidas de negativas que desconsideram o social na produção das infrações, que negam marcadores sociais nas desigualdades e privilégios em seus modos de existir.

SAÚDE MENTAL E SOCIOEDUCAÇÃO: ENTREVISTA COM WESLEY CARVALHO

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