
O grupo de pesquisa Enunciar Cotidianos, em seu conjunto de orientandas e orientandos, esteve no primeiro semestre de 2024 funcionando como estamos acostumados na pós-graduação. Além da Prática de Pesquisa em Educação (PPE – orientação coletiva), na qual discutimos os projetos de investigação por meio de leituras e do estudo do referencial teórico, também trabalhávamos em Leitura Dirigida de obras de Danilo Martuccelli.
Mas nossos cotidianos, os encontros, as saídas de campo, as experiências dos indivíduos que formam o grupo foram tomados repentinamente pelo emaranhado de crise climática e negligência política que estamos construindo há décadas na cidade. A necessidade de atuar de outras formas se sobrepôs em decorrência da situação de calamidade em Porto Alegre.
Fomos todos atravessados pela histórica enchente e as inundações de maio, interrompendo as atividades e envolvendo todas e todos. Desta forma, em consonância com as reflexões e anseios anteriores, o grupo decidiu que o retorno do semestre seria diferente. Passamos a fazer incursões em diálogo com movimentos sociais e instituições que atuam ante as disputas e os desafios cotidianos no período pós-enchente.
No dia 31 de julho, o grupo visitou a Casa de Mulheres Mirabal. Realizamos uma roda de conversa com duas das jovens que atuam na coordenação da casa. Foi apresentada a ocupação, sua história desde o primeiro local e a transferência para a casa atual. Além disso, conversamos sobre as dificuldades enfrentadas durante a enchente de maio, pois aquela morada foi atingida. A Casa Mirabal, além do acolhimento e atendimento às mulheres e seus filhos/as, realiza formações políticas e oficinas. Procuram atuar em diversas frentes de promoção dos direitos e da vida das mulheres. O grupo é vinculado ao Movimento Nacional de Mulheres Olga Benário. Ao final do encontro, deixamos algumas doações de materiais de limpeza e higiene pessoal como forma de contribuição concreta ao trabalho realizado.
No dia 06 de agosto, o grupo foi até São Leopoldo/RS, onde, no início da tarde, visitou o CEPA (Centro de Espiritualidade Pe. Arturo). Foi apresentado o Centro, sua história junto à comunidade e toda a importância das lutas do Pe. Arturo para a cidade, bem como seu protagonismo na conquista do dique para a contenção de inundações. Durante a enchente de maio, o centro foi abrigo para as famílias da comunidade. Na conversa, foi relatado ao grupo a experiência e os desafios de organizar o espaço e acolher tantas famílias. Ao final, foi discutido as possibilidades de colaboração entre o grupo de pesquisa e o Centro.
Ainda no dia 6 de agosto, o grupo visitou a Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Beck, localizada no bairro Vicentina, em São Leopoldo/RS, um dos mais afetados pelas inundações. A escola recém reformada foi severamente atingida. O grupo conversou com o corpo diretivo, ouvindo sobre a experiência da comunidade escolar, que resistiu à tragédia e, na época da visita, já havia retomado suas atividades, em plena reconstrução.
No dia 21 de agosto, por fim, nosso coletivo realizou uma visita à ocupação Maria da Conceição Tavares, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). A ocupação do antigo prédio do INSS, na avenida Borges de Medeiros, iniciou no dia 8 de junho e abriga famílias desabrigadas em decorrência das inundações, e que não tiveram assistência do poder público. Foi-nos relatada a experiência das ocupações na luta por moradia e do combate à insegurança alimentar com as cozinhas solidárias.