Projeto de pranchas de comunicação alternativa em hospitais é ampliado para novos lugares e novas plataformas
Tradução para seis línguas, aplicação difundida em outros estados do Brasil e adaptação para plataformas móveis estão entre as novidades. Verba específica também garante a interiorização do projeto no RS

Entre o fim de março e o início de abril, as ações do Projeto de Pranchas de Comunicação Alternativa foram destacadas nas notícias deste site e na mídia em geral. As pranchas pictográficas auxiliam a comunicação de pacientes que estão utilizando ventiladores mecânicos para respiração – situação que aumentou com a pandemia do novo coronavírus – ou de pacientes que fizeram algum procedimento que limita ou impede a comunicação oral. Desde então, o projeto foi aplicado em Porto Alegre e na Região Metropolitana e disponibilizado a interessados. Mas o trabalho continuou sendo ampliado: foi traduzido para outros idiomas. Com o Hospital Universitário da Universidade de Juiz de Fora foi realizado um convênio para difusão das pranchas na cidade do sul de Minas Gerais. Os idealizadores trabalham ainda numa versão para aplicativos móveis, que está em vias de divulgação, e na divulgação das pranchas pelo interior do Rio Grande do Sul.
Faça o download gratuito dos materiais
Os cartões utilizam símbolos gráficos para, por exemplo, perguntas simples ou elaboração de questionamentos. Depois da disponibilização no site para download gratuito, a difusão do projeto foi se ampliando e gerando novas demandas. A primeira delas foi a tradução para novos idiomas: espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e chinês, além de ganhar uma versão em português de Portugal. Todo o material também é oferecido gratuitamente pelo site oficial do projeto. Um dos destaques dessa difusão foi a publicização da proposta pelo Centro Aragonés de la Comunicación Aumentativa y Alternativa (Arasaac), da Espanha. Segundo o professor do Departamento de Design e Expressão Gráfica da UFRGS e um dos coordenadores do projeto Eduardo Cardoso, a Arasaac é uma das mais importantes instituições da área, o que confirma a relevância da proposta.
Recentemente, a iniciativa foi contemplada no Edital da UFRGS de recursos específicos para o combate à pandemia. Eduardo Cardoso explica que o recurso disponibilizado nesse edital será para a interiorização da distribuição de pranchas pelo Rio Grande do Sul. Serão elaborados 1500 kits (com duas pranchas) para complementar a distribuição da primeira leva, que foi de cerca de mil kits entregues a hospitais de Porto Alegre e da Região Metropolitana. O valor será aplicado para impressão, plastificação e envio para as diversas cidades do estado, o que deve ser realizado já nos próximos dias. Outra novidade é a complementação da versão para download com uma nova opção de acesso para dispositivos digitais, como tablets e smartfones, em fase de finalização de testes. Aplicativos vão ter a base de imagens numa configuração amigável para o acesso. O professor Eduardo destaca que a inovação vai facilitar a comunicabilidade para aqueles que têm necessidade de continuar com o uso da comunicação alternativa em casa, além de reduzir o custo por não demandar a impressão. “No caso do hospital, a prancha impressa é mais prática por causa da facilidade de higienização. O formato digital será útil para a pessoa que continua em tratamento. Muitos pacientes pediam para levar a prancha, mas agora será possível baixar para seguir a comunicação”, ressalta.

Além disso, novos casos particulares têm sido avaliados, e soluções são buscadas, como uma versão com oclusores para pessoas com comprometimento visual, para as quais ocultar as diversas imagens e focar uma apresentação com menos pictogramas por vez favorece o entendimento. Grelhas para diminuir a exibição simultânea estão em estudo. Com aumento das fontes e das imagens, será possível também a utilização do material por pacientes com baixa visão, por exemplo. Outra versão que também está em finalização são as pranchas impressas para uso de pessoas que não têm movimento necessário para apontamento. A fixação do olhar no pictograma será o instrumento de indicação.
Mais adiante, será visto um caso de adaptação do material para indivíduos surdo-cegos. Novos desafios sempre surgem, e o projeto segue adequando sua proposta a novas situações visando ao bem-estar de quem necessita da comunicação no ambiente hospitalar: “Recebemos retornos de diversas situações das pessoas se deparando com públicos muitos diversos e tentamos colaborar nesses desafios”, sinaliza Eduardo Cardoso.
Em Minas Gerais
Como dito, com a disponibilização do material do projeto para qualquer interessado, outras instituições viabilizaram impressões em diferentes lugares. Mas, junto ao Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a parceria foi mais concreta, com a formalização de um convênio via Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS e Pró-Reitoria de Extensão da UFJF. Tudo começou com a iniciativa da professora Mylene Santiago, do Departamento de Educação da UFJF, que já trabalha com tecnologia assistiva e viu a notícia sobre o acesso ao download das pranchas e buscou replicar na comunidade local. A proposta virou projeto de extensão e foi implantada no Hospital Universitário com Mylene ficando responsável pela formação das equipes de saúde: “Médicos e demais profissionais ficaram admirados, e foi possível apresentar a eles um pouco sobre tecnologias assistivas”. Além do HU, dois hospitais públicos da cidade mineira receberão capacitação e as pranchas para uso. No total, são 100 pranchas viabilizadas pela UFJF.


E foi lá em Juiz de Fora que também uma adaptação da prancha foi desenvolvida para atender o caso específico de uma pessoa surdo-cega. Segundo explica Mylene, a própria pessoa nessa situação a buscou expondo a angústia que sentia em não saber como seria a comunicação caso fosse hospitalizada. Desse modo, ela mesma elaborou etiquetas em Braille, que foram colocadas sobre os textos e as imagens da prancha, que ficou personalizada para o uso de uma pessoa com essa condição. Além do Hospital Universitário, o Conselho Regional de Fonoaudiologia – 6ª Região e a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SESMG) viabilizaram a impressão de 3 mil kits de pranchas para distribuição nas instituições de saúde do Estado.
No cotidiano da aplicação
Voltando à realidade regional, pode ser visto um pouco como tem sido a aplicação das pranchas no Rio Grande do Sul. Fonoaudióloga do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA/UFRGS), Michele Borges atua na área de disfagia em avaliação à beira leito no HCPA e é uma das elaboradoras das pranchas do projeto. Michele participa dos treinamentos para uso do material. Segundo ela, os pacientes têm aceitado bem a ideia, e a utilização das pranchas tem sido feita não somente na ala de tratamento de covid-19, mas em todas as alas em que há pacientes com dificuldades ou impossibilidade de fala. A fonoaudióloga avalia a aplicação: “Melhora para o paciente, que pode se comunicar, e é benéfico por reduzir a ansiedade que a falta dessa comunicação causa muitas vezes”.

Os materiais estão disponíveis em: https://www.ufrgs.br/comacesso/pranchas-caa-hospitalar
