Pimephales promelas: ele pode não ser bonito, mas é um excelente modelo

Por Dr. Alexandre Arenzon – 10/07/25

Ele pode não ser um modelo de beleza, mas certamente é um excelente modelo de organismo-teste.

Na ecotoxicologia aquática, escolher a espécie modelo ideal pode fazer toda a diferença — seja porque sua sensibilidade representa os demais organismos do ambiente aquático, seja por permitir que diferentes métodos de ensaio sejam empregados, gerando resultados representativos.

Originário da América do Norte e adaptado a condições de laboratório, o fathead minnow (Pimephales promelas) tem desempenhado um papel crucial na compreensão dos efeitos de substâncias químicas nos ecossistemas aquáticos de água doce. Sua importância está relacionada a uma série de características que o tornam ideal para ensaios padronizados: ciclo de vida curto, facilidade de cultivo em laboratório, sensibilidade a contaminantes e ampla base de dados toxicológicos disponíveis.

Apesar de sua ampla utilização regulatória na América do Norte — onde é um dos pilares para a avaliação de risco ambiental —, a aplicação do Pimephales promelas no Brasil ainda enfrenta desafios. Duas normas da ABNT o indicam como organismo-teste para ensaios de toxicidade aguda e crônica. Contudo, sendo uma espécie exótica, sua importação requer processos de autorização prévia complexos. Isso contrasta com o peixe-zebra (Danio rerio), de origem asiática e igualmente presente nas normas da ABNT, mas comercializado livremente no Brasil.

Os métodos de cultivo do P. promelas são bem definidos e viáveis para implementação em laboratório. Essa característica permite uma produção eficiente de organismos, suprindo a demanda para os mais diversos tipos de ensaios toxicológicos.

Do ponto de vista regulatório, a United States Environmental Protection Agency (USEPA) emprega amplamente ensaios de toxicidade aguda (sobrevivência) e crônica (sobrevivência e crescimento corporal) com Pimephales promelas. Além disso, metodologias estão disponíveis para avaliação de estágios iniciais do desenvolvimento, reprodução e para investigar os efeitos de substâncias químicas classificadas como desreguladores endócrinos. A robustez e a aceitação internacional desses métodos reforçam a credibilidade dos dados gerados por meio deste modelo.

No Laboratório de Ecotoxicologia da UFRGS, aprimoramos constantemente o método de cultivo do Pimephales promelas, garantindo maior taxa de eclosão e sobrevivência dos alevinos produzidos. Além disso, estamos implementando o método de avaliação com os estágios iniciais do desenvolvimento e desenvolvendo ensaios comportamentais de fácil implementação, contribuindo para ampliar o uso dessa espécie em estudos ecotoxicológicos no Brasil.

Referências:

  1. Ankley, G.T., Jensen, K.M., Kahl, M.D., Korte, J.J. and Makynen, E.A. (2001). Description and evaluation of a short-term reproduction test with the fathead minnow (Pimephales promelas). Environmental Toxicology and Chemistry, 20: 1276-1290. https://doi.org/10.1002/etc.5620200616
  2. Ankley GT, Villeneuve DL. The fathead minnow in aquatic toxicology: past, present and future. Aquatic Toxicology. 2006 Jun 10;78(1):91-102. doi: 10.1016/j.aquatox.2006.01.018.
  3. S. Environmental Protection Agency. (2002). Method 1001.0: Fathead Minnow, Pimephales promelas, Larval Survival and Teratogenicity Test; Chronic Toxicity. EPA-821-R-02-013.
  4. S. Environmental Protection Agency. (2002). Fathead Minnow (Pimephales promelas) Larval Survival and Growth Toxicity Tests. EPA-821-R-02-013.

