Coisas Essenciais da VidaMúsica

Elza Soares recebe título de Doutora Honoris Causa lembrando sua trajetória marcada pela resistência

Por 27 de maio de 2019agosto 20th, 2020Sem comentários

“Honoris Causa pela arte, pela contribuição à cultura brasileira, mas Honoris Causa pela posição corajosa, incisiva, intransigente na superação do racismo e no combate à perseguição das mulheres negras no Brasil”. Foi assim que, diante do Salão de Atos lotado, Rui Vicente Oppermann, reitor da UFRGS, entregou o título de Doutora Honoris Causa à Elza da Conceição Soares neste domingo, 27 de maio. Elza, muito emocionada ao receber o documento, enfatizou a dificuldade que enfrentam os negros na conquista de espaços, principalmente dentro da universidade. “Esse espaço que estou aqui agora, vocês não sabem o que significa para mim. Eu queria que significasse para todas nós, todos nós negros”, disse ela.

A pauta do racismo esteve presente em todos os momentos da cerimônia – e não poderia deixar de estar em um país com um histórico grave de problemas raciais como o Brasil. Elza, além de ser protagonista de sua própria trajetória , é uma das grandes referências para mulheres e homens negros. Oppermann, reforçou no discurso de entrega do título, o compromisso da universidade com a diversidade dos espaços. “Em todos os sentidos, a universidade está desafiada a assimilar, a trazer e a ganhar com a presença dos negros e dos indígenas em nossa comunidade”.

A história da cantora e compositora brasileira também esteve presente na cerimônia. Na conversa com o escritor e músico José Miguel Wisnik, Elza contou a história de quando conheceu o amigo gaúcho Lupicínio Rodrigues sem saber que conversava com o cantor, já famoso. À época, Lupi (como a cantora se refere ao amigo de longa data, falecido em 1974) flertou com Elza, quando esta trabalhava em uma boate no Rio de Janeiro. A história arrancou gargalhadas da plateia.

A artista contou também sobre a primeira vez em que foi à Rádio Tupi para o programa de jovens talentos do mestre Ary Barroso. Após ser perguntada por Barroso de onde vinha, a cantora respondeu: “do planeta fome”. Na ocasião, disse que se apresentou e ganhou cinco estrelas por sua apresentação, mesmo maltrapilha e usando um vestido repleto de alfinetes. Não esqueceu também de sua procedência. “Eu sou bisneta e neta de escravos. A minha bisavó Henriqueta foi uma escrava; a minha vó foi uma escrava; a minha mãe Rosária pegou o finalzinho da escravatura. Estou aqui representando elas, com muito orgulho e com muito respeito”, disse, em meio às lágrimas.

Além das histórias, Elza Soares e José Wisnik, conversaram sobre As Coisas Essenciais da Vida. Elza falou sobre o amor ser sempre essencial – principalmente em tempos de ódio sendo difundido. Ainda, comentaram sobre a importância da educação e da cultura não só para a vida, mas para o país. Ao fim do diálogo, relembraram juntos a canção “Comida e Bebida”, de Wisnik. “Só duas coisas têm valor na vida: comida e bebida”, cantaram.

Após a conversa, Elza participou da sessão de autógrafos da biografia “Elza”, escrita pelo jornalista Zeca Camargo. O público aguardou ansiosamente a sua vez de pegar o autógrafo da artista, e, de quebra, tirar uma foto e ter uma palavrinha com a rainha do soul brasileiro. Foram distribuídas 250 fichas no total. A cantora emocionou todos que compareceram à cerimônia. O reitor resumiu o espírito de muitos ali presentes em seu discurso de agradecimento à cantora. “Obrigado pela grande aula que sua vida é para todos nós”.