
Nota de repúdio da Faculdade de Educação da UFRGS ao assassinato de Moïse Kabagambe
O assassinato de Moïse Kabagambe é mais uma das evidências do racismo estrutural brasileiro. Não se trata de uma situação pontual contra um “estrangeiro”, como anunciado por parte da mídia para exotizar o que é fundante da nossa sociedade, além de ocultar a contribuição de africanos e africanas para o desenvolvimento do país e o racismo que sustenta o funcionamento e as instituições brasileiras ao longo da história.
O seu assassinato é uma das diversas evidências da ponta de um vasto iceberg que, de tempos em tempos, expõe sua superfície e faz ignorar sua imensidão submersa por pura conveniência, a saber: a imensidão da violência cotidiana que atravessa a vida numa sociedade racista e racializada e que se apresenta nos números expressivos de mortes de jovens negros no Brasil. Tratam-se dos números de uma guerra que, aos olhos de alguns, não existe.
Como em um radar, os conhecimentos e saberes acumulados pelos movimentos negros e seus intelectuais orgânicos, exploram a gelidez e a extensão dos fatos. Reiterando: não se trata de apenas um percalço, mas parte estruturante do funcionamento normal das instituições.
Tais eventos raciais devem ser catalizadores na dissolução de presunções do “racismo por denegação”, que se consubstancia em ideias como: “racismo contra brancos”, “racismo estrutural não existe” ou “o movimento negro racializa a sociedade brasileira”.
Basta o simples teste de virar o pescoço e ver a cor da maioria das pessoas em espaços de poder, o grau de desigualdades que nos rodeiam e a miríade de situações análogas à de Moïse, que deveriam ser motivadoras para a desconstrução da ideologia do “Brasil como um país cordial, símbolo de harmonia social e racial”, servindo para expor ao mundo a crueldade do racismo estrutural brasileiro.
Racismo que se mantém e é atualizado por omissão do Estado, denegação das pessoas e por interiorização de práticas cotidianas que reproduzem ideias de inferioridade e medo daqueles/as que, simplesmente, são diferentes na cor da pele e na cultura que expressam.
Estruturas estas que refletem, no caso de Moïse, pela existência de agentes negros envolvidos no crime, reiterando os fatos desvendados nos estudos de Frantz Fanon a Silvio Almeida: a interiorização do racismo pelo sujeito negro é uma das formas mais eficazes de sua reprodução à nível estrutural.
A área de Educação das Relações Étnico-Raciais da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bem como a comunidade facediana concebem que a superação da xenofobia e do racismo que vitimou Moïse e tantos outros negros e negras nesse país, deve se orientar além de retóricas que individualizam práticas racistas. São imprescindíveis as ações de educação antirracista, Educação das Relações Étnico-Raciais e medidas institucionais que punam os/as racistas, colaborando para desnaturalizar estas práticas cotidianas, assassinatos como este e tantos outros na mesma esfera.
As mudanças são urgentes e necessárias para que haja transformação, erradicação do racismo, responsabilização dos culpados e justiça social, sob pena de mais uma vez sermos acusados/as de omissos perante uma questão que é fundamental para a igualdade e a democracia no Brasil.
22 de fevereiro de 2022.
Liliane Ferrari Giordani Diretora da FACED.
ORIGINAL ASSINADO NO SEI.
*Nota proposta ao CONFACED pela área de Educação das Relações Étnico-raciais (ERER/DEESP), com apoio do DEDs/UFRGS e NEAB/UFRGS e aprovada na sessão n.o 474 do CONFACED, de 21 de fevereiro de 2022.
Confira a nota em pdf clicando aqui.