Criatividade na Pesquisa

Por Dr. Alexandre Arenzon – 27/06/23 

Realizar pesquisas no Brasil requer um certo nível de criatividade, se não muita. O Laboratório de Ecotoxicologia da UFRGS tem se dedicado a diversos projetos de pesquisa que têm como objetivo desenvolver e aprimorar métodos de avaliação da toxicidade em peixes. Nossos projetos abrangem desde o desenvolvimento embrionário do zebrafish até ensaios de letalidade e efeitos comportamentais destes organismos. No entanto, para realizar estas pesquisas, além do sucesso na reprodução dos organismos, é fundamental garantir uma alta taxa de sobrevivência das larvas. Para isso, contamos com um sistema de cultivo de peixes com recirculação de água após tratamento. Mas não pense que se trata de um sistema de tratamento tecnológico. Basicamente trata-se de um conjunto de aquários acoplados a um sistema de filtros (SUMP) mecânicos, biológicos e luz ultravioleta que recebem, tratam e devolvem a água para os aquários.

Quando mantidos em laboratório, os zebrafish podem atingir altas taxas de sobrevivência, desde que sejam fornecidos alimentos adequados, e que os parâmetros de qualidade da água, como temperatura, pH, oxigênio e níveis de amônia, sejam mantidos dentro de faixas aceitáveis.

Normalmente, laboratórios que não possuem os caros sistemas automatizados de cultivo de peixes acabam mantendo as larvas de zebrafish em béqueres, ou outros recipientes, que requerem trocas frequentes, se não diárias, de toda ou parte da água. Esse manuseio excessivo acaba reduzindo a sobrevivência dos organismos.

Após vários experimentos, conseguimos desenvolver um sistema que garante uma taxa de sobrevivência de mais de 90%, sem a necessidade de manuseio das larvas. Nosso sistema consiste em uma sequência de “filtros de cafeteira”, que funcionam como cestos onde as larvas são mantidas. Essa estrutura é conectada ao sistema de filtros do laboratório e, por meio de um gotejamento contínuo dentro de cada cesto, garante a qualidade da água. O fluxo de água é interrompido apenas para alimentar os organismos, garantindo que o alimento (Paramecium) permaneça concentrado, e disponível, por mais tempo para os peixes.

Os peixes são introduzidos no sistema logo após a eclosão e ali permanecem até serem utilizados nos experimentos (de 8 a 14 dias) ou transferidos para os aquários de crescimento. Nossos dados indicam que é possível manter até 200 larvas em cada cesto sem redução na taxa de sobrevivência.

Perguntas frequentes no monitoramento de efluentes

Por Dr. Alexandre Arenzon – 07/03/23

No Brasil, é exigido por lei que os efluentes sejam monitorados quanto à sua toxicidade antes de serem descartados nos corpos receptores. Para isso, são utilizados métodos de análise que avaliam a capacidade dos efluentes em causar efeitos negativos sobre os organismos que habitam esses corpos receptores. Embora existam vários métodos de análise que avaliam diferentes tipos de efeitos tóxicos, como efeitos fisiológicos, histológicos e genéticos, a legislação brasileira, por exigir métodos de análises padronizados, acaba determinando que o monitoramento seja baseado em efeitos sobre a sobrevivência, reprodução e/ou crescimento dos organismos. Esses efeitos podem ser considerados como indicadores mais visíveis dos potenciais impactos que os efluentes podem causar nas populações desses organismos.


Embora esses métodos de monitoramento sejam considerados “básicos”, eles são eficazes em identificar a toxicidade dos efluentes e fornecer informações importantes para a proteção do meio ambiente. No entanto, ainda há muitas dúvidas e questionamentos entre aqueles que contratam as análises e, até mesmo, entre os que avaliam os resultados. Desta forma,  apresentamos, abaixo, alguns esclarecimentos para dúvidas que recebemos com maior frequência. 

A toxicidade refere-se à capacidade de uma determinada substância, produto ou conjunto de substâncias em provocar efeitos danosos aos organismos com os quais entra em contato. Estes efeitos podem ser desde alterações comportamentais, alteração de crescimento ou reprodução, até a morte dos organismos.

Desde 2005 a toxicidade é mais um dos parâmetros que devem ser monitorados em efluentes lançados em ambientes aquáticos no Brasil. Esta exigência legal é, atualmente,  amparada pela Resolução 430/2011 do CONAMA, apesar de alguns Estados possuírem exigências leais próprias. Segundo a Resolução CONAMA 430/2011, os Órgãos de Fiscalização Ambiental são responsáveis por exigir e fiscalizar este monitoramento. Esta exigência recai sobre todos os efluentes lançados em águas Classe 1, 2, 3 e, exclusivamente no Rio Grande do Sul, 4 da Resolução CONAMA 357/2005.

