O rio

…

Vou pensando no mar

que daqui ainda estou vendo;

em toda aquela gente

numa terra tão viva morrendo.

Através deste mar

vou chegando a São Lourenço,

que de longe é como ilha

no horizonte de cana aparecendo;

através deste mar,

como um barco na corrente,

mesmo sendo eu o rio,

que vou navegando parece.

Navegando Este mar,

até o Recife irei,

que as ondas deste mar

somente lá se detêm.

Ao entrar no Recife,

não pensem que entro só.

Entra comigo a gente

que comigo baixou

por essa velha estrada

que vem do interior;

entram comigo rios

a quem o mar chamou,

entra comigo a gente

que com o mar sonhou,

e também retirantes

em que só o suor não secou;

e entra essa gente triste,

a mais triste que já baixou,

a gente que a usina,

depois de mastigar, largou.

…

João Cabral de Melo Neto

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