Sandra Corazza: sete dias de saudades

A comunidade da Faced, ainda em luto pela precoce partida da professora Sandra Corazza, ocorrida dia 22 de janeiro, aos 70 anos de idade, recebe dos Professores da Linha de Pesquisa Filosofias da Diferença e da Rede de Pesquisa Escrileituras da Diferença em Filosofia-Educação, o memorário exequial: Sandra Mara Corazza… uma vida.

Confira abaixo esta homenagem singular, tão permeada e constituída de ensinamentos escrileitores de Sandra.

“Sandra Mara Corazza… uma vida 

Depois de toda uma primavera e metade de um verão mostrando o que suporta um corpo, Sandra Mara Corazza, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Educação e professora aposentada do Departamento de Ensino e Currículo, nos deixa. Em tempos de pandemia,  despediu-se da Terra em 22 de janeiro de 2021, após exultar, quando começou a respirar com dificuldade no final de agosto, que o coronavírus não a quis – seu corpo desenvolveu a rara síndrome de Goodpasture. Partiu nos ensinando o quanto respirar, sem máquinas e tubos, é uma grande dádiva. Sandra vivia para ensinar e vivia ensinando: desde como escrever um resumo para ter um artigo publicado até qual o modelo de roupa mais adequado para uma sessão de defesa. Nada escapava de seu verde olhar faiscante, ímpio e amoroso ao mesmo tempo. Com impactante arsenal de referências e predecessores, leitora voraz de romances e contos, o nome de Sandra estampa teses, dissertações, livros organizados, miríades de  produções. No cabedal de livros que escreveu e encabeçou, apresenta palavras por ela inventadas, algumas usadas em pesquisas Brasil afora, como escrileituras, neologismo advindo de sua imersão na obra de Roland Barthes. História da Infância sem fim, escrita em horizontes foucaultianos, é parte de sua tese, orientada pelo professor Tomaz Tadeu, com quem constituiu a Linha de Pesquisa Filosofias da Diferença e Educação no PPGEDU/UFRGS. Com Gilles Deleuze, a linha defende trabalhos poéticos, criam brechas para produções artísticas, tradutórias e literárias junto ao campo transdisciplinar da Educação, primando por aulas magistrais. Seus bandos promovem saraus, mostras e intervenções no espaço institucional. Desde os anos 1990, junto aos estudos pós-críticos, buscava artistar a docência, sonhando com outros tipos de pesquisas, de imagens e de discursos. Lutava para que os usos do pensamento para tratar problemas educacionais saíssem do salvacionismo e da ingenuidade, especialmente quanto ao uso da linguagem, do tratamento dos arquivos e dos métodos. Sua última defesa conceitual se dá através das diversas abordagens reunidas no livro Métodos de Transcriação, quando apresenta uma metodosofia para deslocar o patriarcalismo e os autoritarismos do logos nas construções metodológicas. Mais do que livros autorais e organizados, Sandra deixa um enxame de forças, de artistas, de livre-pensadores e, principalmente, de professores por ela inspirados e orientados, que atuam desde a Educação Básica até a docência universitária em Programas stricto sensu. Como palestrante convidada, integrante de bancas e outras atividades acadêmicas, circulou por universidades de todas as regiões do país e do exterior, articulando docentes desde o Pará até o extremo sul, tendo braço em Pelotas. Transmutou, não sem aquele humor sarcástico que lhe era próprio, grupos e pesquisadores em parceiros intelectuais. Fundadora do DIF: artistagens, fabulações, variações e da Rede de Pesquisa Escrileituras da Diferença em Filosofia-Educação, deixa um legado de produções que amplia infinitamente o que pode concernir a seus grupos no CNPq e a Rede internacional de pesquisadores  que incansavelmente coordenou.

Coordenou o projeto Escrileituras: um modo de ler-escrever em meio à vida do Observatório da Educação da CAPES entre 2011 e 2015, o qual estreitou o vínculo entre quatro universidades: UFRGS, UFPel, UNIOESTE e UFMT. Seu legado gerou projetos de ensino, pesquisa e extensão, entre os quais cabe destacar o mais recente: Projeto Escrileituras na Escola: Oficinas de Transcriação I e II, realizado nos anos de 2018 e 2019. Nunca perdeu de vista o chão da escola básica, que viveu como professora alfabetizadora nos primeiros anos da carreira e como professora das disciplinas relacionadas ao currículo e à didática para cursos de Licenciatura, na FACED, com as quais se ocupou até sua aposentadoria, em 2019. Dentre tantos ensinamentos e questionamentos, propagados ao mundo em suas diversas falas e em ações de formação de professores, algumas questões são constantemente lembradas: por que o docente não registra o que faz, o que cria? Quem disse que o professor não cria didáticas? Ela concebeu e defendeu que é graças aos professores que as obras de filósofos, cientistas e artistas se mantêm vivas, uma vez que, por meio de suas aulas, eles as transcriam, atualizam e vivificam.