Para se estimar o grau de impacto que um determinado efluente pode causar no corpo receptor são realizados os ensaios de toxicidade. Estes ensaios têm por objetivo simular, em laboratório, os efeitos que poderiam ser observados no corpo receptor após o lançamento do efluente.

Considerando que desejamos estimar os efeitos ambientais de um determinado efluente para a avaliação da toxicidade são utilizados organismos aquáticos que representem os diferentes níveis tróficos existentes no ambiente. Os organismos, chamados de organismos-teste, são expostos a diferentes concentrações de uma amostra deste efluente (por exemplo, 100%, 50%, 25%, 12,5%, 6,25%, etc.) e mantidos por um tempo pré-determinado (definido pelas normas técnicas que norteiam os métodos). Após esta exposição observam-se os efeitos causados pela amostra sobre os organismos.

Organismos-teste são espécies cujos conhecimentos de sua biologia são suficientes para que possam ser utilizadas como indicadores da toxicidade da amostra a ser analisada. Tanto o cultivo, como os métodos de exposição destes organismos são definidos em normas técnicas, permitindo a reprodutibilidade dos resultados. Espera-se que estes organismos possuam uma relativa sensibilidade a diferentes compostos químicos. Desta forma, os efeitos observados tenderiam a ser representativos daqueles que poderiam ocorrer com os organismos do corpo receptor. 

Ensaios de toxicidade são análises cujos resultados são baseados nas respostas apresentadas por organismos vivos. Ou seja, os organismos-teste utilizados são os “sensores” de medição. Desta forma a qualidade destes organismos é fundamental para a confiabilidade dos resultados.

Pensando na qualidade destes organismos, estes devem, preferencialmente, ser cultivados em laboratório nas condições predeterminadas nas normas técnicas. Desta forma, informações importantes para a utilização dos organismos nos ensaios de toxicidade podem ser conhecidas e falsos resultados evitados. A utilização de organismos estressados, mal nutridos ou debilitados pode, por exemplo, indicar uma falsa toxicidade das amostras ensaiadas.

Na impossibilidade da utilização de organismos-teste provenientes de cultivos próprios, o laboratório executor dos ensaios de toxicidade deve garantir e comprovar que o lote de organismos utilizados atenda aos padrões de qualidade exigidos pelo método.

Os organismos-teste, assim como quaisquer outros organismos do ambiente, podem apresentar diferenças nas suas sensibilidades as substâncias presentes nos efluentes. Assim, é possível que, para um mesmo efluente, os organismos-teste de diferentes níveis tróficos respondam diferentemente ao grau de toxicidade deste. Da mesma forma, também não é possível eleger um nível trófico que, genericamente, será sempre o mais afetado pela toxicidade dos efluentes.

Ensaios de toxicidade aguda avaliam a capacidade do efluente em causar efeitos danosos (em geral morte ou imobilidade) aos organismos-teste após um curto período de exposição à amostra (normalmente inferior a 96 horas).  Se a amostra de efluente apresenta toxicidade aguda, significa que ela é tóxica o suficiente para matar os organismos mesmo quando eles ficam expostos a esta por pouco tempo.

O Fator de Toxicidade (FT) é uma das formas de expressar os resultados dos ensaios de toxicidade aguda com efluentes. Apesar de ser citada na legislação federal brasileira, o termo é mais comum nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro.  Resumidamente, o FT representa quantas vezes o corpo receptor precisaria diluir o efluente para este deixar de apresentar toxicidade aguda para os organismos. Um efluente que, por exemplo, apresente um FT = 16, se ao chegar ao corpo receptor, não for diluído mais de 16 vezes, poderá causar mortalidade aos organismos ali presentes. Já um efluente que apresente um FT = 1, não apresenta toxicidade aguda na sua forma integral (100%), mesmo que não seja diluído pelo corpo receptor.

