
“Honoris Causa pela arte, pela contribuição à cultura brasileira, mas Honoris Causa pela posição corajosa, incisiva, intransigente na superação do racismo e no combate à perseguição das mulheres negras no Brasil”. Foi assim que, diante do Salão de Atos lotado, Rui Vicente Oppermann, reitor da UFRGS, entregou o título de Doutora Honoris Causa à Elza da Conceição Soares neste domingo, 27 de maio. Elza, muito emocionada ao receber o documento, enfatizou a dificuldade que enfrentam os negros na conquista de espaços, principalmente dentro da universidade. “Esse espaço que estou aqui agora, vocês não sabem o que significa para mim. Eu queria que significasse para todas nós, todos nós negros”, disse ela.
A pauta do racismo esteve presente em todos os momentos da cerimônia – e não poderia deixar de estar em um país com um histórico grave de problemas raciais como o Brasil. Elza, além de ser protagonista de sua própria trajetória , é uma das grandes referências para mulheres e homens negros. Oppermann, reforçou no discurso de entrega do título, o compromisso da universidade com a diversidade dos espaços. “Em todos os sentidos, a universidade está desafiada a assimilar, a trazer e a ganhar com a presença dos negros e dos indígenas em nossa comunidade”.
A história da cantora e compositora brasileira também esteve presente na cerimônia. Na conversa com o escritor e músico José Miguel Wisnik, Elza contou a história de quando conheceu o amigo gaúcho Lupicínio Rodrigues sem saber que conversava com o cantor, já famoso. À época, Lupi (como a cantora se refere ao amigo de longa data, falecido em 1974) flertou com Elza, quando esta trabalhava em uma boate no Rio de Janeiro. A história arrancou gargalhadas da plateia.
A artista contou também sobre a primeira vez em que foi à Rádio Tupi para o programa de jovens talentos do mestre Ary Barroso. Após ser perguntada por Barroso de onde vinha, a cantora respondeu: “do planeta fome”. Na ocasião, disse que se apresentou e ganhou cinco estrelas por sua apresentação, mesmo maltrapilha e usando um vestido repleto de alfinetes. Não esqueceu também de sua procedência. “Eu sou bisneta e neta de escravos. A minha bisavó Henriqueta foi uma escrava; a minha vó foi uma escrava; a minha mãe Rosária pegou o finalzinho da escravatura. Estou aqui representando elas, com muito orgulho e com muito respeito”, disse, em meio às lágrimas.
Além das histórias, Elza Soares e José Wisnik, conversaram sobre As Coisas Essenciais da Vida. Elza falou sobre o amor ser sempre essencial – principalmente em tempos de ódio sendo difundido. Ainda, comentaram sobre a importância da educação e da cultura não só para a vida, mas para o país. Ao fim do diálogo, relembraram juntos a canção “Comida e Bebida”, de Wisnik. “Só duas coisas têm valor na vida: comida e bebida”, cantaram.
Após a conversa, Elza participou da sessão de autógrafos da biografia “Elza”, escrita pelo jornalista Zeca Camargo. O público aguardou ansiosamente a sua vez de pegar o autógrafo da artista, e, de quebra, tirar uma foto e ter uma palavrinha com a rainha do soul brasileiro. Foram distribuídas 250 fichas no total. A cantora emocionou todos que compareceram à cerimônia. O reitor resumiu o espírito de muitos ali presentes em seu discurso de agradecimento à cantora. “Obrigado pela grande aula que sua vida é para todos nós”.

























