Fragmentos… vídeo na Restinga

 

Dando sequência às atividades do projeto ‘Tempos versados: éticas e capitais nas narrativas da alegria’, produzimos o vídeo “Fragmentos… veredas e encontros”. Estabelecemos diálogos no bairro Restinga acerca das atividades de lazer realizadas na localidade por diferentes meios, incluindo aplicação de questionários, entrevistas e grupos de discussão. O vídeo foi a culminância do trabalho e, embora não tenha qualquer intenção de exaustividade e apresente mesmo uma configuração por registros episódicos, procura visibilizar alguns dos argumentos, práticas e pertenças que povoam o cotidiano dos moradores do bairro em suas relações de sociabilidade em “tempo livre”, destacando, contudo, depoimentos concernentes às experiências de sujeitos que não atuem como ativistas e/ou representantes de organizações sociais no bairrro.

O termo “tempo livre” tem se mostrado, ademais, uma provocação aos nossos interlocutores. O processo, assim, não deixou de tensionar miradas sobre as rotinas e de dispor em nossos diálogos perguntas pelo tempo que produzimos e que nos produz dia a dia.

O vídeo pode ser assistido em nosso canal no Youtube (aqui) ou mesmo neste blog, na aba ‘Imagens e narrativas’.

Interlocuções…

 

Em 2017/02, tivemos a oportunidade e o privilégio de participar de duas iniciativas educativas importantíssimas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Primeiramente, no mês de julho, foi ao ar a entrevista dada à Rádio da UFRGS, no programa ‘Estação Cidadania, promovido pelo Departamento de Educação e Desenvolvimentos Social (DEDS) da universidade. Participaram Maria Loiva Nascentes, ativista na Restinga, e professor Leandro R. Pinheiro, coordenador do Enunciar Cotidianos.

Na entrevista, foi possível apresentar a Linha e comentar algumas das iniciativas realizadas junto com moradores do bairro Restinga, durante a efetivação do projeto de extensão ‘Para enunciar cotidianos, imagens da periferia (2 ed.)’. A partir deste, foram produzidos ensaios fotográficos, um vídeo documentário e uma exposição de imagens na Casa de Cultura Mário Quintana em 2015. Os entrevistados puderam falar também sobre a realidade do bairro, a atuação cultural de jovens e o lugar da escola em seus itinerários. A entrevista pode ser escutada aqui.

Já em outubro, participamos do ‘Ciclo de Debates PPSC 20 anos’. O ciclo comemorava a extensa atuação do Programa de Prestação de Serviços à Comunidade da UFRGS, conduzido junto à Faculdade de Educação. Foi composto de quatro encontros com palestrantes e mediadores em temas concernentes às juventudes, violência, educação social e políticas públicas. Prof. Leandro R. Pinheiro foi mediador no encontro de 30/10, na temática “Garantia de direitos para crianças e adolescentes no cenário de regressão das políticas sociais”, apresentado pela profa. Tatiana Reidel (Programa de Pós-Graduação em Política Social e Serviço Social).

O apanhador de desperdícios (Manoel de Barros)

 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Juventudes, sociabilidades e estetização – curso de extensão

No primeiro semestre de 2017, realizamos o curso de extensão Juventudes, sociabilidades e estetização: para refletir “periferias”. Os encontros se deram no formato de rodas de conversa e tinham por objetivo debater sobre as práticas culturais e relações de sociabilidade de jovens em contextos socialmente vulnerabilizados, considerando a articulação com a estetização das relações sociais contemporâneas.

As rodas de conversa ocorreram a cada duas semanas, na Faculdade de Educação-UFRGS. Adotamos um conjunto de leituras que pudessem nos referenciar nas discussões, como as contribuições de Georg Simmel e Gilles Lipovetsky, e passamos, depois, a abordar textos sobre as mudanças ocorridas em diferentes dimensões na experiência juvenil no Brasil nos anos 2000.

Os participantes dos cursos eram educadores sociais e professoras em sua maioria. Foi a oportunidade de estendermos nossos diálogos a mais profissionais atuantes em localidades de periferia e aprender no tensionamento entre leituras e diferentes experiências de atuação educativa.