Ensaios de toxicidade crônica expõem os organismos-teste as amostras de efluentes por um intervalo de tempo mais significativo em relação ao seu ciclo de vida, ou uma fase importante deste. Nestes ensaios são avaliados desde efeitos mais sutis como alteração sobre a reprodução e crescimento, ou até a morte dos organismos expostos, mesmo que esta ocorra de forma mais lenta.

Quando a amostra avaliada apresenta toxicidade aguda, a morte dos organismos-teste impossibilita o desenvolvimento destes e, consequentemente, a observação dos efeitos sobre crescimento e reprodução. Assim, a menos que seja uma exigência do Órgão Ambiental, não faz sentido a empresa realizar, simultaneamente, ensaios de toxicidade aguda e crônica. Normalmente realizam-se os ensaios de toxicidade aguda, e, caso esta não ocorra na amostra realizam-se, então, os ensaios de toxicidade crônica.

O atendimento as exigências legais depende de alguns fatores. Em determinados Estados, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, os resultados das análises devem ser comparados com tabelas de limites máximos de toxidade aceitos. Para São Paulo e Estados que seguem a CONAMA 430/2011, o atendimento deve ser avaliado caso a caso, considerando os resultados dos ensaios de toxicidade, os dados de vazão do efluente e de vazão do corpo receptor.

A toxicidade no monitoramento ambiental

Por Dr. Alexandre Arenzon – 30/01/23

No Brasil, a toxicidade começou a ser citada, explicitamente, como um parâmetro ambiental legal em 2005. Obviamente que o parâmetro já existia e já era monitorado antes desta data. Mas a palavra “toxicidade”, como um parâmetro a ser monitorado para determinar o atendimento a exigências ambientais legais, começou a ser utilizado a partir da criação da Resolução CONAMA 357/2005. Segundo esta resolução, para determinar se os corpos d´água superficiais brasileiros poderiam manter sua classe de enquadramento (baseados nos usos atribuídos a estes ambientes), uma série de parâmetros (físicos, químicos e biológicos) deveriam ser atendidos, entre eles, a inexistência de toxicidade. Este monitoramento, segundo a legislação brasileira, deve ser realizado pelo poder público, ou seja, pelas agências de fiscalização ambiental. Deve-se imaginar, então, que existem diferenças regionais neste aspecto, considerando os recursos disponibilizados por cada Estado à questão ambiental.

Os mesmos critérios de toxicidade da CONAMA 357/2005 servem como base para os limites de toxicidade a serem exigidos dos efluentes que são lançados nestes corpos d´água superficiais. Como há um limite para a toxicidade aceita nestes ambientes, os efluentes lançados não podem apresentar uma toxicidade tal que afete o enquadramento do corpo receptor. Desta forma, os órgãos de fiscalização ambiental deveriam, em teoria, limitar a toxicidade aceita em cada um dos efluentes recebidos por nossos ambientes aquáticos.

Como já comentado, a toxicidade é mais um dos parâmetros a ser monitorado nestes ambientes, assim como nos efluentes neles lançados. Por que, então, monitorar a toxicidade se já existe uma série de outros parâmetros monitorados. Questão de resposta simples, mas de compreensão complexa. A toxicidade é um parâmetro que complementa as análises já realizadas no ambiente, ou nos efluentes. A resposta desta avaliação nos indica se o conjunto dos compostos químicos analisados, e vários outros que estão presentes no ambiente, mas que acabam não sendo monitorados, podem afetar a sobrevivência, o crescimento e/ou a reprodução dos organismos aquáticos que ali vivem. A toxicidade reflete o efeito conjunto de todos os compostos presentes no ambiente, e em contato com os organismos vivos, sejam os monitorados, os não monitorados ou, até mesmo, os disponíveis em baixíssimas concentrações.