Entre  mil oceanos de aulas, textos, encontros, com ela multidões atravessaram as noções de  pós-currículo, conheceram legiões de monstros e demônios à espreita do avesso das palavras. Sempre acompanhada por Nietzsche e outros malditos, quando se envolveu com a obra noturna de Gaston Bachelard, alcançou o Sonho Didático e a Poesia Curricular. O seu arquivo, ao longo dos anos, tornou-se mais leve: da governamentalidade e das formas de poder tratadas por Michel Foucault, as quais pensou em relação ao currículo e à história de infância,  passando a deter-se na leveza onírica e lírica de uma Aula. Suas aulas, sempre cheias de gente, eram inesquecíveis, aterradoras, fascinantes. As lições que elaborava extrapolavam as súmulas de qualquer um dos Seminários Especiais ou Avançados que ministrou. Viveu o magistério em toda a sua plenitude e intensidade. Grande propulsora de encontros, eventos e singularidades, era companheira, para além das salas de aula, sempre pronta a esticar em bares os encontros com convidados, membros de bancas e estudantes, estes sempre contando com a alegre, festiva e cordial presença de seu companheiro Hugo. Engenheiro, pai de seus três filhos e avô de seus seis netos, ela o namorou, passional e desesperadamente, desde os tempos dos Bailes da Reitoria até os últimos dias em que esteve consciente. Nunca dançaram nesse Bailes, por sorte não “bailaram” como colegas daqueles tempos e outros perseguidos pela ditadura, a qual, assim como todas  outras formas de opressão e totalitarismos, de modo inteligente e sagaz, juntos, sempre combateram.

 

Por fim, deixa um imenso sentimento de gratidão em todos, seja os que ajudou, os que provocou com questionamentos mordazes, os que articulou, os que inspirou, os que espezinhou e fez pensar. Sua língua arguta exigia: “decifra-me ou não conseguirás ficar comigo”. Alguns assinaram seu pacto diabólico, escritura poética de sangue,  que violentava o cérebro a pensar. Quem a conheceu e conviveu com sua presença marcante, teve  o privilégio de ganhar a sua marca, alguns dizem, de uma fera; outros receberam a lambada de um rabo de lagarta; alguns ficaram com o trinar de uma ave em revoada. Ninguém saía incólume das questões e comentários acirrados que fazia, em torno de tudo e de todos. Sua vitalidade e sua voracidade por livros, por novos conceitos e planos de pensamento, serão por nós sempre lembradas. Quem a leu e pode acompanhar as dobras do seu pensamento,  sentirá as múltiplas reverberações de suas palavras na filosofia, na esquizoanálise, na educação e nos estudos de currículo.  Em seus últimos tempos, numa CTI, foi acompanhada pela  rede  afectiva de pares intelectuais amorosos que teceu. Mesmo em ethos hospitalar, escreveu máximas e registrou seus dias convalescentes, criando, com membros de seu Bando de Orientação em Pesquisa/B.O.P., sua própria epifania da doença. Mais uma herança de sua práxis pedagógica, de suas forças afirmativas  e das superações aprendidas com Nietzsche. Com as composições de Spinoza, nos deu, em imanência, uma vida…

Uma vida escrileitora. Também chamada de Salamandra, Esfinge Aléfica, conhecida como a Nômade Infancionática das questões curriculares, Demônia Filosófica, Bruxa Arcanista, Sandra, transcriadora de palavras, professora, mãe, avó e amiga, mulher intelectual que viveu em vórtices apaixonados,  amor fati. San: mágica, magisterial, mestra inesquecível.

 

Assinam o presente memorário exequial:

Comunidade da Faculdade de Educação

Programa de Pós-graduação em Educação

Professores da Linha de Pesquisa Filosofias da Diferença

Rede de Pesquisa Escrileituras da Diferença em Filosofia-Educação”

 

Memorário Sandra Corazza: uma vida – Documento em PDF

 

 

Crédito das fotos:

Sandra – Ester Maria Dreher Heuser

Mãos da Sandra – Jailza Martins

Sandra em sala de aula – Larisa Bandeira

Arte: Eduardo Sperb/NAEC-FACED