 

 

Itinerários versados – redes e identizações nas periferias de Porto Alegre

O trabalho realizado junto ao projeto Enunciar cotidianos – Faced/UFRGS integrou as atividades do 5º Ciclo de Estudos: Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo, realizado no Instituto Humanitas Unisinos no primeiro semestre de 2017. Professor Leandro R. Pinheiro ministrou a conferência Itinerários versados: redes, pertenças e modos de ser nas periferias de Porto Alegre no dia 10 de maio/2017, procurando lançar provocações sobre a diferenciação que vem constituindo os contextos periféricos associados a situações de vulnerabilidade social. Destacou também elementos para se refletir sobre a produção de identidades em tais territórios desde as redes sociais que os atores sociais podem constituir. Assista à palestra aqui.

Da participação no Ciclo, derivou a publicação do artigo Itinerários versados: redes e identizações nas periferias de Porto Alegre no Caderno IHU Ideias (n 260, v. 15). Ali, os principais elementos apresentados na conferência são revisados, sugerindo vetores de análise para construção identitária em periferias ao considerar diferenciações etárias e redes potenciais de participação. O texto pode ser encontrado neste blog, em Publicações.

Também é possível encontrar debate concernente na entrevista A pluralidade das periferias: da mobilização coletiva ao reconhecimento das individualidades, publicada pelo Instituto Humanitas em 26 de maio/2017. Acesse aqui.

 

Tempos versados – Encontros na Restinga


Desde agosto de 2016, estamos desenvolvendo o projeto Tempos versados: capitais e éticas nas narrativas da alegria, com objetivo de compreender como moradores e ativistas de contextos de periferia vem construindo suas práticas de “tempo livre” e suas relações de sociabilidade. Neste sentido, orientamo-nos às disposições éticas e aos capitais sociais produzidos nessas interações .

Iniciamos os trabalhos pelo bairro Restinga, onde já vínhamos atuando desde 2013. No curso do projeto, pretendemos construir diálogos também nos bairros Bom Jesus, Cruzeiro, Lomba do Pinheiro e Rubem Berta; e a cada comunidade, produziremos vídeo-narrativas inspiradas nas experiências conhecidas.

Inicialmente, realizamos uma sequência de entrevistas com moradores e ativistas de diferentes segmentos, passando por esportes, capoeira, samba, games, hip hop e funk. Entre janeiro e março, dedicamo-nos especificamente à realização de três grupos de discussão, reunindo participantes em grupos por faixa etária, buscando os contrastes em diferentes experiências de sociabilidade. Cada encontro foi dividido em dois momentos: conversa sobre as atividades realizadas para diversão e fruição cultural e debate sobre as redes e lugares do lazer e das sociabilidades no cotidiano.

Na sequência, passamos a reuniões com moradores para produção de um pequeno vídeo sobre atividades realizadas no bairro Restinga. A narrativa, agora em edição, resulta de encontros de jovens com idosos ou adultos para conversar sobre o que se realiza no “tempo livre” naquela localidade. Concomitantemente, iniciamos a aplicação de questionários na mesma temática, dado que percebemos a necessidade de ampliar a abrangência de nossos estudos.

Logo, começaremos o trabalho em outro bairro, visando desenvolver a mesma metodologia de trabalho em campo.

 

Aninha e suas pedras (Cora Carolina)

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

 

 

Sintonia para pressa e presságio (Paulo Leminski)

Escrevia no espaço.

Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

 

5º Ciclo de Estudos: Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo – A centralidade das periferias brasileiras

 

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU propõe a realização da quinta edição do Ciclo de Estudos: Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo, no sentido de compreender as metrópoles e seus movimentos enquanto reinvenção dos espaços políticos e suas formas de construção, olhando atentamente para as dinâmicas que ocorrem a partir das periferias e que colaboram decisivamente para a referida reinvenção. Esta compreensão permitirá explorar as metrópoles à luz dos conceitos de multidão e do comum, de forma a perceber nelas os diferentes modos de ser e existir que se forjam nas singularidades das periferias brasileiras, podendo inspirar possibilidades e limites quanto a (re)invenção do(s) espaço(s) político(s) e suas formas de construção, no sentido da superação dos atuais modelos de construção política e participação cidadã, numa perspectiva de cocriação e coprodução.

 No dia 10/05, às 19h30, haverá a conferência Itinerários versados – redes, pertenças e modos de ser nas periferias de Porto Alegre, com o  Prof. Dr. Leandro Rogério Pinheiro (UFRGS)

Local: Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU

 

 

 

Leia mais informações aqui.

 

Muitas fugiam ao me ver (Carolina Maria de Jesus)

 

Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto

Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.

Carolina Maria de Jesus, em Antologia pessoal. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996