Quer dizer, então, que monitorar a toxicidade e exigir, quando necessário, que ela seja reduzida, tem como finalidade preservar a vida dos organismos do ambiente? Sim, mas não exclusivamente. Quando se faz necessário aprimorar o tratamento de um efluente, por exemplo, para reduzir sua toxicidade, significa que os compostos presentes neste efluente, e que causam a toxicidade, precisam ser removidos ou reduzidos. Se, após o tratamento, a toxicidade for reduzida significa que o mesmo ocorreu com a disponibilidade dos compostos que a causam. Como consequência, o corpo hídrico que recebe este efluente, recebe uma carga menor de poluentes. Isso não apenas irá aumentar a qualidade das águas voltadas a preservação da vida aquática, mas também das águas captadas para o abastecimento e irrigação, ou utilizadas para recreação e aquicultura.

Se a questão é assim tão simples, por que ainda existem efluentes tóxicos ou corpo receptores recebendo altas cargas de poluentes? Vários motivos podem justificar essa situação. Mas resumindo, podemos dizer que o crescente e infeliz sucateamento de várias agências de fiscalização ambiental brasileiras (principalmente em recursos humanos e laboratoriais), e o desconhecimento ecotoxicológico de muitos que atuam na área ambiental (fiscalização, gestão e serviços), tem uma significativa participação.

Ensaios de toxicidade crônica com peixes. O que mudou?

Por Dr. Alexandre Arenzon – 09/01/23

No Brasil, as normas da ABNT definem as principais metodologias utilizadas no monitoramento da toxicidade de efluentes e águas superficiais. Inclusive agências de fiscalização ambiental, como FEPAM (RS) e CETESB (SP), exigem que o monitoramento da toxicidade deste tipo de amostras seja realizado segundo estas metodologias. As metodologias propostas pela ABNT são elaboradas, adaptadas e revisadas pela Comissão de Estudo Especial de Análises Ecotoxicológicas da ABNT (ABNT/CEE-106). Essa comissão, composta por um grupo de especialistas que incluem representantes das universidades, de laboratórios, industrias, agências ambientais e consultores, reúne-se há mais de 20 anos para este fim.

Dentre as metodologias elaboradas pela ABNT, a NBR 15499 – (Toxicidade crônica de curta duração – Método de ensaio com peixes) previa a possibilidade da utilização de duas espécies de peixes (Pimephales promelas e Danio rerio) para o monitoramento da toxicidade crônica de diferentes tipos de amostras. Efluentes, águas superficiais/subterrâneas e substâncias químicas poderiam, até então, ter sua potencial toxicidade crônica para peixes avaliadas segundo esta metodologia, utilizando qualquer uma das duas espécies citadas na norma. A metodologia descrita  originalmente na norma apresentava, contudo, diferentes formas de avaliar os efeitos crônicos para cada uma destas espécies de peixes. Para P. promelas a avaliação crônica considerava os efeitos sobre a sobrevivência e sobre o crescimento em peso dos peixes, expostos as amostras por 7 dias. Já para D. rerio eram considerados, exclusivamente, os efeitos sobre a sobrevivência no mesmo período. Cabe destacar aqui que, para que o método com D. rerio fosse utilizado era obrigatório que o ensaio fosse realizado com diferentes diluições das amostras, mesmo quando o monitoramento era realizado com amostras de águas superficiais (onde não faz sentido realizar diluições das amostras). Baseado nas mortalidades observadas nas diferentes concentrações da amostra seria calculada a CL15 (concentração que causa mortalidade a 15% dos organismos expostos) e, esta, utilizada para obter o valor crônico estimado. Não havendo mortalidade as amostras eram automaticamente consideradas não tóxicas. Assim, não eram considerados, como nos ensaios com P. promelas, os efeitos sobre o crescimento dos organismos.

Em 2022, ao revisar esta norma, a ABNT/CEE-106 realizou uma das alterações mais radicais em uma de suas normas técnicas. A partir desta revisão (ABNT NBR 15499/2022), o monitoramento da toxicidade crônica de efluentes e amostras de águas superficiais/subterrâneas não pode mais ser realizado com D. rerio. Baseado em dados publicados em um artigo científico e das discussões durante as reuniões, a Comissão ABNT concluiu que, para efluentes, águas superficiais e/ou subterrâneas, o método poderia ser falho e gerar falsos negativos. Assim, o método utilizando D. rerio ficou restrito para amostras de substâncias químicas (nas quais sempre é possível observar alguma mortalidade), e para os demais tipos de amostras deve-se utilizar o método com o peixe P. promelas.

Considerando que, no Brasil, D. rerio é considerada a espécie de peixe mais utilizada no monitoramento da toxicidade, a alteração da norma vai exigir mudanças na estrutura dos laboratórios que desejarem realizar a análise. Provedores comerciais para a outra espécie utilizada para esta análise, P. promelas, espécie norte americana utilizada pela USEPA para a avaliação da toxicidade, não são encontrados no Brasil. E, atualmente, apenas dois laboratórios comerciais brasileiros realizam os ensaios (agudos e crônicos) com P. promelas. Assim, laboratório que desejarem realizar o monitoramento da toxicidade crônica de amostras de efluentes e/ou águas superficiais/subterrâneas deverão implantar o cultivo deste organismo. Mas o que pode parecer um problema é, na realidade uma vantagem. Os cultivos de P. promelas no laboratório, além de permitir uma total rastreabilidade dos organismos utilizados nos ensaios, também fornece ao laboratório organismos-teste para a realização dos ensaios de toxicidade aguda com peixes.

Desta forma, a partir do fato de que as exigências para manutenção das certificações da qualidade dos laboratórios determina que estes utilizem as versões mais atuais das metodologias disponíveis, as empresas que contratam estas análises devem ficar atentas para os resultados que estão sendo fornecidos.

 

 

 

 

O conhecimento ecotoxicológico no monitoramento ambiental

Por Dr. Alexandre Arenzon – 20/12/22

O monitoramento da toxicidade de efluentes no Brasil é exigido pela Resolução CONAMA 430/2011. Segundo esta (Art. 3°), “os efluentes de qualquer fonte poluidora somente poderão ser lançados diretamente nos corpos receptores após o devido tratamento”, além de atenderem aos padrões definidos na Resolução. A Resolução foi criada como uma opção para os órgãos ambientais (Estaduais e Municipais) que não possuíam uma legislação própria para este fim. Aqueles que a possuem podem utiliza-las, desde que sejam tão restritivas, ou mais, que a Resolução federal.

No que se refere, especificamente, ao parâmetro toxicidade, segundo o Art. 18°. “O efluente não deverá causar ou possuir potencial para causar efeitos tóxicos aos organismos aquáticos no corpo receptor, de acordo com os critérios de ecotoxicidade estabelecidos pelo órgão ambiental competente.” Ou seja, mesmo os órgãos de fiscalização ambiental que não possuem uma legislação específica para o monitoramento da toxicidade de efluentes devem tomar algumas decisões. Entre as escolhas que cabem aos órgãos de fiscalização ambiental podem ser destacadas: os limites de toxicidade aceitos, os métodos dos ensaios de toxicidade a serem utilizados, incluindo, preferencialmente, as espécies dos organismos-teste e a frequência de monitoramento.

Na ausência de um critério de aceitabilidade estabelecido pelos órgãos de fiscalização ambiental (limites de toxicidade) a Resolução CONAMA 430/2011 apresenta uma opção baseada no enquadramento dos corpos receptores em função de seus usos (segundo CONAMA 357/2005).  Neste caso, os limites são calculados considerando os dados de vazão do efluente, e vazão do corpo receptor. Uma abordagem chamada, por muitos, de Avaliação de Risco.

Seja para a escolha dos métodos de análise, e das espécies de organismos-teste com melhores resultados do ponto de vista ambiental, seja para a interpretação dos resultados obtidos, e ações a serem tomadas no caso do não cumprimento dos limites estabelecidos, o corpo técnico do órgão de fiscalização ambiental necessita de algum conhecimento em Ecotoxicologia. Avaliações ecotoxicológicas não podem ser realizadas da mesma forma que avaliações químicas onde, simplesmente, compara-se os resultados das análises realizadas, com limites pré-estabelecidos. Escolhas equivocadas abrem a possibilidade da utilização continua de métodos, ou organismos-teste, que podem não estar sendo capazes de detectar uma toxicidade existente. Da mesma forma que o desconhecimento de como lidar com os dados das análises pode levar a um rigor excessivo por parte da fiscalização. Infelizmente, ainda são poucos os cursos de graduação que oferecem disciplinas que possam garantir essa base aos profissionais da área ambiental. Neste contexto ganham vantagem os profissionais que, em algum momento de sua vida, buscaram participar dos vários grupos de pesquisa em ecotoxicologia distribuídos pelo País. Aos demais, resta buscar a formação/atualização necessária participando de congressos, cursos, palestras, além da boa leitura de livros, teses e artigos.

Ecotoxicidad de efluentes – Sentando las bases para una futura regulación en América Latina

Taller ToxicidadEn una continuación a la sesión especial llevada a cabo en el 14º Congreso de SETAC LA en 2021, la cual tuvo como título “Evaluación de Efluentes en Latino América”, se realizó el taller regional: “Ecotoxicidad de efluentes – Sentando las bases para una futura regulación en América Latina”. El evento fue organizado por La Sociedad de Toxicología y Química Ambiental (Society of Environmental Toxicology and Chemistry) Latino América (SETAC LA), en Buenos Aires, Argentina, entre el 29 de noviembre y el 2 de diciembre de 2022.

El Taller tuvo como objetivo de generar un espacio para compartir diferentes perspectivas desde el sector académico, industrial y gubernamental de países latinoamericanos sobre las normativas ambientales relacionada con el control de la toxicidad de efluentes. Así, la idea fuera compartir de la experiencia de Brasil, que ya ha implementado la evaluación de ecotoxicidad de descargas de efluentes en sus marcos regulatorios.

Para esta oportunidad, Dr. Alexandre Arenzon de la Universidad Federal de Rio Grande do Sul- Brasil dictó un curso con los conceptos básicos de la Ecotoxicología, además de una presentación sobre el “Panorama del uso de parámetros ecotoxicológicos en el sistema regulatorio de Brasil”, donde se llamaba la atención sobre la importancia del conocimiento ecotoxicológico para evitar problemas en la interpretación de la legislación ambiental brasileña.

Dr. Alexandre Arenzon también presento su punto de vista sobre las “Aproximaciones para la evaluación ecotoxicológica de efluentes – mejores tecnologías disponibles o basadas en evaluación de riesgo”. En esta sesión presentó una comparación con ventajas y desventajas de los dos abordajes para definir límites máximos de toxicidad en los vertidos, además de una tercera opción.
El taller fue la partida para un proceso. En los 4 días del taller hubo un gran conjunto de presentaciones y discusiones. Ahora toda la información debe ser procesada, pensada y discutida nuevamente considerando los objetivos del monitoreo de los efluentes y las estructuras disponibles en cada país.

Efluentes e a Qualidade das Águas

Por Dr. Alexandre Arenzon – 24/08/17 (atualizado em 16/10/23) A qualidade da água superficial usada no abastecimento público tem se tornado uma grande preocupação nos tempos atuais. Há debates em curso para avaliar se os critérios estabelecidos para monitorar essa água, bem como os limites impostos pela legislação brasileira, são suficientes …

O quão confiáveis são seus lotes de peixes comerciais para ensaios de toxicidade aguda?

Por Julio Alberto Alegre Stelzer,  Raquel Freiry, Luana Bauer e Alexandre Arenzon Em muitos países o ensaio de toxicidade agudo com peixes é considerado obrigatório para a avaliação do risco de efluentes e / ou o monitoramento ecotoxicológico. Dentro deste cenário um número relevante de países baseiam-se nos protocolos ISO 7346-1 …

A Legislação brasileira sobre efluentes: Uma grande preocupação no monitoramento de sistemas aquáticos.

Por Alexandre Arenzon   Entre os países da América do Sul, o Brasil é o único a ter uma legislação específica sobre avaliação ecotoxicológica de efluentes. Esta legislação deveria ser algo para se sentir orgulho; no entanto, sua aplicação prática continua sendo deficiente, e assim tem sido desde o início. …